Academia de Flauta de Verão

Faminho

Vinho Oboé

Notícias

Victor Pereira

É solista do Remix Enxemble Casa da Música desde a sua fundação, no ano 2000. Integra o duo 2RV com o clarinetista Ricardo Alves e toca também em duo com o pianista Vítor Pinho. É professor de clarinete e música de câmara na Academia de Música de Castelo de Paiva e na Escola Profissional de Música de Espinho e coordenador artístico da Academia Ibero-Americana do Clarinete, um evento que se realiza anualmente em Castelo de Paiva e que tem trazido a Portugal alguns dos representantes mais relevantes do clarinete do espaço ibero-americano.

No verão deste ano vai gravar um disco a solo, inteiramente preenchido com música portuguesa.

 

Da Capo (DC) - Como começaste a estudar música?

Victor Pereira (VP) – Eu venho de uma família, do lado da minha mãe, de músicos: o meu avô era músico amador numa banda e um tio tocava clarinete, depois passou para oboé, e foi músico militar. Quando eu era miúdo, comecei a tocar clarinete na banda da terra (Banda de Tarouquela, Cinfães). O meu interesse pelo clarinete vem por influência desse meu tio.

 

DC – Entretanto o teu tio mudou para oboé. Não pensaste também em mudar de instrumento?

VP – Não, mas aconteceu-me uma história engraçada. O meu primeiro instrumento foi de facto um feliscorne. Eu queria clarinete mas não havia instrumento disponível. Depois de experimentar o feliscorne, tomei uma atitude: “Este não quero. Ou me arranjas um clarinete ou não quero nenhum instrumento”. Eu já gostava do som do clarinete.

 

DC – Depois foste estudar para a Academia?

VP – Comecei obviamente na banda, entretanto começaram a surgir as escolas de música, não era nada do que era hoje, mas na altura haver uma escola onde só se estudava música, para mim, era um sonho! Eu tinha um colega que estudava nessa escola e, um dia, ao regressar das aulas do liceu fui lá com esse colega perguntar o que era preciso para poder estudar lá, sem dizer nada aos meus pais. Devia ter uns 11 anos. Cheguei a casa e contei à minha mãe. Acho que ela me viu tão determinado, que aceitou inscrever-me.

O meu primeiro professor de clarinete foi o professor Agostinho Vieira, que também é o diretor da Academia de Música Castelo de Paiva desde a sua fundação.

 

 

“na formação do clarinete já era habitual haver uma abertura ao repertório de várias épocas”

 

 

DC – O que é que destacas na tua formação que se tornou fundamental para o que fazes hoje?

VP – O gosto pela música vem da família, era quase natural na minha terra natal passar pela banda. Quase toda a gente das pequenas terras em Portugal passou pela banda. Depois comecei a estudar. A figura do professor Agostinho foi muito importante porque foi alguém que, reconhecendo-me algum potencial, sempre me apoiou, orientou para conhecer outras pessoas, fazer masterclasses, etc, promoveu contacto com os grandes nomes como o professor Saiote, entre outros. Ele teve esse cuidado e noção de me abrir portas.

Ainda fiquei ligado à banda do ponto de vista humano e social durante alguns anos, mas depois acabei por abandonar por não dava para conciliar. Guardo muito boas memórias, acho que é de facto aí que a música faz todo o sentido.

 

DC – As bandas são o nosso El Sistema?

VP – Sim, sem dúvida. Se calhar hoje menos porque já existem as escolas de música. Mas antes era obrigatório passar pela banda.

Mas retomando a questão anterior, houve pessoas importantes na minha formação. Os professores são quem marca mais o nosso percurso.

 

DC – Houve algum professor que te influenciasse mais para aquilo que fazes hoje?

VP – Nenhum deles e todos! Em Portugal, o sistema de ensino é semelhante, por isso o facto de eu ter seguido um certo caminho teve mais a ver com os professores, mas na formação do clarinete já era habitual haver uma abertura ao repertório de várias épocas – é uma coisa que se faz e já se fazia, se calhar mais do que noutros instrumentos.

Obviamente se estamos a falar da questão da música contemporânea, fiz mais no ensino superior.

 

 

“estarmos constantemente a lidar com novas criações e sonoridades é muito estimulante”

 

 

DC – Como foste para ao Remix Ensemble? Já tinhas a ideia da música contemporânea?

VP – O gosto por fazer música contemporânea sempre o tive. Aliás, gosto de fazer música seja ela qual for. Não gosto muito de fazer a distinção entre intérpretes. Entrar no Remix acabou por ser uma feliz coincidência. Eu estava a acabar a escola superior. Como é muito comum na classe da ESMAE, quando aparece um concurso as pessoas tendem a comparecer. Eu fui com outros colegas, era mais um concurso... Tinha uma noção do que era a música contemporânea no repertório do clarinete, mas depois ter ganho o concurso e ficado no Remix fez com que a minha vida tivesse um foco numa área, foi uma aprendizagem.

 

DC – Como têm sido estes 17 anos de Remix?

VP – O Remix é um projeto marcante e inovador em Portugal - é a primeira vez que surge uma estrutura deste género. A mim agrada-me a ideia de pertencer a um projeto que é uma referência no país, embora existam outros grupos de música contemporânea.

Tem sido uma experiência fantástica! O facto de estarmos constantemente a lidar com novas criações e sonoridades é muito estimulante, adquirir uma vivência de um mundo que é atual faz todo o sentido para mim, é algo que gosto muito de fazer.

 

 

“Quando se faz uma estreia, há todo um mundo de coisas que alguém tem de pensar pela primeira vez”

 

 

DC – Não te assusta olhar para uma partitura e pensar “como é eu vou fazer isto”?

VP – A experiência obviamente ajuda. Por um lado é difícil mas por outro lado é o bom da coisa. O facto de haver um desafio é estimulante. Quando toco uma obra de outras épocas, a probabilidade de já a ter ouvido em gravações ou em concerto é muito grande. Naturalmente quando pego numa obra dessas, há já uma referência qualquer.

Quando se faz uma estreia, há todo um mundo de coisas que alguém tem de pensar pela primeira vez. A linguagem e o compositor também têm as suas próprias influências e as coisas estão relacionadas umas com as outras.

 

DC – A música contemporânea é uma linguagem à parte?

VP – Houve uma vez um compositor e maestro que trabalhou connosco que nos disse uma coisa simples e básica “nenhum compositor que escreva no séc. XX ou XXI desconhece a música que foi feita nos séculos anteriores”. Isto não é um compartimento estanque, a música está toda relacionada. Não é possível definir uma barreira. Gosto de pensar assim, quando estou a fazer música do séc. XIX é tão natural como fazer música do séc. XX ou XXI. Não distingo uma coisa da outra.

Há linguagens diferentes, mas se tocar Brahms ou Mozart também são linguagens diferentes. Há aspetos que são do instrumento, da criação musical e da estética que nós temos de encarar de maneira diferente.

 

 

“o problema do nosso sistema de ensino é que é baseado, em pelo menos 90 por cento, no sistema tonal”

 

 

DC – Ao tocares mais música contemporânea, sentes que tens como missão sensibilizar os teus alunos para este tipo de música?

VP – Sim, nós enquanto professores estamos limitados nas nossas funções aos conhecimentos que temos. Se eu tenho mais conhecimentos na área da música contemporânea, tenho a possibilidade de abordar mais com os alunos, mas no clarinete sempre existiu a tradição, influenciada pelo professor Saiote, de introduzir no repertório música contemporânea.

 

DC – Ainda existe o mito de que a música contemporânea é demasiado difícil para os alunos?

VP – Existe música difícil e música mais acessível. Tecnicamente, as obras mais atuais são um pouco mais exigentes, o que faz com a sua abordagem sejam mais tardia. Mas também existem obras que não são assim tão complicadas.

 

DC – E mais fáceis de ouvir?

VP – Ao nível da audição, acho que é mais preconceito. Cada vez mais, tenho a consciência de que é um preconceito mais forte no meio dos músicos. Não tenho nenhum estudo para estar a confirmar isto, mas a impressão que tenho é que se eu pedir a uma pessoa que não tenha qualquer referência clássica, romântica ou moderna, para ir assistir a um concerto, ela vai ou não gostar mas não por não ser Mozart ou Beethoven. É uma questão de habituação, conhecimento e de experimentação.

Quanto mais formação musical as pessoas tiverem, tendem a reagir de maneira diferente aos vários tipos de música. Depois há também o problema do nosso sistema de ensino que é baseado em pelo menos 90 por cento, no sistema tonal. Se as pessoas passam a vida toda a estudar em função de uma linguagem/estética, é natural que depois achem as outras mais estranhas.

 

 

“É natural que por eu ser solista do Remix as pessoas me vejam mais como intérprete de música contemporânea, mas não é natural pensarem que só faço este tipo de música”

 

 

DC – Achas que por seres solista no Remix corres o risco de ser chamado menos vezes para interpretar outro tipo de repertório?

VP – Existe um preço a pagar por fazer mais música contemporânea. É natural que por eu ser solista do Remix as pessoas me vejam mais como intérprete de música contemporânea, mas não é natural pensarem que só faço este tipo de música. Um dos professores com quem trabalhei foi o Alain Damien, tive aulas de música contemporânea mas também trabalhei com ele as Sonatas de Brahms, que aliás foi das melhores aulas que tive sobre as Sonatas de Brahms. Ele também sofreu um bocado esse preconceito de que alguém que está ligado à música contemporânea só faz música contemporânea.

 

DC – Consegues tocar toda a música que queres?

VP – Infelizmente o nosso país não é pródigo em oportunidades para tocar. Todos os meus colegas clarinetistas queixar-se-ão da mesma coisa. Por exemplo, nos últimos três anos toquei duas vezes o quinteto de Brahms e o quinteto de Mozart. A maior parte dos clarinetistas portugueses fez o mesmo ou ainda menos e não é por estarem ou não num grupo de música contemporânea.

 

 

“Este desenvolvimento do repertório do instrumento nas suas várias formações é algo que a mim me dá muito gosto fazer”

 

 

DC – Além do Remix, em que projetos estás mais envolvido?

VP – Toco em duo de piano com o Vítor Pinho, fazemos música, com repertório para clarinete e piano de todas as épocas. Temos de ter a consciência de que a maior parte do repertório para clarinete é do séc. XX! Vamos ter agora alguns recitais, onde decidimos fazer um programa misto.

Tenho também outro duo - 2RV, mais ligado à área de música contemporânea, com o clarinetista Ricardo Alves. Ambos tocamos todos os instrumentos da família do clarinete e neste duo usamos todos os clarinetes necessários. Existe algum repertório já escrito para este tipo de formação.

Vamos estrear algumas obras de compositores portugueses, como Nuno Peixoto de Pinho, Jorge Prendas e Igor C. Silva. A ideia é também abordar o clarinete com várias estéticas, gosto diferentes - para mim a riqueza da música está na diversidade.

Este desenvolvimento do repertório do instrumento nas suas várias formações é algo que a mim me dá muito gosto fazer.

 

DC – E gravações?

VP – Ando justamente a trabalhar agora nesse campo. A questão das gravações é muito pertinente. Hoje qualquer pessoa que se apresente em público está sujeito no minuto seguinte a aparecer no youtube, por mais que a lei não o permita, é quase impossível controlar.

Muitas pessoas hoje põe em causa as gravações, se vale a pena ou não fazer discos. Eu também penso, por isso estou a preparar um disco porque acho que vale a pena. O cd já não é propriamente um meio de divulgação como era antigamente mas é um documento que fica. Justifica-se fazer um disco porque podemos fazer com algum cuidado, bem pensado e amadurecido. Claro que já ninguém faz cds a pensar em vendê-los ou ganhar dinheiro com isso.

No disco que estou a preparar, pretendo envolver os compositores, para ficar também registada a sua influência e visão. As obras vão ser todas a solo, com algumas obras que me foram dedicadas, outras não, e só música portuguesa! Vou gravar, sem dúvida, até ao verão.

O duo RV também também tem em mente um projeto semelhante. Depois das estreias, está claro que o próximo passo é passar à gravação.

 

 

“a música é um todo que se pode explorar”

 

 

DC – És também diretor artístico da Academia Ibero-Americana de Clarinete.

VP – Foi um desafio que o professor António Saiote me lançou e também à Academia de Música de Castelo de Paiva. É um projeto que temos abraçado com carinho e com esforço. É algo que hoje faz todo sentido, que é promover a comunicação a nível global. É um processo de partilha entre dois continentes, que têm maneiras distintas de ver o clarinete.

Têm acontecido coisas muito enriquecedoras ao longo das várias edições. Por exemplo, na América do Sul, o clarinete tem muita tradição e riquíssima mas não tanto na música erudita, como a europeia.

 

DC – Achas que temos de reformular o conceito de música erudita?

VP – Acho que sim. Antigamente, fazíamos a distinção entre música erudita , jazz, pop, rock, etc. Hoje já há quem considere o jazz como música erudita, já existem cursos de jazz nos conservatórios, ou seja, o que é que passa a ser erudito?

Eu acho que esta transversalidade faz todo o sentido. Claro que há pessoas mais especializadas numa área ou noutra. Para mim, música é música. Podem haver várias áreas onde nos podemos desenvolver e expressar mas a música é um todo que se pode explorar, os próprios compositores já o fazem e os intérpretes também.

 

 

“Nós, enquanto país, fizemos um trabalho extraordinário na formação musical”

 

 

DC – O que é que mudou no panorama da música nas últimas décadas? E o que é nos falta ainda?

VP – Nós, enquanto país, fizemos um trabalho extraordinário na formação musical. Hoje temos músicos de excelente nível que aparecem todos os dias a ganhar concursos. Tivemos uma capacidade incrível de evolução na parte da formação. Já não há dúvidas de que temos qualidade em todos os instrumentos para concorrer ao mais alto nível na Europa.

Este processo de evolução que aconteceu em 20/30 anos foi muito rápido. O país não tem e nem conseguiu ainda desenvolver-se ao nível da oferta, ou seja, não é normal a realização frequente de concertos. A oferta de concertos existe apenas nos grandes centro e pouco mais. Há cidades pequenas e até capitais de distrito que não têm qualquer tipo programação, só fazem coisas pontualmente.

Falta-nos evoluir na programação, mas para isso, claro, temos de ter público. Mas para haver público tem de haver oferta, uma coisa tem de existir para também existir a outra. É esse o trabalho que ainda nos falta fazer, porque já temos músicos de excelente nível.

Havia tanta necessidade de desenvolver o ensino que era quase natural um músico tornar-se professor. Mas hoje, isso já não é possível, já há gente a formar-se que não tem lugar nas escolas. Como existem poucas orquestras, pouca oferta de concertos, estamos a chegar a uma fase de dificuldade...

 

DC – Por isso é natural que os músicos saiam do país para terem mais oportunidades de emprego?

VP – Nós temos de encarar isto de maneira natural até porque estando na União Europeia a migração faz todo o sentido. Assim como foi normal durante muito tempo que as pessoas fossem ficando porque iam encontrando lugares e trabalho, é também normal que as pessoas saiam porque a quantidade é cada vez maior.

 

 

“todos nós, músicos, temos de nos envolver nesse processo: criar oportunidades para as pessoas tocarem mas com dignidade”

 

 

DC - O que podes fazer enquanto músico para mudar alguma coisa?

VP – Enquanto músicos, temos de ter um papel ativo. Pela dimensão do nosso país, não existe propriamente uma rede de programação. Existe apenas das grandes cidades e noutros casos a nível local. As próprias escolas de música atuam também como programadores.

O que falta é criar ciclos de concertos, seja de música de câmara ou orquestra. Têm surgido projetos de orquestras pontualmente, agora em maior quantidade, o que é muito bom e é também um sintoma de que existem músicos!

Agora é importante que essas estruturas vinguem, tenham capacidade de se instalar e obviamente deem condições dignas a quem lá trabalha. É muito romântico fazerem concertos de orquestra por carolice mas todos nós temos de comer, contas para pagar, família... É preciso que esses projetos cresçam mas que tenham condições de trabalho dignas. E todos nós, músicos, temos de nos envolver nesse processo: criar oportunidades para as pessoas tocarem mas com dignidade.

 

DC - A classe de Clarinete andou sempre à frente. E agora?

VP – Nós somos um país de bandas filarmónicas por isso temos muitos clarinetes. Naturalmente, quando começaram a surgir escolas de música aqueles que apareceram mais foram os clarinetes e saxofones.

Por algumas circunstâncias a escola de Clarinete em Portugal teve um desenvolvimento mais precoce em relação a outros instrumentos. Atingiu um nível de muita qualidade e agora tem é de o manter. Há sempre evolução mas quando se está a fazer uma coisa bem não há muito mais para se inventar.

 

 

“quem toca um instrumento tem de estar em forma, é como um atleta de alta competição”

 

 

DC - Se tivesses condições em termos de tempo e financiamento, que projetos gostarias de realizar?

VP – Não quero parecer pouco ambicioso, mas tempo gostava de ter, sobretudo mais tempo para desenvolver os meus projetos. Acho que nós, músicos, o que mais queremos é tocar, por isso com tempo e dinheiro criaria oportunidades para tocar. E divirto-em a tocar clarinete e gosto de estar no palco!

 

DC - Como lidas com o stress em palco?

VP – Acho que até é saudável haver aquele nervosismo... É natural que com a vontade de querermos fazer bem, corresponder às expectativas, tenhamos alguma ansiedade. Com o tempo e a experiência vamos aprendendo a lidar melhor com essa ansiedade. Posso senti-la antes ou depois de tocar, mas enquanto estou a tocar não fico nervoso.

Costumo dizer aos alunos: se estás de consciência tranquila e fizeste o teu máximo na preparação, é normal haver nervosismo miudinho mas também é normal estarmos confiantes de que somos capazes. No momento de tocar, tudo passa.

 

DC- A que sacrifícios a música te obriga? E compensações?

VP – Se entrevistassem as mulher dos músicos, provavelmente elas teriam muitas queixas a fazer. (risos) Obviamente que quem toca um instrumento tem de estar em forma, é como um atleta de alta competição. Além das horas de ensaio, temos de ter uma preparação diária que nos rouba tempo. E se associarmos ao facto da maioria dos músicos ainda ser professor, é mais uma componente que ocupa muito tempo. Quem acaba por sofrer é a família. É uma gestão complicada.

Por exemplo, num domingo de manhã em que não tenha trabalho, quero aproveitar para estar com a família mas também preciso estudar. Acabo por abdicar da oportunidade que teria para dormir até mais tarde, levanto mais cedo poder estudar e ainda aproveitar os momentos em família.

Felizmente a minha mulher também estudou música e tem a plena noção dos sacrifícios desta profissão. 

Nova Temporada da Metropolitana

Consolidação, expansão e reinvenção são as palavras-chave que marcam a programação da próxima temporada da Orquestra Metropolitana de Lisboa, que irá apresentar mais de 150 projetos. Mantêm-se os eixos Barroco, Clássico e Sinfónica e também os espaços dedicados à Música de Câmara e ao Atelier de Ópera. O violoncelista Pavel Gomziakov e o compositor Magnus Lindberg serão os artistas associados. Pedro Amaral, diretor artístico, e António Mega Ferreira, diretor executivo da AMEC/Metropolitana, foram reconduzidos nos respetivos cargos por mais quatro anos. 

 

“Estamos a virar a página e a passar a um ciclo novo, que é de consolidação e expansão. Em termos da gestão corrente, estamos em velocidade de cruzeiro”, afirmou Mega Ferreira, diretor executivo da AMEC/Metropolitana, na apresentação da nova temporada da Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML).

O diretor artístico, Pedro Amaral, confirma a fase positiva da OML: “Esta continuidade e estabilidade é determinante na nossa forma de programar. Eu diria que foi um dos aspetos mais importantes ao longo destes quatro anos – consolidar repertórios, políticas de programação, metodologias de trabalho – ao fim de quatro anos eu penso que a OML entrou de facto em velocidade de cruzeiro”.

Em 2016, a OML fez em formação orquestral 90 concertos – um record. Em Música de Câmara, por coincidência, fez também 90 concertos. “Ao todo, esta orquestra, que está em velocidade de cruzeiro, fez uma coisa quase inimaginável para uma orquestra em Portugal, de ter 180 aparições públicas nas suas várias formações”, destaca.

 

“uma orquestra que não é despenteada vai esmorecendo no seu ânimo”

Porém, para que este ritmo continue, o maestro da OML defende uma reinvenção: “uma reinvenção de tudo, dos nossos projetos, dos riscos que corremos, e das nossas próprias políticas de programação. Veremos desfilar intérpretes que nos fazem absolutamente sair da nossa zona de conforto, daquilo que é o nosso habitual. É fundamental poder despentear uma orquestra – uma orquestra que não é despenteada vai esmorecendo no seu ânimo”.

Com efeito, promete novas criações e obras muito raramente feitas: “a filosofia de programação que devemos manter é esta - uma obra deve ser sempre interessante para o público e estimulante para os músicos”. Haverá ainda espaço para obras maiores do repertório sinfónico como a 6ª Sinfonia de Mahler.

 

Pavel Gomziakov, Magnus Lindberg e Joel Santos

Quanto aos artistas convidados, Pavel Gomziakov (violoncelo) irá estar presente em quatro momentos da temporada, no concerto inaugural, em setembro, no Mosteiro dos Jerónimos; em dezembro integrará o projeto sinfónico da EPM (Escola Profissional Metropolitana); em janeiro toca com a Orquestra Académica e, em abril, será simultaneamente solista e maestro com a OML, numa “espécie de Música de Câmara alargada”.

O diretor artístico da Metropolitana refere-se a Magnus Lindberg como “o mais importante compositor de música contemporânea no plano mundial”. Como artista convidado da OML integrará três projetos: o concerto inaugural; os solistas da OML farão projetos de Música de Câmara integrando as suas obras; em maio virá fazer um concerto com a OML que terá como solista Nuno Silva, no Concerto para Clarinete e Orquestra que é “uma das obras mais difíceis de todo o repertório concertante para clarinete”.

O outro artista associado é Joel Santos, fotógrafo, consagrado com o prémio “Travel Photographer of the Year 2016”, que terá a seu cargo os cartazes da temporada. “Para mim, as imagens do Joel são tapetes voadores que nos levam para o inimaginável e encantatório. Cada um dos nossos concertos deve ser um tapete voador para o inimaginável”, sublinha Pedro Amaral.

 

Temporada Barroca com Enrico Onofri, Aapo Häkkinen e Marcos Magalhães

A Temporada Barroca continua a ser uma aposta forte da Metropolitana, que se assume como “aquela que sabe melhor abordar o repertório barroco, que o aborda na perspetiva da especificidade histórica”.

Os nove concertos programados irão acontecer, como habitualmente, no Museu Nacional de Arte Antiga e terão como destaque Enrico Onofri, em dois projetos, Aapo Häkkinen e Marcos Magalhães. Também Nuno Inácio (flauta) irá juntar-se a Alexêi Tolpugo (violino barroco) e Marcos Magalhães (cravo), para a mini-integral dos dois triplos concertos de Bach para Violino, Cravo e Flauta.

