Concurso de Gondomar

PJM 2019

Ad Libitum

Narrativas Musicais

Autor: Ricardo Alves Pereira, guitarrista

03 mar 2019


Resumo

Este artigo consiste no resumo da investigação artística intitulada “The Dream World” que realizei dentro do Mestrado em Música do Conservatório Real em Haia (Países-Baixos), integrando ainda novos resultados obtidos após entrega da investigação. A investigação teve como objectivo criar um modelo artístico de expressão do imaginário do músico, por palavras, sobre as obras que interpreta - chamando-se a este modelo “narrativa musical”.

 

Música e Significado

 

Música tem a sua própria identidade sonora dentro de cada intérprete e ouvinte, mas os seus sons criam também algo externo a si mesma – um material extra-musical, como emoções ou imagens mentais. A música ganha então significado, sendo este o que o músico e o público sentem ou imaginam dentro de si. Este significado é normalmente pensado pelos próprios compositores, que o fazem com o objectivo de guiar o público por uma narrativa de emoções. Cabe depois ao músico interpretar devidamente as ideias do compositor para a criação de significado no público.

Por vezes a música é apresentada com uma sugestão extra-musical de significado. Exemplos como óperas, obras programáticas, ou bandas sonoras de filmes, têm o poder de moldar os significados musicais que o público cria. Enquanto intérprete, pretendo passar ao público a obra tal como o compositor a pensou, incluindo a minha perspectiva de interpretação musical, a nível sonoro. É a esta interpretação que junto um significado extra-musical pessoal, para melhor canalizar a própria narrativa de emoções do compositor. Esta pré-criação de significado pode enriquecer a experiência musical do público, pois este terá acesso a uma sugestão de audição do concerto, e portanto potenciar o seu sentido musical imaginativo.

Baseando-me nesta lógica, investiguei, integrado em vários conservatórios europeus de 2011 a 2017, técnicas para desenvolver significado musical enquanto intérprete e como apresentá-lo ao público. Para além do desenvolvimento técnico instrumental, formei um modelo simples e efectivo de apresentação em concerto (narrativas musicais), que se encaixa no contexto musical clássico, no qual cresci, e através do qual me apresento como guitarrista e contador de histórias.

 

Narrativa Musical - Definição

 

O conceito de narrativa musical, apresentado no contexto da minha investigação artística “The Dream World”, define-se como uma história criada pelo intérprete com base num repertório selecionado de obras existentes para o seu instrumento. O produto artístico final consiste na apresentação em concerto de um programa que expresse uma história coerente, narrada por palavras e música intercaladas individualmente. Neste modelo interpretativo o discurso verbal e o musical têm o mesmo grau de importância e complementam-se mutuamente.

O repertório é de livre escolha, podendo o intérprete fazer uso de obras existentes de compositores de qualquer era, assim como querer interpretar obras na sua totalidade ou apenas usar andamentos individuais. Cabe ao intérprete encontrar a combinação que mais se enquadre ao conceito da narrativa que pretende explorar. O mais importante é considerar a evolução da escolha do repertório e a construção estrutural da narrativa. Se isto não se tiver em conta, correr-se-á o risco de se perder relação entre as obras musicais e a narrativa.

A história de uma narrativa musical é a representação verbal do imaginário musical do intérprete. Tendo em conta que este modelo usa obras compostas por outrem, passa a ser na criação da narrativa que se encontra a vertente mais pessoal do intérprete. Será do interesse do intérprete explorar várias fontes de informação para estimular a inspiração para escrever a sua narrativa. O tema da narrativa é da escolha do intérprete, de acordo com o que considere relevante apresentar em concerto. Poderá narrar, por exemplo, eventos da vida de um compositor, uma aventura fantástica, mitos e lendas, ou mesmo um remake de um contexto extra-musical que um compositor associe à sua obra.

O objectivo deste modelo de interpretação e criação artística é de ajudar o intérprete a expressar as suas conclusões no que diz respeito ao seu estudo e análise das obras que apresenta em concerto. Ao apresentar-se através de narrativas musicais, o intérprete não subestima nem desconsidera a intenção musical do compositor, se, paralelamente à sua procura pessoal do imaginário da obra (fundamental para o modelo da narrativa musical), fizer a pesquisa adequada sobre os correctos parâmetros interpretativos que estejam associados ao compositor e ao seu trabalho.

