PJM 2018

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Ad Libitum

Crónicas de uma Professora Menina

Autor: Marta Moreira, Instrumentista e Professora de Piano

12 jun 2013

Última atualização: 17 set 2018


Arte Avaliada

Atualmente reconhecemos na avaliação uma temática recorrentemente questionada, estudada e discutida. Penso que é comum a todos os profissionais na Música (particularmente no Ensino da Música) uma preocupação pungente acerca do bom/mau uso desta ferramenta. E chamo-lhe ferramenta, assumindo já uma postura claramente demarcada sobre o assunto.

Fazendo uma análise histórica, a avaliação já foi um estádio final de todo o processo de aprendizagem. Aos alunos era-lhes exigido que aprendessem determinados conhecimentos para que depois se pudesse avaliar se esse empreendimento foi ou não bem sucedido. A isto chama Guba e Lincoln (1989) avaliação usada como medida, que representa uma 1ª geração dos paradigmas da avaliação que hoje conhecemos.  Numa 2ª geração, a avaliação evolui, tornando-se um meio e não um fim, em que esta já descreve pontos fortes e pontos fracos da aprendizagem. Mais tarde, a avaliação já pretende mais do que cingir-se aos resultados dos alunos, procurando apresentar estratégias de melhoria da sua aprendizagem. Podemos dizer então que, numa 3ª geração, a avaliação se assume definitivamente como uma ferramenta que para além de medir os resultados dos alunos, existe para poder melhorá-los. Chegamos por fim a uma 4ª geração dos paradigmas de avaliação, neste modelo apresentado por Guba e Lincoln, em que a apelidamos de autêntica, formativa. Usando métodos qualitativos (por oposição a métodos quantitativos), a avaliação é claramente uma ferramenta determinante na aprendizagem dos alunos, onde se pretende que também eles sejam responsabilizados no processo. Assim, a avaliação surge como um diagnóstico dos pontos fortes e dos pontos fracos a melhorar, sugerindo estratégias para o efeito, agindo como regulador de todo o processo de aprendizagem.

Estes modelos de avaliação são transversais a todo o ensino, não se demarcando por isso em nenhum ramo em particular. No entanto, quando analisamos a forma como são avaliados os alunos no ensino vocacional de Música, verificamos que uma larga realidade integra ainda a primeira geração dos paradigmas de avaliação citados acima.

Em muitas situações verificamos que o que é exigido aos alunos é o mesmo que era exigido nos primórdios do ensino de música em Portugal. O aluno deverá saber tocar determinada obra de determinada forma, empregando com correção os diferentes recursos técnico/estilísticos que pretendemos que aprendam. Assim, numa fase posterior são submetidos a uma prova, onde verificamos se as competências foram ou não adquiridas. Analisando este comportamento de forma realista, verificamos que corresponde exatamente à mesma realidade em que os alunos tinham de decorar a tabuada, os nomes de todos os rios e caminhos de ferro de Portugal, para depois os saber dizer sem erros e assim obter uma boa classificação. Pensemos: isto trazia-lhes competências reais? Fazia deles adultos conscientes, inteligentes? Já sabemos que não. Possuir conhecimento não é o mesmo que saber aplicá-lo. Para isso existem já as enciclopédias, mais diria eu. Então porque insistimos em manter o mesmo comportamento errado na Música, na Arte?

De acordo com o que tenho observado ao longo da minha pouca experiência, consigo destacar 4 áreas problemáticas fundamentais:

Conceito – Se a pretensão do ensino artístico é de, numa última instância, formar músicos, partimos logo de um pressuposto errado quando os avaliamos. O momento de avaliação é sempre a performance ao vivo, seja qual for o nível. No entanto, realizando uma prova adulteramos esse momento. Um dia um aluno disse-me: “Marta, eu sinto-me muito melhor quando me apresento em audições do que quando toco nas provas. Nas provas não nos batem palmas, só estão ali a olhar para nós, e sinto-me muito mais desconfortável.” Este pequeno comentário vindo de alguém tão novo, encerra para mim uma questão fulcral; de facto, o habitat natural do músico é o palco, onde se apresenta para um público que irá posteriormente avaliar o seu desempenho. Faria assim muito mais sentido avaliar um músico com recurso a audições/provas públicas, visto que o nosso ensino visa prepará-los para essas circunstâncias. Da mesma forma, é uma grande hipocrisia avaliá-los de uma outra forma, muitas vezes mais impessoal e que não representa nenhum benefício nítido na sua aprendizagem.