 

Temporada Clássica estreia obra de Francisco Chaves

O palco da Temporada Clássica continuará a ser o Teatro Thalia, nas Laranjeiras, que irá receber 11 projetos, entre os quais a integral das quatro sinfonias de Brahms. Mantém-se “O Dia Seguinte”, uma fórmula de sucesso, que se realiza aos domingos de manhã, em que o público é convidado a sentar ao lado da orquestra, num concerto de apenas uma hora. “Estes concertos estão sempre esgotados. Tem sido uma fórmula das mais importantes na nossa intenção de aproximar ao público”, afirma Pedro Amaral.

Sublinha também a aposta nos solistas portugueses: “A OML gaba-se de ser uma orquestra que dá oportunidade aos solistas do nosso país. Temos uma atividade musical muitíssimo menos densa daquela que encontramos nos países vizinhos europeus, portanto os nossos músicos têm menos oportunidades. Uma associação como a nossa deve dar oportunidade aos nossos intérpretes que não são de modo algum de nível inferior aos que agem no plano internacional”.

Porém, apenas o compositor português Francisco Chaves terá a oportunidade de integrar com uma estreia a Temporada Clássica da Metropolitana. Será com o Concerto para Violino e Orquestra, como José Teixeira como solista. A estreia está marcada para o dia 20 de outubro, em Castro Verde, de onde é originário o jovem compositor, atualmente radicado na Holanda. No dia seguinte, 21 de outubro, chega ao Teatro Thalia, sob a direção de Michael Zilm.

A outra estreia é de um compositor francês, Alain Bioteau, com uma obra orquestral, que será interpretada num concerto com o mote Paris-Lisboa. A obra foi escrita especificamente para a OML.

 

Temporada Sinfónica: “a riqueza de uma orquestra são os seus músicos”

O Eixo Sinfónico mantém-se no Centro Cultural de Belém (CCB) com sete projetos - apenas o concerto inaugural não acontece no CCB, mas no Mosteiros dos Jerónimos. O CCB é também palco do Atelier de Ópera e os dois concertos de Ano Novo.

Ao nível do repertório destaque para a 6ª Sinfonia de Mahler e Concerto para Orquestra de Lutoslawsky, uma obra maior do séc. XX, “raramente tocada e ouvida”. E as obras com solistas portugueses: Ana Pereira no Concerto para Violino e Orquestra de Prokofiev e Nuno Inácio Concerto para Flauta e Orquestra de Carl Nielsen.

“Os nossos solistas, da OML, têm nas temporadas da Metropolitana desde há três anos, um contexto de oportunidades. Temos alguns dos melhores músicos que trabalham nas orquestras portuguesas, é um privilégio por isso devemos acarinhá-los, dar-lhes oportunidades, não apenas no seio da nossa orquestra, mas num plano mais alargado e estimular o melhor nível técnico e exigência artística. Quando mais damos aos nossos músicos, mais recebemos deles próprios e melhor é a qualidade da orquestra”, defende Pedro Amaral. Acrescenta ainda que “a riqueza de uma orquestra são os seus músicos” e que “se eles não tiverem oportunidades, não vão continuar a trabalhar, esmorecem no seu ânimo”.

 

Música de Câmara, Atelier de Ópera e outros projetos

Mantém-se igualmente a aposta na Música de Câmara, com uma série de projetos, onde estarão envolvidos todos os músicos da OML. É nesta programação que a música portuguesa ganha algum protagonismo, com obras de Lopes-Graça, Luís de Freitas Branco, Pedro Amaral e outros nomes a anunciar ao longo da temporada.

De realçar a parceria com o Forum Voix Etouffées, que se dedica à promoção e divulgação de música de compositores cujas vozes foram abafadas pela História. Vários projetos de Música de Câmara irão abordar obras de compositores exilados pela História e pelos regimes políticos.

Com direção cénica e vocal de Jorge Vaz de Carvalho, a 5ª edição do Atelier de Ópera é dedicada à Flauta Mágica de Mozart. À semelhança dos anos anteriores, irá envolver um conjunto de jovens cantores, ainda estudantes ou em início de carreira, selecionados por audição. A produção estreia em janeiro de 2018 no CCB e vai estar em digressão em vários palcos da Grande Lisboa.

Também em digressão pelo país, irá continuar o Concerto de Ano Novo e o projeto Música em Ciência, com 10 concertos, em diferentes instituições, politécnico e universidades, com o apoio do Ministério da Ciência.

No Teatro S. Luiz, a OML vai participar, pela primeira vez, numa criação teatral do encenador Ricardo Neves-Neves – “O Solene Resgate ou a Reconquista de Olivenza”, de 8 a 18 de março. Já no final da temporada, também no S. Luiz, Sérgio Godinho interpreta os seus temas, naquela que será a sua estreia com acompanhamento de orquestra. Filipe Raposo fará os arranjos para a OML.

 

Protocolo com a Orquestra Sinfónica e o Coro da Rádio Televisão Espanhola

É na temporada 2017/2018 que entra em vigor o protocolo recentemente assinado entre a OML e a RTVE, Rádio Televisão Espanhola, que prevê uma colaboração estreita entre a OML e a Orquestra Sinfónica e o Coro da Rádio Televisão Espanhola.

Para já vão ser realizados diversos intercâmbios mas a ideia é que a partir de 2018/19, a OML passe a fazer um concerto, todos os anos, na temporada de concertos no auditório da orquestra da RTVE, em Madrid.

“Estamos muito animados com este protocolo sobretudo porque não o procuramos. Foi a RTVE que se dirigiu a nós a propor esta parceria com a OML – para nós é extremamente importante porque fomos a orquestra portuguesa escolhida para esta parceria. Isto abre perspetivas de futuro muito interessantes, daí podermos falar de expansão no sentido da internacionalização da OML”, diz Mega Ferreira.

 

“Os nossos alunos têm mais experiência e sabem tocar melhor em orquestra”

Pedro Amaral reconhece também o trabalho da Orquestra Académica Metropolitana, que provém da ANSO (Academia Nacional Superior de Orquestra): “A Orquestra Académica, juntamente com o alunos de Direção de Orquestra, têm uma programação com cinco projetos ao longo do ano, mais três grandes projetos sinfónicos com a OML. Qualquer um dos nossos alunos quando sai da licenciatura tocou duas ou três sinfonias de Mahler. Isto é um caso único em Portugal e raríssimo no plano mundial”.

Critica, assim, as escolas de música que ensinam os músicos a ser solistas: “A questão é que por cada 1000 músicos, talvez haja um que seja solista. A maior parte dos músicos depois integram as orquestras mas não foram preparados para essa integração. A ideia da ANSO é justamente preparar os músicos para tocarem em orquestra. Os nossos alunos têm mais experiência e sabem tocar melhor em orquestra do que solistas convidados que muitas vezes não têm essa experiência. Tivemos músicos que ganharam concursos e que tocavam maravilhosamente mas não conseguiam integrar-se no trabalho da orquestra”.

 

http://www.metropolitana.pt

Foto: © Metropolitana 

Finalistas PJM 2017

As Provas Eliminatórias do PJM realizaram-se de 11 a 16 de junho, no Conservatório Nacional. As provas finais realizam-se de  25 e 31 de julho, na Casa da Música - Porto.

Categoria A 
Solistas | Nível Superior

Trompa

- Ana Beatriz Capaz Assunção da Cunha Menezes
- Jaime Resende
- Luis Duarte Dias Moreira


Tuba

- José Filipe da Silva Neto Santos
- José Miguel Batista Canada
- Sofia Simões Blanch Diniz Moody

 

Violino

- Ana Luisa Maia de Carvalho
- André de Sousa Caldeira Gaio Pereira
- Manuel Maria de Almeida Ferrer

 

Viola dedilhada (guitarra clássica)

- Joaquim António Ferreira dos Santos Simões
- Miguel Novais e Saturnino de Matos
- João Robin Dias Rocha

 

Solistas | Nível Médio

Clarinete

- Alexandre Gomes Abreu
- João Daniel Guimarães Teixeira Ribeiro
- Miguel André Sousa Coelho

 

Contrabaixo

- Marta Carvalho Foley
- Nuno Fernando Marques Osório
- Pedro David dos Santos de Figueiredo

 

Categoria B
Música de Câmara | Nível Superior

- Trio Adamastor: Francisco Henriques, José Ribeiro, Pedro Massarrão
- Quarteto Appassionato: Telma Mota, Sérgio Sousa, Sara Abreu, João Castro 
- PentaUnio: Inês Coelho, Joana Soares, Ana Nunes, Leonardo Coelho, Raúl Tavares

 

Música de Câmara | Nível Médio

- Quartetiev : Francisca Feyo, Laura Álvares,Leonardo Guedes, Francisca Brito
- Quin'Tacet: Miguel Coelho, Rui Pires, Margarida Martins, Vasco Teixeira, Andreia Costa
- Quinteto À´laise: Melanie Gil, Iara Alves, Luís Carneiro, Diogo Moutinho, Hugo Freitas

 

Categoria C
Canto

- Ana Sofia da Silva Marafona
- Maria Cecília Guimarães Rodrigues
- Susana Marinho Alves Vieira

4ª Edição Impressa

É facto que ainda há muito caminho pela frente e “muita pedra para partir”, mas é também facto que muita coisa boa tem sido feita no campo da música erudita em Portugal. Não são apenas os prémios internacionais conquistados pelos nossos músicos e compositores, mas também os inúmeros projetos que têm feito a diferença. Apontamos apenas alguns: "Os dilemas dietéticos de uma matrioska do meio", pelo Quarteto Contratempus, com texto original de Mário João Alves, música de Nuno Côrte-Real e encenação de António Durães; “A Rainha Louca”, a segunda ópera de Alexandre Delgado, foi apresentada no Brasil, no Festival Internacional de Música do Pará, numa produção de Christina Margotto com o Toy Ensemble; o Concerto para Piano e Orquestra de Mário Laginha que regressou ao palco para uma digressão nacional; a criação do Quarteto de Cordas de Guimarães; a música portuguesa que se fez ouvir na Suíça e na Rússia como marca cultural; o sucesso que a compositora portuguesa Andreia Pinto Correia tem tido nos Estados Unidos...

Ao nível das gravações, também há boas notícias: continuam a ser editados discos, apesar da crise no mercado das vendas. Louvamos o trabalho de Sérgio Carolino, do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, Trio Pangea, Banda Sinfónica Portuguesa, Ensemble Darcos e Artway Records, entre outros. Grava-se por prazer, por missão, por valores que secundarizam os interesses monetários. Mesmo assim, é preciso muito mais apoios institucionais e privados e, sobretudo, mais pessoas a comprar discos (já disponíveis em formato digital), a começar pelos próprios músicos. A mesma lógica também para as partituras – os compositores não podem compor apenas por gosto! E faltam livros, os estudos que estão fechados em discos rígidos têm de sair para o papel ou para o online - têm de ser conhecidos, divulgados, discutidos.

Nos mais novos, destacamos as primeiras vezes no PJM: a estreia da categoria de Direção de Orquestra, com um pódio de luxo - Nuno Silva, José Eduardo Gomes e Jan Wierzba; e a atribuição do Prémio Jovem Músico do Ano a um vencedor do nível médio – Agostinho Sequeira provou que o talento não se mede aos palmos.

Por fim e não menos importantes, dois nomes incontornáveis: Bruno Borralhinho e Paulo Ferreira. Não vivem em Portugal mas não esquecem as origens. Bruno Borralhinho esteve em Lisboa a gravar Portuguese Music for Cello and Orchestra, com obras de Luís de Freitas Branco, Luiz Costa, Fernando Lopes-Graça e Joly Braga Santos, acompanhado pela Orquestra Gulbenkian dirigida por Pedro Neves, ou seja, tudo em português. É também notável o trabalho que tem feito com o Ensemble Mediterrain, presença já habitual nos Dias da Música.

E Paulo Ferreira, que depois da sua estreia internacional, em 2011, na sala Phillarmonie, em Colónia, ao lado de Anna Netrebko, conta já com 18 papéis principais do chamado “Grande Repertório”. O seu regresso a Portugal ainda não está agendado, mas estamos ansiosos por o aplaudir ao vivo.

É nesta missão de provocar aplausos que nos comprometemos a dar voz à Música, seja pelos músicos e intérpretes, pelos compositores, pelos grupos, ensembles e orquestras, seja pelas escolas, pelos alunos e professores, seja pelas salas de espetáculo e seus programadores, seja sobretudo pelo público que os quer ouvir.

 

A TEMPO

Notícias

 

A SOLO

Iva Barbosa

Luís Vieira

Ricardo Silva

Sérgio Carolino e a Música Portuguesa

Andreia Pinto Correia

Concerto para Piano de Mário Laginha

 

DESTAQUE

Bruno Borralhinho

 

TUTTI

Orquestra Clássica do Centro

Quarteto de Cordas de Guimarães

Trompas Lusas

 

CANTABILE

Paulo Ferreira

Rainha Louca no Brasil

Os dilemas dietéticos de uma matrioska do meio

 

TALENTI

Jovens Premiados

Agostinho Sequeira, Jovem Músico do Ano

Nuno Coelho, vencedor PJM em Direção de Orquestra

Pedro Lima Soares, Vencedor do Prémio de Composição SPA/Antena 2

Laureados Prémio Jovens Músicos

 

ACADEMIA

Max e Mia - A Educação Musical Precoce

 

INTER

Aniello Desiderio em Amarante

Música Portuguesa na Suíça e na Rússia

 

FESTIVAIS

 

AD LIBITUM

Mozart in the jungle - Maria Fernandes

O Senhor X - Júlia Durand

Descobrir a História da Música - Ana Margarida Cardoso

O estudo individual do instrumento - Ana Beatriz Manzanilla

Técnicas de recuperação para alunos de violino - Daniel Leão

Hábitos de preparação técnica e mental da performance - Vítor Matos e Paulo Martins

Música, simplesmente música! - Ana Seara

 

SUGESTÕESS

Scherzo Editions

Ava Editons

Livros

Discos

Sérgio Carolino apresenta Super Alive!

O disco é japonês mas a música é portuguesa. Com o projeto Yamaha Tuba Duo, onde toca com Shimpei Tsugita (tuba), Rena Hashimoto (piano) e Taro Someya (percussão), Sérgio Carolino desafiou vários compositores a escrever música para esta formação – a maioria são portugueses. O disco foi editado em 2016 e conta com obras de Luís Cardoso, Amílcar Vasques Dias, Andreia Pinto-Correia, Ivan Moody, Kohei Nishishita, Jorge Prendas, Daniel Martinho e Jim Self.

 

É mais do que reconhecido a nível internacional o talento e trabalho do tubista português. Além da sua interpretação eclética, desde o típico repertório clássico ao mais puro jazz e música improvisada, Carolino tem-se destacado também pela ação dinamizadora na música contemporânea, fazendo inúmeras encomendas, onde se coloca à disposição da criatividade dos compositores do nosso tempo. São mais de 200 as obras escritas para os seus diversos projetos e são quase 50 os discos editados. Em 2016, foram lançados quatro discos: “Faraway, Nearby”, com os Conical Brass - Jeff Nelsen (trompa) e Telmo Marques (piano), e obras de Telmo Marques, David Gillingham, Lon W. Chaffin e Gary Kulesha, edição da Afinaudio; “Tubax”, em duo com Mário Marques (saxofone), que também fez a edição, e obras de Howie Smith, Petri Keskitalo, John Zorn, Ennio Morricone, Jon Hansen e Jérèmie Dufort; “Moderato Tangabile”, com obras originais de Daniel Schvetz, edição da Afinaudio e, por fim, “Super Alive!”, com o projeto Yamaha Tuba Duo, edição da japonesa Cryston.

No início de 2017, tinha já pronto “Deep in the Forest”, com o Duo TUBAB, música original dos dois músicos – Sérgio Carolino e Jorge Queijo, edição de José Diogo Neves. Porém, até ao fim do ano mais projetos serão gravados e editados, entre eles “TransAtlantic Tuba Connection”, com Mike Forbes (tuba) e Pedro Silva (set up de bateria), edição de José Lourenço.

 

Obra de Luís Cardoso recebeu prémio da Associação Internacional de Tuba e Eufónio

“Super Alive!” nasceu de uma digressão pelo Japão, organizada pela Yamaha. Para a gravação, Carolino fez questão de incluir música portuguesa: “Nós temos compositores fantásticos. A nossa música é muito boa!”.

A prova não se fez esperar. A obra “Abbas Alcobatia” (O Abade de Alcobaça) de Luís Cardoso acabou por ganhar o prémio Harvey Phillips Award Prize for Excellence in Composition, na categoria de Tuba-Euphonium Ensemble, distinção atribuída pela International Tuba Euphonium Association (Associação Internacional de Tuba e Eufónio), no âmbito da Conferência de 2016, na Universidade do Tennesse, em Knoxville, nos Estados Unidos da América.

A estreia aconteceu no Phoenix Hall, em Osaka (Japão), a 5 de Novembro de 2015 por Sérgio Carolino e Shimpei Tsugita (Tubas) e Rena Hashimoto (piano), que a gravaram no no Yamaha Concert Hall em Ginza, Tóquio.

 

“trabalhar com os compositores e desenvolver algo novo”

Além de “missão” de divulgar a música portuguesa além-fronteiras, faz também questão de escolher repertório diferente, onde possa tocar com outros colegas tubistas, um vez que nas orquestras há apenas uma tuba: “Se eu quiser tocar com o meu amigo da Filarmónica de Londres não há repertório. Comecei a fazer encomendas que têm sido um sucesso, porque agora há muita gente a tocar as peças com outros amigos de outras orquestras. Nós estamos sempre sozinhos mas agora temos repertório para tocar com os amigos”.

Afirma gostar de “trabalhar com os compositores e desenvolver algo novo”. Diz não dar muitas opiniões porque “os compositores sabem bem o que estão a fazer”: “Eu nunca digo que não, pois quero sempre experimentar o que eles fazem. Estar a escrever com o compositor é também deixá-lo criar e criar à maneira dele! É desafiante, mas é a única maneira de fazer evoluir o próprio instrumento em termos de repertório interessante. Trabalhar música sob aquele aspeto do óbvio não tem interesse.”

Defende, assim, que o compositor não pode ficar limitado ao instrumento. E dá exemplos:”Já antigamente, Prokofiev e Wagner escreviam coisas e não tinham músicos capacitados para as tocar, mas hoje já é possível tocá-las. Eram visionários, já sabiam que aquele instrumento tinha aquela capacidade e que no futuro iria ser possível. Shostakovsky quando escreveu o concerto de violoncelo devia ser impossível de o tocar, mas ele também queria explorar o Rostropovich.”

 

“cada disco tem o seu próprio conceito e deve ser personalizado”

A própria produção de um CD deve ser única: “Para mim, o projeto de gravar um disco engloba compositores, colegas músicos, designers, engenheiros de som, etc. Nós queremos sempre mais, queremos tocar bem, mas cada disco tem o seu próprio conceito e deve ser personalizado, porque a música também foi feita e escolhida a pensar no projeto. É algo artístico e não para se fazer negócio”.

Confirma que pouco ou na se ganha com a venda de Cds, mas há outras vantagens: “Usamos os discos como cartão de visita para tentar vender um concerto. Se as pessoas gostarem do concerto, também irão gostar de levar uma recordação para casa e compram um disco, levam um autógrafo, é mais o momento em si. E também é bom para os compositores, que veem a sua música gravada, registada. E o que eles querem é que a sua música seja ouvida!”

 

Projeto “muito especial” com ex-alunos

Carolino volta ao Japão em junho para uma nova digressão com Shimpei Tsugita e adianta que já novas encomendas e mais gravações planeadas.

Em agenda está também a gravação de um disco muito especial, com alguns dos seus ex-alunos - Romeu Silva, Adélio Carneiro, João Aibeo, Luís Oliveira, Xavier Novo, Ricardo Carvalhoso e Ricardo Antão já confirmaram. O CD terá obras, em estreia, de Eurico Carrapatoso, Luís Cardoso, Amílcar Vasques Dias, Eugénio Amorim, Telmo Marques, Mico Nissim (França) e Howie Smith (EUA).

“É um projeto especial pois acompanhei estes alunos, quase todos desde tenra idade. Vi-os crescer enquanto homens e evoluir enquanto músicos até se tornarem profissionais, professores , pais, ganharem concursos internacionais, posições em várias orquestras... Sinto que são uma parte de mim e pelos quais dei imenso da minha energia, do meu tempo, da minha sabedoria e da minha experiência”, sublinha.

As obras foram encomendadas de acordo com a “personalidade, estilo e sonoridade de cada um” dos seus ex-alunos: “Penso que irei tirar o melhor partido musical e artístico de cada um e eles irão sentir-se mais à vontade no "seu território"!”

 

“que não seja através da música que surjam mais problemas”

Em julho, vai estar em Chicago a gravar com Gene Pokorny, tuba principal da Chicago Symphony Orchestra, também com obras para duas tubas e piano, encomendadas a Luís Cardoso e Eurico Carrapatoso (Portugal), Torstein Aagaard-Nilsen e Kjell Mork Karlsen (Noruega), Low W. Chaffin (EUA) e Paul Terracini (Austrália).

Sérgio Carolino acredita que “uma das funções da música é unir os povos”. Com efeito, apela a que “as pessoas tenham um boa atitude, trabalhem mais em equipa, continuem humildes e a aprender”.

“Ouçam música, vão ver concertos, leiam livros, vejam bons filmes, sejam pessoas cultas porque não podemos deixar a ignorância instalar-se nesta nova sociedade, sobretudo no nosso país, em que as pessoas precisam ficar unidas - somos poucos mas se estivermos divididos e não houver uma união, se as pessoas não trabalharem com positividade, não se vai longe. Já temos muitos problemas, por isso que não seja através da música que surjam mais problemas”, recomenda.  

Peter Grimes no São Carlos

30 de maio, 1, 3, 5 e 7 junho, no Teatro Nacional São Carlos

Apresentada pela primeira vez em Portugal, a ópera Peter Grimes de Bejamin Britten, numa produção da ENO — English National Opera, Vlaamse Opera, Ópera de Oviedo e Deutsche Oper Berlin, promete surpreender o público pelo realismo e crítica social. Tanto o elenco como o Coro S. Carlos, acompanhados pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, dão o máximo num espetáculo imperdível.

É uma ópera do séc. XX, com todos os ingredientes de uma ópera moderna, desde o cenário à encenação, passando pela música e pelo drama realista. Peter Grimes não é uma grande história de amor, nem vive das inquietações dos amados. Peter Grimes é um homem comum, como tantos outros, incompreendido e desprezado pela sociedade que procura argumentos para o condenar. É o drama de quem é socialmente excluído e ainda sofre com as fatalidades do destino.


 

“como todos nós somos tão rápidos dizer que alguém está louco, e talvez não esteja”

Com libreto de Montagu Slater e encenação de David Alden, a ação desenrola-se no pós-guerra, em 1945, numa sociedade moralmente hipócrita. “O que David [Alden] queria era trazer todas as influências para a Grã-Bretanha, o musical americano, etc... todas essas influências estão lá! A hipocrisia dos britânicos é apresentada de forma clara”, explica Ian Rutherford, responsável pela reposição.