O seguinte texto é um excerto de uma das minhas narrativas musicais, intitulada “O Mito de Arion” que descreve um mito da Grécia Antiga sobre o músico Arion. Esta narração é sucedida pela interpretação da obra “Canción del Emperador”, do compositor espanhol Luis de Narváez. 

"Há muito, muito tempo, na Era dos heróis e das lendas vivas, havia um homem chamado Arion. Foi-lhe oferecido pelos deuses e musas dos tempos Antigos o poder da música. Ele era um poeta, cantor e tocador de lira. Com a sua música, Arion podia alcançar o éter dourado que flutuava acima dos céus, o ar lendário que os próprios deuses respiravam. Ele podia trazer o éter para a Terra e pousá-lo sobre as pessoas que ouviam a sua voz e instrumento... E houve uma vez em que Arion cantou tão lindamente que se elevou às estrelas fixas no céu… Eis o mito de Arion".

 

Ver no youtube aqui.

 

Narrativa Musical - Caso de Estudo

O processo criativo começa por encontrar um tema que se pretende explorar. “O Mito de Arion” surgiu da descoberta de uma gravura que o representava na publicação histórica do livro renascentista de Luis de Narváez “Los Seys Libros de Música del Delphin”. Na gravura observamos um homem que toca guitarra sentado numa criatura marinha que nada na direção oposta à de um navio. Esta representação enquadra-se na narrativa do mito, assim como no próprio título do livro de Narváez, pois ambas criaturas marinhas se chamam Delphin.

Tendo por base o contexto imaginário do compositor, escolhi as obras presentes na publicação que melhor representassem a narrativa do mito. De seguida, reuni peças de um outro compositor espanhol da mesma época, Alonso Mudarra, visto que considerei que a nível musical, poderiam também elas representar melhor certas partes da narrativa. A decisão final do programa incluiu as obras “Canción del Emperador” e “Guardame las Vacas” de Narváez, e as obras “Pavana de Alexandre” e “Fantasia X” de Mudarra.

Para iniciar a escrita da narrativa em si, foi necessário, primeiramente, analisar formalmente as obras para criar uma relação musical fiel entre cada peça e os seus respectivos textos, ainda por desenvolver. Após a análise formal, procedi ao que chamo de “análise fantástica” da obra, que consiste em usar os mesmos sistemas da análise tradicional, mas com a perspectiva do meu próprio imaginário enquanto intérprete. Assim, depois de definir formalmente uma frase musical, tomo nota na partitura daquilo que imagino que a música representa nessa passagem musical. Esta técnica ajuda a criar uma relação mais profunda do imaginário da obra, criando uma estrutura mental detalhada da narrativa através da música.

Procurei compor um texto cujo o comprimento se enquadrasse no contexto da performance musical. Poderia ser curto, arriscando não partilhar toda a informação necessária para o público acompanhar devidamente a narração, mas se fosse muito longo poderia também fornecer ao público demasiados conteúdos e perder-se assim atenção devida à parte musical.

Resumidamente, sempre que pretendo criar uma narrativa musical tenho em conta o conceito proposto pelo compositor para as suas obras (se este existir), o contexto artístico da época - no caso do ”O Mito de Arion”, o Renascimento, com influência da Antiguidade - e o significado pessoal dos sons puros da próprias obras.

 

Objetivos

 

As narrativas musicais podem ajudar o público não treinado a entender melhor a experiência sonora da música erudita. Algumas palavras narradas, mesmo que poucas, podem ser o suficiente para canalizar a atenção para a verdadeira emoção que o intérprete pretende expressar com a sua obra, por vezes ininteligível para o público. No caso do público com ouvido treinado, poder-se-á levar a conhecer uma nova forma de experienciar repertório conhecido e talvez até criar laços mais profundos com o mesmo. Em ambos os tipos de público, pude ainda constantar que algumas pessoas associam geralmente concertos com histórias a performances para crianças, mas depois de ouvir as narrativas musicais ao vivo o público conclui que é um tipo de performance que ouvintes com certa maturidade poderão desfrutar melhor.

Numa perspectiva pedagógica, a criação de uma narrativa musical pode ajudar alunos a desenvolver a sua expressão musical, e potenciar o seu crescimento artístico. Associando, desta forma, elementos imaginários a diferentes parâmetros musicais, os alunos poderão chegar mais rapidamente à compreensão desejada da obra. Por outro lado, os professores poderão ter ao seu dispor novas ferramentas de diálogo para explicar aspectos abstratos, e por vezes novos, aos seus alunos. Isto poderá ser realizado motivando a imaginação do aluno através de perguntas como: "O que é que esta música te diz?", e “Podes transmitir essa ideia através da música?". Em certa maneira, muitos professores já utilizam técnicas similares, mas ganhando consciência através de narrativas musicais poderão aumentar os resultados de aprendizagem.

