PJM 2018

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Ad Libitum

Novas Tendências e Possibilidades na Construção de Guitarras

Autor: Ricardo Barceló, Guitarrista e Docente Universitário

15 mar 2013

Última atualização: 17 set 2018


INTRODUÇÃO

Após uma rápida série de mudanças na passagem do século XVIII ao XIX, a guitarra barroca sofreu uma grande metamorfose que a transformou na guitarra clássico-romântica, sob a forte influência do estilo de construção do violino. Por finais do século XIX a guitarra deu um novo salto evolutivo, cujo paradigma foi o modelo de guitarra construído por Antonio de Torres, em Espanha. Assim nasceu a guitarra moderna.

Depois de cerca de meio século de relativa estabilidade organológica após a adoção das ideias de Torres, quer os guitarristas, quer os construtores de guitarras, promoveram novamente a experimentação para conseguir maior volume sonoro do instrumento e obter um timbre mais adequado aos gostos da época, introduzindo apenas algumas alterações, relativamente simples, sobre o modelo considerado standard. Só nos últimos trinta anos é que vemos aparecer novas propostas de alguns luthiers que se afastam notoriamente dos cânones impostos pela tradição e que entretanto ganharam   numerosos adeptos no universo guitarrístico. Por tal motivo, corroborámos agora o que dissemos há cerca de duas décadas na introdução do livro “La digitación guitarrística”[1]: a guitarra é atualmente um instrumento em plena evolução. Nesse sentido, queremos focar a nossa atenção nas tendências relativamente recentes que estão a impor-se no mundo da guitarra, baseadas em inovações tecnológicas, derivadas primordialmente do uso de novos materiais.  

É de ter em consideração que a velocidade com que estão a acontecer estas mudanças está a provocar um grande salto na evolução do instrumento. Chama a nossa atenção o facto de que as novas tendências na construção guitarrística tenham negligenciado a utilização de materiais não comuns neste campo, mas passíveis de serem adotados em técnicas contemporâneas de construção. Pensamos que a causa disto talvez radique na rapidez com que estão a implantar-se os novos conceitos. Certos materiais naturais não usados habitualmente poderiam ser utilizados de forma individual ou combinados com alguns produtos sintéticos de invenção recente, para investigar a possibilidade de os integrar na construção de instrumentos de alta qualidade, na procura de melhor sonoridade, facilidade de execução e, principalmente, de resposta às necessidades artísticas dos guitarristas.

 

A IMPORTÂNCIA DO TAMPO DA GUITARRA

Antecedentes históricos

Normalmente, os avanços na construção de guitarras, tal como acontece com os restantes instrumentos musicais, ocorrem ligados, de forma estreita, à interação e à colaboração entre fabricantes e executantes. Nesse sentido, recordemos que num momento histórico de clara evolução da guitarra, o famoso guitarrista Fernando Sor manifestou algumas das preocupações que tinha relativamente à organologia da guitarra que hoje conhecemos como clássico-romântica, que expressou da seguinte maneira:

“Para que o tampo oscile suficientemente pela vibração que a corda lhe comunica quando é atacada, é necessário que este seja fino e de uma madeira muito leve para que possa prolongar o som. No entanto, se o tampo for muito fino, a tensão forte e contínua no cavalete a levaria ao colapso. Para impedir que o tampo ceda, os construtores tiveram a ideia de reforçá-lo com barras interiores, mas se estas forem muito rígidas, impedirão grande parte das oscilações do tampo”.[2]

Nestas observações, que continuam vigentes quase dois séculos depois, Sor destaca que a elaboração da parte frontal do corpo da guitarra –o tampo– representa um importante desafio na construção de guitarras de concerto. Esta é uma das problemáticas que ainda ocupa os luthiers da nossa época, quando procuram um sistema de construção mais efetivo e funcional.

Os procedimentos criados pelos guitarreiros espanhóis no primeiro quartel do século XIX, na procura das características mencionadas, desembocaram finalmente num esquema geral de construção. Este tinha uma série de traços típicos que foram normalizados e integrados no chamado «estilo espanhol» de construção, que chegou a ser popular em toda Europa. As guitarras desse estilo possuíam um tampo bastante fino, mas fortalecido graças a um número variável de barras de madeira coladas na parte oculta do mesmo. As barras, de diverso tamanho e número, estavam dispostas em forma de leque, para servirem de reforço. Este é o sistema que ainda hoje se aplica para elaborar tampos de guitarra clássica segundo o conceito tradicional e cujo aspeto, em geral, é semelhante ao da seguinte imagem, onde vemos um tampo de guitarra atual em construção.

