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O Senhor X

Autor: Júlia Durand, Mestranda em Musicologia Histórica

03 ago 2017

Última atualização: 19 ago 2017


O Senhor X tem cuidado em não se deixar tentar pelos prazeres culpados e pecados filistinos do que chama música comercial. É algo deveras inescapável para um mero mortal, mas protege-se como pode.

É por isso que comprou o pacote das sinfonias integrais de Mozart, na sua nonagésima quarta interpretação, para ouvir enquanto admira o busto de Beethoven que colocou sobre o móvel, uma verdadeira pechincha a 50 por cento de desconto – o busto, não o móvel – e lá fica Ludwig de castigo, qual deus olímpico no seu panteão de peças obrigatórias do 8º grau nos conservatórios. A agenda do senhor X é da paperblanks, daquelas que têm partituras manuscritas a decorar a capa dura. É nela que anota as datas dos concertos e, eventualmente, de um ou outro festival de música clássica ao ar livre, daqueles em que uma orquestra sinfónica inteira tenta defender as suas partituras, bem como a sua dignidade, de rajadas de vento inesperadas, sirenes de ambulâncias metediças, e um ou outro pombo ansioso por treinar a sua pontaria.

Mas o senhor X sabe que todas essas atribulações valem a pena, pois, ao fim do dia, terão, quais missionários em vias de serem canonizados, trazido às massas as grandes obras da música de todo o sempre. De todo o sempre, que é como quem diz, do século XIX, com sorte com um pezinho no século XVIII, e de dois ou três países, não mais. O senhor X sabe que não faz parte “das massas”: só ouviu Lady Gaga umas três ou quatro vezes na vida, nunca por vontade própria, e pode até nem ter desgostado, mas o importante é que se sentiu devidamente culpado por isso. O seu toque de telemóvel é uma verdadeira devoção a Puccini, a “O mio babbino caro” em loop até atender. O Spotify já lhe sabe recomendar Maria Callas, ou então Pavarotti, e lá dirá, debaixo de “Latest Release”, “Musikalisches Opfer, BWV 10792. No carro, sintoniza sempre na Antena 2, excepto quando polifonia medieval lá faz uma aparição: aí ele tenta, tenta mesmo, mas não consegue, e vai o resto da viagem automóvel num silêncio penitente.

Quando fala, é uma sucessão das decadências de hoje em dia e dos concertos de ontem à noite. Hoje em dia já ninguém ouve sinfonias dos grandes mestres, excepto as pessoas que ainda vão às salas de concerto, que deviam programar mais obras de jovens compositores que de qualquer forma agora já só compõem para jogos, e já não se fazem cantores como antigamente, e a culpa é toda dos telemóveis e da internet, excepto quando é um evento de facebook para vender vinis, aí pode ser. Hoje em dia ninguém vai logo à noite, logo à noite quer dizer, à sala de concertos…

Na mente de muitos, as ciências musicais são o Senhor X. Poeirentas, bafientas, refasteladas num prestígio cultural que, na verdade, procuram activamente desconstruir, interessadas num número comicamente reduzido de obras e compositores. Interessadas apenas, aliás, nas obras e nos compositores, numa espécie de teologia musical investida, antes de tudo, na afirmação e reafirmação e rerereafirmação dos valores transcendentes da Santíssima Trindade, Mozart, Beethoven e Bach. Tal qual o Senhor X, são vistas como pregando aos convertidos: que pouco que se vai às salas de concertos hoje em dia, lamenta-se, e o desabafo é lido sobretudo pelos habitués das tais salas de concertos, que poderão acenar com a cabeça e dar-se uma palmadinha congratulatória no ombro, confiantes de que não são eles os ofensores, são outros. Fica a ideia de que as ciências musicais apenas se debruçam sobre as ossadas em dó maior de uns poucos compositores canonizados – e neste ponto as analogias sacras já fartam, eu sei, mas o que mais se poderia esperar, fazendo da sala de concertos um templo de devoção a figuras entrosadas numa parafernália de simbologia divina?

E, no entanto, quem crê que nas ciências musicais só se vê poeira e cheira mofo tem, ela própria, um preconceito um pouco bafiento. Nenhum fenómeno musical, com a miríade de relações e interacções possíveis nos quais se enquadra, é “velho” de se estudar, tocar, ouvir. Cada interpretação diferente de La Serva Padrona de Pergolesi traz tantas novas questões e descobertas quanto os remixes da mesma gravação de “Bad Romance”. O único risco de mofo só pode advir se se trancar numa gaveta as partituras – e, mais crucial, as ideias. Como quem diz, “nisto não há mais nada para descobrir, venha daí outro” – nesse caso, o que vem daí é sobretudo mofo.

