PJM 2018

título da imagem

Ad Libitum

A música profissional em Portugal, hoje: uma crise anunciada?

Autor: Luís Carvalho - Maestro, Compositor e Docente Universitário

15 mar 2013

Última atualização: 17 set 2018


Vivemos atualmente, porventura, uma época dourada da música profissional dita erudita, em Portugal. Alguns já compararam estes nossos dias com o período áureo da polifonia da Escola de Évora, nos sécs. XVI-XVII, quando o reconhecimento de vários compositores/polifonistas portugueses se projetou além-fronteiras de forma esplendorosa. Retomando o tempo presente, e até algo em contraciclo, o desinvestimento público e privado nas áreas artísticas em geral, e na Música em particular, é confrangedoramente diminuto, e até declaradamente decrescente, nos últimos tempos.

A uma aposta colossal no ensino musical especializado de há trinta anos a esta parte, com a massificação de oferta através da criação de inúmeros conservatórios, academias, escolas/cursos profissionais, e, no topo da pirâmide, vários cursos superiores, seguiu-se, como seria de esperar, um incremento igualmente enorme de profissionais (bem) formados, e com expectativas de desenvolverem a sua carreira e aplicar os conhecimentos adquiridos. Mas o grande choque para estes recém-formados tem sido, ao longo dos últimos anos, aperceberem-se que a grande (senão virtualmente a única!) saída profissional na área da Música em Portugal é… o ensino! E assim se vai criando um monstro que se auto-alimenta, pois que a cada nova fornada de jovens profissionais que se lança no ensino, significa mais horários, com mais jovens alunos a aprender Música, o que, proporcionalmente, tenderá a criar um maior número de estudantes com expectativas de prosseguir estudos superiores de Música, e, eventualmente, optarem por esta profissão!

Ora, e então, qual a solução? O desinteresse pela coisa cultural, em Portugal, não é de agora! Nos meus tempos de estudante de música no ensino superior, tive um professor que dizia, meio a sério, meio a brincar, que o introdutor do neoclassicismo em Portugal fora Cavaco Silva, o então primeiro-ministro que acabou com as orquestras sinfónicas da RDP, tendo criando, em contrapartida, quase exclusivamente pequenas orquestras de formato clássico.

Tratava-se de uma alusão irónica por comparação com o neoclassicismo de Stravinsky e Prokofiev, entre outros, que reagiam à grandiosidade tardo-romântica germânica do séc. XIX, com uma mudança radical de paradigma estético, olhando para o classicismo de Haydn e Mozart, não só a nível formal e da clareza do discurso musical, mas igualmente na dimensão dos agrupamentos instrumentais para que escreviam. Entre este extremo, e a ousadia do ministro da cultura Manuel Maria Carrilho, que chegou a sugerir no final dos anos 90 do séc. XX uma orquestra sinfónica por milhão de habitantes, para nos enquadrarmos na média europeia (o que daria dez, no caso português! – atualmente temos duas…), nunca houve verdadeira vontade política para mudar o status quo da música portuguesa.

Dou um exemplo: se houvesse mais apoio a maestros portugueses (nacional mas também internacional), eles tenderiam, possivelmente, a executar mais obras de compositores portugueses, cá e além-fronteiras. E se calhar também convidariam por vezes solistas seus compatriotas. Se houvesse mais solistas portugueses a circular nacional e internacionalmente, porventura tocariam mais obras portuguesas, e até provavelmente encomendariam obras a compositores vivos seus compatriotas, para as estrearem nos seus concertos. Se houvesse mais compositores (ou maestros, ou solistas) com responsabilidades de direção artística em festivais e/ou ciclos de concertos, com certeza haveria mais maestros, solistas e obras portuguesas a circular. Os finlandeses fizeram isso tão bem…

Há vinte ou trinta anos praticamente não se ouvia falar de músicos oriundos dessas terras frias ao norte, para além do grande compositor Jean Sibelius. Hoje em dia os seus solistas, maestros e compositores circulam por todo o mundo! E começaram, precisamente, por acarinhá-los internamente, após um enorme investimento no ensino, dando-lhes oportunidades para mostrarem o seu valor, mas também criando redes que permitiram mostrar esses seus valores fora de portas, no estrangeiro. Sublinhe-se ainda que a Finlândia fez tudo isto sem se deixar cair em provincianismos bacocos, que são de todo indesejáveis! Mas vejamos ainda outro caso: aqui ao lado, em Espanha, criaram-se orquestras em todas as províncias autónomas, enquanto em Portugal continuamos a ter apenas duas orquestras sinfónicas principais (das quais a do Porto até só tem essa dimensão há pouco mais de dez anos, desde a Capital Europeia da Cultura 2001), e apenas mais umas 4-5 de dimensão reduzida (as chamadas, grosso modo, regionais).

Por exemplo, toda a região do Alentejo não tem nenhuma orquestra profissional estável, como não tem toda a faixa do interior continental, de Trás-os-Montes ao Algarve, nem os Açores. Aliás, mesmo essas tais quatro ou cinco pequenas orquestras vivem com tantas dificuldades, que muitas vezes a sua missão está no limite da impossibilidade de concretização, como até já aconteceu em pelo menos um caso, com a Filarmonia das Beiras (Aveiro), que esteve fechada quase um ano em completa inatividade.

