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God Save The Queen! A novíssima música britânica na Casa da Música

Autor: Fernando Magre, mestrando em Musicologia

25 jan 2017

Última atualização: 26 jan 2017


 

Houve no último sábado, dia 22 de janeiro, a abertura oficial do Ano Britânico, eixo nevrálgico da Temporada 2017 da Casa da Música, no Porto. Sob a direção de Peter Rundel e Pedro Neves, o Remix Ensemble apresentou um instigante repertório completamente inédito em Portugal. Três compositores de origem britânica, três linguagens completamente diferentes.

 

Van Gogh Blue, de Julian Anderson (1967), faz uma homenagem à personalidade nada louca – como salienta o compositor – do referido pintor holandês. Através da evocação das cores, mas sobretudo a partir das cartas de Van Gogh acerca de seus projetos artísticos, Anderson constrói uma obra para ensemble em cinco partes, que vem a concluir sua trilogia acerca da cor azul. A cor, aliás, é a tônica em Van Gogh Blue. Tendo consciência da impossibilidade de se transpor ipsis litteris os fenômenos visuais para os sonoros, Julian Anderson encontrou nas palavras um suporte (não necessário, mas valioso) para transmitir sua ideia ao ouvinte. Nas notas do concerto, Anderson faz uma breve descrição de cada movimento e deixa claro que a obra pretende “homenagear o mais profundamente humano dos artistas[1]”. A música de Julien Anderson apresenta um elán muito envolvente, resultado de seu melodismo invulgar e soluções harmônicas que, apesar de não fazerem resistência às tentações do tonalismo, não caem na banalidade.

 

O destaque para esta obra está na escrita para os clarinetes – magistralmente tocados por Victor Pereira e Ricardo Alves. Os instrumentos são evidenciados cenicamente, pois a cada movimento, encontram-se em um lugar diferente do palco, sempre nas extremidades e simetricamente distribuídos. Para além do resultado cênico que essa simples movimentação causa, também devemos destacar o resultado sonoro, uma espacialização potencializada pela configuração da Sala Suggia da Casa da Música e, sobretudo, pela precisão rítmica e afinação dos clarinetistas.

 

Na sequência, foi apresentada Skin, para soprano e ensemble, de Rebecca Saunders (1967). Se a obra anterior é marcada pelo melodismo, Skin, ao contrário, soa mais áspera. É certo que a maciez da pele também lá está, porém, é na aspereza, na rugosidade, que sua obra parece se enraizar. Mas também se pode traçar um paralelo com a obra de Anderson, pois é através de um texto poeticamente asséptico que Rebecca Saunders se remete à sua peça (embora sem descrevê-la de fato). Além disso, deve-se ressaltar que foi num texto de Samuel Beckett – The Ghost Trio – que a compositora encontrou o “estímulo absoluto[2]” para Skin. Nesta composição, Saunders explora uma rica paleta de cores através da minuciosa pesquisa timbrística dos instrumentos e da voz. Particularmente interessante é o vultuoso  set de percussão designado pela compositora, com a presença de objetos de diferentes materiais, formas e sonoridades, além de instrumentos tradicionais.

 

Em Skin, o destaque ficou à cargo da magistral interpretação da soprano inglesa Juliet Fraser. Dona de uma voz cristalina, Fraser encanta com a versatilidade e virtuosismo que possui, sendo capaz de explorar possibilidades vocais variadas com igual expressividade e potência. Entre gritos, sussurros, declamações e cantos, Juliet Fraser encarnou e nos fez sentir na pele, a música de Rebecca Saunders.

 

A segunda parte do concerto foi dedicada à impressionante Theseus Game, do veterano Sir Harrison Birtwistle - compositor residente na Casa da Música em 2017. Birtwistle (1934) é um dos mais importantes compositores da atualidade, e reconhecido como um dos responsáveis pelo desenvolvimento da música de vanguarda britânica.

 

Acerca de sua residência na Casa da Música em 2017, Sir Harrison Birtwistle concedeu uma entrevista ao jornal da instituição, da qual reproduzo dois momentos em que o compositor reflete sobre sua trajetória musical:

 

“Quando olho para obras do passado, de alguma forma é como se tivessem sido escritas por outra pessoa. Do meu ponto de vista há mudanças, mas não foram elas que mudaram, eu é que mudei. Então foi a minha relação com elas que mudou. É engraçado que quando se é compositor pensa-se sempre que se tem liberdade como artista, que se pode fazer o que se quer. De certo modo pode, mas ao mesmo tempo não se pode. Então, conforme nos tornamos mais velhos surge uma diferença entre o tempo em que estou agora em oposição àquele em que estava no passado. Sempre que termino uma composição sinto que entro numa trégua com a ideia”[3].