O que tantos investigadores exploram não é “sempre as mesmas obras”, “sempre os mesmos compositores” – sobrevoar brevemente as publicações musicológicas bastaria, aliás, para contrariar esse preconceito insistente – mas sim novas questões, novos problemas, novas perspectivas e novos receios.

Encontramos aí outro dos aspectos que metamorfoseia a imagem das ciências musicais na do pacato Senhor X. Esquece-se – ou melhor, desconhece-se – o seu lado crítico, central em qualquer ciência. É como se as notas de programa, meias dobradas, meias rasgadas no fundo de um bolso ao fim de um concerto, fossem apenas a constatação de uma verdade absoluta, legada ao musicólogo por um qualquer espírito, qual pomba do Papa Gregório – essa história sim, já tem um certo eflúvio de mofo. Entre ler as notas de programa e enfiá-las no bolso, não se tem por hábito lembrar as dúvidas e debates que lhes deram origem, nem a vontade inesgotável, determinada e assumida de questionar o que já se achava saber. A vontade, também, de desmistificar a ideia insidiosa de que a Música é uma Harmonia que Une o Homem (já se começa a tropeçar em tantas maiúsculas) e de promover, em vez disso, a consciência de que está constantemente inserida em contextos históricos e sociais – e não no Olimpo, em companhia de bustos de homens brancos mortos, perdão, de deuses. E, nesses contextos nos quais se insere, qualquer fenómeno musical pode também ser um acto de exclusão, de discriminação, de violência. Sim, mesmo com Mozart.

A par disso, há também, é claro, a vontade de descobrir o que ainda não se conhece. De entre a variedade infindável de sons que permeiam o nosso dia-a-dia, que o preenchem e por vezes o saturam – e, é importante relembrar, que o organizam – parece que apenas uma parte ridiculamente pequena é considerada digna de estudo. Há sempre sobrancelhas erguidas num espanto pacífico quando se confessa estudar a música das séries televisivas, dos supermercados, da publicidade, da pornografia, da muzak, dos documentários, dos toques de telemóvel, do youtube, da fanfarra distorcida por solavancos quando aterra um voo da Ryanair – mas isso estuda-se?

Ouve-se, não? Então por que não se haveria de estudar? Porquê presumir que uma ciência dedicada à música iria ignorar por completo a música que mais se ouve?

Após o costumeiro “mas isso estuda-se?”, segue-se uma frase que deveria ser abominada pelo silêncio que impõe: se se tentar conversar mais sobre o assunto – sobre seja o que for que se anda a estudar – ouve-se o inevitável “pois, mas sobre música não sei falar”, ou ainda um receio de que, se se confessasse o que se gosta de ouvir, se teria a cabeça em risco de ser arrancada pela tal criatura que “estuda música”, enfurecida pela menção de Rihanna ou Nicki Minaj, como se isso pudesse, alguma vez, ser um motivo razoável de desprezo. É desconcertante ouvir “sobre música não sei falar”, como se houvesse um qualquer analfabetismo ou inaptidão primária para falar sobre algo tão presente actualmente, não saber falar apesar de ouvir, comparar, escolher, comprar, organizar, fazer música. Na verdade, mais do que a sensação de não se ter a capacidade necessária, é sobretudo o receio de não se estar autorizado a fazê-lo: de que o discurso sobre música estaria exclusivamente reservado a peritos. Os tais “peritos”, no entanto, não têm qualquer interesse nessa espécie de monopólio de “falar sobre música”: pelo contrário, encorajam a que mais pessoas se sintam confortáveis em fazê-lo.

O Senhor X, resumindo, não é as ciências musicais. O Senhor X é qualquer pessoa, instituição, ou nota de programa amarrotada que desdenhe certas músicas como sendo irrelevantes de ouvir ou estudar – do mesmo modo, o Senhor X é também qualquer pessoa que qualifique outra de snob elitista por ouvir, sabe-se lá, Brahms. O Senhor X é, sobretudo, a tendência inexplicável de comprar a biografia de Wagner, ir a concertos comentados, fazer playlists pessoais no Spotify, ler as notas de um cd, mas dizer que sobre música não se pode falar, não se consegue, não há palavras, não dá.

Duvido que haja ser humano que aguente tanta transcendência. 

 

 Júlia Durand
  •  Júlia Durand
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