Conta ainda que esta “grande ópera, com uma grande companhia” fala-nos de responsabilidade social: “Como vemos a hipocrisia da sociedade - eles condenam rapidamente Peter Grimes quando tudo o que eles fazem é igualmente mau, ou seja, precisam também de olhar para os seus próprios defeitos. Outra coisa interessante é como todos nós somos tão rápidos dizer que alguém está louco, e talvez não esteja, talvez Peter não seja louco de todo. É uma vítima.”

 

“somos levados pelo drama e pela emoção como se estivéssemos a ver um filme ou uma peça de teatro”

Pela quarta vez no papel de Peter Grimes, o tenor John Graham-Hall define o seu protagonista como “um estranho, um pescador que é odiado por todos na aldeia onde vive, não se mistura nem faz amizade com eles. É um homem perturbado, com uma infância difícil. Quando volta de uma viagem de pesca, é confrontado com a morte do seu aprendiz. Eles vão usar isso para o odiarem ainda mais”. Lembra que nem só de ódio vive Peter Grimes: “Ele passa parte da ópera a tentar ganhar o dinheiro suficiente para poder casar com Ellen, a professora da escola, que também o ama. Imagina uma linda casa, com frutas no jardim e os cuidados da sua amada. É uma alma muito poética.”

Tão importante como o drama é a música de Benjamin Britten: “Se ele coloca uma nota aguda é porque há uma situação muito dramática para observar. Ele trabalha o texto em inglês melhor do que qualquer um, portanto, somos levados pelo drama e pela emoção como se estivéssemos a ver um filme ou uma peça de teatro”.

 

“O David Alden gostou imenso do nosso trabalho e já tivemos imensas boas críticas”

Em destaque está também a coreografia de Maxine Braham, que não deixa escapar nenhum pormenor, sobretudo nas cenas de multidão. Para Ian Rutherford, o Coro do Teatro Nacional de S. Carlos “é um dos melhores”, por isso “foi um privilégio” poder trabalhar com estes coristas: “O som está fantástico. Eles trabalharam arduamente. O nível é muito alto”. E não reconhece os cantores pela sua nacionalidade: “É uma mistura. Não dá para perceber quem são os portugueses ou quem são os ingleses, porque todos trabalharam imenso e com uma grande performance”.

No elenco estão os portugueses Carlos Guilherme, como Reverendo Horace Adams; João Merino como Ned Keene; Nuno Dias como Hobson; Bárbara Barradas, Mariana Castello-Branco (as Sobrinhas) e Maria Luísa Freitas no papel de Mrs. Sedley.

“Este papel foi desafiante a todos os níveis: vocalmente é difícil porque vai de um extremo agudo a um extremo grave e é um canto bastante falado, tem de se perceber exatamente o que estão a dizer. Depois no quarteto há grandes linhas líricas e nos ensembles elas cantam sempre por cima de todos, ou seja, é um papel muito exigente vocalmente. Apesar de ser parecer pequeno, não é, estamos sempre em palco. Foi muito difícil a nível coreográfico porque é tudo ao pormenor”, afirma Bárbara Barradas. O trabalho com João Paulo Santos foi imprescindível, “não só a nível musical mas também com o texto”. O desafio foi superado com sucesso: “O David Alden gostou imenso do nosso trabalho e já tivemos imensas boas críticas”.

 

“muito raramente se faz ópera desta e com este nível em Portugal”

Para Bárbara Barradas, é uma ópera imperdível porque “muito raramente se faz ópera desta e com este nível em Portugal, não é só por termos bons cantores, o maestro é fantástico, a orquestra está a tocar muito bem, a encenação é grande e é teatro a sério, não é cliché da ópera de todo. É completamente surpreendente!”

Na direção da Orquestra Sinfónica Portuguesa está o experiente maestro Graeme Jenkins – dirigiu inúmeras produções de ópera em Inglaterra, Alemanha, Áustria, França, Suécia, Holanda, Austrália, Estados Unidos, Canadá, Hong Kong. Esta é a sua segunda vez em Portugal – foi o maestro da ópera Tristan und Isolde, que esteve em cena há apenas três meses, no Centro Cultural de Belém.

 

Quem é Peter Grimes?

Peter Grimes é um pescador que vive isolado na pequena aldeia costeira de Suffolk, em Inglaterra. A comunidade local questiona o seu comportamento, esmiunçando os seus defeitos em busca de algum crime que o possa condenar inequivocamente. A oportunidade acontece quando um dos aprendizes de Grimes morreu durante uma das expedições no mar. Depressa os cidadãos da pequena aldeia costeira de Suffolk,o interrogam, já convencidos da sua culpa. No entanto, Swallow, o juíz, declara a morte do rapaz acidental, mas aconselha Peter Grimes a não procurar outro aprendiz. Em vão. É Ellen Orford, a sua amada professora, que o apoia e lhe arranja um novo aprendiz – John.

Tempos depois, é a própria Ellen a questionar os métodos de Peter Grimes, quando encontrar nódoas negras no seu aprendiz. Grimes diz que foi um acidente e foge com o rapaz, abandonando bruscamente a sua amada.

Entretanto, os habitantes revoltam-se e perseguem Grimes até à sua cabana. À medida que a multidão se afasta, Ellen, Auntie e suas "sobrinhas" cantam tristemente a relação das mulheres com os homens. Quando Grimes ouve a multidão de aldeões, decidi ir para o mar. Diz a John para ter cuidado ao descer do penhasco para o barco mas o menino cai e morre. Quando a multidão chega à cabana, não encontra ninguém, acabando por dispersar.

A camisola de John aparece e é reconhecida por Ellen. A moralista Sedley tenta convencer as autoridades que Grimes é um assassino. A multidão volta a procurá-lo.

Ellen e Balstrode encontram-no e aconselham-no a levar o barco para o mar e a afundá-lo.

Rui Pedro Rodrigues

Foi para Berlim à procura de outros sonhos e logo no primeiro ano da licenciatura na Universidade de Música Hanns Eisler conseguiu lugar na Academia da Orquestra Sinfónica da Rádio de Berlim (Rundfunk-Sinfonieorchester Berlin), onde está desde setembro do ano passado. Atualmente, é também Contrabaixo solo da Orquestra de Jovens da União Europeia e membro da Gustav Mahler Jugendorchester.

 

Desde que chegou a Berlim, a cidade que “respira arte, tradição musical e oportunidades” para estudar na Hochschule für Musik “Hanns Eisler“, Rui Pedro Rodrigues tinha como objetivo fazer provas para as academias das orquestras. “Estando numa cidade repleta de orquestras sinfónicas e casas de ópera do mais alto nível, as oportunidades vão surgindo naturalmente e foi de facto um enorme orgulho ter conseguido cumprir este objetivo ainda no meu primeiro ano de licenciatura. A Orquestra Sinfónica da Rádio de Berlim é uma instituição quase centenária, extremamente bem reputada e, como tal, estou muito contente”, sublinha.

Começou em setembro do ano passado o período como academista, uma experiência que define como “altamente enriquecedora a todos os níveis”. E dá exemplos: “Trabalhar lado a lado com músicos de um patamar elevadíssimo e pertencer a uma orquestra com uma visibilidade e uma tradição de renome é realmente inspirador para qualquer jovem músico. Estou muito satisfeito e tenho ainda a sorte de ter um tutor e uns colegas de naipe acessíveis e amigáveis, o que torna o processo de aprendizagem ainda mais rápido e prazeroso. Espero continuar a evoluir e a aprender até ao final do meu contrato (julho de 2018).”

 

“Não podemos comparar o panorama nacional artístico com outras realidades europeias”

O desafio tem sido conciliar a Academia com o curso e outros projetos de orquestra. Rui Pedro tenta esta à altura e diz ter a consciência de que esta é “uma fase importante” na sua “aprendizagem e familiarização com as rotinas de trabalho de um músico de orquestra”. Acredita, assim, que o seu futuro passará pelo trabalho em orquestra.

Foi a pensar no seu futuro que saiu de Portugal: “É triste quando temos de sair do nosso país porque percebemos que as oportunidades na nossa área são diminutas. Há cada vez mais músicos a ir estudar para fora e penso que muitos deles partilham esta opinião. Não podemos comparar o panorama nacional artístico com outras realidades europeias. Fazer o curso superior em Portugal não era por isso o meu objetivo, e felizmente, fui admitido numa das melhores universidades do mundo para os instrumentistas de cordas.”

 

“na Alemanha as prioridades estão melhor definidas e são mais pragmáticos no que toca ao mercado de trabalho”

Considera que “o ensino na Alemanha é bem mais focado na parte prática do curso”, ou seja, “na Alemanha as prioridades estão melhor definidas e são mais pragmáticos no que toca ao mercado de trabalho”.

Relativamente à procura e oferta cultural, as diferenças não podiam ser maiores: “História, contextos e costumes diferentes, portanto, diferentes formas de vida. Na Alemanha, as pessoas procuram infindavelmente o enriquecimento artístico e criativo. Existe uma adesão enorme aos museus, exposições, concertos e todas as mais variadas formas de arte. As famílias vão ouvir as orquestras, estão por dentro do que se passa, sabem que este maestro vai dirigir aquela orquestra nessa semana e por isso as salas estão sempre cheias”.

Enquanto que, em Portugal, “o centro de interesse consiste no futebol, televisão e centros comerciais. Vive-se numa sociedade de consumo em que, infelizmente, consome-se pouca cultura. É uma realidade triste. A oferta cultural tem vindo a aumentar, mas a mudança ocorre a um ritmo ainda muito lento”.

Porém, apesar de todas as diferenças, Rui Pedro Rodrigues confessa que é em Portugal que gosta de estar e gostaria de fazer carreira no futuro, por ser “um verdadeiro paraíso em muito aspetos (excepto na música erudita)”.

 

Das memórias felizes em Braga à mestria do professor Tiago Pinto-Ribeiro em Espinho

Começou a estudar música aos seis anos, no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga e de lá traz “as memórias mais felizes” e “uma base teórica muito sólida”.

Porém, o momento-chave da sua formação no Contrabaixo foram os três anos que estudou com o professor Tiago Pinto-Ribeiro, na Escola Profissional de Música de Espinho: “Sem dúvida, a pessoa mais importante no meu percurso até agora. Um verdadeiro mestre não só na área da performance mas na arte do ensino. Comecei por aprender a pegar no arco e acabei a conquistar objetivos que nem sonhava serem possíveis”.

Nesses objetivos que não ousava sonhar estavam a entrada na Orquestra de Jovens da União Europeia, que conseguiu logo no 11º ano: “Foi um momento muito marcante. Era dos mais novos da orquestra e foi o meu primeiro contacto com outros jovens músicos provenientes de toda a Europa. Aprendi imenso e motivou-me a continuar a trabalhar.”

Um ano depois, outro sonho: a admissão na Hochschule für Musik “Hanns Eisler” Berlin, na classe do professor que pretendia - Matthew McDonald. Foi ainda Tiago Pinto.Ribeiro que o ajudou a preparar-se para a prova da Academia: “Ensinou-me tudo o que sei até hoje e, como tal, para além da minha família que sempre me apoiou incondicionalmente, é graças a ele que hoje também escrevo estas palavras.”

 

“a consciência, o nível da performance e o nível do ensino dos músicos portugueses aumentaram significativamente”

Defende a evolução do Contrabaixo em Portugal, à semelhança dos outros instrumentistas portugueses. Aponta como exemplo o número crescente de contrabaixistas admitidos nas orquestras de jovens europeias como a EUYO ou a Gustav Mahler Jugendorchester. “Ano após ano, cada vez somos mais e melhor representados. É motivo de orgulho porque há uns anos o panorama era diferente. Acredito que em geral, a consciência, o nível da performance e o nível do ensino dos músicos portugueses aumentaram significativamente”, afirma.

E para que o crescimento continue a atinja patamares mais elevados aconselha os jovens contrabaixistas “a saírem das salas estudo, do ambiente fechado e a procurarem quem possa oferecer algo mais”.

“Creio que é fundamental darem-se a conhecer e procurarem as pessoas certas. Eu tive a sorte de encontrar em Portugal um professor ao nível dos melhores da Europa que me deu as ferramentas necessárias para poder chegar onde estou hoje. Se não o tivesse feito, a minha carreira teria rumado a um futuro bem menos prometedor”, acrescenta.

 

“a definição de sucesso é diferente e subjetiva a cada pessoa”

Rui Pedro Rodrigues compara o trabalho de um músico a um atleta de alta competição: “Para além do óbvio que será o estudo intensivo e adequado ao programa a apresentar, existem outros aspetos que muitas vezes acabam por ser negligenciados, desde o sono à alimentação, fatores psicológicos… No fundo, rotinas criadas em função do desafio”.

Diz que vão existir sempre variáveis fora de controlo, por isso aconselha: “adaptar a nossa preparação para que a probabilidade de a nossa performance ser bem sucedida seja a mais alta possível. Ainda assim, a definição de sucesso é diferente e subjetiva a cada pessoa”.

 

“a preparação psicológica antes do momento em palco terá certamente benefícios na performance”

No que diz respeito à saúde física e mental, tenta manter uma alimentação equilibrada, praticar desporto e ter um bom ciclo de sono.

Para o stress em palco, também há cuidados a ter: “costumo compará-lo com as montanhas russas: Na primeira vez os nervos estão à flor da pele, mas à medida que se repete o percurso muitas vezes, certamente a ansiedade não será tão forte como da vez anterior e, apesar de nunca desaparecer por completo, conseguimos lidar melhor com este fator. Como também já referi, a preparação psicológica antes do momento em palco terá certamente benefícios na performance”. 

 

 

Rui Pedro Rodrigues 

Rui Pedro Guimarães Rodrigues iniciou os seus estudos musicais aos seis anos no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga. Em 2012 ingressou na Escola Profissional de Música de Espinho, na classe de contrabaixo do professor Tiago Pinto-Ribeiro.

Em 2014, apresentou-se a solo com a Orquestra Clássica de Espinho e foi admitido na European Union Youth Orchestra Leverhulme Summer School. Apresentou-se mais tarde com a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música e Spira Mirabilis. Participou em masterclasses com Wolfgang Güttler, Simo Väsãnen, Wies de Boevé, Luís Cabrera, Michael Wolf, entre outros.

Contrabaixo solo da European Union Youth Orchestra e membro da Gustav Mahler Jugendorchester, Rui Rodrigues é também, na presente temporada, academista da Rundfunk-Sinfonieorchester Berlin e músico convidado da Budapest Festival Orchestra.

Atualmente, frequenta o seu segundo ano de licenciatura na Hochschule für Musik "Hanns Eisler“ Berlin, na classe do professor Matthew McDonald.

Ricardo Silva

Conheceu a música numa banda filarmónica, estudou, batalhou e foi parar à Academia Karajan da Orquestra Filarmónica de Berlim, o auge de qualquer jovem músico. Tocou ao lado dos melhores do mundo e nas salas mais conceituadas.

Atualmente está a apostar na música de câmara, com o quinteto Veits, com quem está a fazer uma pós-graduação na Hochschule de Trossingen, na Alemanha.

De palco em palco, percebeu também que Portugal tem realizado um trabalho na Trompa “do melhor que há a nível mundial”.

 

“mesmo os melhores músicos do mundo são humanos e lidam com os mesmo problemas que todos lidamos diariamente”

Ser academista na academia da Orquestra Filarmónica de Berlim foi “a melhor experiência a nível profissional” que teve até hoje: “Sinto que, aconteça o que acontecer daqui para a frente, já valeu a pena todo o trabalho realizado ao longo destes anos. Acho que a Academia Karajan é uma plataforma para dar a conhecer a jovens músicos como é o dia-a-dia de uma orquestra de nível mundial, como são as pessoas, como veem a música e como a interpretam no seu instrumento. E claro, isto dá-te uma preparação muito grande para o mercado de trabalho.”

Em Berlim, Ricardo Silva aprendeu que “mesmo os melhores músicos do mundo são humanos e lidam com os mesmo problemas que todos lidamos diariamente, a dificuldade para dominar o instrumento, as imensas horas de estudo, o nervosismo em palco, o medo de falhar, etc.”

 

“a sorte e o orgulho” de poder partilhar esta experiência com outro português – Luís Vieira

Teve “a sorte e o orgulho” de poder partilhar esta experiência com outro português – Luís Vieira. É de realçar que os dois lugares de Trompa da Academia Karajan eram ocupados por portugueses, ou seja, uma situação inédita na história dos músicos portugueses. “Sempre nos fizeram sentir como “um membro da orquestra” e não simples alunos da academia. Nisso tivemos muita sorte”, sublinha.

Para sempre, ficam os contactos e os momentos inesquecíveis: “toda essa experiência de subir ao palco com esses músicos, as viagens e concertos nas melhores salas mundiais, o conversar diariamente e até as amizades criadas com muitos deles, são coisas que ficarão para a vida”.

 

“Ao nível do ensino, Portugal faz já um trabalho excecional a nível mundial, especialmente na formação de jovens músicos”

Também em Berlim, fez o mestrado na Hochschule für Musik “Hanns Eisler”, na classe de Marie Luise Neunecker, depois de se ter licenciado na ESMAE, com Bohdan Sebestik e Abel Pereira. “Ao nível do ensino, Portugal faz já um trabalho excecional a nível mundial, especialmente na formação de jovens músicos. Somos um povo muito emotivo, pelas nossas raízes e culturas e isso reflete-se de forma super positiva na qualidade dos músicos portugueses”, afirma.

Para Ricardo, a diferença está apenas na forma como se vê e interpreta a música: “Claro que podemos falar nas melhores condições das universidades alemãs, mais apoio, etc. Mas eu acho que a diferença está no meio musical do país. A Alemanha tem uma tradição de centenas de anos em Música Clássica, onde os principais nomes da história da música lá nasceram ou viveram parte da sua vida. Todo esse meio, o facto do mercado ter mais oportunidades dá outra motivação tanto a alunos como professores.”

 

“Se não dermos importância à música e às emoções que queremos transmitir somos meros instrumentistas”

Foi na Alemanha que teve a oportunidade de tocar um ano como 1º Trompa na Staatsoper de Hannover e, posteriormente, na Staatsorchester de Kasse, onde esteve até dezembro passado. “Foram claro, grandes experiências, sobretudo porque eu adoro ópera e a forma como as orquestras de ópera trabalham na Alemanha: muitas produções e excelentes músicos e maestros”, destaca.

Sente-se mais motivado ao fazer música de câmara, “de poder tocar em conjunto, comunicar no palco com outros músicos”. Considera fundamental “a capacidade de saber ouvir e ter a destreza de compreender e adaptar-se a diferentes estilos”, não descurando, claro, “uma boa formação” a nível técnico: “Se não dermos importância à música e às emoções que queremos transmitir somos meros instrumentistas”.

 

“o segredo está na boa preparação do programa a executar”

Está a realizar o sonho de ter um grupo de música de câmara de “alto nível” com o Veits Quintet, um quinteto de sopros composto por amigos de três nacionalidades diferentes: “Tenho a imensa sorte de poder partilhar o palco com estes músicos e as experiências que passámos juntos foram e estão a ser incríveis”.

Em palco, “o segredo está na boa preparação do programa a executar”. O stress é normal: “por muito que as pessoas me digam que eu pareço muito calmo e descontraído no palco, estou sempre nervoso quando tenho que executar com responsabilidade”. A estratégia é “saber controlar a respiração”, uma ajuda válida para “todos os momentos de ansiedade dentro e fora da música”.

 

“se não fosse pela música nunca seria a pessoa que sou hoje”

À semelhança de muitos músicos, Ricardo Silva iniciou os seus estudos musicais numa filarmónica. Na Banda Visconde Salreu (Aveiro), criou amizades e aprendeu também valores e princípios humanos: “Embora já não toque com a Banda há uns bons anos, sinto que sou sempre bem-vindo à instituição e às vezes faço uma visita quando venho a Portugal”.

Não obstante “as imensas horas de estudo” que privam de “muita coisa”, confessa que “com boa energia e vontade consegue-se fazer tudo na mesma”. E dá exemplos: “Sempre consegui sair com os amigos, fazer desporto, tudo o que os meus amigos não músicos faziam. Claro que a vida é muito mais stressante, mas as compensações que tive até hoje são únicas: as viagens que fiz, os palcos onde toquei, as pessoas e as culturas que conheci, etc. Enfim, se não fosse pela música nunca seria a pessoa que sou hoje”.

 

“Todos temos que estar orgulhosos pela grandeza do panorama da Trompa em Portugal”

Em Portugal, toca com a Orquestra XXI, “não só pelo que representa, mas também pela qualidade humana e artística dos seus membros”. Defende que “tocar com grandes músicos é muito bom, mas se para além de grandes músicos forem grandes amigos, é uma sensação incrível.”

Sobre o desenvolvimento da classe da Trompa não tem dúvidas: “Todos temos que estar orgulhosos pela grandeza do panorama da Trompa em Portugal, que tem realizado um trabalho do melhor que há a nível mundial”. E aponta os resultados: “Temos, por exemplo, o Abel Pereira, um trompista que realiza uma carreira brilhante pelos Estados Unidos, que, além de referência pessoal, é neste momento uma referência mundial. Temos trompistas a ser premiados em concursos internacionais do mais alto nível, temos constantemente trompistas portugueses em todas as orquestras juvenis europeias e mundiais e nas melhores academias de orquestra. E para não falar do nível dos excelentes trompistas que trabalham em Portugal que teriam condições para competir com os melhores lá fora”.

 

“uma geração empreendedora e com vontade de lutar por aquilo que sonha”

Descreve a sua geração de músicos como “uma geração empreendedora e com vontade de lutar por aquilo que sonha”. Louva o sacrifício dos que saem de Portugal para “ampliarem os seus conhecimentos e tentarem algo diferente na vida”. E louva os que ficam cá e lutam com “projetos ambiciosos”: “Dou muito valor àqueles que trabalham para o meio musical em Portugal. A qualquer um digo para não ter medo de arriscar, de ir atrás daquilo que nos faz felizes.”

Lamenta “a corrupção, abuso de poder e a má gestão que travam a evolução artística”, mas acredita que em Portugal estão a ser feitos “grandes esforços no sentido de se melhorar as condições de trabalho de músicos e professores.”

José Eduardo Gomes

No espaço de um ano, o jovem maestro, laureado no PJM em Direção de Orquestra e eleito vencedor no Prémio da Orquestra, está a mudar a Orquestra Clássica do Centro (OCC). Além de desenvolver uma relação de proximidade com os músicos e melhorar a qualidade artística da orquestra, quer fazer mais ópera, bailado e programas com solistas de alto nível. O grande objetivo é abrir a OCC para o país mas, para isso, ainda falta o apoio e estatuto de orquestra regional.

