PJM 2018

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Ad Libitum

DO INTERIOR PARA O EXTERIOR: O BEM ESTAR E A PERFORMANCE MUSICAL

Autor: Bruno Gomes Sousa, Mestre em Ensino de Música

07 jul 2015

Última atualização: 17 set 2018


1. DO INTERIOR PARA O EXTERIOR: O BEM-ESTAR E A PERFORMANCE MUSICAL

1.1 Temática de investigação

A performance musical, além de exigir uma determinada concentração, está dependente da descontração muscular e da postura corporal do músico. No entanto, durante a execução, o instrumentista necessita de um esforço mental e físico maior ou menor, resultando de vários fatores: o tipo de instrumento, a duração da execução, a dificuldade técnico-musical da peça executada, resistência muscular de cada instrumentista (Andrade & Fonseca, 2000).

Frequentemente os alunos de música exigem do seu corpo um esforço físico maior do que aquele a que estão habituados normalmente. Alguns instrumentistas profissionais apresentam também este desequilíbrio entre esforço necessário e esforço realizado. Estes esforços notam-se principalmente na execução de obras virtuosas com um nível de dificuldade muito elevado e no período de mudança e de adaptação a um novo instrumento. No caso particular dos violetistas, esta dificuldade é muito evidente quando mudam para uma viola maior do que aquela a que estão habituados (Andrade & Fonseca, 2000).

Para alguns músicos, a expressão artística, isto é, o movimento físico expressivo musical durante a performance, não é prejudicial, pois não requer fisicamente um grande esforço. O uso de movimentos durante a performance musical afeta a intenção de expressividade do instrumentista, o próprio som do seu instrumento e, além disso, ajuda a que a sua tensão produzida seja libertada enquanto que para muitos instrumentistas, as limitações físicas podem ser dolorosas, debilitantes e em alguns casos, severamente incapacitantes (Schlinger, 2006). O uso de movimentos expressivos durante a execução musical afeta positivamente a sonoridade do instrumento. Aliás, no caso da aprendizagem da viola d'arco e violino, estes movimentos podem originar uma melhor coordenação ente as mãos, fazendo com que Prática musical e saúde: atividades preventivas em Escolas Superiores de Música na Europa 4 DeCA/UA o instrumento, ou partes dele, se torne um prolongamento do corpo, por exemplo, o arco do violino (Ibid).

Estas tensões e esforços exagerados podem originar lesões podem ser prevenidas através de técnicas de prevenção. São os casos do método Feldenkrais, da Alexander Technique (AT) e do Ioga que proporcionam a realização de exercícios para o instrumentista perceber e sentir o seu movimento, para aprofundar a compreensão, maximizar a função e, ao mesmo tempo, melhorar o conforto e o equilíbrio (Ibid). Existem conservatórios e escolas superiores de música que facultam aos alunos, nas suas próprias instalações, aulas destes métodos de prevenção de lesões. É o caso da Royal Academy of Music, em Londres, que, no Reino Unido é um dos conservatórios de música que faculta sessões individuais de AT aos alunos durante um ano1 . Além de prevenir lesões, também ajuda os músicos a libertar tensões desnecessárias, melhorando a performance musical. A técnica Alexander é usada por músicos conceituados, sendo casos famosos os de Yehudi Menuhin, Paul McCartney, Sting, Sir Colin Davis, entre outros.

"Early in my professional career the celebrated conductor Sir Adrian Boult, who had himself had Alexander lessons, sent me for lessons in the Technique. 'My boy,' he said, 'you'll end up crippled if you go on like that.' I have been a pupil of the Technique now for over forty years, the benefits to me have been immeasurable, and I would recommend all students to take advantage of the programme of lessons available at the Royal Academy of Music."

Sir Colin Davis (in site da Royal Academy of Music, consultado em Outubro de 2013)

Este projeto pretende conhecer diferentes currículos, recolhendo informações sobre a utilização e recurso das técnicas de prevenção e reabilitação em várias instituições europeias de prestígio. A amostra escolhida inclui: a Royal Academy of Music (Londres - RAM), Hochschule fur Musik Carl Maria von Weber (Dresden), 1 Cfr. página web da Royal Academy of Music: http://www.ram.ac.uk/alexander-technique Capítulo 1. Do interior para o exterior: o bem-estar e a performance musical Bruno Sousa 5 Conservatoire National Superieur de Musique et de Danse de Paris (CNSMDP), Escola Superior de Música de Catalunya (ESMUC-Barcelona), Universität Mozarteum Salzburg (UMS), Conservatorio della Svizzera Italiana (Lugano- Suiça-CSI), Hochschule Fur Music Hanns Eisler (Berlin-HFM) e Conservatorium van Amsterdam - Amsterdamse Hogeschool voor de Kunsten (CvA). Nas instituições de Portugal, foram escolhidas universidade e escolas superiores de música públicas a nível nacional como a Escola Superior de Música de Lisboa (ESML), Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (Porto-ESMAE), Universidade de Aveiro (UA), Universidade do Minho (UM), Escola Superior de Artes Aplicadas (ESART-Castelo Branco), Universidade de Évora (UE). Após conhecer cada currículo, recolher-se-á informação sobre os conteúdos procurando-se formar um modelo ideal para que os estudantes tenham um percurso académico sem perturbações e lesões musculares e a sua evolução seja a mais bem sucedida.

