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Ad Libitum

Charles-Valentin Alkan

Autor: Maria Fernandes, Licenciada em Ciências Musicais

17 out 2016

Última atualização: 25 jan 2017


Charles-Valentin Alkan

Paris, 30 de novembro de 1813

Paris, 29 de março de 1888

 

 

Paris, cidade cultural por excelência do século XIX tanto a nível literário como musical, seduzia imensos artistas que sonhavam um dia poder pisar esta terra e alcançar a fama tão desejada. Charles-Valentin Alkan, por seu turno, parisiense de nascença e sem grandes ambições pela glória, permaneceu como uma das figuras enigmáticas do panorama pianístico francês do século XIX, perdurando muito tempo negligenciado, principalmente pelos seus compatriotas. Jonathan Kregor, no seu comentário ao livro de W. Eddie, afirma que foram poucos os músicos e musicólogos que consideraram Alkan como uma das figuras importantes deste período.

Alkan é um dos muitos compositores cuja obra e vida ainda pouco foram estudadas, em parte devido ao mistério em torno da sua pessoa, visto que viveu numerosos anos como recluso, e, por outro lado, muitos dos seus documentos e partituras terem sido destruídos pelo fogo, em 1871, na semana sangrenta que marcou o fim da Comuna de Paris (21 a 28 de Maio).

 

Charles Henri Valentin Morhange adotou como apelido o primeiro nome do seu pai, Alkan. Nasceu no seio de uma família judia, cujo pai era diretor de uma escola de música e todos os seus cinco irmãos eram músicos.

Criança prodígio, foi admitido no conservatório com 6 anos onde ganhou os prémios de solfejo, piano, harmonia e órgão em 1821, 1824, 1827 e 1834, respetivamente. Sendo um dos alunos preferido de Joseph Zimmermann (1785-1853), Alkan cedo contactou com o mundo dos salões parisienses, entre eles o da Princesa de La Moskova e o da duquesa de Montebello. Estes salões proporcionavam aos artistas contactos, cruzamento de experiências e funcionavam principalmente como rampa de lançamento para a carreira de concertista. Por conseguinte, com 17 anos, Alkan era já associado aos nomes de grandes celebridades virtuosas, tornando-se amigo dos intelectuais mais ativos em Paris como Franz Liszt (1811-1886), George Sand (1804-1876) e Victor Hugo (1802-1875). Aos 25 anos alcançou o auge da sua carreira com recitais frequentes, tocando ao lado dos grandes virtuosos (Liszt e Chopin).

Alkan possuía todas as qualidades para ser um virtuoso aclamado em Paris com obras de uma exigência técnica sobrenatural e ao mesmo tempo uma música poética ligada ao indizível. Todavia, tal como Frédéric Chopin (1810-1849), Alkan não gostava das exibições em público, devido à sua personalidade reservada, preferindo ambientes mais intimistas como os salões literários. Também é por esta altura que Alkan vê as suas obras mais maduras serem publicadas como os concertos de câmara, Trois Improvisations dans le style brilliant, Trois Morceaux dans le genre pathétique dedicadas a Liszt, entre outras.

Por volta de 1839 a vida de Alkan sofre uma reviravolta. Nasce o seu “filho” Élie Miriam Delaborde (1839-1913), o qual o compositor nunca confirmou nem negou a paternidade. Principia-se um dos primeiros períodos de reclusão de Alkan, que durará até 1844, ano em que foi publicado o seu estudo programático Le chemin de fer, um dos primeiros exemplos musicais de um motor a vapor. Não obstante, Alkan foi um compositor que viveu as experiências do seu tempo embora fosse um fanático divulgador das obras do passado como de Bach, Couperin, Beethoven, entre outros.

A vida continuou a não sorrir a Alkan e, em 1848, quando Zimmermann se retirou do conservatório, Alkan vê Antoine François Marmontel (1816-1898) assumir o cargo que ele tanto ambicionava. Em 1849, o seu grande amigo Chopin falece.