 

olhar para o que temos e tentar rentabilizar ao máximo”

Foi no início de 2016, que José Eduardo Gomes recebeu o convite para liderar a Orquestra Clássica do Centro (OCC). Um ano depois, o jovem maestro, de 33 anos, confirma um balanço muito positivo: “Tem sido uma aprendizagem sobretudo a nível de gestão, de planificação. É a primeira orquestra profissional de que sou maestro-titular. É diferente, tenho outras responsabilidades, há muito trabalho por trás: preparar, pensar, programar dentro dos constrangimentos e das dificuldades. No fundo é olhar para o que temos e tentar rentabilizar ao máximo”.

É evidente que o grande passo da orquestra será poder ter o estatuto de orquestra regional, que ainda não tem. Tem o apoio camarário, mas não o apoio que as orquestras regionais têm. Esse estatuto de orquestra regional acarreta logo um financiamento muito maior e que permite outra estabilidade, e uma maior dinâmica, com mais solistas, maestros convidados, etc., potencia o crescimento imediato da orquestra”, afirma.

 

Falta é termos programação regular”

A estabilidade permitiria, por exemplo, “uma tabela de trabalho mais normal, mais regular”, e uma programação a médio e longo prazo: “Essa é também uma grande dificuldade nossa, não podermos programar a médio e longo prazo”.

O público existe e tem enchido as salas onde a OCC faz concertos. A violoncelista Raquel Ribeiro, que está na orquestra desde o primeiro momento, confirma: “O público de Coimbra adere muito aos nossos concertos, nunca tivemos um concerto com casa reduzida, independentemente do dia e da hora, mesmo que seja durante a semana, temos sempre muito público. Falta é termos programação regular”.

 

A OCC merece uma aposta ainda maior por parte das instituições”

Pela qualidade do produto fazia falta termos mais ensaios. A nível musical o trabalho é diferente, ou seja, não se pode comparar a uma orquestra que trabalha diariamente, também com objetivos diferentes. A cidade do conhecimentos e dos doutores não tem, assim, a oferta musical que deveria”, aponta Franscesco Samassimo, oboísta na OCC desde 2004. Mesmo assim, acredita que OCC tem feito a diferença em Coimbra: “Acho que a música erudita deu aqui um passo muito grande graças à OCC”.

Pedro Carvalho é concertino da OCC há quatro anos, embora já integre a orquestra há oito: “Constato um crescimento qualitativo da orquestra nos últimos anos, fruto do esforço e dedicação dos profissionais que a integram. A OCC merece uma aposta ainda maior por parte das instituições que nos conhecem e que têm colaborado connosco, pois uma melhor cooperação permitirá melhor os bons resultados já conseguidos”.

 

desmistificar esta coisa da ópera e da música clássica como algo aborrecido porque não o é de todo”

Além de ser consultora artística da OCC, a soprano Marina Pacheco tem integrado vários programas como solista: “Ao cantar com esta orquestra em particular, sinto que estou a dar continuidade a um dos meus objetivos enquanto cantora singular, que é chegar mais rapidamente ao público, desmistificar esta coisa da ópera e da música clássica como algo aborrecido porque não o é de todo, mas fazer algo diferente que comunicasse mais rápido com o público porque arte é diálogo com o público – se o público não existir não andamos aqui a fazer nada”.

Fazer ópera em Coimbra depende apenas dos apoios financeiros, já que está tudo operacional, incluindo um fosso de ópera no Convento de S. Francisco. “Só não será possível se não tivermos os apoios necessários para andar com a máquina para a frente. Temos uma maestro que gosta de ópera, que é extremamente sensível a essa questão, que vibra com isso, que tem sensibilidade para lidar com os cantores, temos na comissão artística outro cantor, o Mário João Alves, que tem outras valências como encenador. A equipa está construída e as ideias já foram bastantes discutidas”, explica a cantora.

 

Há salas maravilhosas pelo país todo, boas infraestruturas com condições excelentes para receber produções de ópera”

Com colaborações mais recentes na OCC, José Corvelo, barítono, reconhece que as orquestras regionais “estão recheadas de excelentes músicos” e que são “as orquestras que vão ao terreno”. Falta-lhe apenas “pensar mais alto como, por exemplo, fazerem mais ópera”.

E acrescenta: “Há salas maravilhosas pelo país todo, boas infraestruturas com condições excelentes para receber produções de ópera. Obviamente envolve também dinheiro mas sobretudo falta saber canalizar o dinheiro. Devia haver mais trabalho em rede, ou seja, uma produção que se faz aqui até em co-produção com outras orquestras e vários teatros, se pudesse fazer também noutros sítios. Isso minimizava os custos para cada um”.

 

Estamos a tentar fazer crescer a orquestra, para que tenha uma maior qualidade artística”

Como italiano de tradição operística, Franscesco reclama que em Portugal só haja um teatro de ópera para o país todo: “O que gostava mais de fazer na orquestra era ópera, claro, mas para isso seria necessária uma estrutura completamente diferente. Se calhar, se esta orquestra tivesse mais apoios podia ter melhores condições de trabalho para os músicos – isso traria naturalmente uma produção, um trabalho diferenciado em relação ao que a orquestra faz atualmente”.

José Eduardo Gomes revela que os músicos da OCC têm muito para dar: “Estamos a tentar fazer crescer a orquestra, para que tenha uma maior qualidade artística e que toque programas variados e interessantes”. Ou seja: “para que nós cresçamos musicalmente a tocar em diferentes acústicas, com ou sem solistas, num registo mais ou menos operático ou camarístico, que se saiba adaptar e ganhe automatismo enquanto orquestra.”

E tem sido assim, desde acompanhar a fadista Mariza até tocar uma sinfonia de Mozart ou uma ária da Traviata, desde música portuguesa até à contemporânea, sem esquecer a barroca: “Para mim é sempre um desafio diferente e variado, obriga-nos a estar despertos para aquilo que temos de fazer e não formatados para um certo tipo de repertório”.

 

Finalmente temos condições para trabalhar a nível musical. De facto, o José Eduardo é um excelente maestro”

Os resultados estão à vista! Ele [José Eduardo Gomes] pode fazer a diferença numa orquestra como esta pela dinâmica que imprime. Nota-se até na própria evolução da orquestra que é visível”, destaca José Corvelo.

Pedro Carvalho confirma: “Ele trouxe vida à orquestra, aquele espírito jovem que tem, aquela força de vontade de fazer mais e melhor. Mostra que consegue realizar muito trabalho, tem sempre energia para mais. Nunca se apresenta cansado, mantém a mesma energia do princípio ao fim do ensaio. Está de parabéns. É um líder e o que conseguiu foi por mérito do ótimo trabalho que lhe é reconhecido pelos vários locais onde tem trabalhado”.

Finalmente temos condições para trabalhar a nível musical. De facto, o José Eduardo é um excelente maestro”, confessa Raquel Ribeiro. E Franscesco Samassimo fala do “impulso muito grande” que tem dado à OCC: “Acho que a orquestra pode evoluir e esperamos que isso aconteça. Ele é líder no sentido em que é reconhecida a sua competência pelos músicos.”

Marina Pacheco elogia também a relação do maestro com os músicos, mas não só: “A vontade de fazer mais, coisas diferentes, novos projetos e diferentes conceitos, chegar a mais pessoas, a mais públicos, públicos diferentes, isso também vem muito dele”

 

tentar abrir a orquestra o mais possível, não só a Coimbra e à região centro, mas também para o país”

José Eduardo defende que a orquestra tem evoluído com a ajuda de todos: “Eu sou apenas uma parte do motor. Os músicos têm correspondido, têm estado motivados, também com o espírito crítico apurado. Debato-me para que sejamos briosos e profissionais em todos os concertos.”

Confessa que tem muitas ideias, como fazer ópera, bailado, trazer o máximo de solistas da melhor qualidade, apostar nos jovens solistas, entre outros: “O grande objetivo em termos artísticos é tentar abrir a orquestra o mais possível, não só a Coimbra e à região centro, mas também para o país, aos grandes centros e festivais. É um trabalho que só com a qualidade artística podemos ir conseguindo.”

Quarteto de Cordas de Guimarães

A primeira residência artística aconteceu de 7 a 12 de março de 2016 na Plataforma das Arte José Guimarães. No programa constavam os quartetos de Haydn (Sol Maior op. 77 n. 1); P. Glass (Quartet n. 2 "Company") e Felix Mendelssohn (Lá menor op. 13). Os primeiros concertos realizaram-se no Paço dos Duques de Bragança e nos Espaços Criativos de Brito, em Guimarães. Emanuel Salvador (violino), Emilia Goch (viola), Álvaro Pereira (violino) e Catarina Gonçalves (violoncelo) juntaram os desejos de “desenvolver uma atividade de qualidade regular em Portugal a uma grande paixão pela música de câmara”. E fundaram o Quarteto de Cordas de Guimarães (QCG).

 

A criação de um quarteto de cordas em Guimarães já fervilhava há muito tempo na mente de Emanuel Salvador: “Juntamente com a minha esposa, a violetista Emilia Goch, que tem uma larga experiência na criação deste tipo de projetos (uma vez que dirige a Baltic Neopolis Orchestra, na Polónia), começamos a idealizar um projeto que também nos aproximasse de Portugal”. Apresentaram-no a José Bastos, Vereador da Cultura no Município de Guimarães, e tiveram uma agradável surpresa: “sentimos um acolhimento fantástico e um parceiro indispensável à manutenção do nosso projeto”.

Os outros dois elementos foram uma escolha óbvia: Catarina Gonçalves foi chefe de naipe da Orquestra Estúdio durante a Capital Europeia da Cultura e Álvaro Pereira, além de ser vimaranense, tem tido um papel importante como concertino da Orquestra de Guimarães.

 

“a potencial ligação que as artes plásticas podem ter com a música”

Com quatro residências artísticas por ano (uma semana em cada estação do ano), pretendem, em cada uma delas, fazer concertos na cidade e nas freguesias do concelho. “Nestes concertos haverá sempre uma preocupação em programar o grande repertório para esta formação, uma vez que queremos criar um público que vá crescendo com o QCG, apresentando as peças chave do repertório, aliando a obras mais recentes para que o nosso público tenha um visão geral das possibilidades de um quarteto de cordas”, explica Emanuel Salvador.

Têm idealizado também projetos mais arrojados, como a colaboração com outras artes, outros estilos de música e outros artistas: “Estas pontes estão a ser planeadas a médio/longo prazo. Neste caso, temos em mente um projeto com dança que potencialmente poderá interagir com o “Guidance” (Festival internacional de dança de Guimarães) e outro projeto com jazz (que também seria idealmente articulado com o Guimarães Jazz)”

O facto de fazerem as residências na Plataforma das Artes facilita o desenvolvimento de mais ideias: “Temos em vista a potencial ligação que as artes plásticas podem ter com a música e como as podemos articular”.

 

“Principalmente nos concertos nas freguesias temos tido uma receção muito calorosa”

Ainda na Plataforma das Artes, querem explorar a vertente pedagógica, com a promoção de concertos didáticos para o público mais jovem: “Queremos associar a Plataforma das Artes como um excelente novo local de concertos, especialmente na área da música de câmara”.

A reação público tem sido muito positiva: “Principalmente nos concertos nas freguesias temos tido uma receção muito calorosa e queremos, a curto e médio prazo, criar o gosto da música de câmara na cidade e no concelho.”

 

Gravação de CD e estreia em Macau

Para este ano, têm já agendado a gravação do primeiro disco, com a editora Odradek e obras de Freitas Branco, e a estreia no Oriente, no Festival Internacional de Música de Macau: “Para além destes projetos estamos a estudar a possibilidade de efetuar concertos em algumas cidades geminadas de Guimarães”.

Vão também voltar ao Baltic Neopolis Festival, na Polónia, onde estiveram no verão passado, com o apoio da Embaixada de Portugal na Polónia e do Instituto Camões. Igualmente assegurada está a presença no festival "Guimarães Allegro".

 

“o facto de haver uma nova geração muito forte de músicos portugueses tem levado à criação de excelentes grupos”

O Quarteto de Freitas Branco que tocaram última residência de 2016 e o Quarteto n. 2 de Joly Braga Santos que irão apresentar brevemente são exemplo das “grandes obras” da música portuguesa que têm andado a descobrir. Não têm ainda condições financeiras para fazer novas encomendas mas esperam que o possam fazer “num futuro próximo”.

Acreditam que “a criação de uma oferta regular e de alta qualidade pode fomentar o gosto pela música de câmara”. E “o facto de haver uma nova geração muito forte de músicos portugueses tem levado à criação de excelentes grupos, que têm, tal como o QCG, um respaldo institucional da parte de câmaras municipais ou associações de promoção da música”.

“Obviamente que ainda temos um largo caminho a percorrer, se compararmos com a oferta de concertos e principalmente com a tradição na área da música de câmara para cordas em países do centro e leste da Europeu, mas o panorama tem melhorado muitíssimo nos últimos anos”, sublinham.


https://web.facebook.com/quartetoguimaraes

Concerto

Luís Vieira

Tinha o sonho de ser o músico e trompista mais completo possível. Essa busca pela perfeição levou-o da sua terra, Castelo de Paiva, para Castelo Branco, Porto, Madrid, Saragoça, Zurique, Berlim e, por fim, Lisboa, onde está atualmente a desempenhar o lugar de 1º Trompa na Orquestra Sinfónica Portuguesa. Ainda muito jovem, Luís Vieira tem já um lugar marcado na história da música portuguesa: foi um dos raros músicos nacionais a ser admitido na Academia Karajan e a tocar na Orquestra Filarmónica de Berlim.

 

Começou a estudar Piano aos seis anos de idade porém, aos 14, mudou para Trompa: “Recordo-me de ver um concerto no Coliseu dos Recreios, com a Orquestra de Chicago e o maestro Daniel Barenboim, onde tocaram a Sinfonia de Mahler, nº 5, com Dale Clevenger na posição de 1º Trompa. Foi em 2000, eu tinha 12 anos e, desde aí, apaixonei-me pelo som da Trompa, comecei a ouvir só cds de trompa, bandas sonoras de filmes, etc., até que consegui convencer os meus pais a trocar de instrumento.”

Na Academia de Música de Castelo de Paiva, onde o seu pai é diretor pedagógico, aprendeu a tocar e a gostar de música. Quando ingressou na ESART, em Castelo Branco, a sua forma de ver o mundo da música mudou: “Ao conhecer melhor o que se passava no país, ao conhecer outros estudantes de trompa, apercebi-me que, para ter algum sucesso, teria de trabalhar bastante, e de desenvolver muito a minha técnica na Trompa. Foi importante o acompanhamento do Prof. Paulo Guerreiro ao longo dos três anos de licenciatura.”

 

Sempre senti que tinha muito a aprender, e que o caminho era e ainda é longo”

Luís Vieira pode definir-se como um “eterno insatisfeito”. Depois de terminar o curso superior, fez as malas e foi à procura de mais no Conservatório Superior de Música de Aragón, em Saragoça, e na Escuela Superior de Musica Reina Sofia, em Madrid. Paralelamente, frequentava o curso livre na ESMAE, com Abel Pereira e Bohdan Sebestik.

“Senti necessidade de abrir horizontes e conhecer outras realidades, outras formas de ver a música. Sempre senti que tinha muito a aprender, e que o caminho era e ainda é longo. O meu objetivo foi o de tentar alcançar determinado patamar e ser o músico e trompista mais completo possível. Procurei trabalhar com músicos que são referência para mim, experimentar diferentes escolas de Trompa, que pressupõem maneiras diferentes de tocar o instrumento. Contactar com diferentes culturas, músicos e ideias fez-me também abrir horizontes”, explica.

Em Saragoça, trabalhou com Sarah Willis e Eric Terwilligher, “figuras importantíssimas no panorama alemão e internacional da trompa”. Mas o seu modelo era Radovan Vlatkovic, “a todos os níveis, principalmente no som”. Foi para Madrid para o conhecer, ficando lá durante dois anos. Depois, seguiu o mestre em Zurique, tendo concluído o mestrado na Universidade das Artes.

 

Na Academia da Filarmónica de Berlim

Entrar na Academia Herbert von Karajan da Orquestra Filarmónica de Berlim foi, até agora, o auge da sua carreira, um sonho que não ousava sequer sonhar : “Foi obviamente uma experiência única, que me marcou a nível pessoal e profissional”.

Recorda o primeiro ensaio com a Filarmónica de Berlim, onde se vi no meio de alguns dos seus principais ídolos. Conta que pôde observar a forma como se trabalha numa das melhores orquestras do mundo, com os melhores maestros, nas melhores salas, ao lado dos melhores executantes: “Tudo isso estabeleceu um patamar e uma exigência que nunca tinha experimentado antes. Foi realmente impressionante comprovar a forma como tocam como uma unidade, como reagem e comunicam entre si na música, o som da orquestra, a maneira como pensam todos quase da mesma maneira, mas cada um consegue dar o seu toque e contributo único.”

 

Sempre ambicionei poder transmitir conhecimentos e acompanhar o desenvolvimento de jovens músicos”

Não obstante as “aventuras” que teve no estrangeiro, Luís Vieira queria voltar para Portugal e contribuir para a evolução do panorama da música nacional. A oportunidade surgiu na hora certa, ao ganhar, em 2016, o lugar de 1º Trompa na Orquestra Sinfónica Portuguesa: “É especialmente gratificante, por ser a única casa de Ópera em Portugal, uma orquestra com muita experiência a esse nível, algo que faltava na minha formação.”

Está também a exercer a função de docente na Universidade de Évora e na ESART. “Sempre ambicionei poder transmitir conhecimentos e acompanhar o desenvolvimento de jovens músicos. Poder fazê-lo no meu país é muito especial”, confessa.

 

ter a sua identidade na música que toca, a sua própria e indistinta voz”

Aos seus alunos, adverte que “o nervosismo vai estar sempre presente e tentar combatê-lo é um erro”. Aconselha, assim, a aceitá-lo: “Há várias técnicas que podem ajudar a acalmar a mente e o corpo. Muitas vezes, basta um simples exercício de respiração para nos trazer para o agora e o aqui. Mas o que funciona melhor, é a prática, tocar para pessoas, enfrentar o palco o maior número de vezes possível. Encarar o palco e o público duma forma positiva, porque, afinal de contas, o que leva o público a pagar por um bilhete, a não ser pelo prazer de ver e ouvir música?”

E para se fazer música, é que preciso ter “maturidade técnica, capacidade de comunicação e de adaptação a outros músicos, seja em orquestra ou música de câmara”. Mas o que torna um músico especial? “É que seja capaz de ter a sua identidade na música que toca, a sua própria e indistinta voz”, sublinha.

 

Temos executantes portugueses que são o topo do que existe a nível internacional”

Luís lamenta não ter conhecido melhor as anteriores gerações de trompistas, mas reconhece “um claro desenvolvimento e evolução” na música erudita portuguesa, especialmente na trompa: “Temos executantes portugueses que são o topo do que existe a nível internacional e são reconhecidos como tal. Começa a haver uma maior confiança no talento nacional, que tem conseguido de forma regular alcançar prémios e posições importantes no panorama internacional. Há cada vez maior qualidade no ensino, desde os conservatórios, academias e escolas profissionais até as escolas superiores. O futuro é empolgante.”

O problema é mesmo “o mercado da música” e “o pouco investimento que tem havido na criação e desenvolvimento de orquestras em Portugal, que são, ou deveriam ser, o principal recetor de talento a despontar em Portugal em todos os instrumentos”.

Tal como noutras áreas, Portugal está a perder os seus talentos para o mercado estrangeiro: “É determinante uma mudança de política e/ou mentalidade perante a música e a cultura em geral. Isso passa por todos, desde as classes políticas até aos próprios músicos, para que saibam adaptar-se ao mercado e diversificar a sua oferta, para cativarem novos públicos”.

Orquestra Clássica do Centro foi fundada há 15 anos

A Orquestra Clássica do Centro (OCC) comemorou o 15º aniversário em 2016. O primeiro concerto aconteceu no dia 13 de dezembro de 2001 no Teatro Académico Gil Vicente, na altura com 25 elementos e a denominação de Orquestra de Câmara de Coimbra.

Atualmente composta por 32 elementos, tem realizado concertos por toda a zona centro, não só com a sua formação habitual, mas também como formação sinfónica ou música de câmara. Organiza concursos, prémios, conferências e festivais.

Acreditando que “a Música é um instrumento privilegiado na construção de Pontes”, a OCC tem apostado na internacionalização através de parcerias com a Alemanha, Noruega e Cabo Verde.

Mais recentemente, o destaque vai para a colaboração com Cabo Verde, quer pela participação na fundação da Orquestra Nacional de Cabo Verde, mas também pelo trabalho de divulgação da Morna como património cultural da lusofonia. Na sede da OCC foi criado o Centro de transcrição da Música Cabo-verdiana. A gravação do último CD, com composições de Vasco Martins, é resultado deste trabalho de cooperação.

Enquanto associação, a OCC tem ainda a responsabilidade de gestão cultural do Pavilhão Centro de Portugal.


A música erudita passou a fazer parte da programação regular na cidade e não só”

Presente desde a fundação da OCC, Emília Cabral Martins, presidente da direção da OCC, reconhece que a orquestra “conseguiu afirmar-se no espaço cultural da cidade e da região numa área em que a carência era evidente. A música erudita passou a fazer parte da programação regular na cidade e da região”.

Nos 15 anos de atividade, a presidente destaca a formação de novos públicos, as atividades pedagógicas, o trabalho de colaboração com instituições de solidariedade social (inclusão pela música) ou os concertos em espaços de referência do património arquitetónico/histórico, “pela importância que têm na divulgação do turismo cultural”.

Lembra também a colaboração com compositores como José Firmino, Eurico Carrapatoso, Sérgio Azevedo e Vasco Martins e o recém-criado Prémio Francisco Martins que distinguiu, na primeira edição, Sérgio Azevedo. E a promoção da Guitarra Portuguesa como instrumento solista de orquestra.


"Viagens no imaginário da morna"

Com o Centro de Estudos da Morna, liderado por Vasco Martins, a OCC tem um protocolo de colaboração, que tem como principal intuito divulgar a Morna como património cultural da lusofonia.

Neste contexto, surgiu o CD "Viagens no imaginário da morna", com obras de Vasco Martins inspiradas no fado e na morna. Sob a direção do novo maestro-titular, José Eduardo Gomes, o disco conta com a participação de Ricardo Silva na Guitarra Portuguesa.

 

provamos que a música é essencial na construção de pontes culturais”

A ligação a Cabo Verde não fica por aqui. Não foi por acaso que a OCC esteve presente na cerimónia de inauguração do Museu do Tarrafal. A OCC teve uma participação ativa na criação da Orquestra Nacional de Cabo Verde, apoiando-a em concertos e na formação de músicos.

Por proposta do Ministro da Cultura de Cabo Verde, Mário Lúcio de Sousa, a OCC acolheu em Coimbra o Centro de Transcrição da criação musical de Cabo Verde. “Provamos que a música é essencial na construção de Pontes culturais num mundo que é cada vez mais um espaço global, em que as fronteiras materiais são substituídas por pontes de conhecimento assentes e pilares de tolerância, solidariedade e mais partilha”, afirma Emília Cabral Martins.

