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Do espectador como espectador e da revisão do modelo de concerto, em Nowhere

Autor: Paula Gomes-Ribeiro, Musicóloga e Professora do Departamento de Ciências Musicais FCSH-NOVA

02 mai 2017

Última atualização: 10 out 2017


 

Durante 20 dias consecutivos (entre 9 e 29 de Abril), o pianista italiano Marino Formenti, tocou para todos os que o quiseram escutar, numa instalação construída no anfiteatro ao ar livre da Fundação Calouste Gulbenkian. O arquiteto Ricardo Jacinto concebeu uma estrutura-habitação, espaço sónico e de relações humanas, partindo de materiais reutilizáveis, onde Formenti viveu, tocou, e que foi ‘completando’ ao longo dos dias. Espaço informal, de performance e cruzamento, o evento foi produzido no âmbito da Bienal de Arte Contemporânea BoCA em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Inspirador e questionador, o contacto com este espaço leva-nos a refletir sobre os lugares da música no presente e futuro próximo. Estará o modelo de concerto ‘convencional’ esgotado? Será o espaço informal de Formenti um campo comunicacional eficaz, um modelo a reproduzir e multiplicar na necessidade de se reverem as estruturas de desempenho e escuta musical na sociedade digital?

 

Nowhere, como se lê no texto que acompanha a instalação, é um ‘não-lugar’ onde ‘os próprios dias se tornam música’, inscrito no cerne dos ritmos e cruzamentos citadinos quotidianos que o acolhem e ao mesmo tempo o isolam. É casa, espaço de 200 metros quadrados, habitada e (in)habitável, é lugar de vida, sem nome, sem geografia e sem morada. A cortiça que forra todo o interior contribui amplamente para a sua qualidade acústica, um espaço de escuta musical, bem como para a manutenção de uma temperatura confortável e amena, produzindo uma sensação de bem estar, quase inusitada. Formenti encontra-se ao piano, nessa nowhere land, todo o dia, todos os dias, onde dorme, come, existe. Todos podem entrar, livremente: os que passam e se cruzam com a estrutura, os que passeiam pelo jardim Gulbenkian, os que planeiam a sua ida, turistas e locais, curiosos e perdidos, amantes de experiências estéticas, de artes, de música, de vida, de pessoas, de pianos, de jardins ou de nada. O evento é, além disso, permanentemente visível/audível em streaming, através das imagens e som captados por câmaras fixas dentro e fora do estúdio, e geridas pelo artista. O público que habita o espaço é permanentemente móvel, flutuante e imprevisível. O repertório desempenhado por Marino Formenti também. De Johann Sebastian Bach a Erik Satie, passando por John Cage, Morton Feldman, Bjork, Gaspar le Roux entre tantos outros compositores cujas obras dão forma as centenas de horas de atuação/audição. O pianista escolhe o repertório por entre algumas pilhas de partituras que se encontram a seu lado. A sua escolha é livre, ele decide o que tocar, em função do momento, dos espectadores, da hora do dia, do seu estado emocional... Afixa folhas A4 na parede no primeiro dia, indicando o que acabara de tocar, o processo repete-se, e no último dia da instalação as paredes estão quase totalmente forradas com as suas anotações.

O estúdio de Formenti é atravessado por dezenas, centenas, de pessoas (sozinhas ou em pequenos grupos) ao longo da sua escala diária. Entram, observam rapidamente o espaço em silêncio, questionando-se, e rapidamente se sentam, deitam, pensam, dormem, espreguiçam-se, leem, fecham os olhos, meditam, olham os outros, incluindo o pianista (embora este não seja nunca o centro das atenções). O espectador tem a liberdade de escolher onde e como quer ouvir e ver a atuação, ou melhor, como se quer relacionar com o som e o espaço. Colchões e almofadas distribuem-se pelo chão. Dir-se-ia um espaço protegido, seguro, no meio do frenesi da cidade. Um espaço (acústico, sónico, físico) sem rituais pré-definidos de escuta ou comportamento a não ser o silêncio. O espaço conquista o indivíduo, que a ele se rende, permanecendo, no entanto, atento. Sente-se que o público aprecia a o desafio, se destitui da sua armadura diária e deixa-se surpreender e envolver pela atmosfera sónica e relacional.