Quem fala de orquestras, pode falar também de ciclos de concertos de música de câmara. Somos um país onde proliferam os festivais de música, mas igualmente onde a quase totalidade deles, grandes ou pequenos, decorre na época de Verão, entre junho e agosto! (honrosas, mas pouco numerosas exceções à parte) Como se durante o resto do ano o público não apreciasse ouvir música… Da mesma forma não se entende tal obsessão com a concentração no tempo dessas manifestações culturais.

Um ciclo de concerto que fizesse 1-2 espetáculos por mês, faria entre cerca de 10 e pouco mais de 20 por ano, o que é o intervalo onde a maioria dos festivais também se enquadra. E um ciclo de concertos poderia, se assumido com uma certa perseverança, fidelizar um público que, em contrapartida, acabaria por justificar o próprio ciclo. (também aqui há honrosas exceções, como o trabalho ímpar da Câmara Municipal de Matosinhos, que até um quarteto de cordas residente se dá ao “luxo” de ter…)

A verdade, porém, é que em Portugal, sob uma capa de pretenso cosmopolitismo, passamos afinal uma imagem de certa subserviência ao exterior quando importamos quase tudo em termos musicais – solistas, maestros, compositores. E isso também é uma forma de déficit externo! Muitas grandes estruturas e instituições culturais portuguesas são fechadas em si mesmas, muito pouco recetivas a projetos alternativos e independentes. O medo de arriscar é inversamente proporcional à facilidade com que se assumem compromissos internacionais, muitas vezes sem garantia real do valor dos artistas que se contratam, apenas porque se quer fazer parte de um circuito.

É importante, certamente, ser lugar de passagem dos grandes artistas e grupos internacionais, e é até inegável que isso é uma mais-valia para a formação dos nossos jovens estudantes de música, mas é igualmente tão ou mais importante perceber que uma boa parte do investimento na Música deve reverter para a promoção dos nossos próprios artistas, sob pena de qualquer dia reduzirmos a saison musical portuguesa a meia-dúzia de eventos de grande impacto, mas efetivamente apenas meia-dúzia, pois também não temos dinheiro para mais. Um outro bom exemplo da imagem algo servil que por vezes passamos para o exterior pode descortinar-se de mais esta situação que a seguir descrevo: a Real Filharmonia de Galicia, orquestra da importante, mas pequena cidade galega de Santiago de Compostela, aqui mesmo ao norte de Portugal, acaba de nomear um novo maestro titular (inglês) – um dos primeiros concertos que dirige nessas funções (maestro titular), já este mês de março, inclui obras do repertório canónico (Wagner e Tchaikovsky), mas também uma obra do galego Eduardo Soutullo. Por cá, o designado novo maestro titular da Orquestra Gulbenkian a partir da temporada 2013/2014 (igualmente inglês, por sinal!), disse logo numa das suas primeiras entrevistas (Expresso, 13/10/2012) que «Portugal não tem ainda uma produção musical extraordinária e internacional»… I rest my case!

Entre provincianismo bacoco e chauvinismo diletante, temos que encontrar o nosso próprio ponto de equilíbrio, e principalmente com orgulho da e na nossa história quase milenar, de nação com as mais antigas fronteiras definidas na Europa, temos de começar a ter, mas também a demonstrar orgulho em nós próprios e nos nossos feitos. Os jovens músicos portugueses estão a dar cartas por esse mundo fora – vários têm ganho prémios, têm sido admitidos em Escolas de elite, a orquestras de jovens, e ultimamente até em orquestras profissionais de topo na Europa. Será que agora já podemos começar a olhar um pouco mais para o nosso próprio umbigo?

Luís Carvalho
março/2013

 

P.S. – Já depois de ter escrito este artigo de opinião, tropecei em mais um “caso” finlandês, ocorrido recentemente (final de fevereiro), nos EUA, mais precisamente em Washington. A National Symphony Orchestra (a orquestra nacional norte-americana) deu um concerto exclusivamente dedicado à música finlandesa, facto que por si só já é digno de nota, principalmente num país enorme como os EUA, que tem por hábito desdenhar de tudo o que venha de países “pequenos” como a Finlândia (ou Portugal!).

Mas verdadeiramente curioso são os contornos específicos desse concerto: o repertório incluía obras do “clássico” Sibelius, e dos contemporâneos, vivos, Kaija Saariaho e Magnus Lindberg (mais uma prova do apoio à criação moderna nacional). O solista em violino para o Concerto de Lindberg era, pasme-se, o também finlandês Pekka Kuusisto! Porém o momento mais fascinante aconteceu no encore: Kuusisto tocou um tema popular finlandês do séc. XVII!


Cá por terras lusas continuamos alegremente a destruir a nossa identidade única, abrindo portas a investimentos estrangeiros muitas vezes legal e moralmente duvidosos…

 

http://www.luiscarvalho.com/

 

título da imagem
  • título da imagem
  • título da imagem
Anterior | Seguinte Voltar
Publicidade
título da imagem
título da imagem
título da imagem
título da imagem
título da imagem
Edições Convite à Música
título da imagem
título da imagem
Con Música
Frederico Fernandes
título da imagem
título da imagem
título da imagem
título da imagem
Companhia dos Vinhos do Douro
título da imagem
ava
Mário Jorge Silva