 

Nova direção artística, novos projetos

Em Fevereiro de 2016, outras pontes foram construídas para o futuro. José Eduardo assumiu o lugar de maestro-titular, com o apoio de uma recém-criada direção artística estratégica, de que fazem parte nomes como Vasco Martins, Luís Tinoco, Mário João Alves e Marina Pacheco.

As mudanças têm como objetivo chegar mais longe: “Temos uma direção artística de que nos orgulhamos e pode apresentar um programa de altíssima qualidade e que pode ser uma referência no país, não só nos concertos, mas também na ópera, no bailado, nas atividades pedagógicas (com destaque natural para a escolas de música) ou na organização de festivais”.

Para este ano, estão previstos concertos com solistas como Elisabete Matos, atividades pedagógicas, o projeto “na Música todos contam”, onde se juntam gerações (juniores e séniores), o Prémio de Composição Franscisco Martins e “muitas ideias” que dependem “apenas” do apoio financeiro, como a apresentação de duas óperas.

 

http://www.orquestraclassicadocentro.org/

https://www.facebook.com/OrquestraClassicaCentro

Iva Barbosa

Uma das clarinetistas portuguesas mais destacadas da sua geração, Iva Barbosa ganhou, em 2016, o lugar de 1º Solista Auxiliar da Orquestra Gulbenkian. É também diretora pedagógica e professora na Escola Profissional Metropolitana, e membro fundador do Quarteto Vintage.

Laureada em vários concursos nacionais e internacionais, começou os seus estudos musicais em casa, com o seu pai, aos oito anos de idade. Os seus irmãos, Telmo e Flávio Barbosa, são também músicos de valor reconhecido. Prosseguiu os estudos no Conservatório de Música do Porto e na Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Porto, nas classes dos professores, Adam Wierzba e António Saiote, respetivamente – ambos marcaram profundamente a sua formação.

 

Da Capo (DC) – Como nasceu a tua paixão pela música?

Iva Barbosa (IB) – Começou em casa com o meu pai que é músico amador. Comecei a aprender em casa com oito anos.

 

DC - E como surgiu o Clarinete?

IB – Foi uma coincidência! Depois de começar com o meu pai, comecei a frequentar aulas de solfejo com o Sr. Felisberto na Banda de Matosinhos (nessa época a banda estava sem atividade,). Havia uma requinta disponível, e como o filho dele é clarinetista comecei a aprender com ele, e tive o privilégio de ter aulas de instrumento em casa.

 

DC – Quando é que a música se tornou mais séria?

IB – A música foi sempre encarada de forma séria. Desde os 8 anos que ganhei o hábito de estudar todos os dias. No entanto só a encarei como opção de vida aos 18 anos. Cheguei a frequentar o curso de Comunicação Social na Universidade do Minho.

 

DC – Qual foi o papel do teu pai?

IB – Ouvir, desde pequenina, o meu pai a tocar teve influência em nós os três. (somos três irmãos músicos). O que ele mais nos deu foi o gosto, o rigor e a disciplina – todos os dias tínhamos de tocar. Apesar de ser músico amador, ele tocava todos os dias depois do trabalho. Foi um excelente músico filarmónico, gostava muito de música e preparavase diariamente para os ensaios.

 

DC – E hoje, de que forma vos apoia?

IB – Hoje acompanha-nos e assiste aos nossos concertos sempre que pode e apoia-nos nas nossas decisões.

 

 

A influência dos professores Adam Wierzba e António Saiote

 

 

DC – Estudaste com vários professores. De tudo o que foste aprendendo, que ensinamentos guardas e passas hoje aos teus alunos?

IB – O professor Adam Wierzba foi meu professor durante nove anos no Conservatório de Música do Porto. É uma pessoa muito importante para mim, pois viu-me crescer e criámos uma relação muito forte. O professor Adam acompanhou-me numa época de grandes transformações, da infância até à adolescência. Ele teve sempre a capacidade de perceber cada fase pela qual estava a passar e adaptar-se, mas sem perder a exigência. Foi ótimo para fazer todo o trabalho técnico inicial porque era muito rigoroso. Noutra fase, já na adolescência, ensinou-me que um músico deve ser curioso e criativo.

Depois tive o professor António Saiote na ESMAE. O professor Saiote foi fundamental para me tornar profissional. A sua exigência fez com que eu me dedicasse seriamente ao clarinete e o tomasse como opção profissional. Uma das coisas mais importantes que aprendi e desenvolvi foram métodos de estudo e a optimizar a forma de estudar. Ainda hoje uso esses métodos de estudo, não só para mim mas também para os meus alunos.

O ritmo de trabalho na ESMAE era muito rápido, por isso aprendi a desenvolver ao máximo a minha capacidade de trabalho. Eu estava habituada ao ritmo do liceu com as disciplinas normais como Português, Latim, Alemão, etc, e estudava clarinete nas horas livres. Quando cheguei à ESMAE foi um choque porque, de repente, tinha o dia todo para estudar, mas também muitas coisas para aprender. Foi aí que me dediquei seriamente ao Clarinete.

Os dois têm estilos completamente diferentes e deram-me ensinamentos também diferentes, que se complementaram. Em comum, ambos são professores muito dedicados, exigentes e com personalidade forte. Estou muito grata aos dois por ter tido a oportunidade de aprender com eles.

 

 

"a carreira de músico vive da performance, e saber lidar com o sucesso ou o fracasso é um trabalho difícil"

 

 

DC – Não houve nenhum momento, neste anos todos, em que te arrependesses de ter optado pela Música?

IB – Não, arrepender não. Faço o que gosto! Há momentos mais difíceis, mas nunca tive períodos sem trabalho ou concertos. Isso tem-me dado confiança na opção que tomei. Um caminho constrói-se com muito trabalho e eu sempre trabalhei muito.

 

DC - Até que ponto os concursos são fundamentais para o crescimento de um músico?

IB – Acho que é pessoal. Os concursos podem ser muito importantes mas não fundamentais. Todo o trabalho que um concurso exige é importante para a motivação e desenvolvimento pessoal, independentemente do resultado. Claro que ganhar prémios é ótimo! Na minha opinião, ter objetivos definidos é fundamental, e os concursos podem ser um excelente objetivo. Mas repito que é pessoal, pois a carreira de músico vive da performance, e saber lidar com o sucesso ou o fracasso é um trabalho difícil.

 

 

"temos que aceitar que nem toda a gente vai ser solista, ganhar concursos, porque na música há dezenas de possibilidades. Um bom professor também tem que ser capaz de explorar todas as possibilidades"

 

 

DC – Como te defines como professora?

IB – Sou dedicada e muito rigorosa, e tento respeitar ao máximo a individualidade dos alunos. Numa aula digo exatamente o que penso e tento partilhar e ensinar tudo o que sei. Aprendo muito com todos os alunos e isso ajuda-me a melhorar enquanto professora.

 

DC - Quando vês um aluno a ser laureado num concurso, como já tem acontecido, o que sentes enquanto professora?

IB – Sinto orgulho! Tenho sempre orgulho nos meus alunos, sobretudo quando percebo que eles se esforçam ao máximo. Quando eles ganham prémios é um reconhecimento do trabalho de equipa! Como disse anteriormente, os concursos podem ser objetivos muito importantes no percurso dos alunos, mas temos que aceitar que nem toda a gente vai ser solista, ganhar concursos, porque na música há dezenas de possibilidades. Um bom professor também tem que ser capaz de explorar todas as possibilidades. Temos que saber que não podem ir todos pelo mesmo caminho e saber direcionar os alunos para as diferentes vertentes da Música. Portugal não tem mercado para responder a tantos bons músicos.

 

 

"O nosso lema [EPM] é que a escola existe para os alunos. Pensamos sempre em conjunto com os professores no sentido do bem-estar dos alunos, quer a nível pedagógico, quer a nível pessoal"

 

 

DC – Mesmo na formação de público, ainda há muito a fazer...

IB – Há muito a fazer na educação. No caso da música, investiu-se no ensino da música, mas centrado na aprendizagem de um instrumento musical, e já foi um grande avanço no país! Pessoalmente, acredito mais no ensino através da arte desde a idade pré-escolar, e aqui ainda há muito trabalho a fazer.

 

DC – És diretora pedagógica da Escola Profissional Metropolitana. Que marca tentas deixar na tua direção pedagógica?

IB – Este tipo de escola tem de ter uma organização muito própria. Os alunos passam todo o dia na escola, onde fazem a sua formação geral, mas uma carga horária muito grande de disciplinas da vertente artística. Nós tentamos aliviar isso, criando, de alguma forma, tempos livres, outras possibilidades que não sejam só a escola.

A EPM tem uma particularidade que enriquece muito o percurso dos alunos, que é estar inserida no projeto da Metropolitana. Assim, permite que os nossos alunos tenham contacto diário com todo o projeto - 3 escolas e 1 orquestra profissional, a OML. Tentamos também que eles tenham o máximo de concertos pedagogicamente possíveis fora da escola e em boas salas de concerto. Só assim podem desenvolver ao máximo as suas potencialidades enquanto músicos e instrumentistas.

O nosso lema é que a escola existe para os alunos. Pensamos sempre em conjunto com os professores no sentido do bem-estar dos alunos, quer a nível pedagógico, quer a nível pessoal. Queremos que sejam felizes a tocar.

 

 

"quando toco estou a realizar aquilo para o qual trabalhei a vida toda"

 

 

DC - Também estás a gostar daquilo que estás a fazer? Como concilias tudo: a Orquestra Gulbenkian, a direção pedagógica, as aulas, estudar e tocar a solo e em orquestra, música de câmara, o Quarteto Vintage e a família?

IB – Estou a gostar muito daquilo que estou a fazer. Abdico de muitas coisas mas não abdico do fundamental: estudar, estar com a minha família o máximo de tempo possível e ter momentos de lazer. Tento ter projetos fora da orquestra e faço alguma música de câmara. Toco com o Quarteto Vintage há quase 16 anos e para o grupo tenho sempre tempo reservado.

Durante o ano surgem também convites para masterclasses e concertos e tenho que coordenar tudo com a Orquestra e a escola. Conciliar tudo é difícil, mas com organização é possível.

 

DC - Onde te sentes mais realizada?

IB – Dedico-me a tudo a cem por cento, por isso estou realizada. Adoro dar aulas e pensar no caminho pedagógico da EPM, mas obviamente que quando toco estou a realizar aquilo para o qual trabalhei a vida toda. Adoro tocar na Orquestra e fazer música de câmara e espero fazê-lo durante o tempo que puder tocar clarinete.

 

 

"A massificação do ensino trouxe mais qualidade!"

 

 

DC - Notas mudanças ao nível da qualidade dos alunos?

IB – Sim. A massificação do ensino trouxe mais qualidade!

 

DC – Qual o ponto-chave que desencadeou esta mudança?

IB – Acho que o surgimento das escolas profissionais de música, nos finais dos anos 80, foi o ponto de partida.

 

DC – O que achas desta nova geração que tem como prioridade estudar e tentar a sorte no estrangeiro?

IB – Acho que devem fazê-lo se sentirem essa necessidade e vontade.

 

 

"A direção cultural do país tem que ser mudada, porque vamos continuar sem mercado para tantos bons músicos"

 

 

DC – Mas é necessário emigrar para conseguirem trabalhar?

IB – Depende. Se o objetivo for tocar numa orquestra, se calhar têm de tentar também no estrangeiro, pois as nossas orquestras não conseguem dar resposta a tanta gente. Não acredito que emigrar seja a única solução. Os jovens têm que ser empreendedores no seu país, no entanto, percebo a realidade atual, e sem dúvida que tentar encontrar soluções fora do país é o caminho cada vez mais escolhido. A direção cultural do país tem que ser mudada, porque vamos continuar sem mercado para tantos bons músicos.

 

DC – Temos teatros, público, músicos...

IB – Sim, temos. É necessário repensar a forma como o dinheiro é distribuído. Temos todos os recursos em Portugal, mas é necessário saber usá-los e potenciá-los.

 

DC – Um sonho que queiras realizar...

IB – Não tenho sonhos como objetivos. Faço o que gosto e continuar feliz é um sonho!

 

 

"Gosto muito de tocar na orquestra e do ambiente de trabalho. É um privilégio poder fazer parte da Orquestra Gulbenkian"

 

 

DC – A pergunta cliché que todos te querem fazer: como te sentiste ao ganhar o lugar de solista na Gulbenkian?

IB – Muito feliz, obviamente! Foi um objetivo que persegui e sinto-me muito realizada por o ter alcançado.

 

DC – Como está a ser esta tua nova etapa? Já tens momentos que possas destacar e partilhar connosco?

IB – Está a ser ótima. Gosto muito de tocar na orquestra e do ambiente de trabalho. É um privilégio poder fazer parte da Orquestra Gulbenkian, e trabalhar na Fundação. Temos ótimas condições de trabalho e faço todos os dias o que gosto: tocar!

 

DC – Como ficam os teus outros projetos?

IB – Continuam a funcionar .Tenho que organizar bem a agenda e com muito tempo de antecedência, mas é possível!

Trompas Lusas

Depois das boas reações e críticas ao primeiro CD, o quarteto Trompas Lusas sentiu necessidade de gravar o novo repertório que foi acrescentando nos últimos anos. “The Eternal City” representa, assim, uma continuidade em relação ao primeiro disco, daí que a equipa de produção também seja a mesma: a fotógrafa Susana Neves, o designer João Pescada e o produtor Paulo Constantino da Afinaudio. As gravações aconteceram no Auditório da FEUP e Sala Suggia da Casa da Música.

Bruno Rafael, José Bernardo Silva, Hugo Sousa e Nuno Costa prometem mais concertos em 2017, sem esquecer a organização de eventos de promoção da Trompa. Tal como nos seis de atividade ininterrupta, vão continuar a dar voz aos criadores da música e a surpreender o público.

 

Temos recebido ótimas críticas e comentários ao CD, tanto de Portugal como do estrangeiro”

“The Eternal City” foi apresentado no passado mês de outubro, no Auditório da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP): “Aproveitamos esse momento para associar a realização de um evento, em colaboração com a loja Musictools, dedicado à trompa. Promovemos diferentes ações, desde palestras a exposições de novos materiais, e felizmente contamos com a participação de várias dezenas de jovens e entusiastas da trompa”.

Já este mês, no dia dois de dezembro, fizeram nova apresentação, no I Congresso Internacional de Trompa de Madrid. Para 2017, estão a ser programadas novas apresentações.

O feedback tem sido bastante positivo, sobretudo da parte dos compositores: “Temos recebido ótimas críticas e comentários ao CD, tanto de Portugal como do estrangeiro, que muito nos orgulham. Todos os compositores vivos nos contactaram e foram bastante efusivos. É sinal que de certa forma fizemos justiça ao seu trabalho, correspondemos às suas expetativas, o que será sempre uma responsabilidade do intérprete. Temos também consciência que todo este feedback positivo nos responsabiliza mais em relação às nossas prestações e ações como grupo”.

 

obras que exploram as diferentes características e potencialidades da trompa”

Mas o que podemos esperar deste novo trabalho das Trompas Lusas? “Pode-se esperar um CD com um repertório muito variado e dinâmico. Com obras que exploram as diferentes características e potencialidades da trompa e da formação quarteto de trompas. Neste nosso segundo CD novamente apresentamos obras originais para quatro trompas”, explicam.

Assim, podemos encontrar obras de compositores de referência na composição para quarteto de trompas e outros agrupamentos de câmara para instrumentos de sopro, como Paul Hindemith e Jan Koetsier, obras novas que lhes foram dedicadas, dos compositores Kerry Turner, Liduino Pitombeira e Sérgio Azevedo, e obras de compositores menos conhecidos, como Alexander Mituschin e Ito Yasuhid, mas que consideram “interessantes e uma excelente adição” ao repertorio tradicional para quarteto de trompas: “Para finalizar o CD colocamos como Bonus Track um arranjo para quarteto de trompas do célebre tema de Georg Gershwin "I got Rhythm", foi uma forma mais descontraída de concluir o CD.”

 

tornar este tipo de formação mais conhecida do público, assim como o trabalho dos compositores que gravámos”

O título “The Eternal City” está relacionado com a a obra que abre o CD: “Uma viagem a Roma, a Cidade Eterna, em 2013, serviu de inspiração a Kerry Turner para compor esta pequena obra, em género de fanfarra. A obra resultou de uma encomenda que fizemos ao compositor Kerry Turner. Um nome muito importante para este tipo de formação, pela sua ligação de muitos anos ao American Horn Quartet (AHQ) e pelo vasto número de composições que compôs para esse grupo. Essas obras são muito populares e são tocadas por muitas outras formações, para além do AHQ. Consideramos que seria um grande desafio termos uma obra do Kerry Turner escrita para nós. É uma obra que apresentamos regularmente nos nossos concertos, como peça de abertura”.

Querem que este disco possa projetar ainda mais o grupo tanto a nível nacional como internacional: “Que possa contribuir para cimentar a nossa posição no panorama da música de câmara erudita, especialmente em Portugal. Que de certa forma possa contribuir para tornar este tipo de formação mais conhecida do público, assim como o trabalho dos compositores que gravámos. “

 

A função de um intérprete é dar voz aos criadores. Esse tem sido um compromisso nosso.”

Encomendas e estreias, tanto de compositores portugueses como estrangeiros, são uma prática comum no grupo: “Pensamos que é muito importante e de certa forma justo. A função de um intérprete é dar voz aos criadores. Esse tem sido um compromisso nosso. Também o de alargar o repertório original para quarteto de trompas”.

A reação às obras portuguesas no estrangeiro “tem sido muito boa” e tem despertado a curiosidade em relação aos compositores nacionais: “Estamos muito satisfeitos com o resultado das obras que temos estreado e que nos têm sido dedicadas. São obras de qualidade, que nos colocam desafios e que são indiscutivelmente adições ao repertório original existente para a formação de quarteto de trompas.”

 

estar em atividade permanente requer um grande espírito de iniciativa, de trabalho, organização e persistência”

As Trompas Lusas já se apresentaram em Espanha, Alemanha, Inglaterra e Finlândia. Destacam o concerto no 46º Congresso Internacional da Sociedade Internacional de Trompas (IHS), em Londres 2014, onde partilharam o palco com o reputado trompista holandês Ab Koster na interpretação de uma obra escrita por Eurico Carrapatoso. Outros artistas de referência, como o Quarteto de Trompas da Filarmónica de Berlim e os Spanish Brass, também se apresentaram nesse congresso. Mais recentemente, em Julho de 2016, tiveram uma dupla apresentação no conceituado festival de metais Lieksa Brass Week.

Sabem que “fazer música em Portugal não é fácil, ainda mais música de câmara”. Sabem que não podem ficar “à espera que o telefone toque”e que “estar em atividade permanente requer um grande espírito de iniciativa, de trabalho, organização e persistência”.

“Temos que acreditar no nosso projeto e não desistir. Mas diríamos que o principal fator é um grande prazer em tocar em música de câmara. O facto de o fazermos por gosto é a chave para nos mantermos motivados para o futuro”, sublinham.

 

é importante diversificar e procurar sempre inovar e surpreender o público”

“Embora o repertório para quarteto de trompas seja bastante mais extenso do que à partida se possa pensar, pensamos que também é importante diversificar e procurar sempre inovar e surpreender o público”, revelam. Com efeito, têm também apresentado obras com trompa natural, “que oferece sonoridades muito ricas e sempre vibrantes”.

E programas com outros instrumentos, como órgão, tuba, percussão e agrupamento de trompas: “É muito interessante, dá outra dimensão ao grupo. Diversifica os concertos e a sonoridade do grupo. Se projetamos fazer mais nesse sentido? Sim, por que não… de momento temos já projetado usar instrumentos de percussão em alguns programas para 2017, há também repertório para quarteto de trompas e coro que gostaríamos de explorar, e no futuro talvez algo mais arrojado!”

 

para muitos músicos a música de câmara pode ser um veículo para se expressarem artisticamente e conseguirem uma carreira musical mais ativa”

Consideram que “a amizade faz toda a diferença e é fundamental para entrentar os desafios e quaisquer adversidades”. Os desafios enquanto grupo são muitos, porém a motivação é enorme: “As maiores compensações são sentirmos que o nosso trabalho pode ajudar a motivar os jovens e divulgar a trompa, e realizarmo-nos pessoalmente e como grupo”.

Como professores, procuram fomentar o gosto pela música de câmara nos alunos: “Pela escassez de orquestras em Portugal, para muitos músicos a música de câmara pode ser um veículo para se expressarem artisticamente, uma forma de poderem apresentar o seu trabalho e assim conseguirem uma carreira musical mais ativa. A prática da música de câmara é fundamental para se aprender a interagir e estar em grupo”.

 

 

Onde podemos encontrar o CD à venda?

Contactar diretamente as Trompas Lusas: trompaslusas@gmail.com

Musictools

Edições AVA

Casa da Música

Afinaudio

 

Edição Impressa 2016

Edição Impressa 2016

EDITORIAL

Fernando Lapa diz que “temos hoje muitos jovens, muito bem formados, ou seja, a escola portuguesa trabalha bem”. Acrescenta ainda que “significa que há um conjunto cada vez maior de jovens com acesso a uma formação mais qualificada”. Diria que contra factos não há argumentos. Talvez fosse a pressão dos próprios factos que nos levasse nesta terceira edição impressa da Da Capo a procurar esses jovens bem formados. Porém, perdemo-nos no caminho. Perdemo-nos a ouvir Adriana Ferreira, que no ano passado gravou dois discos, um deles como Prémio no conceituado Concurso de Genève, e ainda nos surpreendeu ao ganhar o lugar de Flauta Principal da Orquestra de Roterdão. O mais extraordinário é que Adriana tem apenas 25 anos!

De Paris a Roterdão, passando por Genève (ou Genebra, como queiram), podemos parar em Berlim e ver Filipe Alves como Trombone Solista na Staastskapelle Berlin, depois de ter ocupado o mesmo lugar na Ópera Estatal de Hamburgo. Podemos ainda passar pela Suíça e acenar ao novo tubista da Orquestra da Ópera de Zurique – Ricardo Carvalhoso. Ou cruzarmo-nos com Afonso Fesch, que já foi concertino da International Mahler Orchestra. Ou aplaudir em pé o guitarrista Francisco Morais Franco, que conta com mais de 30 prémios, nacionais e internacionais. Bravo também para Gilberto Bernardes, saxofonista e criador, que abre caminho aos domínios dos médias digitais e improvisação. E o Jovem Músico do Ano, Lourenço Macedo Sampaio!

Mas perdemo-nos. Porque os nomes multiplicam-se, os talentos portugueses emergem no mercado internacional e já não os conseguimos contar pelos dedos, muito menos metê-los todos dentro de uma edição! E porque seria injusto não falarmos deles todos, confirmamos que estes são apenas alguns dos inúmeros que movimentam a diáspora dos músicos portugueses pelo mundo.

Ainda jovens mas com uma garra já mais experiente, reafirmamos o potencial da soprano Dora Rodrigues, o trabalho de Joana Carneiro como maestrina-titular na Orquestra Sinfónica Portuguesa, os 11 anos revolucionários do Ludovice Ensemble e o coral Capella Duriensis, com contrato com a famosa Naxos. Mas também poderíamos continuar, com tanto que encontramos para dizer e conhecer. Porque a música que se faz em Portugal, não obstante os inúmeros constrangimentos e dificuldades, consegue fazer-se ouvir. Cabe-nos saber onde e de que forma. Os nossos leitores vão com certeza juntar-se a nós e aplaudir, em pé!