Destas instituições acima referidas, a maior partes delas apresentam nos seus currículos atividades como técnica Alexander, método Feldenkrais, Pilates, Ioga, entre outras.

 

1.2 Motivação para o estudo

A motivação para a realização deste projeto prende-se com facto de eu ser violetista e professor de viola d'arco, e ter sentido durante o meu percurso académico e profissional alguns desconfortos musculares que condicionaram a minha evolução instrumental. Estes problemas físicos foram resolvidos através da participação em workshops e sessões de Alexander Technique, método Feldenkrais e exercícios de relaxamento, descobrindo e tendo consciência de como se deve dar uso ao corpo e aos movimentos essenciais para a performance. Estes métodos, além de me ajudarem a libertar das tensões anteriormente produzidas e de melhorar a execução musical, também são vantajosos nas práticas quotidianas como caminhar, estar sentando, conduzir, entre outras.

Eles permitem que os indivíduos saibam usar o seu próprio corpo da forma mais natural possível sem tensões e excessos de força. Geralmente, um professor de música foca-se exclusivamente na capacidade de ensino dos conteúdos de execução técnica do instrumento, de expressividade, de interpretação, e de musicalidade, esquecendo-se que a parte emocional, intelectual neuro-motora é tão ou mais importante, pois, para tocar, precisamos que o nosso corpo esteja preparado fisicamente e psicologicamente (Williamon & Thompson, 2006). A abordagem e o conhecimento de hábitos e práticas corretas, no sentido da prevenção de lesões, são consideradas por vários autores fatores essenciais e primordiais durante os anos de aprendizagem (Tubiana & Amadio, 2000; Barton & Feinberg, 2008).

Os estudantes de algumas escolas superiores de música fora de Portugal, podem usufruir de sessões individuais e/ou de grupo de métodos que ajudam a prevenir lesões nos músicos, como a Alexander Technique, o método Feldenkrais, o Ioga e o Pilates. Além disso, há instituições como, por exemplo, "Trinity Laban Conservatoire of Music & Dance", em Londres, que possuem um departamento de saúde que apoia a saúde e o bem-estar dos alunos, facultando uma série extensa de tratamentos de stress, ansiedade e problemas musculares e neurológicos, o que não acontece em Portugal. Em diversas escolas de música, a realização de programas educativos direcionados para a prevenção de problemas médicos nos seus estudantes teve um impacto positivo no que diz respeito a alterações comportamentais de risco (Barton & Feinberg, 2008). 

 

1.3 Objetivos

O objetivo inicial deste trabalho é aprofundar o conhecimento de tipos de atividades especializadas do desenvolvimento físico e mental humano, que são: Alexander Technique; método Feldenkrais, Pilates, Ioga; Dispokinesis e Rezonanze Lehre. A razão que impulsionou este trabalho foi a necessidade de conhecer e dar a conhecer estes métodos enquanto formas de prevenção e tratamento de lesões em músicos, visto que qualquer músico pode sofrer uma lesão. Tal como refere Alexandre Gonçalves, prevenir significa muito mais do que apenas praticar exercícios de alongamento. Significa sim, conseguir observar e não apenas ouvir o melhor som que se pode extrair do instrumento, mas "ouvir o nosso próprio corpo" (Gonçalves, 2005).

Por outro lado, dado que estas técnicas no meio do ensino especializado da música em Portugal não são muito conhecidas, procurarei também com este trabalho criar conteúdos que permitam dar a conhecer – quer nas aulas, quer em workshops nas escolas – estes métodos. É realmente importante divulgar estas técnicas específicas e fazer com que os instrumentistas tenham acesso a elas o mais cedo possível, para que a sua execução musical não seja impedida por vários tipos de lesões e para que a performance seja o mais natural possível, sem transparecer qualquer tensão muscular anormal.

Outro objetivo deste projeto é comparar os currículos de um conjunto de conservatórios e escolas superiores de música acima já referidas, principalmente as instituições que facultam técnica Alexander, Feldenkrais, Pilates e/ou Ioga e aquelas que apresentam outras atividades e/ou unidades curriculares de outras vertentes. Esta comparação permitirá concluir sobre tendências e preocupações importantes destas escolas no que respeita à educação para a prevenção, ao conhecimento e controle do próprio corpo a partir da mente.

 

1.4 Estrutura da tese

O desenho metodológico proposto neste trabalho corresponde ao modelo de pesquisa documental, uma vez que investiguei e aprofundei o meu conhecimento sobre técnicas de prevenção de lesões e sobre os currículos nos diferentes conservatórios e escolas superiores de música na Europa.

O desenho de estudo vai-se estruturar em três fases. Uma fase inicial de recolha de informação sobre práticas preventivas de lesões. Pesquisei sobre o impacto da Alexander Technique, método Feldenkrais, Pilates e Ioga nas instituições superiores de ensino de música, sendo essenciais para a prevenção de lesões e para o melhor desempenho musical dos instrumentistas. Numa segunda fase procedi ao levantamento dos currículos dos conservatórios e escolas superiores de música já selecionadas e efetuei uma comparação entre elas em relação às técnicas e métodos já anteriormente referidos. A terceira e última fase será a análise de dados e o estabelecimento das comparações entre os currículos e respetiva conclusão das vantagens destes métodos, notando-se que estes são essenciais e benéficos para melhoria da postura e da performance musical.

 


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Bruno Sousa
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