Alkan isola-se cada vez mais e a sua antipatia começa a acentuar-se. Numa carta escrita ao seu amigo Ferdinand Hiller (1811-1885) o pianista declara: “estou cada dia mais e mais misantropo e misógino…nada de valor, bom ou útil para fazer…ninguém para me dedicar. Minha situação me faz horrivelmente triste e miserável. Mesmo a produção musical perdeu a sua atração para mim e eu não consigo ver a meta.”

Pouco se sabe sobre estes vinte longos anos da vida de Alkan, exceto que, além de compor, estava imerso no estudo da Bíblia e do Talmude.

Pensa-se que Alkan completou uma tradução completa para francês do Antigo e do Novo Testamento a partir das suas línguas originais, porém não há provas, e, que a obra Préludes op.31 seria a primeira publicação de música erudita especificamente composta para implantar temas e ideias judaicas.

Apesar do seu isolamento da sociedade, este período viu a publicação de muitas das suas principais obras para piano, dentro das quais a mais importante: Douze études dans tous les tons mineurs op.39[1] publicada em 1857. Obra de duração e dificuldade excecionais que constitui, sem dúvida, um dos monumentos da literatura pianística e através da qual o compositor pode reivindicar a imortalidade.

 

 

Os estudos ganham uma nova dimensão neste século transformando-se em peças de concerto em que o compositor, também intérprete, os compõe como forma de se auto transcender.

Esta obra compõe-se por 12 estudos programáticos que podem ser divididos em duas partes: a primeira até ao étude nº7 e a segunda a partir do nº8. A primeira parte começa em lá menor e prossegue com tonalidades menores em bemóis através do ciclo de quartas; na segunda parte as tonalidades bemolizadas transformam-se em sustenidos (enarmonia) começando por sol# menor e continuando com o ciclo de quartas anterior. Com títulos altamente sugestivos, o compositor explora ao máximo as potencialidades do piano e as capacidades técnicas tanto dele próprio como de futuros intérpretes.

Alkan era obcecado pelo metrónomo, de maneira que, para obter o efeito desejado pelo compositor, estes études devem ser tocados com o máximo rigor temporal.

 

Os três primeiros são estudos individuais: Comme le vent; En rythme molossique; Scherzo diabólico.

O primeiro estudo marca um tempo absolutamente veloz (colcheia = 160): composição poética que pretende evocar o vento tal como encontraremos anos mais tarde em Debussy (La mer). Molossique é um dos pés métricos utilizado na poesia grega e latina composto por três sílabas longas. Este ritmo será usado para a composição deste segundo estudo que é descrito por Ronald Smith[1] (1922-2004) como uma das conceções mais originais de Alkan. No último dos estudos individuais existem muitas semelhanças com o Scherzo op.31 de Chopin. O scherzo principia suavemente e melodioso, porém o trio é completamente contrastante contendo acordes densos e enormes saltos. Por fim, o scherzo retorna em pianissíssimo e utiliza o colle due pedal (pedal abafador) que favorece a suavização das notas, alterando a qualidade do som. Termina de forma sublime com a densidade de acordes do trio em fortissíssimo.

Os próximos quatro études são andamentos separados da Symphonie pour piano seul. Estes études são sinfónicos na forma, na textura e na evocação ampla da paleta de timbres disponíveis numa orquestra. O Allegro é superficialmente reminiscente do primeiro andamento Sonata nº4, op.7 Beethoven. O património musical deste étude supera de longe qualquer consideração técnica. O segundo andamento intitulado Marche Funèbre tem a forma de ABA. Na secção A temos uma melodia sustentada contra acordes destacados, na secção B um grande lirismo e simplicidade e, por fim retorna ao A. O Menuet é rico em sentimento e dramatismo. O Finale é um precipitado Presto extremamente exigente a nível técnico e em resistência física. Raymond Lewenthal[2] (1923-1988), nas suas notas, descreve este andamento como um passeio no inferno, pois é um estudo carregado de cromatismo e o acompanhamento é, na sua maioria, em staccato tocado numa velocidade estonteante terminando a sinfonia de forma magnificente. Alkan tocou esta sinfonia completa.