 

A TEMPO

Notícias

 

A SOLO

Filipe Alves

Ricardo Carvalhoso

Fernando Lapa

Francisco Morais Franco

Vasco Dantas Rocha

Afonso Fesch

Gilberto Bernardes

Claire Litzler

Joana Carneiro

 

DESTAQUE

Adriana Ferreira

 

TUTTI

Ludovice Ensemble

Capella Duriensis

 

CANTABILE

Dora Rodrigues

 

TALENTI

Jovem Músico do Ano

Prémio Jovens Músicos

 

INTER

Notícias

Prémio Europeu para Foco Musical

 

FESTIVAIS

Internacional Clarinet Talents

Ciclo de Concertos de Coimbra

Ciclo de Requiem de Coimbra

Dias da Música

Festival Palhetas Duplas

Festival de Clarinete de Braga

Festival Internacional de Música de Verão

Festival HornProject

Festival SaxoPorto

Festival Internacional de Percussão Tomarimbando

Festival Orquestra Nacional de Jovens

Festival Internacional de Guitarra de Amarante

Festival Jovens Músicos

Algarve Brass Forum

Festival Internacional de Guitarra de Guimarães

 

AD LIBITUM

Repertório para Violoncelo solo em Portugal em início do século XXI por Mariana Rosa 

Prática musical e saúde: atividades preventivas em Escolas Superiores de Música ​por Bruno Sousa

Opinião de Ana Beatriz Manznilla

Opinião de Miguel Pernes

 

SUGESTÕES

Ava Editons

Scherzo Editions 

Livros

Discos

Nova produção do Teatro S. Carlos

Estreou ontem, dia 10 de novembro de 2016, a nova encenação de Oedipus Rex de Igor Stravinsky, no Teatro Nacional de São Carlos. Esta ópera-oratória conta com o tenor Nikolai Schukoff, no papel de Édipo e com a mezzo-soprano Cátia Moreso, no papel de Jocaste. A direção musical ficou a cargo do maestro Leo Hussain, uma vez que, a maestrina Joana Carneiro se encontra ausente por motivos pessoais. A encenação ficou a cargo de Ricardo Pais, em colaboração com o com o cenógrafo e figurinista, António Lagarto e o desenhador de luz, Rui Pedro Simão.

Esta encenação prima pelo sombrio, pelo despido, pelo jogo de sombras e de luz.

Surge um palco bastante despido. No chão, uma superfície espelhada parece indicar um caminho que contém um trívio, aludindo ao cruzamento em que o Rei Laio foi morto. Ao alto, um portal, também ele com superfície espelhada. Ladeando este portal, encontra-se o coro de vozes masculinas sentados em duas tribunas. Por detrás destes, uma tela onde vão sendo refletidas algumas cores.

As luzes são o forte desta encenação. A criação de ambientes entre a cor da luz, que reflete no personagem e que é espelhado na superfície dá a ambiência sombria e densa que este enredo pede. O jogo de luzes e de sombras encontra-se em plena harmonia e sintonia com a música e o desenrolar da história.

Quanto aos figurinos, são bastante simples, sombrios e monocromáticos. O vestido da Jocaste é o mais exuberante; no entanto, é também apenas de uma cor, remetendo realmente para o ambiente pesado que se está viver e o infortúnio de Édipo. Os homens vestem túnicas remetendo para a Antiguidade Clássica.

Toda esta ópera-oratória está conotada com a fortuna e a desgraça de Édipo, que matou o seu pai, Laio, e mantém uma relação com a sua mãe, Jocaste. O facto de Édipo usar roupa de cor branca, remete para essa mesma ideia, de um ser ingénuo que não passa de uma marioneta nas mãos dos Deuses.

O coro tem como função comentar e antever os acontecimentos futuros, aproximando-se muito do que seria um coro na tragédia grega. Dispostos em duas tribunas, divididos por naipes, apenas se levantam e sentam, estando vestidos com uma roupa de cor cinza para mostrar a sua neutralidade em relação ao que se está a passar na cena.

A utilização do portal está muito interessante, porque além de servir de porta para a entrada e saída de Édipo, também é utilizado ao longo da ópera como um elemento decorativo que reflete as sombras, que se entreabre deixando trespassar um tule com uma cor roxa refletida nele, ou projetando luzes amarelas fortes para a plateia. Esta ideia do tule estava em diálogo com o canto da Jocaste, tão bem interpretada pela Cátia Moreso.

A primeira vez que todo o palco é iluminado acontece na cena é que se sabe que Édipo é filho de Jocaste e de Laio. Uma luz branca muito forte cai sobre toda a cena. Outra cena marcante é quando se sabe que foi Édipo que matou o seu pai, Laio. A sala ilumina-se totalmente, saindo do portal luzes amarelas muito fortes e as luzes da própria sala também são ligadas para simbolizar esta triste verdade.

Édipo é a personagem que mais se movimenta em toda a ópera e que nunca abandona o palco, os restantes intervenientes apenas caminham pelo passadiço espelhado e quando saem de cena, saem muitas vezes de costas. Bastante estática, mas bastante profunda, esta encenação demonstra-nos o lado negro da vida de Édipo, que nasceu já com o destino macabramente traçado. Note-se que a cena final é do mais macabro possível: o narrador leva Édipo num carrinho de bebé, depois de este ter mutilado os seus próprios olhos. Édipo surge ensanguentado e o coro lamenta a sua perda, com ajuda da orquestra que toca com dinâmicas em fortíssimo.

Em suma, o passadiço pode ser encarado como caminhos, em que só o narrador pode caminhar por todos eles e os restantes intervenientes têm o seu caminho designado. Há uma clara alusão à tragédia grega, quer pelo mito, quer pelo uso do coro como comentador e pelo uso de “máscaras”, em que Jocaste e Édipo surgem com a cara pintada de branco. No entanto, Stravinsky opta pelo latim para o texto. Muita pouca representação, sendo o ponto forte desta encenação os momentos estáticos e a expressão facial que combinada com o jogo de cores, de sombras e com a música – bastante cadenciada por momentos solo e tutti –, fazia com que entrássemos no drama daquele jovem.

Uma bela surpresa foi o pastor interpretado por Marco Alves dos Santos com uma voz muito bonita e límpida. Édipo muito bem interpretado por Nikolai Schukoff, com uma postura e uma expressividade excecional. Cátia Moreso, belíssima Jocaste, interpretou de forma sublime esta mãe e esposa com uma voz cheia de amor e compaixão. Também ressalvar a voz do narrador, João Merino, que muito bem declamou a história (em português) e interpretou o papel de mensageiro. Felicitar o coro e a orquestra e os seus respetivos diretores pelo trabalho muito bem conseguido. 

Cátia Moreso

Está a preparar a Jocaste para a a ópera-oratória Oedipus Rex de Igor Stravinsky, no Teatro Nacional São Carlos, com encenação de Ricardo Pais e direção musical de Joana Carneiro – em cena nos dias 10, 11 e 13 de novembro. Segue para a Madeira onde vai ser solista na 9º Sinfonia de Beethoven. Tem também em agenda um concerto em Londres, do Elias de Mendelssohn. Mas podemos esperar muito mais de Cátia Moreso, a mezzo-soprano venerada pela crítica como «impagável» e pelo seu «registo grave refinado e bronzeado, e seus agudos potentes e ressonantes».

 

Da Capo (DC) - Como nasceu a paixão pelo canto?

Cátia Moreso (CM) – (risos) Julgo se tratar de uma história bastante peculiar. Desde cedo tive contacto com a música. No meu seio familiar escutava-se muito música francesa dos finais dos anos 60, princípio dos 70, como também muito Luciano Pavarotti, Frank Sinatra, entre outros. Uma panóplia de estilos musicais! Contudo, ninguém da minha família tem ligações com a música, exceto uma prima em segundo grau, minha saudosa Teresa, que tocava piano e acordeão. Portanto, não há essa tradição na minha família. Eu e a minha irmã Leila Moreso fomos as primeiras a fazer da música a nossa profissão.

Respondendo à sua pergunta, somente ingressei no Conservatório D. Dinis aos 16 anos, na classe de Guitarra Clássica, pois queria ser a miúda cool da turma. Tocar as "Dunas" sentada à roda de uma lareira com amigos pareceu-me divertido (risos).

Além da guitarra, tinha coro e formação musical. Apaixonei-me instantaneamente por cantar no coro, o que despertou a minha curiosidade para aperfeiçoar a minha técnica. Foi a partir daí que comecei a pensar em ter aulas de canto, pois o meu sonho era cantar!

Fui para canto na esperança de poder ir ao programa Chuva de Estrelas com a Catarina Furtado, cantar Mariah Carey, Whitney Houston ou uma das grandes divas da altura. Nunca me passou pela cabeça apaixonar-me pelo canto lírico.

Foi com a professora Margarida Marecos que a minha história começou. Uma adolescente convencida que iria cantar no Chuva de Estrelas e que acabou por fazer meses intensos de vocalizos e exercícios respiratórios e que hoje em dia só se vê a cantar ópera. (risos)

Ao fim de uns meses tive a minha primeira ária e foi a melhor coisa que me aconteceu. Finalmente senti que tinha sido isto a razão do meu viver! A partir daquele momento disse à minha mãe: “mãe, eu quero ser cantora” e a minha mãe dizia “ai não filha, tens que tirar um curso porque a música não põe pão na mesa”. Foi assim que nasceu a paixão pelo canto.

 

 

“preferia que me tivessem imposto a música desde cedo”

 

 

DC – E como ficou o estudo da guitarra?

CM – Fiz Guitarra durante três anos mas o canto apaixonou-me mais. Tal como na aula de canto também estava convencida que ia aprender a tocar as canções da moda... (risos) acabei por ficar no plum, plim, plim, plum.

 

DC – Sente que o estudo da música já começou tarde para si?

CM – Eu costumo dizer que gostava de ter tido contacto com a música ainda em criança, mas não tive porque não quis. Os meus pais sempre nos incentivaram a fazer uma atividade, como ir estudar música. Como na minha família nunca houve imposições, somente iniciei os meus estudos musicais aos 16. Ofereceram-me uma guitarra no Natal e foi o início de uma nova vida, de um sonho. Confesso, hoje, que preferia que me tivessem imposto a música desde cedo.

 

 

"A música sempre foi como um hobbie durante bastante tempo, pelo menos até terminar a minha licenciatura em Design de Interiores”

 

 

DC – Sente que já foi tarde e que isso fez atrasar a sua evolução?

CM – Muito, muito! Eu ainda penso que sou muito incompleta. Acho imprescindível uma base sólida de educação musical e meu percurso nunca foi muito sólido. Além de não ter como referência na minha família alguém músico, não sabia se podia fazer da música profissão.

E, portanto, não havia confiança de que poderia viver do canto ou da música. A música sempre foi como um hobbie durante bastante tempo, pelo menos até terminar a minha licenciatura em Design de Interiores.

 

DC – Como conseguiu conciliar a faculdade com o conservatório, visto que são dois mundos muito exigentes?

CM – Foi difícil, mas ainda consegui acrescentar um terceiro mundo. O do trabalho! Entrei para o Coro do Teatro Nacional de São Carlos como reforço. Foi duro, bastante complicado. Eu nem sei como consegui, para ser sincera... (risos) Estava na faculdade, no conservatório e no coro do Teatro. Mas, costuma-se dizer que "quem corre por gosto não cansa".

Entrei no coro em 2003, estava no 3º ano da faculdade e foi muito complicado. Ia para as récitas fazer os trabalhos, nos intervalos, fazer diretas... O conservatório também... Foi um caos!

Quando não tinha ensaios ia à faculdade assistir às aulas e tentava reunir todo o material de colegas. Só tenho de lhes agradecer pela amizade e ajuda que me deram para conseguir acabar o curso e conciliar tudo. Abriu-me os horizontes e fez-me uma pessoa mais forte. Foi complicado, cansativo, esgotante mas sobrevivi! (risos)

 

 

"Decidi fazer todos os sacrifícios para poder perseguir o meu sonho. E consegui!”

 

 

DC – Fez a Licenciatura e o Mestrado na Guildhall School of Music and Drama, em Londres. Foi a sua primeira opção?

CM – Foi depois de terminar o curso no IADE que decidi seguir o meu sonho - o canto. Fui para Londres em 2007, para a minha primeira e única opção - a Guildhall.

Foi a Susana Gaspar que me desencaminhou. Um ano antes ela foi para a Guildhall e disse: “Tu tens que vir. Vais gostar!” Fui, então, fazer a prova. Entrei diretamente para o 3º ano da licenciatura em canto.

Tentei, depois, ter apoios financeiros para poder ir, mas infelizmente foram escassos. Tive que pedir um empréstimo ao banco pois nesse ano não consegui ser bolseira da Gulbenkian. Essa só veio após duas tentativas falhadas, quando entrei no mestrado no curso de ópera da mesma escola. Como diz o ditado “à terceira é de vez”. O não ir para Londres na licenciatura não era uma opção. Decidi fazer todos os sacrifícios para poder perseguir o meu sonho. E consegui!

 

 

"Mas fui lá [Londres] dois dias depois do Brexit e foi horrível. As pessoas olhavam-nos de lado quando falávamos português.”

 

 

DC – Em termos culturais, quais as maiores diferenças entre Lisboa e Londres?

CM – Existem tantas que era capaz de não ter tantas páginas para escrever (risos). Portugal é pequeníssimo! A mentalidade é pequena, infelizmente. Vivemos neste mundinho achando que em Portugal somos alguém. Quando chegamos a Londres somos só mais um. Não apostamos na cultura... Somente por isso já estamos em desvantagem...

 

DC – Como é o mercado de trabalho em Londres?

CM – Na minha opinião é extremamente competitivo e muito fechado. De certa maneira, não sei porquê, mas há uma certa xenofobia por parte dos ingleses para com os portugueses. Aliás, viu-se com o Brexit que o povo inglês é xenófobo, infelizmente.

É engraçado que durante aqueles anos, seis anos da minha vida, senti-me de certa maneira bem-vinda, acolheram-me bem. Apesar de algumas portas não se terem aberto facilmente por ser portuguesa, nunca me senti mal. Mas fui lá dois dias depois do Brexit e foi horrível. As pessoas olhavam-nos de lado quando falávamos português. Ainda bem que vim embora e agora estou aqui, na minha cidade, no meu país.

É difícil arranjar lá trabalho, mas não é impossível. Nesta área além de valor e talento tem de se ter muita sorte. E isso, não controlamos.

 

 

"O que gostei mais foi sem dúvida o rigor e pormenor com que cada produção era feita.“

 

 

DC – Gostou dos trabalhos que lá fez?

CM – Gostei imenso, aliás, sinto que cresci imenso como cantora, sobretudo a nível técnico e foi, sem dúvida, uma mais-valia para mim. Se não tivesse ido para lá a minha voz não estaria como está hoje. Acho que o ensino de canto em Portugal deveria sofrer algumas transformações.

Em relação aos trabalhos, guardo excelentes memórias de festivais cuja organização e pessoas envolvidas eram de um profissionalismo incrível. O que gostei mais foi sem dúvida o rigor e pormenor com que cada produção era feita.

 

DC – Pode-nos falar acerca da sua experiência no National Opera Studio?

CM – Depois da licenciatura e do mestrado no Opera Course, da Guildhall, fiz provas para o Opera National Studio e entrei.

O Opera National Studio é um estúdio pequeno de ópera e por essa mesma razão difícil de entrar. Tem a duração de apenas um ano, mas muito intensivo. Tive contacto com diversos coaches, maestros, pianistas, cantores de todo o mundo.

No final do ano tivemos um showcase onde apresentávamos três papéis de ópera. Escolhíamos excertos e apresentávamos a todas as companhias de ópera do Reino Unido, bem como a agentes. Pensei que seria uma excelente oportunidade para me conhecerem e conseguir contratos. Uma oportunidade única condensada num só local. Foi uma experiência de valor, muito intensiva, cansativa mas muito enriquecedora.

 

 

"Infelizmente aqui em Portugal é um pouco o oposto. O que vem de fora é melhor do que temos no país. Julgo que os portugueses têm muito que evoluir nesse campo. Eu tenho esperança que esse dia irá chegar.”

 

 

DC – Recomenda aos jovens portugueses que estudam em Londres?

CM – Recomendo a jovens do mundo. Sejam eles portugueses ou estrangeiros. Só não podemos é ter as expectativas muito altas. Temos de fazer a nossa parte o melhor possível, "beber" todos os ensinamentos e tornarmo-nos pessoas/cantores melhores.

Uma vez mais não posso deixar de mencionar que as oportunidades para estudantes ingleses ou da Commonwealth são superiores a qualquer outro. Infelizmente aqui em Portugal é um pouco o oposto. O que vem de fora é melhor do que temos no país. Julgo que os portugueses têm muito que evoluir nesse campo. Eu tenho esperança que esse dia irá chegar. E nesse dia os músicos portugueses irão ter valor e serão vistos com outros olhos.

Quantos portugueses estão a singrar no mundo da música no estrangeiro? Muitos! Mas num país onde o futebol e a casa dos segredos são mais importante está tudo dito. A cultura é a riqueza de um país! Infelizmente ainda não se aperceberam disso. 

 

 

“Tudo é possível com trabalho, persistência e esperança.”

 

 

DC – Qual é o seu repertório operático favorito?

CM – O meu repertório preferido é sem duvida do período romântico, tudo o que é verismo sou uma apaixonada. Corre-me nas veias. É como tivesse sido composto especialmente para mim. É indescritível.

Os restantes períodos contêm a sua beleza e podemos aprender com cada um deles, mas aquele que me faz vibrar é o período romântico, definitivamente. Infelizmente ainda tenho de continuar a provar que sou merecedora de começar a fazer mais esse repertório. Mas, tudo a seu tempo. O dia está para breve. Tudo é possível com trabalho, persistência e esperança.

 

DC – O seu próximo trabalho é Stravinsky, século XX. Como está a ser o desafio?

CM – Tive agora ensaio e é um desafio! (risos) Mas eu consigo entender porque me escolheram para este papel, aliás, sinto-me muito honrada por ter esta e outras oportunidades neste Teatro [São Carlos].

Tenho um carinho muito especial por esta casa, pois foi no coro que o bichinho do palco começou a crescer. A experiência foi para além de enriquecedora. Fiz bons amigos e foi o melhor trabalho que pude ter no começo do meu percurso como cantora.

Depois de ter ido para Londres fiz alguns papéis no teatro mas o ponto de viragem foi no ano passado, em que fiz a Suzuki na Madame Butterfly. Foi o meu primeiro papel principal neste Teatro e as críticas foram tão positivas que voltaram a convidar-me para mais um papel principal, o que me deixa muito feliz. 

 

Continuar a ler (Parte II)

Agostinho Sequeira, Jovem Músico do Ano

Agostinho Sequeira fez história no Prémio Jovens Músicos (PJM): foi a primeira vez que foi atribuído o Prémio Jovem Músico do Ano/Prémio Maestro Silva Pereira a um vencedor do nível médio. Aos 18 anos, o jovem percussionista de Corroios (Seixal), deixa Portugal para ingressar no Conservatório de Amesterdão, na Holanda. Na bagagem leva o reconhecimento do público que o aplaudiu em pé este fim-de-semana, no Grande Auditório da Gulbenkian.

 

um sentimento de total reconhecimento pelo trabalho realizado”

Ganhar o Prémio Maestro Silva Pereira - Jovem Músico do Ano foi algo muito especial. É um sentimento de total reconhecimento pelo trabalho realizado. Espero que me abra muitas portas para o futuro pois tenho a ambição de me projetar não só a nível nacional mas também europeu”, afirma Agostinho Sequeira.

No Concerto de Gala. interpretou na íntegra o Concerto para Percussão e Orquestra de Jennifer Higdon, em estreia nacional. Esta obra venceu em 2010 o Grammy para melhor Composição de Música Clássica Contemporânea. A compositora americana é também percussionista. Para Agostinho, foi uma experiência inesquecível: “Foi um momento bonito. Senti uma grande responsabilidade mas, ao mesmo tempo, senti- me muito apoiado pelas pessoas que me estavam a ver. Foi um momento onde eu pude exprimir todas as minhas emoções. Foi incrível tocar com a Orquestra Gulbenkian e o Maestro Osvaldo Ferreira, que demonstraram sempre uma grande disponibilidade em me ajudar para que as coisas pudessem correr da melhor forma possível. Estou-lhes muito agradecido”.

 

manter os pés bem assentes na terra e continuar a trabalhar muito afincadamente”

O sonho foi realizado mas agora é hora de voltar à realidade: “Tenho de manter os pés bem assentes na terra e continuar a trabalhar muito afincadamente, como tenho feito até aqui”.

Segue agora para a Holanda, onde o espera o Conservatório de Amesterdão: “Estou a começar uma nova fase da minha vida, fora de casa e também do meu país. Vou me ambientar a este novo mundo e no futuro com certeza que irei abraçar vários projetos. Vou continuar a seguir o meu caminho, dando sempre o melhor de mim todos os dias.”

 

a caminhada até à prova é realmente o que fica de mais importante para o futuro”

Voltemos ao PJM. Esta é a segunda vez que Agostinho Sequeira concorre e ganha o PJM. A primeira foi em 2014, com o Duo de Percussões da Metropolitana, com o qual ganhou o 1º Prémio de Música de Câmara, nível médio. “O que me leva a participar neste concurso é sobretudo o facto de me motivar ainda mais para trabalhar, pois fico focado num objetivo. Também o facto de ser um concurso muito reconhecido a nível nacional, que me poderá abrir portas no futuro”, explica.

Faz questão de deixar um agradecimento especial a toda a equipa do PJM: “É um concurso que motiva os jovens, que está muito bem organizado e tem uma equipa de logística fantástica que me ajudou muito”.

Para o jovem percussionista, “o importante num concurso não é só o ganhar prémios”, ou seja, “a caminhada até à prova é realmente o que fica de mais importante para o futuro”: “Eu acho que o PJM é uma iniciativa de eleição em Portugal. Não é apenas um daqueles concursos a que as pessoas vão porque querem ganhar reconhecimento. É sobretudo um concurso que está pensado e formatado também de forma pedagógica. É um incentivo para os jovens músicos deste país, para que continuem a trabalhar para alcançar os objetivos. Conheço muitas pessoas que mesmo não tendo ganho o PJM evoluíram muito graças à experiência que tiveram ao concorrer”.

 

Acho muito importante ter um feedback de pessoas que não estão dentro da área, pois vêm coisas diferentes”

Rigor, disciplina, concentração e muito trabalho. A receita acaba por ser a mesma para todos os concorrentes. Agostinho acrescentou mais um ingrediente: “Tentei também tocar o meu repertório para muita gente, mesmo não sendo percussionistas ou músicos. Acho muito importante ter um feedback de pessoas que não estão dentro da área, pois vêm coisas diferentes do que um percussionista veria, e essas coisas por vezes são as que mais contribuem para a interpretação da peça e o seu consequente sucesso”.

