PJM 2018

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Ad Libitum

Dilemas de um programador

Autor: André Cunha Leal, Realizador da Antena 2, Consultor para a Programação de Música Erudita no CCB

30 jan 2015

Última atualização: 17 set 2018


Quando me pediram para escrever este artigo devo dizer que fiquei aterrorizado. Escrever sobre o quê? Um tema livre? A verdade é que me encontro numa fase terrível de trabalho. Por um lado, com a entrada no novo ano, precipitam-se todos os projectos que ficaram à espera do final do ano para serem viabilizados, por outro esta é sempre uma altura de actividade muito intensa, associada a novos projectos e novos desafios.

Pensei em vários temas, mas nada. Foi então que percebi que mais uma vez estaria a lidar com um dilema que ocupa todos os programadores de música de quando a quando, pelo menos cada vez que surge um projecto novo, ou quando se tem que lidar com novos protagonistas – a relação entre a programação e o público (ou pelo menos um certo conceito de público). Este é um equilíbrio muito delicado que pode ser facilmente posto em causa.

Cada vez que surge uma nova ideia, uma nova concepção, um novo protagonista, invariavelmente em Portugal, repete-se o discurso de que se tem de ir ao encontro de novos públicos. Se é verdade que o sonho de qualquer programador seria poder fazer chegar a sua programação ao maior número de pessoas, é também verdade que esta procura, por vezes obsessiva, em encontrar novos públicos, acarreta inúmeros riscos, entre os quais, os mais graves, serão o desenraízamento da música clássica do seu meio natural, tornando-a artificial, a cedência na qualidade e, em último caso, o afastamento daqueles que naturalmente se identificam com esta música.

Enquanto estou aqui a escrever, já deve ter percebido que recorri a uma mesma ideia para enunciar os perigos na procura do alargamento dos públicos. A ideia de Naturalidade. Porque quem gosta, gosta porque sim. Vibra com a música. Evolui com o tempo apurando os seus gostos e alargando os seus horizontes de forma natural. E faz tudo isto sem necessitar de recorrer a processos artificiais de adequação da arte aos públicos, seja lá o que isso for. Aqui viria o célebre argumento, mas temos que ir ao encontro do que o público quer... Mas o que é que o público quer? Quem, em plena consciência pode vir falar do que o público quer? Ou quando estamos a falar do que o público quer, estamos a falar do que o público consome quase que mecanicamente por falta de opção? Sim, esse é mesmo um dos grandes desafios do programador de música clássica, lutar para manter o espectro das escolhas o mais amplo possível para que o público, seja ele qual for, possa chegar à música clássica com naturalidade e sentir-se bem com ela, sem complexos e sem ideias pré-concebidas.

André Cunha Leal
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