A segunda parte desta obra abre com o colossal étude em sol# menor intitulado Concerto pour piano seul, um dos trabalhos mais extensos para piano solo de Alkan.

Surgem várias indicações, ao longo da vastíssima partitura, como tutti, solo e piano, ou seja, o compositor quer que o solista apresente todas as vozes que estão patentes num concerto: a voz da orquestra, a do solista e a de ambos. Este étude é preenchido por inúmeras dificuldades exigindo movimento e cor, transmissão e ardor de uma mente incansável e uma resistência física surpreendente. Tecnicamente apresenta uma síntese de todos os problemas dos primeiros études. Ao longo da obra surgem indicações de instrumentos de orquestra, os quais o piano deve tentar imitar. Assim sendo, no étude nº8, também considerado o primeiro andamento do Concerto, está marcado “quasi-trombe” (como trombetas), o segundo andamento marca “quasi-celli” (como violoncelo). O último tem uma passagem de “quasi-ribeche” (como rabeca).

Este Concerto é certamente um marco para a literatura do piano do séc. XIX.

Jack Gibbons[3] (1962-), numa das suas notas acerca desta obra, defende que o estilo e a forma da música assumem texturas e harmonias monumentais evocando o mundo sonoro de uma orquestra e elevando o intérprete ao transcendente. É a maior das peças deste conjunto de études durando cerca de 50 minutos. Foi só em 1939 que este Concerto foi tocado integralmente por Egon Petri[4] (1881-1962) durante as transmissões da BBC. O próprio Alkan nunca tocou o concerto completo.

O primeiro andamento do Concerto pour piano seul foi orquestrada por Karl Klindworth[5] (1830-1916) mas outras tentativas já tinham sido feitas pelo “filho” de Alkan, Élie Miriam Delaborde, mas sem sucesso. Klindworth fez a primeira versão em 1872, mas, não ficando satisfeito, produziu uma segunda versão que foi apresentada em Berlim, em 1902, sob a direção do próprio, tendo como solista Vianna da Mota[6], a quem esta versão foi dedicada. 
Ouverture parece evocar Harmonie du soir, o étude d’exécution transcendante nº11 (1851) de Liszt pelo poder orquestral embutido no piano. Tem uma técnica pianística interessante sendo um étude que compreende uma grande variedade de problemas técnicos.

 

 

Um dos mais notáveis temas e variações do séc. XIX é este último étude intitulado Le festin d’Ésope. Contém um tema simples e ao mesmo tempo surpreendente com 25 magistrais variações. É um étude rico em expressão e cor tonal. De andamento allegretto senza licenza quantunque, Alkan pretende que este étude seja tocado tal e qual o tempo que está marcado (colcheia = 126).

O título da obra alude a uma parábola das fábulas sobre animais pelas quais Ésopo é conhecido, parecendo haver indicações e sugestões claras na música a sons de animais.

Todo o conjunto converge para a variação nº 25 sendo as variações nº 5, 15ª e 20ª aquelas que ajudam nesta caminhada funcionando como pontos chaves da obra.

Tema simples de apenas 8 compassos em mi menor será desenvolvido pelas suas variações ficando sempre reconhecível.

A variação nº 5 é uma das primeiras marchas que encontramos ao longo desta obra. Na variação nº 10 surge a indicação scampanatino que significa como sinos.

A variação nº 14 emerge para o clímax da primeira parte que acontece na variação nº 15.

A variação nº 20 com a indicação “impavide” remete-nos para um leão e a variação nº 22 com a indicação “abbajante” evoca cães barulhentos.

A última variação é preparada a partir da variação nº 24, que vem em crescendo molto para culminar triunfalmente em fortissíssimo. Esta variação é prolongada de forma a conciliar a tonalidade maior e menor.