[1] Ricardo Barceló. La digitación guitarrística. Real Musical. Madrid, 1995. p. 7.

[2] Fernando Sor. Método para guitarra. Versão em castelhano de E. Baranzano e R. Barceló. Ed. Labirinto. Fafe, 2008. p. 17.

Torres, pelo seu lado, após a realização de algumas experiências chegou à conclusão de que a qualidade e o volume sonoro de uma guitarra dependiam principalmente do tampo. Para o demonstrar construiu uma guitarra com o corpo de cartão –um material que não tem muita resistência nem boas propriedades acústicas–, ao qual colou um tampo de madeira que havia elaborado de forma habitual. O resultado sonoro aparentemente era idêntico ao das suas guitarras construídas inteiramente de madeira, tornando evidente a importância do tampo e revelando o seu papel fundamental na emissão do som[1].

 

Sonoridade do instrumento e conforto do guitarrista

Leveza, resistência e uma certa flexibilidade são características a ter em conta na elaboração de tampos de guitarra de concerto e que trazem consigo vantagens importantes. É sabido que um tampo com tais virtudes propicia a obtenção de uma boa resposta sonora e pode evitar que o guitarrista realize esforços inúteis com ambas as mãos[2]. O facto de que o tampo oscile com facilidade reduz ao mínimo o tempo de reação do mesmo para que projete o som logo que os dedos põem as cordas a vibrar[3]. Isto faz com que a mão direita possa controlar toda a gama dinâmica com relativa facilidade durante a execução instrumental e até pode ajudar a ocultar alguns ruídos leves produzidos durante a pulsação, por não haver quase desfasagem entre o ataque e a emissão do som. No contexto artístico, todos estes fatores podem ajudar o guitarrista a sentir-se mais confortável durante a execução, tornando a comunicação das suas intenções musicais mais natural.

  1. Uso de materiais não convencionais. 

 

Como dissemos anteriormente, nas últimas décadas vários luthiers realizaram experiências com novos materiais e sistemas de construção que paulatinamente estão a começar a competir com os tradicionais. Entre os materiais não convencionais utilizados na construção de guitarras encontram-se, a título de exemplo, a madeira balsa, a fibra de carbono e o nómex. Todos eles têm algo em comum: já foram usados na construção de objetos que devem ser muito ligeiros para poderem obter velocidade ou para voar, tais como carros de competição, aviões e miniaturas de modelismo e, ao mesmo tempo, serem muito resistentes.

A balsa. É uma madeira que provém da árvore tropical denominada balso[1], usada tradicionalmente no aeromodelismo pela sua leveza pois, embora seja uma madeira de muito baixa densidade, é bastante forte em comparação com outros materiais mais pesados.

A fibra de carbono é uma fibra sintética derivada da grafite, que deve ser usada integrando um material compósito elaborado com uma resina epóxi[2] especial; pois é só assim que esta fibra pode obter todas as propriedades que a caracterizam. Desta maneira possui uma resistência similar à do aço, mas é muito mais ligeira do que este metal e, para alem disso, suporta o fogo e o contacto com a água.

Nos últimos anos o compósito de que falámos tem-se usado em combinação com madeira balsa, pois estes materiais juntos oferecem uma resistência fora do comum, tendo em conta o seu reduzido peso. Balsa e compósito de carbono são os materiais que foram utilizados pelo luthier australiano Greg Smallman, no último quartel do século XX, para reforçar os tampos das suas guitarras, de maneira a poder torná-los muito finos –e consequentemente muito reativos–, mas ao mesmo tempo dotá-los da capacidade de suportar perfeitamente a tensão das cordas. Os materiais não convencionais adotados por Smallman eram novos na construção de guitarras mas não a ideia que sustenta o seu uso, pois Sor já tinha exposto essa problemática sobre a construção do tampo na primeira metade do século XIX, como antes vimos. Isto revela a validez das observações realizadas por Sor, embora estivessem referidas a um outro conceito de construção.

 O nomex[3] honey-comb é um tipo de papel fino e flexível elaborado com uma fibra sintética chamada aramida. Este vem moldado de fábrica com a forma dos alvéolos hexagonais dos favos de abelha e com uma espessura de menos de um centímetro. Tal como acontece com a fibra de carbono, é necessário que o nómex seja utilizado junto com uma resina adequada para ganhar resistência e rigidez. O produto resultante é leve, forte, ignífugo e resistente à água.

 

O USO DE FIBRAS SINTÉTICAS E NATURAIS.