Um intérprete pode organizar programas livres das estruturas fixas da tradição erudita. Criar uma narrativa musical, é ter a liberdade de combinar obras, ou apenas andamentos individuais, contrastantes, de diferentes compositores, e formar um programa com um significado colectivo, algo que muitas vezes falta nos concertos de tradição erudita. Uma narrativa musical pode afectar positivamente a interpretação das obras, pois pensar no significado da música é estar atento às nuances e contrastes do discurso musical. O próprio mindset durante actuações pode beneficiar deste modelo, pois o intérprete pode ter um acesso mais directo e pessoal à sua intenção musical.

O dever de um intérprete que se apresente em concerto é de partilhar com o público uma experiência artística gratificante. Ambas as partes devem criar e estabelecer uma ligação para que exista um diálogo entre sons e silêncio. Se o intérprete partilhar as suas ideias imaginativas através de uma narrativa musical, o público recebe a função activa durante o concerto para estimular a compreensão e de criar um significado sobre a experiência sonora do momento. Esta partilha de emissores e receptores renova e fortalece a relação de intérprete e ouvinte.

Concluindo, música é pura em si mesma e histórias são intrinsecamente humanas. Juntas podem criam um caminho pessoal para a compreensão da realidade, sendo esta externa ou interna. Cada intérprete ou ouvinte tem a liberdade de interpretar sons musicais à sua maneira, mas existe um objectivo comum partilhado por todos, que é o de desfrutar da música, e por vezes amadurecer através dos significados ou histórias que criamos dessa experiência artística. A narrativa musical foi a ferramenta que considerei pertinente desenvolver para alcançar o meu significado pessoal na música que interpreto.

 

 

Bibliografia

Alves Pereira, Ricardo. The Dream World, artistic research (documento de investigação). Den Haag, 2017

Alves Pereira, Ricardo. The Myth of Arion, a musical narrative (video). 2018

Narváez, Luis de. Los Seys Libros del Delphín de Música de Cifras para Tañer Vihuela (livro). Valladolid, 1535

Bernstein, Leonard. The Joy of Music (livro). Cambridge: Amadeus. 2004

Boykan, Martin. Silence and Slow Time, Studies in Musical Narrative (livro). Scarecrow Press. 2004

Moore, Douglas. Listening to Music (livro). New York: W. W. Norton & Company. 1963

Meelberg, Vincent. New Sounds, New Stories; narrativity in contemporary music (livro). Leiden University Press. 2006

Andean, James. "Sound and Narrative" (artigo de investigação): Acousmatic Composition as Artistic Research. 2014

Bernstein, Leonard. "Young People's Concerts" (programa televisivo), What does music mean. New York. Aired dated: 1958.

Eyre, Lillian. "The Marriage of Music and Narrative" (artigo online). Explorations in Art, Therapy, and Research

Disney, Walt. Fantasia (filme). 1940.

 

Biografia

 

Ricardo Alves Pereira é um guitarrista clássico que guia o seu público na imaginação de histórias através das suas narrativas musicais. Recebeu vários prémios em concursos nacionais e internacionais de música, proporcionando-lhe a gravação do seu disco a solo "Ciclos". Recebeu ainda várias bolsas de estudo, mérito e investigação provenientes de candidaturas do programa Erasmus, da fundação DGARTES, CSMV (Espanha) e KC (Holanda). Foi convidado para dar concertos (a solo, com ensembles e orquestras) em Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália, Países-Baixos, Reino Unido e Turquia. Viajou pela Europa para receber a sua formação académica de alguns dos guitarristas clássicos mais renomeados. Os seus professores principais foram Ilda Coelho, Margarita Escarpa, Duo Melis e Zoran Dukic. Completou o seu mestrado como bolseiro “Excellence in Music” no Conservatório Real em Haia. É membro fundador do grupo internacional de música antiga The Wandering Bard para quem também escreve narrativas musicais. O seu álbum, lançado recentemente, está disponível nas plataformas online. Recentemente de regresso a Portugal, Ricardo está à procura de oportunidades para apresentar as suas narrativas musicais em salas de concerto por todo o país.

Ricardo Pereira
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