PJM 2018

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Ad Libitum

A Identidade Artística ou A Manufactura dos Sonhos

Autor: Gilberto Bernardes - Instrumentista, Professor na ESMAE e na EPME

04 abr 2013

Última atualização: 17 set 2018



Nós somos moldados e formados por aquilo que amamos – Goethe

 

1. Inicia-se a década de 80. O modernismo e a sua necessidade de afirmação histórica e temporal entra em ruptura. Termina a guerra fria cultural. O fim de um ciclo.

O homem guiado por sentidos estéticos progressistas e renovadores por oposição ao conservadorismo soviético desvanece. O fracasso da palavra política e do dogma ideológico provocou um corte com uma arte como atitude progressista. O desejo mostrado pelo artista do pós-guerra em participar ativamente na transformação/reconstrução social através da apresentação de novos processos e materiais é substituído por uma arte centrada em si e nas suas idiossincrasias. A desilusão pela reconstrução de uma nova identidade, de um homem novo está patente.  Esgota-se a ideia de revolução,  de renovação e necessidade levada a cabo pelas vanguardas modernistas. Dá-se o descentramento dos sistemas de referências, advém uma identidade pós-moderna.  A arte pela arte que deixa de se iludir fora do seu âmbito. A história esbate-se num círculo global, na multiplicidade, na fragmentação, a desreferencialização e consequente multireferenciação, desordem ou imprevisibilidade que, com a aceitação de todos os estilos e estéticas, pretende a inclusão de todas as culturas como mercados consumidores.

Por oposição, tanto o artista como o(s) público(s) tomam consciência de que o prazer é uma qualidade fundamental na realização e na apreciação da obra de arte, género de coisa abandonada pelo alto modernismo em função do seu comprometimento com a História.

 

2. Com a desfragmentação das referências rígidas criadas pela necessidade de afirmação das sociedades autoritárias, dá-se a fragmentação do indivíduo moderno e o surgimento de novas identidades, enfatizadas por metanarrativas. (Mas, cuidado! Há ainda instituições e mercados, mas também a auto-publicação e os diálogos transversais entre hyperlinks sociais e suas ramificações, reduzindo assim uma das questões mais controversas da sociologia da arte a uma frase). Sinto a necessidade de criar uma genealogia das ideias e do ser (e chamo a atenção do leitor para o câmbio de pessoa, volto-me para mim). Estabelecer uma genética da criação e analisar o meu DNA.

Vejo-me como um colecionador. Saio, ensino, aprendo, exponho-me aos demais, crio-me enquanto indivíduo e ser social mas sempre delimitado pelas experiências passadas (tudo se aprende, nada se ensina). Vejo a obra como essencialmente autobiográfica (assumida ou não), um contraponto dialógico dentro do "eu". Daí a interpretação como forma suprema de olhar o mundo, a aniquilação do autor e a supremacia do gesto criador pelo receptor. No entanto, a questão da assimilação, quer seja de elementos contemporâneos ou da tradição, não é aqui vista como um discurso centrado à volta da cópia mais ou menos hábil. Desde processos como a citação até aspetos inconscientes que provenham da simples frequentação do objecto artístico, reconheço a importância da consciencialização e dissolução das referências.

 

3. Em devaneios imagino a minha rede de hyperlinks, a possibilidade de navegar em trajetórias imaginárias e finitas que fazem de mim um ser uno e esboço uns agradecimentos que terminam este texto não por lapso de edição.

Para a Cláudia, para o António, para o Júlio, para o Hugo, para Simon (do qual o segundo título do artigo é "copiado" e tantas vezes (ab)usado no meu imaginário (La Manufacture des Rêves, Éditions Grasset & Fasquelle, 2003), para Wenders e Coppola, para Paris, para o meu MacBook e para todos que um dia amei, admirei e fizeram de segundos uma eternidade.

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