Vemos que o uso da fibra de carbono já está bastante difundido na construção de instrumentos musicais nos inícios do século XXI[1]. Além da sua leveza e rigidez, uma das importantes virtudes dos materiais compostos elaborados quer com fibra de carbono, quer com nómex, utilizados também na produção de carros e na indústria aeronáutica, por exemplo, é que são ignífugos, como já dissemos. Curiosamente, estes materiais também são empregues nas novas tecnologias aplicadas à fabricação de guitarras; mas o facto de que a fibra de carbono e a fibra de aramida sejam resistentes às altas temperaturas e até ao fogo, é claramente irrelevante na construção de guitarras. Tendo isto em consideração, talvez valeria a pena experimentar de forma alternativa o uso de fibras de linho, cânhamo, sisal, ou inclusive outras fibras[2] integradas em compostos elaborados com colas ou polímeros[3]. Estes produtos talvez não possam suportar altas temperaturas, mas podem ser muito fortes e adequados para o uso que propomos. Os compósitos criados poderiam servir para elaborar ou reforçar diferentes elementos da estrutura interna da guitarra, tal como as barras do tampo. Cremos que poderá valer a pena experimentá-los, visto que o uso separado dos materiais de que falámos já teve sucesso na construção de instrumentos musicais de corda pulsada.

 

Limites do uso da fibra de carbono na fabricação de guitarras clássicas.

Hoje em dia existem grandes empresas que produzem guitarras «acústicas» a nível industrial, cujo tampo –e até o corpo inteiro– é feito de compósito de fibra de carbono. Estes instrumentos, destinados primordialmente à interpretação de música ligeira, possuem a ventagem de serem muito resistentes e praticamente insensíveis à humidade, ao contrário do que acontece com as guitarras feitas de madeira e também com a cola que é utilizada habitualmente na união das suas diferentes partes. Por outro lado, alguns construtores de guitarras e instrumentistas acham possível fazer guitarras de concerto de maneira análoga. Pensamos que, do ponto de vista da eficiência do tampo de carbono na amplificação das vibrações transmitidas pela oscilação das cordas, talvez esta afirmação seja acertada. Mas é pouco claro que seja aceitável a qualidade tímbrica destes instrumentos para a sensibilidade artística dos executantes de guitarra clássica e, além disso, que o público goste de uma qualidade sonora diferente à dos padrões habituais que proporciona a madeira natural nos instrumentos de alta qualidade.

Apesar do que foi dito, não achamos descabido que algum material sintético com uma estrutura molecular idêntica à da madeira possa ser utilizado na futura construção de guitarras com resultados audíveis similares, ou melhores aos que se podem obter mediante a execução de instrumentos feitos com os materiais usados até agora.

 


[1] A utilização de fibras combinadas com uma resina ou cola não é recente, pois já se utilizavam faixas de tecido elaborado com fibras de linho e cola animal na colagem interior de alguns alaúdes, desde há pelo menos 400 anos.

[2] Mais informação sobre fibras vegetais em: Manuel J. Macía. Las plantas de fibra. http://pt.scribd.com/doc/52443607/Las-plantas-de-fibra  (consultada no 5 de dezembro de 2012).

[3] A polimerização é um processo químico pelo qual se ligam várias moléculas de um composto mediante o calor, a luz ou um catalisador para formarem uma cadeia de ligação múltipla e obter una macromolécula que é denominada polímero.

 


[1] O seu nome científico éochroma pyramidale.

[2] É um polímero com capacidades adesivas que é endurecido mediante um catalisador.

[3] Nomex é uma marca industrial registada de DuPont.

[1] Mais informação em: José L. Romanillos. Antonio de Torres. Guitarrero, su vida y obra. Escobar Impresores. El Ejido, Almería, 2004. p. 105.

[2] Uma moderada flexibilidade e leveza do tampo fazem possível que o mesmo ceda ligeiramente quando dos dedos da mão esquerda calcam as cordas no diapasão e também que se mexa com mais facilidade quando os dedos da mão direita atacam as cordas, reduzindo a quantidade de força muscular que é necessária para calcar as cordas ou para fazer reagir sonoramente o tampo, comparativamente a um tampo mais rígido e pesado.

[3] Pode estabelecer-se algum paralelismo como as características necessárias para o bom funcionamento do cone dum altifalante, que deve ser muito sensível à vibração mas bastante resistente, embora este não esteja sujeito à tensão das cordas. 


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Ricardo Barceló
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  • Tampo de guitarra em construção. Leque tradicional.
  • Nómex honey-comb
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