 

Ricardo Jacinto, o arquiteto que idealizou o espaço, descreve o modo como procurou aliar a necessidade de conceber um espaço interior, privado e íntimo, atendendo primeiramente à sua qualidade ‘sónica’ e ao mesmo tempo, facultar uma relação deste com o exterior, pela ampla janela sobre o lago, os jardins, os edifícios, as pessoas. Espaço fechado, utópico com uma janela sobre a vida. Espaço vivo, transmutável, simbólico, cuja semântica é gerada pelas intersecções entre o pianista, o repertório que escolhe tocar, os espectadores, o espaço... Campo de partilha, onde se escuta, se toca, se pensa, se vive. Será esta uma boa perspetiva na renovação do relacionamento entre públicos, artistas e o que designamos de música ou arte?  Formenti propõe, neste seu ambicioso projeto que já se materializou anteriormente em outras cidades europeias, rever a estrutura comunicacional do concerto canónico. ‘Um concerto é uma experiência coletiva’, afirma, logo, há uma partilha de responsabilidades que este projeto enfatiza - ‘vocês [o público] são os meus parceiros’. Não há arte sem público.

 

Formenti inscreve-se assim na necessidade de pensar os espectadores não como um grupo anónimo e passivo, mas como co-responsável pelo processo sónico, salientando o teor relacional do evento musical, sonoro, artístico. A responsabilização do espectador como co-produtor do evento (pianista-espectador/es) é, no meu entendimento, o cerne do projeto. Tal como numerosos teóricos, dramaturgos, músicos, artistas, grupos e movimentos - entre os quais Brecht, Artaud, Schoenberg, Adorno, Nono, Fluxus, Rancière - o pianista italiano, em conjunção com o artista que produziu o espaço, propõem-nos nesta instalação, que nos consciencializemos do processo de construção individual (relacional) de universos simbólicos decorrentes do contacto com música, som e artista. Juntos e sozinhos, como refere Formenti, cada um com o seu trabalho, um de tocar, outro de ouvir. Pianista e espectador, parceiros na construção de ideias, pensamento, mundo.

 

A redistribuição de funções (público-plateia), a informalidade da ocupação do espaço, a dessacralização da ideia de concerto pela revisão e transformação dos seus rituais em outros modelos de ‘estar com música’ instigam a perceção que o espectador é, e sempre foi, produtor de sentido. Como refere Rancière “olhar [ouvir] é também uma acção que confirma ou transfoma essa distribuição das posições. O espectador também age (...). Observa, seleciona, compara, interpreta. Liga o que vê com muitas outras coisas que viu noutros espaços cénicos [e acústicos, sónicos] e noutros géneros de lugares. Compõe o seu próprio poema com os elementos do poema que tem à sua frente. (...) ele e ela são ao mesmo tempo espectadores distantes e intérpretes activos do espectáculo que lhes é proposto.” Rancière (2010, 22-23).

 

Concluo esta breve reflexão de cruzamento com ‘Nowhere’, na qualidade de espectadora - não só de momentos destes 20 dias de vivência da instalação, e da transmissão em streaming, como do debate final com a presença do pianista e do arquitecto, do director do BoCA (John Romão), do director do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian (Risto Nieminen) e da directora do Museu Calouste Gulbenkian (Penelope Curtis) - citando Rancière. Palavras de espectador/a: “vermo-nos livres dos fantasmas do verbo feito carne e do espectador tornado activo, saber que as palavras são somente palavras e os espectadores apenas espectadores pode ajudar-nos a compreender melhor como as palavras e as imagens, as histórias e as performances podem mudar qualquer coisa no mundo em que vivemos.” (ibid., 36). 

 

Acredito que Nowhere pode mudar alguma coisa no mundo em que vivemos.

 

 

Referências

Transcrição minha de segmentos do debate com a presença dos artistas Marino Formenti e Ricardo Jacinto, Penelope Curtis (Diretora do Museu Calouste Gulbenkian), Risto Nieminen (Diretor do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian) e John Romão (Diretor da Bienal de Arte Contemporânea BoCA), Lisboa, Anfiteatro ao Ar Livre da FCG, 30 Abril 2017.

Rancière, Jaques (2010), O espectador emancipado, Lisboa, Orfeo Negro. [Original de 2008, Le spectateur emancipé, La Fabrique-Éditions. Tradução de José Miranda Justo.]

 

Paula Gomes-Ribeiro é Professora do Departamento de Ciências Musicais e Investigadora integrada no CESEM – Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, FCSH-NOVA. Nesta Faculdade colabora igualmente com os Mestrados em Artes Cénicas e Estudos Artísticos. Obteve o Doutoramento em Musicologia na Universidade de Paris VIII, em 2000, após ter concluído o grau de Mestre na mesma Universidade, visando os domínios da sociologia da música, da dramaturgia de ópera e do género. Diplomou-se em Ciências Musicais pela FCSH-UNL. Coordena o SociMus (Estudos Avançados em Sociologia da Música) e o GTCC do CESEM. Entre as suas publicações nomeie-se o livro Le drame lyrique au début du XXe siècle – Hystérie et Mise- en-abîme (Paris, Harmattan, 2002). Como encenadora assinou várias produções de ópera. A sua investigação desenvolve-se especialmente nos domínios da sociologia da música, comunicação e media, cibercultura, género, ópera, teatro musical e multimédia. 

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