Frequência  - Embora haja muitos e diferentes modelos no que toca à frequência com que são realizadas estas provas, de um ponto de vista mais pragmático, elas querem-se trimestrais, de modo a conseguir um momento de avaliação determinante para a atribuição de uma classificação no final de cada período, motivando assim uma preparação regular dos alunos . No entanto, se analisarmos esta questão de um ponto de vista formativo, veremos que condicionamos seriamente a progressão do aluno ao fazê-lo desta forma. Por um lado, irão coincidir com períodos de grande atividade nas escolas regulares, o que, mesmo em alunos de destacado mérito, condiciona seriamente a qualidade do seu trabalho. Por outro lado, não respeitamos o período de maturação necessário para que os alunos possam aprofundar os seus conhecimentos/competências em cada obra. Se um aluno de 1º grau, que ainda toque peças curtas e pouco exigentes, consegue realmente aprofundar cada uma delas, o mesmo não se aplica a um aluno no final do Curso Básico, em que o nível de exigência é bem mais apurado e que exige assim outro tempo, outro timing. Ainda mais, se tivermos em conta que tendencialmente a organização do ano letivo está mal distribuída, com períodos muito curtos e outros muito longos.

Conteúdos/Programa  - Os conteúdos a apresentar nestas provas são também muitas vezes ponto de discórdia. Tendo em conta que há programas, onde se fornece uma espécie de índice de obras ajustadas a cada nível, perfeitamente desatualizados (alguns mantêm-se desde a Revolução de Abril!), verificamos que não é possível ajustar estes conteúdos à realidade em que hoje nos encontramos. Isto gera dois graves problemas: por um lado, gera nos professores um constante descontentamento com o progresso dos alunos, que muitas vezes até acaba por não ser real; por outro lado, geram-se por vezes certos lobbies incómodos, em que aos alunos se atribuem peças visivelmente acima das suas capacidades e que não respeitam o seu progresso natural, como forma de valorizar a sua performance, ainda que obviamente esta não seja tão conseguida. Desta forma, enfrentamos dois grandes problemas: esses alunos acabam por não se desenvolver como pretendemos, e os demais, que ficam desvalorizados perante estes, correm o risco de cair num vórtice de desmotivação.

Uniformização – Esta problemática assume particular relevância do ponto de vista da gestão escolar. Quando cada instrumento ou grupo disciplinar tem os seus próprios critérios, acabamos por ver na mesma turma enormes discrepâncias de notas, que para todos, alunos e professores, significa uma certa injustiça. Aquilo que é exigido a alunos de um instrumento não é o mesmo que é exigidos noutros, certo. Mas ainda assim, a avaliação deve contemplar estes padrões, e ser mais benevolente nuns casos e menos condescendente noutros.

Assim, é justo dizer que a avaliação no Ensino Artístico já merecia uma resposta mais direta, e até bem urgente. Como e de que forma? Ora bem, em primeiro lugar, talvez passando por realmente reformular e uniformizar os conteúdos programáticos de cada grau. Na grande maioria das escolas não há autonomia pedagógica para o fazer da forma que cada um entende. Assim, é urgente criar um modelo transversal a todas as escolas, que se enquadre na nossa atualidade, sem que isso signifique perder qualidade ou rigor. De que forma, não sei dizer. Talvez uma comissão, um referendo, um plenário de professores, mas algo que permita uma discussão aberta e frontal que solucione esta questão.

Só depois se poderá alterar tudo o resto. E o que é tudo o resto? Talvez pensar em realizar mais audições e concertos e menos provas. Provas, diria eu que bastam duas por ano. Uma mais técnica, com estudos e escalas, e usando o modelo tradicional. Mas depois, para finalizar o ano, porque não realizar uma prova recital, aberta ao público, que demonstre o trabalho realizado ao longo de um ano inteiro, que possibilite uma preparação honesta e consciente destes alunos, respeitando os diferentes tempos de maturação deles mesmos e das obras? Aí sim, estaríamos a prepará-los para a realidade de um músico, pois estaríamos a trabalhar durante um ano para preparar um momento de avaliação que também seria em simultâneo um prémio, um momento de alta recompensa pelo trabalho realizado. E, para os mais conservadores, isto não significa que os alunos perderiam objetivos ao longo do trimestre. Se de facto houvesse mais audições de classe, que preparassem uma audição de turma no final de cada período, em que para todos os alunos os conteúdos programáticos fossem semelhantes, aí sim, estaríamos finalmente a encontrar um equilíbrio entre as necessidades mais práticas do ensino e as necessidades artísticas individuais de cada um.

Desta forma, talvez a avaliação passasse a ser usada sim como uma ferramenta reguladora da aprendizagem de cada um, e não mais como um fim dúbio e polémico de percursos muitas vezes por ela adulterados.

Marta Moreira
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