 

“A música é uma espécie de ferida, e as feridas ficam-me na memória, mas depois de algum tempo, como reacção ao passado, acho que quando as ouço outra vez penso ‘espera lá, chegou a ferida’; e muito frequentemente a minha neurose sobre a ferida já lá não está. Desapareceu. É como algo que melhorou; contudo, outras coisas aparecem e penso ‘porque fizeste aquilo?’, e outra ferida aparece então na luz do momento. Todas as pessoas criativas, se têm alguma qualidade, são neuróticas no que respeita ao seu trabalho, e muitas vezes surpreendo-me ao achar aquilo que fiz muito melhor que me lembrava”[4].

 

Theseus Game, obra de 2002/2003 para grande ensemble, apresenta logo de início uma particularidade: a presença de dois maestros. De acordo com o compositor, não se trata de uma escolha “cosmética”, mas sim de uma necessidade, uma vez que a sobreposição de tempos diferentes representaria um trabalho hercúleo para um único maestro. Theseus Game é construída a partir do mito de Teseu, que derrota o Minotauro e consegue escapar do Labirinto de Creta seguindo um fio dado por sua amada, Ariadne. Na leitura de Cross[5], o fio de Ariadne é representado pela melodia praticamente ininterrupta passada de um instrumento para outro, que deve sempre dirigir-se à frente do grupo, enquanto o labirinto é representado pelo ensemble. Essa breve movimentação é importantíssima para a organização formal da obra, e de acordo com Salzman & Dési[6], a forma ritualística é idiomática na obra músico-teatral de Birtwistle, sobretudo pela sua frequente escolha por temas mitológicos. As melodias virtuosísticas, as explorações texturais e o jogo com o tempo em Theseus Game, mostram um compositor maduro, possuidor de completo domínio composicional e com uma linguagem musical que não faz concessões.

 

Por fim, devo destacar a excelente performance dos maestros Pedro Neves e Peter Rundel, este, maestro titular do Remix Ensemble, grupo que também merece elogios pela impecável e vibrante interpretação do programa. A julgar pelos longos minutos de aplausos calorosos, creio que a programação do Ano Britânico, juntamente com a residência de Sir Harrison Birtwistle na temporada 2017 da Casa da Música, serão um enorme sucesso.

 

[1] Julien Anderson, “Van Gogh Blue”, trans. Fernando P. Lima, Program notes, “Remix Ensemble, Casa da Música” (Casa da Música, January 21, 2017).

[2] Rebecca Saunders, “Skin”, trans. Fernando P. Lima, Program notes, “Remix Ensemble, Casa da Música” (Casa da Música, January 21, 2017).

[3] Harrison Birtwistle, "A Música é uma espécie de ferida”, A Casa (Porto), January 2017, pp. 5.

[4] Ibid.

[5] Jonathan Cross, “Theseus Game”, trans. Fernando P. Lima, Program notes, “Remix Ensemble, Casa da Música” (Casa da Música, January 21, 2017).

[6] Eric Salzman and Thomas Dési, The New Music Theater, seeing the voice, hearing the body (London: Oxford University Press, 2008).

 

Referências Bibliográficas

Anderson, Julien. “Van Gogh Blue”. Translated by Fernando P. Lima. Program notes for Remix Ensemble, Casa da Música. Remix Ensemble. Peter Rundel and Pedro Neves. Porto: Casa da Música, January 21, 2017.

Birtwistle, Harrison. "A Música é uma espécie de ferida”. A Casa (Porto), January 2017, N. 1. Edição da Casa da Música.

Cross, Jonathan. “Theseus Game”. Translated by Fernando P. Lima. Program notes for Remix Ensemble, Casa da Música. Remix Ensemble. Peter Rundel and Pedro Neves. Porto: Casa da Música, January 21, 2017.

Salzman, Eric and Thomas Dési. The New Music Theater, seeing the voice, hearing the body. London: Oxford University Press, 2008.

Saunders, Rebecca. “Skin”. Translated by Fernando P. Lima. Program notes for Remix Ensemble, Casa da Música. Remix Ensemble. Peter Rundel and Pedro Neves. Porto: Casa da Música, January 21, 2017.

 

Fernando Magre: possui os graus de Licenciatura em Música e Especialização em Regência Coral pela Universidade Estadual de Londrina (Brasil). É mestrando em Musicologia na Universidade de São Paulo (USP), sob orientação da Prof. Doutora Silvia Berg, desenvolvendo pesquisa sobre a obra de música-teatro do compositor brasileiro Gilberto Mendes (1922-2016). Atualmente realiza estágio de pesquisa no Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical na Universidade Nova de Lisboa, sob supervisão da Prof. Dra. Maria João Serrão, com o auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

 

*Texto escrito em português do Brasil. 

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