A coda reduz a textura do tema a um fragmento, mas, em seguida, constrói o clímax de forma magnífica. De fato, as duas últimas páginas representam a peregrinação de um crescendo contínuo concentrando os efeitos massificados, que tomam a forma de acordes tocados de uma maneira seca e distante dando à música de Alkan uma aparência sarcástica e demoníaca que antecipa Mahler e Prokofiev, presentes ao longo desta obra. Termina de forma sublime com um final aparentemente tranquilo mas que nos surpreende com um acorde final em fortíssimo.

Apesar da fraca divulgação da sua obra, Alkan é um dos compositores do século XIX que fez uma verdadeira contribuição para a evolução da técnica pianística ao lado de Liszt e Chopin.

 

[1] Estes estudos de Alkan foram menosprezados num jornal seu contemporâneo afirmando que “pianistas com dedos deslocados podem ser capaz de acabar com a sua infelicidade praticando estes études". (cf. Edie, 2007: 74)

[1]  Biógrafo e fundador de Alkan Society em 1977

[2]  Biógrafo, editor de várias obras de Alkan as quais gravou para as maiores discográficas e sobre as coisas escreveu várias notas

[3]  Primeiro pianista a tocar o op.39 completo num concerto em 1995

[4]  Pianista holandês, aluno de Busoni e, através dele conheceu a obra de Bach, Liszt e Alkan

[5]  Compositor, maestro, pianista, violinista e editor alemão

[6]  Transcreveu para piano a 2 e 4 mãos algumas das peças para piano com pedaleira de Alkan e escreveu um artigo sobre o compositor na revista Allgemeine Musikzeitung, de Berlim (1901)

 

Bibliografia

Marmontel, Antoine, Les pianistes célèbres: silhouettes et médaillons, Paris, A. Chaix, 1878, pp. 118-134

Samson, J. (Ed.), The Cambridge History of Nineteenth-Century Music, Cambridge, Cambridge, 2002  

Sadie, Stanley (Ed.), The New Grove Dictionary of Music and Musicians, Londres, Macmillan Press Limited, 1980, 2001 (2º ed.), s.v. “Charles-Valentin Alkan”  

Taruskin, Richard, Music in the Nineteenth Century, Nova Iorque, Oxford University Press, 2010

 

Webgrafia

Beck, Georges, “Oeveures choisies pour piano by Charles Valentin Alkan”, Music & Letters, vol.51, nº3, julho de 1970, p.326 (Jstor)

Edie, W. Alexander, Charles-Valentin Alkan: His Life and His Music, Aldershot, Ashgate publishing Limited, 2007 (http://books.google.pt/books?id=7o6ps01rGxYC&printsec=frontcover&hl=pt-PT&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false)

--- Charles Valentin Alkan: His Life and His Music, in Notes 64, nº 4, 2008, pp.731-733, Review by Jonathan Kregor (Jstor)

MacDonald, Hugh, “More on Alkan’s Death”, The Musical Times, vol.129, nº1741, março de 1988, pp.118-120 (Jstor)

NewWorldEncyclopedia (http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Charles_Valentin_Alkan)

Piano Society (http://pianosociety.com/cms/index.php?section=22)

Raymond Lewenthal and Alkan by Dr Davivid C. F. Wright (http://www.wrightmusic.net/pdfs/raymond-lewenthal-and-alkan.pdf)

Roberge, Marc-André, “Charles-Valentin Alkan (1813-1888): un excentrique enfim pris au sérieux”, Sonances, vol.3, nº3, abril de 1984, pp.11-16 (http://www.mus.ulaval.ca/roberge/pdf/sonances_alkan.pdf)

Smith, Ronald, Alkan: The Man, The Music, London, Kahn & Averill, 2000 (http://books.google.pt/books/about/Alkan.html?id=mZYHAQAAMAAJ&redir_esc=y)

The Alkan Society (http://www.alkansociety.org/)

The Charles-Valentin Alkan Society of Vienna (http://www.alkansocietyvienna.org/en/start/)

The Myths of Alkan (http://www.jackgibbons.com/alkanmyths.htm)

(sítios visitados durante a elaboração do trabalho: outubro-dezembro 2014)

 

 

 

 

Maria Fernandes
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