Difícil foi aguentar o cansaço que se foi acumulando e, ainda mais, ter de concorrer diretamente com amigos de longa data: “Felizmente, penso que conseguimos gerir isso da melhor maneira, mas por vezes era difícil, pois era algo muito importante para todos e todos queríamos ser bem-sucedidos”.

 

Quando entro em palco sinto-me feliz, realizado e com ambição de conseguir transmitir a minha mensagem”

Em palco sente uma energia inexplicável e uma grande emoção”. Não fica nervoso, apenas ansioso pelo momento: “Quando entro em palco sinto-me feliz, realizado e com ambição de conseguir transmitir a minha mensagem para as pessoas que me estão a ver.”

Sinto também uma grande emoção quando após saber os resultados, vejo os meus amigos e a minha família. Sinto que os deixei orgulhosos do meu trabalho”, acrescenta.

 

se consegui alcançar os meus objetivos, muito o devo à Metropolitana”

A lista de agradecimentos é extensa: “Antes de referir as pessoas que foram mais determinantes para mim, é-me impossível não referir a Metropolitana. Foi para mim uma segunda casa, em todos os sentidos. Sempre fui apoiado em todos os meus projetos e se consegui alcançar os meus objetivos, muito o devo à Metropolitana.

Este apoio da Metropolitana é também consequência do trabalho irrepreensível que o Professor Marco Fernandes realiza na coordenação da Percussão. O Professor Marco Fernandes foi muito importante na minha formação quer como músico quer como pessoa. Há oito anos que me vem acompanhando e em especial nestes últimos três, fez-me crescer muito e estou-lhe muito agradecido.

Houve também outros professores que me ajudaram muito nesta caminhada e entre eles destaco o Miguel Herrera e o Andreu Rico que também acompanharam de muito perto o meu percurso”.

E, com é óbvio, a família e os amigos: “Todos eles tiveram um papel fundamental no meu percurso. Também os meus amigos que sempre foram uma âncora para mim e sempre depositaram muita confiança em mim. A todos eles estou muito agradecido”.

 

Tocava bateria e queria ser jogador de futebol

O pai inscreveu-o no Conservatório de Música da Metropolitana quando tinha 10 anos. Já tocava bateria mas queria ser jogador de futebol: “Sinceramente, sempre pensei que iria para lá estudar bateria e quando soube que não ia tocar bateria fiquei um pouco triste. Aos poucos fui me começando a integrar na escola...”

A paixão e a certeza da Percussão vieram pelas mãos do professor Marco Fernandes, que o inseriu em vários projetos com alunos mais velhos.

 

Vivo com a ambição de inovar, principalmente na Percussão que é um mundo onde há ainda muito por descobrir”

Quer superar-se, independentemente dos objetivos que conseguir alcançar na sua carreira: “Não gosto de pensar em nenhum limite, espero ter oportunidades que me desafiem a ir ainda mais além”.

Ir mais além é fazer música nos grandes palcos da Europa. Mas há mais: “Vivo com a ambição de inovar, principalmente na Percussão que é um mundo onde há ainda muito por descobrir. Gostava de poder juntar a música com as outras artes performativas, pois é algo que me fascina. Encarnar uma personagem e entrar totalmente dentro do que estou a fazer, pois só assim o conseguirei transmitir. Gostava de guiar a minha carreira com base nesses ideais e focar-me sobretudo em música contemporânea pois a complexidade da sua linguagem fascina-me cada vez mais.”

 

Esta desvalorização da música e dos músicos em Portugal é o que nos leva muitas vezes a pensar que no estrangeiro é o melhor sitio para se estar”

Acha importante que um jovem músico estude nos grandes centros europeus, para que “possa projetar-se ao mais alto nível”. Em Portugal, “é feita música ao mais alto nível, mas não tem projeção”. Diz que “há projetos incríveis que caem por terra porque não têm apoios nem adesão”.

Música ao mais alto nível pode ser feita em qualquer lado, desde que haja seriedade no trabalho que se realiza. Temos a oportunidade de ter em Portugal músicos de enorme qualidade, que por muito estranho que pareça, alguns são até mais valorizados no estrangeiro do que no seu próprio país. Esta desvalorização da música e dos músicos em Portugal é o que nos leva muitas vezes a pensar que no estrangeiro é o melhor sitio para se estar”, explica.

 

Não nos podemos deixar ficar pelo que já temos, devemos sempre ir à procura de mais e melhor”

Assume-se como parte de uma geração de músicos marcados pela ambição: “Esta geração não é comodista e tem a ambição de se afirmar, quer a nível nacional, quer mesmo no estrangeiro e penso que esse é o caminho certo. Não nos podemos deixar ficar pelo que já temos, devemos sempre ir à procura de mais e melhor e, felizmente, vejo muitos músicos e colegas com esta determinação que é também contagiante”.

Se queremos ter bons músicos no futuro, temos de investir no futuro. Temos de criar condições para que os músicos e a música cresçam em Portugal”, adverte.

Defende “a grande qualidade de professores” que temos a nível nacional: “Em todo o país tem havido uma melhoria no ensino da música, mesmo com as dificuldades financeiras que todos sabemos que existem, mas que não impedem os professores de fazer sempre um trabalho digno”.

Bruno Borralhinho e Orquestra Gulbenkian

Acompanhado pela Orquestra Gulbenkian, sob a direção de Pedro Neves,o violoncelista Bruno Borralhinho lançou este ano (2016) um disco dedicado inteiramente à música portuguesa, com obras de Luís de Freitas Branco, Luiz Costa, Fernando Lopes-Graça e Joly Braga Santos.

“A minha ideia era, desde o início, alcançar um trabalho abrangente e representativo. O repertório não é tão abundante quanto isso, mas foi necessário escolher e finalmente decidi optar por gravar duas obras, ainda testemunhos de um estilo romântico tardio, as tais em estreia mundial em CD, o “Poema” de Luiz Costa e a “Cena Lírica” de Luís de Freitas Branco, e outras duas mais arrojadas e modernistas - os Concertos de Fernando Lopes-Graça e Joly Braga Santos”, explica Bruno Borralhinho à Da Capo. O “Poema” de Luiz Costa chegou aos nossos dias “em forma de esboço”, tendo sido Pedro Faria Gomes, em 2008, a completar e orquestrar a obra.

O CD tem como objetivo conseguir “um registo muito representativo também daquilo que foi a música portuguesa em geral ao longo do século XX, caracterizada por uma busca constante por um estilo próprio mas por vezes enveredando por caminhos muito distintos”.

 

“não é comum ver um CD dedicado à música portuguesa, com um solista, uma orquestra e um maestro, todos portugueses”

Foi já em 2009 que Bruno Borralhinho pensou neste disco. Na altura gravava o CD duplo “Página Esquecida”, com a pianista Luísa Tender, também inteiramente dedicado à música portuguesa para violoncelo solo e piano: “Desde então que tinha em mente dar continuidade a esse trabalho mas com repertório para violoncelo e orquestra”.

A editora NAXOS demonstrou interesse “sem hesitar minimamente” e, para Borralhinho, poder contar com a Orquestra Gulbenkian e o maestro Pedro Neves “foi realmente um prazer e um privilégio”: “Pude garantir assim uma certa genuinidade no produto final, porque não é comum ver um CD dedicado à música portuguesa, com um solista, uma orquestra e um maestro, todos portugueses”.

 

“gravar o Concerto de Fernando-Lopes Graça sabendo que foi uma obra encomendada e estreada por Rostropovich não foi menos aliciante...”

Sentiu “responsabilidade e motivação” ao gravar as duas estreias mundiais mas confessa que “gravar o Concerto de Fernando-Lopes Graça sabendo que foi uma obra encomendada e estreada por Rostropovich e cuja gravação de referência era a dele próprio, não foi menos aliciante... Pelo contrário!”

Quer que as obras sejam tocadas em público e que “a gravação possa suscitar a curiosidade de outros intérpretes para este repertório”. Paralelamente, está a trabalhar com a AVA Editions versões para violoncelo e piano das obras gravadas no CD porque acredita que “é uma condição fundamental na divulgação destas obras”.

 

“um cuidadoso e minucioso trabalho a três”

“Em termos técnicos, a produção foi tão aliciante como a própria gravação, uma vez que realizámos um cuidadoso e minucioso trabalho a três: o Pierre Lavoix (supervisor técnico e engenheiro de som), o Pedro Neves e eu. É preciso ter em conta que não gravámos obras de Beethoven ou Brahms e é imperativo fazer um controlo muito rigoroso em termos de partitura e registo sonoro para que, no final, encaixe tudo na perfeição”, conta.

O disco teve o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, Antena 2 Fundação GDA, Instituto Camões através da Embaixada de Portugal em Berlim, Lourisom, Câmara Municipal da Covilhã e AVA Editions: “Este prestigiado painel de apoios foi demonstrando que estávamos no caminho certo e que o trabalho realizado tinha valor e interesse”.

 

“o objetivo essencial é a divulgação e promoção da música portuguesa”

O CD está à venda nas lojas FNAC, na Companhia Nacional de Música (cnmusica.com), distribuidora da NAXOS em Portugal e nos locais habituais: Naxos Library, iTunes, amazon, jpc, prestoclassical, etc.

Borralhinho lembra que “a própria NAXOS assegura a melhor distribuição física a nível mundial a que alguém pode aspirar. Isto era aliás um ponto fundamental tendo em conta que o objetivo essencial é a divulgação e promoção da música portuguesa”.

 

"a informação partilhada gerou depois convívio e contacto entre o público e os intervenientes"

O lançamento aconteceu no passado dia 26 de maio na Fundação Gulbenkian: “Foi um evento muito interessante e informativo, aliás foi preparado com esse objetivo. Prefiro destacar o evento como um todo mas precisamente pela variedade de acontecimentos”.

O evento contou com a presença de convidados ligados ao projeto e aos compositores. Ouvimos também excertos do próprio CD e excertos das obras gravadas ao vivo nas novas versões para violoncelo e piano que estão a ser editadas pela AVA. Pudemos ainda ver imagens da própria gravação.

“Para mim, foi sobretudo positivo ver que o ambiente e a informação partilhada gerou depois convívio e contacto entre o público e os intervenientes. Ou seja, o evento em determinado momento terminou, mas continuou-se a conversar vivamente sobre a música portuguesa: missão cumprida!”, diz Bruno Borralhinho.

 

http://www.brunoborralhinho.com/

Paulo Ferreira

Paulo Ferreira, natural de Santa Maria da Feira, estudou canto na Escola de Música e Artes do Espetáculo do Porto (ESMAE), sob a orientação do Prof. José Oliveira Lopes. Teve ainda a oportunidade de estudar com Palmira Troufa, Marc Tardue e Enza Ferrari.

Em Portugal, a sua estreia deu-se no Coliseu do Porto, em 2007, no papel de Don José, da ópera Carmen de Bizet, convite lançado pelo Círculo Portuense de Ópera. Quanto à sua estreia internacional, foi em 2011, na sala Phillarmonie, Colónia, ao lado de Anna Netrebko.

Desde este momento que nunca mais tem parado, somando já ao seu curriculum 18 papéis principais do chamado “Grande Repertório”. O seu regresso a Portugal ainda não está agendado, contudo nós ficamos aguardar ansiosamente.

 

 

"Cantar era algo para além de mim próprio, preenchia a minha vida sem razão aparente e firmava a minha identidade."

 

 

Da Capo (DC) - Como nasceu a paixão pelo canto? Sempre soube que era esta a carreira que queria seguir?

Paulo Ferreira (PF) - Desde que me conheço que canto. Não por paixão, nasceu comigo, faz parte do meu ADN. Pelo que conta a minha mãe, aos três anos de idade já trauteava todas as canções que passavam na rádio. Cantar era algo para além de mim próprio, preenchia a minha vida sem razão aparente e firmava a minha identidade. E sinto isto desde as minhas recordações mais pueris.

Nunca tive certezas sobre se era “esta” a carreira que eu queria seguir. Eu não decidi nada. Sempre tive muitas paixões enquanto estudante. Tive e ainda tenho uma paixão imensa pelo Piano, mas nunca fui propriamente um “Pianista”. Penso sim que se há destino, o meu era este.

Estudar música na Academia de Música de Santa Maria da Feira, a minha cidade natal, foi a consequência de ser um bom aluno na disciplina de Educação Musical, quando andava na Escola Preparatória. A minha professora de música de então disse-me que eu era “dotado musicalmente”. Eu, nessa altura, não percebia o que isso queria dizer, só sabia que tinha algum jeito e que essa música, por si só, deixava-me de coração muito feliz. Tudo o resto aconteceu naturalmente, fruto de um processo evolutivo que as pessoas chamam, por vezes, de “destino”.

 

 

"apesar de ter, por exemplo, conquistado o 1º Prémio do Concurso Luisa Todi, em 2007, não recebi absolutamente nenhum convite de trabalho"

 

 

DC - Como surgiu a oportunidade de trabalhar na Alemanha?

PF - A oportunidade de ir trabalhar para a Alemanha surgiu depois de me tornar cantor em Portugal, nesse pequeníssimo universo musical onde, apesar das provas dadas, apesar de ter, por exemplo, conquistado o 1º Prémio do Concurso Luisa Todi, em 2007, não recebi absolutamente nenhum convite de trabalho.

Foi a minha necessidade de realização interior e profissional que, perante as portas fechadas do meu próprio País, me levou a acreditar que poderia sempre tentar conquistar o mundo. A Alemanha é um país que se distingue pela sua identidade cultural e respeito artístico únicos. Com cerca de 90 Teatros de Ópera em funcionamento proporciona seguramente oportunidades a quem as procura com perseverança.

Candidatei-me a várias audições em agências de cantores líricos. Devo dizer que escrevi cerca de 100 emails a agentes e só recebi 3 respostas… e faço referência a estes factos, para que se perceba que não é propriamente fácil… Dessas três respostas fui convidado a fazer uma audição, mas com essa audição obtive o meu primeiro contrato. Bastou este agente acreditar em mim, para começar uma nova etapa da minha vida, num País que não me conhecia de parte alguma, mas onde acabei por me sentir recebido de braços abertos.

 

 

"Perguntava-me como era possível não ter sido apoiado no meu País e, acabado de chegar a um novo país, ter logo um trabalho com a Anna Netrebko?"

 

 

DC - Como se sentiu na primeira vez que pisou o palco da grande sala de Phillarmonie, em Colónia, ao lado de Anna Netrebko?

PF - Como tive a oportunidade de referir, era um cantor português completamente desconhecido na Alemanha. Com toda a certeza, ter tido um concerto com a Anna Netrebko a assinalar a minha estreia internacional, porque foi, de facto, o meu primeiro concerto fora do meu País, representou um momento absolutamente marcante. Desde logo pelo concerto em si mesmo, mas também pela confusão e dualidade de sentimentos que nutri na altura. Perguntava-me como era possível não ter sido apoiado no meu País e, acabado de chegar a um novo país e ter logo um trabalho com a Anna Netrebko? Isto dá muito que pensar…

Lembro-me do nosso primeiro encontro como se fosse hoje. Ela chegou à Phillarmonie para o primeiro ensaio, cumprimentou o Maestro Claudio Vandelli efusivamente, e eu, que me sentia reduzido à minha insignificância, fui logo de seguida abraçado por ela. Numa demonstração de enorme grandeza humana, deu-me dois beijinhos e disse-me: "Paulo, muito obrigado por poderes aceitar este convite. Estou muito feliz por te ter neste concerto." Fiquei sem palavras perante tamanha simplicidade e consideração por parte de alguém que é tão-somente uma estrela do panorama mundial.

O Concerto correu muito bem, tendo obtido uma primeira crítica fabulosa. Mas devo referir que experimentei este mesmo sentimento de orgulho e admiração quando fui convidado pela cantora Elisabete Matos, outra estrela do panorama mundial, para cantar no concerto de comemoração dos seus 25 anos de carreira, no Festival ao Largo do Teatro de São Carlos, em 2014. Este festival, na altura organizado pela Opart, tinha concedido à cantora a livre escolha do seu tenor, e ela, na sua grande generosidade, dirigiu-me o convite. Cantar com a nossa grande Diva foi uma experiência igualmente avassaladora, de grande significado pessoal, porque Elisabete Matos, tal como Anna Netrebko, é uma artista que pertence a outra dimensão, acreditou no meu trabalho e me concedeu a oportunidade de me apresentar dignamente no meu País, num evento com esta importância.

 

 

"encanta-me perceber, quando estou em palco, que seguir os meus instintos tem valido muito a pena" 

 

 

DC - Já pisou os vários palcos da Europa (Áustria, Espanha, Eslováquia, Suíça, etc.), como foram essas experiências? O que mais o encanta quando está em palco?

PF - Sim, em apenas cinco anos de carreira internacional, já percorri muitos quilómetros. Todas as experiências, sem excepção, se revelaram marcantes, tanto pelos sítios onde cantei, quanto por todo o repertório que tive de rapidamente aprender. Conto, neste meu ainda curto percurso profissional, com 18 papéis principais do chamado “Grande Repertório”. E encanta-me perceber, quando estou em palco, que seguir os meus instintos tem valido muito a pena.

Sinto que o meu trabalho é reconhecido por todos aqueles que me contratam e por todos aqueles que me ouvem. Não deixa de ser uma vida solitária, por isso me sinto tão satisfeito com as conquistas que tenho vindo a fazer. Não há maior “encantamento” do que sermos valorizados no que acreditamos e de conscientemente pensar, valeu a pena arriscar!

 

 

"[sobre o Círculo Portuense de Ópera] depois destes serviços prestados, reconhecidos e medalhados, o apoio estatal e autárquico foi-lhe retirado"

 

 

DC - Quer partilhar connosco alguns momentos, pessoas ou instituições, que foram marcantes da sua carreira?

PF - Momentos ditos “marcantes” são os concertos que referi anteriormente, com as cantoras Anna Netrebko e Elisabete Matos. Outros que posso e devo referir foram os recitais de Canto e Piano do passado mês de Março, no CCB, em Lisboa, e no Fórum Luísa Todi, em Setúbal. Estes recitais foram especiais por me terem permitido, mais uma vez, colaborar com um pianista que considero absolutamente fantástico, Nuno Vieira de Almeida.

O Nuno é uma pessoa magnífica, um pianista de ‘mão cheia’, uma pessoa de uma cultura musical - e não só – imensa. É uma sorte, e digo isto com toda a convicção, para Portugal, ter um pianista deste calibre! Claro está, o Nuno mora em Portugal e o país não é generoso com os seus artistas. É uma pena e, devo dizer, uma vergonha que não se ouça com maior regularidade nos grandes palcos portugueses um artista com esta qualidade.

Mas, porque não me fiz sozinho, é justo referir aqui os que me guiaram e sempre acreditaram em mim: os meus professores! A primeira de todas, a professora Ondina Santos, minha primeira professora de Canto na Academia de Música de Santa Maria da Feira; depois, os meus professores da ESMAE, José de Oliveira Lopes, professor de Canto, Norma Silvestre, professora de Interpretação Cénica, e a minha Professora de Música de Câmara, Ana Mafalda Castro. Fui muito afortunado neste tempo de estudante por ter recebido os ensinamentos destes professores extraordinários e referências nacionais. O que ainda se torna mais relevante por considerar que o panorama académico e curricular, na sua generalidade, era fraco e desinteressante.

Posteriormente, no momento de transição vocal de Barítono para Tenor, cruzei-me com a pessoa a quem, depois dos meus pais, estou mais grato por ter tido o privilégio de cruzar a minha vida. A professora Palmira Troufa acreditou em mim e apoiou-me incondicionalmente. A sua invulgar visão, profissionalismo, coragem e generosidade, foram determinantes para me ajudarem a vencer uma das mais difíceis etapas da minha vida. 

Com risco para o prestígio do seu nome, aceitou conduzir-me na passagem para a vocalidade de Tenor, apesar de, enquanto Barítono, ter alcançado alguma expressão, com prémios atribuídos e alguns convites para pequenos papéis no São Carlos. Esta decisão de mudança de voz poderia não ter resultado, mas ela estava decidida a assumir as consequências e graças ao seu trabalho consegui. Por isso lhe estou e estarei extremamente agradecido.

A ajuda do Maestro Marc Tardue, na construção de repertório também se revelou, nessa altura, fundamental para o meu desenvolvimento como artista e intérprete. Um trabalho que agora prossigo com a maestra Enza Ferrari, em Itália, que me tornou no Cantor e Intérprete que hoje em dia eu sou e a quem eu estou igualmente muitíssimo grato por ter na minha vida.  

Por último, não poderia deixar de referir o Círculo Portuense de Ópera, conhecido por CPO, uma associação cultural sem fins lucrativos que tem como principal finalidade promover, junto de todas as camadas sociais, o estudo e a divulgação da ópera, especialmente através da realização de espectáculos. Foi o CPO que, a mim e a tantos jovens cantores portugueses, proporcionou a oportunidade de, em início de carreira, se afirmarem no mercado como cantores, de se apresentarem ao público em produções de elevado nível, sempre com um elenco de cantores mais experientes e muitas vezes de renome internacional. Um trabalho que deve ser destacado, muitíssimo profissional, desenvolvido por uma associação sem o apoio e estrutura de um teatro nacional.

Infelizmente, a demonstrar como Portugal tantas vezes é para as Artes e Cultura, o CPO, que festeja este ano 50 anos de vida, com um trabalho de grande e merecido mérito, reconhecido por todos aqueles a quem proporcionou trabalho e bons espectáculos, quero dizer artistas e público, já não consegue levar à cena mais produções de ópera. O apoio estatal atribuído para as produções de ópera para os três co-produtores destes espectáculos foi modificado e atribuído somente a um dos parceiros, deixando o CPO, que era a alma do projeto, de fora.

É absolutamente vergonhoso o que se faz no nosso país! Devo lembrar que o CPO foi condecorado pelo Ministério da Cultura em 1985 com a Medalha de Mérito Cultural pelos relevantes serviços prestados à música, e em 2001, a Câmara Municipal do Porto atribuiu-lhe a medalha de Mérito Cultural – Grau Ouro. E muito bem, depois destes serviços prestados, reconhecidos e medalhados, o apoio estatal e autárquico foi-lhe retirado. Onde está o sentido de tudo isto?

Tenho a honra de anunciar que, apesar de todas as dificuldades que o CPO está a enfrentar de momento, vai-se realizar no próximo dia 14 de Dezembro, na Sala Suggia da Casa da Música do Porto, o concerto comemorativo dos 50 anos de existência do CPO, onde terei a honra de cantar ao lado de Elisabete Matos e de outros colegas extraordinários, a Maria Luísa de Freitas e o José Corvelo, bons amigos de sempre! Devo realçar um dado curioso: é o convite do Circulo Portuense de Ópera que me irá proporcionar o gosto de cantar pela primeira vez no Grande Auditório da Casa da Música, numa cidade onde morei por tantos anos, e não os programadores desta Casa. Esses não devem saber quem sou… Acho absolutamente hilariante… (risos)

 

 

"com o tempo fui percebendo que ter boas críticas é uma coisa, mas manter boas críticas é outra"

 

 

DC - É aclamado tanto pelo público como pela imprensa internacional. Como gere as críticas?

