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Ad Libitum

Richard Wagner

Author: Maria Fernandes, aluna de Ciências Musicais

21 jul 2014

Last update: 27 abr 2017


«Hoje em dia, a reforma de Wagner está em todos os domínios da arte e do pensamento. Não é mais um fenómeno alemão, ou um fenómeno parisiense; é um fenómeno universal.” (cf. prefácio de Edouard Schuré: Wagner e o drama musical, p.21).

Richard Wagner, figura fulcral da história da música do século XIX, marcou toda uma nova geração de músicos, filósofos, artistas plásticos e outros, numa época em que houve uma panóplia de mudanças no pensamento europeu, com o surgimento de várias correntes artísticas que se congregam num movimento denominado Modernismo. No entanto, ao propor renovar a ópera alemã, no segmento de Mozart e Weber, Wagner ampliou a sua linguagem musical, criou uma arte, uma filosofia e um sistema dramático (drama musical). Será sobre o sistema dramático que me irei debruçar neste artigo e como as várias características se foram impondo ao longo das suas criações.

O seu percurso musical costuma ser dividido em três períodos, sendo que foi a partir do segundo período criativo que Wagner deu o passo importante na conceção do drama musical. Com O Navio Fantasma (1840-41), usou na abertura e depois ao longo da obra, uma série de temas musicais que se associavam às personagens, sentimentos e acontecimentos do argumento, originando os leitmotivs ou temas condutores, uma das características mais notáveis da sua obra. Tal como Weber, começou a interessar-se pela mitologia germânica desenvolvendo desta forma uma vertente nacionalista que marcará toda a sua restante obra (Tannhäuser, 1842-45). Com Lohengrin (1845-48) a orquestra torna-se a protagonista do drama musical.

Porém, ainda faltava criar um discurso musical contínuo, em que a ação decorresse sem números independentes como árias, recitativos ou cenas de conjunto. Segundo Wagner, não tem que haver uma estrutura rígida mas sim um drama.

A nova conceção operática do músico era muito ambiciosa e pretendia abarcar todos os âmbitos que afluem para a criação e representação da ópera. A intenção de Wagner era criar uma Obra de Arte Total (Gesamtstkunstwerk), conceito que constituía o título de um ensaio escrito em 1849, no qual expunha a sua ideia de ópera – discurso ininterrupto, sem seccionamentos. Era constituída, deste modo, uma melodia contínua (melodia infinita) que, ao contrário das óperas italianas e francesas, o que interessa era a continuação do drama e não o virtuosismo dos divos e das divas, com árias e recitativos.

Esta melodia infinita é constituída por pequenas identidades temáticas – os leitmotivs, já referidos, (Tristão e Isolda: Saudade e Desejo patentes nos três compassos iniciais; O Anel do Nibelungo: leitmotiv dos deuses; leitmotiv das Valquírias; leitmotiv do anel...) que, geralmente, primeiro aparecem na orquestra e depois na voz.

No ensaio Ópera e drama (1950) ele explana o que é a ópera para si, salientado que esta é apenas a estrutura e o drama é Liberdade. Deste modo, o seu objetivo, com o drama musical, é promover a perfeita fusão de todas as artes cénicas – canto, representação, cenários, iluminação e os efeitos de cena, com o contributo essencial da orquestra (música como a arte do indizível e como ilustração contínua do drama), tendo em vista a criação da Obra de Arte Total.

Uma das razões pelas quais Wagner é apontado como uma das figuras fulcrais da história da música deve-se ao seu vocabulário harmónico como, por exemplo, em Tristão e Isolda (1857-59), Wagner derruba o monolítico edifício da tonalidade, introduzindo no discurso musical elementos de inquietude, instabilidade e carência de um eixo de tonalidade (ilustrando a dor de um amor condenado à morte), possíveis graças ao uso constante de cromatismos, a tonalidades insinuadas mas não claramente definidas e ao uso de dissonâncias que pedem sempre outras.

O prelúdio (vorspiel) está ligado ao resto do drama, fornecendo material musical, preparando a entrada e traduzindo a história apostando claramente na continuidade dramática. Tristão e Isolda designada pelo próprio compositor como “obra de arte total”, uma “obra de arte do futuro”, apresenta dois níveis de ação: ação em palavras (ação externa) e ação em música (ação interna), isto é, os feitos de música tornados visíveis fornecidos pela orquestra que faz viver e vive o drama.

Antes do Anel ainda terminou Os Mestres Cantores de Nuremberga (1867) celebrando as corporações medievais de mestres cantores e, em especial, o sapateiro Hans Sachs.

Demorou 26 anos a escrever O Anel do Nibelungo (1846 a 1874), uma tetralogia que também pode ser considerada uma trilogia com prólogo. Portanto, esta epopeia desdobra-se em quatro dramas musicais: “O Ouro do Reno”; “A Valquíria”; “Siegfried”; “O Crepúsculo dos Deuses”. Estas obras ilustram a iniciação de um herói, Siegfried, à procura da verdade e trata-se, sem dúvida alguma, do projeto mais ambicioso da história da ópera. Este ciclo requer três dias para a sua audição completa, pois a sua duração ultrapassa as 15 horas.

Tudo gira em torno do Ouro do Reno, colocado inocentemente lá que, por sua vez, dá beleza ao rio, enquanto as filhas do Reno nadam à sua volta, louvando-o e guardando-o. Mas a pessoa que transformar o ouro em anel e renunciar ao amor, terá poder sobre todo este complexo mundo dos deuses, anões e pessoas. E é a partir daqui que tudo se desenrola. E aqui temos a ideia de um discurso ininterrupto.

Parsifal, última obra escrita por Wagner (1882), que aborda o tema do Santo Graal e seus cavaleiros – o compositor atinge o auge da abstração mística – Wagner qualificou-a como peça festiva da consagração (Buhmenfestspiel). Mas o filósofo Freidrich Nietzsche, que inicialmente adorava Wagner, referia-se ironicamente a esta obra como “uma adaptação do cristianismo para consumo dos wagnerianos”.

Wagner foi o primeiro compositor a escrever os seus próprios libretos para as suas óperas, elemento que considerava essencial para garantir a unidade do projeto.

Para completar as suas ideias, só faltava a construção de um Teatro que conseguisse projetar todas estes ideais. Em 1876 estava construído o Teatro de Bayreuth (Bayreuth Festspielhaus): o fosso da orquestra é completamente embutido no palco, ficando a orquestra invisível para o público. Esse recurso foi uma preocupação central para Wagner, uma vez que fez com que o público se concentrar apenas no drama, ao invés do movimento perturbador do maestro e músicos e para isso, o teatro também fica às escuras; o projeto também corrigiu o balanço de volume entre cantores e orquestra, criando a acústica ideal para as suas óperas, que são as únicas realizadas neste teatro; a diferente disposição das cadeiras que abole as desigualdades sociais e para prestar atenção à ação e não quem vai ao teatro.

Em suma, Richard Wagner cultivou, com ênfase, a ideia de Música do futuro, buscando a liberdade, a paixão e o inatingível, criando sempre para um público ideal. A influência cultural que exerceu foi maior do que qualquer outro músico, pois determinou o rumo da evolução musical, sobretudo a da dissolução harmónica e a posterior atonalidade, que despoletará com a Segunda Escola de Viena (Schoenberg, Berg e Webern).

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