PF - Desde o meu primeiro concerto que tenho tido o privilégio de ter críticas muito boas. No início eu achava muito excitante, claro está. Mas com o tempo fui percebendo que ter boas críticas é uma coisa, mas manter boas críticas é outra.

Os críticos aqui no centro da Europa não perdoam. São pessoas muito cultas e sabem do que estão a escrever. Pela minha parte fico sempre feliz quando sou reconhecido, mas estou consciente da responsabilidade que isso representa perante o muito trabalho envolvido. Há uma vida, uma profissão sempre a ser testada.

De resto, tento manter-me sempre sereno relativamente ao que escrevem sobre mim. Até hoje a crítica tem sido sempre muito generosa para comigo, mas tenho plena noção que existem muitos cantores no mundo e que nem sempre é possível agradar a toda a gente.

Andreia Pinto Correia

Vencedora em 2015 do Prémio John Simon Guggenheim Memorial Foundation Fellow, Andreia Pinto Correia, natural de Lisboa, já trabalhou com as orquestras Minnesota Symphony Orchestra e Berkeley Symphony Orchestra, nos Estados Unidos. As suas composições, segundo o Jornal de Letras, são a maior contribuição para a disseminação da cultura e língua portuguesa, talvez a maior contribuição que jamais poderia ser imaginada.

 

Da Capo (DC) - Como surgiu o gosto pela composição? Sempre foi este o seu sonho?

Andreia Pinto Correia (APC) - O meu gosto pela composição surgiu muito tardiamente. Quando comecei a estudar música, fi -lo porque queria ser solista num instrumento de sopro (saxofone); no entanto, tive que interromper o meu percurso devido a um acidente.

Depois de um intervalo de cerca seis anos, e após regressar aos meus estudos, comecei a compor e, pouco a pouco, o gosto pela composição foi surgindo. Hoje não me imaginaria a fazer outra coisa.

 

 

“Talvez tenha recebido alguns comentários menos positivos [mas] sempre fiz questão de não perder tempo a dar grande valor a reações de terceiros”  

 

 

DC - Quando decidiu seguir composição qual foi a reação das pessoas que a circundavam? Houve alguma situação menos agradável por causa dessa escolha?

APC - Talvez tenha recebido alguns comentários menos positivos no sentido em que havia começado a escrever muito tarde e porque havia tido uma aprendizagem de música jazz paralelamente à música clássica. A transição de solista para compositora foi muito lenta e levou muitos anos.

Anos de espera, afastada dos estudos em que li, estudei partituras, ouvi muita música e amadureci muito como pessoa. Mas, depois de tantos obstáculos, a minha determinação em ser compositora foi muito forte e sempre fiz questão de não perder tempo a dar grande valor a reações de terceiros. 

 

 

“[no NEC tive] a liberdade de escrever e crescer sem estar preocupada com rótulos mas sim com qualidade.”

 

 

DC - Porque decidiu estudar no New England Conservatory of Music? O que a cativou nesta Universidade? 

APC - A razão inicial pela qual fui para o New England Conservatory (NEC) foi por saber que o compositor Bob Brookmeyer ensinava naquela instituição. Devo acrescentar que o NEC é uma das grandes escolas de música de elite dos EUA. Bob Brookmeyer, falecido em 2011, era um professor muito exigente e muito especial, não só com um grande conhecimento de música erudita, de música jazz, mas também ele um grande solista. No entanto, devido a um conjunto de circunstâncias, acabei por mudar de rumo e fazer o doutoramento em composição clássica igualmente no New England Conservatory. 

De modo que, antes de mais, fui impressionada pela qualidade da instituição e por um professor em particular, mas creio que, de uma forma generalizada, fui igualmente cativada pela pluralidade de escolha nos EUA, digo, por existirem inúmeras escolas estéticas e por haver espaço para todas elas. No meu caso, o estar rodeada por músicos de grande qualidade de todo o mundo e o ter a liberdade de escrever e crescer sem estar preocupada com rótulos mas sim com qualidade.

Ao mesmo tempo, tive que me adaptar a uma ideia muito firme de auto-suficiência que, sem dúvida, existe nos EUA. A ideia bem presente do “self-made man” em que cada qual trilha o seu caminho, vencendo obstáculos e falhas, sem estar dependente do tal grande mestre responsável por nos construir a carreira. Uma forma diferente de ver as coisas, e a que não é tão fácil de se acostumar, portanto. 

 

DC - Como era formada a sua turma no ensino superior?

APC - No ensino superior não estava inserida numa turma. Quando fiz o mestrado, era a única aluna a tempo inteiro do Bob Brookmeyer, estudando composição exclusivamente com ele. Tinha diferentes classes de teoria e musicologia mas nunca inserida numa turma fixa. Durante o doutoramento, era a única aluna de composição. O programa de doutoramento no NEC é um programa muito exclusivo com uma grande vertente académica. Depois de três anos de seminários de teoria musical e musicologia e de quatro dissertações semestrais, passa-se à fase de orientação propriamente dita, de exames escritos e orais, e de dissertação final. É um programa muito rígido e por isso muito aliciante.

 

 

“[O importante de cada Prémio é] continuar a crescer musicalmente, dando o meu melhor em cada obra que escrevo” 

 

 

DC - Vencedora de numerosos prémios, entre os quais, o mais recente pela League of American Orchestras. Como recebe e encara estes prémios?

APC - Tento sempre estar consciente do que os prémios podem (ou não) representar, tentando não cair em falsas expectativas. Um prémio poderá trazer novas responsabilidades, possibilidades de colaborações até então desconhecidas ou até então fora de alcance, ou mesmo uma grande estabilidade financeira como é o caso do Prémio Guggenheim.

Como se sabe, existem variados prémios de composição no mundo e, se aprendi alguma coisa por eu própria estar em júris, é a relativizar a situação. Ou seja, estar consciente das responsabilidades que tenho e do valor da confiança de determinada instituição no meu trabalho não esquecendo o essencial: o continuar a crescer musicalmente, dando o meu melhor em cada obra que escrevo. 

 

DC - Já foi e continua a ser compositora residente de algumas orquestras, como Orquestra Sinfónica de Boston, de Memphis, etc. Que tipo de trabalho tem que desempenhar?

APC - Normalmente, uma residência está ligada a uma encomenda de uma obra e sua estreia ou até pode estar ligada a várias performances de obras já existentes no catálogo. Por isso, passo algum tempo no local da residência em ensaios. Igualmente muitas vezes inclui dar master classes e participar em conversas para o público, ou dar aulas de composição em universidades locais. Também pode incluir actividades que envolvam os mecenas da instituição em causa, algo talvez menos comum em Portugal e na Europa em geral.

 

DC - Em 2013, o Festival Português de Boston teve um concerto preenchido pela sua música. Como foi esta experiência?

APC - Foi uma experiência extremamente gratificante, isto porque até então nunca tinha participado num concerto da minha música que fosse de certa forma direccionado para a comunidade portuguesa nos EUA, neste caso em Boston. Acabo por estar afastada das nossas comunidades também devido ao tipo de música que escrevo, o que não deixa de ser um pouco triste.

 

DC - Recebe encomendas das instituições culturais portuguesas?

APC - Sim, recebo. Tenho várias encomendas de instituições culturais portuguesas para os próximos anos, encomendas das quais ainda não posso falar por não terem sido anunciadas oficialmente. Mas claro que a maior parte das minhas encomendas são feitas através de instituições internacionais.

 

 

“Sinto uma grande afinidade para com a escrita orquestral, creio que essa é a minha grande paixão”

 

 

DC - Como definiria a sua composição? Que género gosta mais de compor? Porquê?

APC - Esta é a pergunta com que me deparo mais vezes e creio que a melhor resposta é a de falar do que me preocupa. Tenho uma grande atenção ao detalhe, ao timbre, à harmonia, e à orquestração. Sinto uma grande afinidade para com a escrita orquestral, creio que essa é a minha grande paixão. A palavra não será género mas sim formação instrumental, neste caso. Pela possibilidade de escolhas a nível timbrico, pela paleta de cores, pelas  infinitas possibilidades. 

 

DC - Como é a receção crítica das suas obras? Já fizeram comentários depreciativos pelo facto de ser “mulher” compositora?

APC - Tenho tido sorte em ter tido muito boas críticas, algumas por críticos de renome, mas também já recebi a ocasional critica menos positiva. Creio que faz parte do percurso de todos os que se expõem a um público. Mas tenho sempre a consciência de que – e em particular no que diz respeito à música contemporânea  – quando uma obra é ouvida pela primeira vez, o público em geral não só não tem a noção do percurso do compositor em questão, como também não dispõe de gravações comparativas da mesma obra.

Posso dizer que sofro de um sentido muito aguçado de auto-crítica e devo dizer que apenas conheço uma ou duas pessoas a quem dou verdadeiramente atenção em relação a críticas – sejam elas positivas ou negativas. Pessoas estas que, sendo compositores que muito admiro, igualmente conhecem muito bem a minha música e o meu percurso. Tento tirar das críticas o que me parece sensato, sem deixar de estar sempre muito focada no meu trabalho, nas obras que tenho que escrever, e nos aspectos que quero melhorar na minha escrita.

Em relação à segunda parte da sua questão: infelizmente, já recebi algumas críticas menos boas por ser mulher compositora. No entanto, curiosamente, nos Estados Unidos, tal situação nunca me aconteceu, quiçá por haver uma maior percentagem de mulheres nos conservatórios e universidades, e uma presença constante de compositoras bastante mais velhas com grandes obras escritas. Mas reforço aquilo que lhe disse numa pergunta anterior em relação a críticas: tento sempre concentrar-me no que realmente posso controlar, ou seja, na qualidade da minha música que é o que realmente me preocupa. 

 

 

“Sérgio Carolino foi um grande impulsionador da minha música nos meus primeiros anos de escrita”

 

 

DC - As suas obras são frequentemente publicadas e gravadas?

APC - A minha decisão de passar a ter um maior controle sobre gravações deve-se ao querer atingir uma certa maturidade na minha escrita e, assim, querer esperar por obras que fossem, a meu ver, completas. Claro que esta afirmação lança novas questões como “quando é que se sabe que a obra está completa”, isto porque igualmente vejo cada obra minha como uma ponte para o que vem a seguir. Mas isto seria tema para uma outra conversa. Tenho, de facto, várias obras gravadas e, em Portugal, por exemplo, devo dizer que o Sérgio Carolino foi um grande impulsionador da minha música nos meus primeiros anos de escrita. Um grande músico e um grande colega. 

Cada projeto demora o seu tempo próprio a amadurecer e sinto sempre uma enorme responsabilidade para com a minha música. Dito isto, irei gravar dois CD’s monográficos nos próximos anos, ambos de obras de câmara. Não poderei revelar mais do que isto. Mas o meu grande obstáculo, se assim o posso dizer, é o escrever música orquestral. Nos EUA é muito complicado gravar um CD monográfico com uma grande orquestra, isto devido à forma como legalmente as instituições funcionam e à proteção por parte das Uniões. Os custos são impensáveis e, como se sabe, o mercado está saturado a vários níveis. Esta situação não deixa de ser um problema, uma vez que escrevo sobretudo para grande orquestra. Mas tenho esperança que esta situação mude em breve.

 

 

“Quando penso em sucesso, penso em fazer aquilo de que gosto”

 

 

DC - Gostaria de voltar para Portugal? Acha que teria igualmente sucesso se tivesse feito o seu percurso musical cá?

APC - O que o sucesso representa para mim ou para outra pessoa é muito relativo. Quando penso em sucesso, penso em fazer aquilo de que gosto, fazê-lo o melhor que posso, e em ter músicos de topo a tocar a minha música. Portugal tem músicos extraordinários e, nesse sentido, seria igualmente aliciante trabalhar no meu País. Provavelmente teria um percurso diferente, mas não penso que seria de uma menor ou maior validade. Apenas diferente.  

O escritor peruano Mário Vargas Llosa tem um ensaio muito interessante sobre este mesmo assunto, em que fala da existência de um exílio cultural (não afiliado a exílios por razões politicas ou económicas). Llosa fala das razões que levam um escritor – neste caso, faço paralelismo com um compositor – a escolher uma outra base que não o seu país de origem e como essas decisões criam expectativas em relação ao próprio indivíduo e à recetividade ao seu trabalho tanto no país de origem como no país de acolhimento. Portanto, tudo questões com as quais me debato diariamente.

Por outro lado, no nosso tempo, é possível viajar, estar mais ligado ao que se passa noutros continentes e, se bem que eu não seja a pessoa mais indicada para falar em questões tecnológicas, pois tenho grande apreço ao meu lápis, ao meu papel, e à minha solidão (no sentido de “solitude” e não de “loneliness”, distinção sensata que li recentemente num belíssimo ensaio do Professor João Lobo Antunes), o que é facto é que já não é tão importante estar em determinado sítio.

No meu caso, estudei composição nos EUA, nunca o fiz em Portugal, e por isso não tenho essa tal relação de discípulo de determinada “escola” ou mestre no nosso país. Desenvolvi relações profissionais muito duradouras com solistas, ensembles, orquestras e instituições nos EUA. E tenho também algumas relações a que dou um grande valor em Portugal. 

Mas respondendo à sua questão: venho a Portugal várias vezes ao ano, tenho cá a minha família, os meus grandes amigos, os excelentes músicos com quem tenho colaborado ao longo dos anos. Também tenho tido a sorte de cada vez ter mais trabalho na Europa, o que também ajuda a não perder o contacto com Portugal. Se gostaria um dia de voltar? Claro que não coloco esta possibilidade de parte, mas cada coisa a seu tempo. Tudo dependerá das circunstâncias e condições. Até lá, a porta fica entreaberta.

 

DC - Qual a sua opinião acerca da composição que se faz em Portugal?

APC - Tento acompanhar o mais que posso à distância e, quando estou em Portugal, gosto muito de ir a concertos dos meus colegas, de ouvir ensembles, e orquestras, gosto de saber o que se faz. Tenho colegas extraordinários em Portugal, gente com muito talento, com grandes aptidões. Também vejo que as novas gerações chegam em força, com oportunidades que seriam impensáveis faz dez ou vinte anos e, mais importante que tudo, que sabem agarrar essas oportunidades com muito trabalho e dedicação.

 

 

“aquela orquestra [Minnesota Symphony Orchestra] ‘percebeu’ a minha música de uma forma muito profunda, e que a tocou com grande respeito”

 

 

DC - Quais os momentos mais marcantes da sua carreira?

APC - Os momentos mais marcantes da minha carreira são, sem dúvida, aqueles que estão associados a pessoas que me fizeram crescer, os meus mestres: Bob Brookmeyer, John Harbison e Elliott Carter, compositor que conheci já nos seus anos finais de vida.

Depois tive outras experiências que me marcaram de uma outra forma, no sentido de confirmação de uma paixão: o ter ouvido a minha primeira obra orquestral, e o ter trabalhado com o maestro Osmo Vänskä e com a Minnesota Symphony Orchestra, uma experiência que me marcou muito pela positiva. Por ter sido uma das minhas melhores experiências profissionais que tive, por ter sentido que aquela orquestra “percebeu” a minha música de uma forma muito profunda, e que a tocou com grande respeito.

 

DC - Pode-nos falar um pouco sobre os projectos em que está envolvida?

APC - Neste momento, já estou a agendar obras para 2021; por isso, por vezes torna-se difícil de falar do presente. Por alto, tenho agendadas encomendas para várias obras orquestrais, um concerto para orquestra e solista, um monodrama, um ciclo de canções também para orquestra e solista, um quarteto de cordas, e variadas obras mais pequenas para solistas e ensembles de câmara. 

 

DC - Tem algum compositor ou obra preferida?

APC - Existem determinadas obras ou compositores que foram importantes para mim em diversas fases do meu percurso. Gosto muito de Mahler, o que surpreende muita gente. Dez anos atrás, passei meses a comparar o primeiro manuscrito da Symphonia no. 1, com a versão final escrita dez anos depois. Aprendi imenso sobre Mahler, o seu processo de escrita, a importância do que é eliminado e do que fica.

Messiaen, Stravinsky, Debussy, Bartók, Ravel, Ligeti, Dutilleux, e também Haas, Donatoni, Sciarrino, Beat Furrer, e Birtwistle são alguns dos compositores que influenciaram a minha música de uma forma ou outra. Mas existem tantos outros. E claro que Bach. Dos compositores americanos: Elliott Carter, Jacob Druckman, e John Harbison são os que mais me influenciaram.

 

DC - Como organiza a sua vida, os seus tempos livres, a sua preparação técnica, os ensaios, as viagens?

APC - Felizmente, neste momento, tenho uma pessoa que me ajuda a organizar a minha vida e o meu horário, o que é ótimo. O mais complicado talvez seja o gerir da minha própria editora. Tenho três pessoas a trabalhar para mim em regime part-time e estou ligada a uma casa de impressão em Boston com uma outra equipa que trabalha comigo. Ou seja, muita correspondência, muita papelada, e poucos tempos livres. Mas leio muito, estou permanentemente a estudar partituras, nado quando posso, aprendo novos idiomas, e todas as semanas tento ir a exposições, concertos, teatro. Nova Iorque é o sítio ideal para se viver neste aspecto. 

As viagens representam sempre uma quebra de rotina, o que, por vezes, é complicado, principalmente quando se tem prazos de entrega. Eu gosto muito do meu espaço físico e do meu estúdio, onde tenho os meus livros, as minhas paredes, o meu silêncio. Posso escrever noutros sítios e serei igualmente produtiva, mas não há nada como o meu espaço.  

 

 

“o meu maior obstáculo foi o ter estado afastada dos estudos por muitos anos e o ter começado a compor tarde”

 

 

DC - Quais as renúncias que teve de fazer para se entregar à música? Teve de abdicar da vida pessoal? 

APC - O sair de Portugal, que foi uma decisão feita há muitos anos. Mais tarde, o ficar nos Estados Unidos da América, que foi uma decisão muito ponderada em que influíram muitas experiências de vida. Sinto um grande apego a Portugal e, por vezes, não é fácil estar longe de tudo o que me é familiar. Steinbeck dizia que o local de origem é um sempre um local com uma pluralidade de construção de memórias, algumas das quais contraditórias.

Memórias de vivências, memórias do que um lugar representou em determinado momento das nossas vidas. E, por tudo isto, o lugar de origem, esse lugar com o qual sentimos esse elo profundo e único, carece de objectividade. Esta minha resposta também tem a ver com a questão que me fez anteriormente acerca de um possível regresso, de ter ou não uma perspectiva coerente de como eu vejo o meu país. 

Mas, regressando à sua questão inicial, creio que o meu maior obstáculo foi o ter estado afastada dos estudos por muitos anos e o ter começado a compor tarde devido a questões de saúde. Nesse sentido, abdiquei de anos de estudo e também de vivências que seriam importantes para o meu crescimento enquanto jovem. Mas também ganhei noutros aspectos, como uma maior determinação e, como se diz em bom português, uma “estaleca” sempre útil em situações menos boas. Faço e fiz sacrifícios, mas também sei que tenho uma vida de sonho: escrevo música, viajo para sítios fabulosos onde sou muito bem tratada, e colaboro com músicos extraordinários. 

 

DC - Projetos para breve?

APC - Neste momento, preparo-me para a estreia de Dalla Legenda aurea, uma obra encomendada por Winsor Music e Peggy Pearson, uma oboísta americana fabulosa. A obra, para Quarteto de Oboé (oboé, violino, viola, cello), é inspirada no painel de frescos de Piero della Francesca da Capella Maggiore em Arezzo, Itália.

Estou a terminar uma obra para quinteto de metais para os solistas principais da Boston Symphony Orchestra, obra que já havia sido encomendada faz uns anos e com estreia marcada para a próxima temporada. De seguida, irei escrever uma obra encomendada por um Piano Trio magnífico de Nova Iorque. 

Verão Clássico CCB

O Verão Clássico – Academia Internacional de Música de Lisboa regressa entre os dias 30 de julho e 6 de agosto, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Esta edição conta conta 148 alunos, dos 14 aos 30 anos, entre os quais 56 estrangeiros de 22 nacionalidades diferentes.

Filipe Pinto-Ribeiro , Diretor Artístico e Pedagógico do Verão Clássico, explica que “no ano passado funcionou muito bem, foram 92 participantes, os concertos apesar de serem no final de julho e início de agosto, fora de temporada, estavam cheios, havia muita gente, muitos turistas. Houve logo uma participação muito interessante de músicos internacionais, cerca de 30 por cento. Este ano tudo subiu”.

 

professores de difícil acesso”

As masterclasses, Solista ou Música de Câmara, têm como professores Gary Hoffman, Violoncelo, na Capela Musical Rainha Elisabete da Bélgica; Jack Liebeck, Violino na Royal Academy of Music de Londres; Olivier Patey, 1º Clarinete solo da Orquestra Concertgebouw de Amesterdão; Eldar Nebolsin, Piano, na Escola Superior de Música “Hanns Eisler “ de Berlim; Benjamin Schmid, Violino, na Universidade Mozarteum de Salzburgo e na Universidade de Berna; Isabel Charisius, Viola, na Universidade de Lucerna e violetista do Quarteto Alban Berg; Matthew McDonald, na Escola Superior de Música “Hanns Eisler “ de Berlim e 1º Contrabaixo Solo da Orquestra Filarmónica de Berlim; Silvia Careddu, Flauta, na Escola Superior de Música “Hanns Eisler “ de Berlim e 1.ª Flauta Solo da Orquestra Sinfónica de Viena e Filipe Pinto-Ribeiro, Piano, Diretor Artístico e Pedagógico do Festival. 

“Para mim é muito importante que se crie um evento de excelência que dê resposta àquilo que os jovens merecem, que é ter contacto com o que de melhor se faz, às melhores escolas. Os professores que trazemos são de difícil acesso, por isso até fazemos os almoços comuns para que os alunos tenham acesso direto a esses músicos, poder fazer-lhes vários tipos de questões sobre as suas carreias, as suas dúvidas, isso acaba por ser muito muito importante”, sublinha o diretor artístico e pedagógico.

Os professores convidados apresentam-se em concerto no MasterFest, enquanto os alunos podem atuar no TalentFest, em quatro concertos de entrada gratuita, que funcionam como “plataformas de apresentação pública e resposta à grande qualidade que tem surgido – há músicos laureados, de excelente qualidade”.

 

uma plataforma de apoio às carreiras dos jovens músicos”

Todos os participantes são candidatos aos Prémios Verão Clássico (nas categorias de Instrumento e Música de Câmara), cujo júri é formado pelos professores. O grupo vencedor tem um concerto garantido nos Dias da Música do próximo ano.

Os restantes premiados poderão ser ainda ter concertos programados noutras salas do país: “Há uma lista de premiados que será uma espécie de bolsa de talentos que recomendamos e estamos a tentar protocolos para os ir colocando. Há uma vontade muito grande para que o Verão Clássico para além de ser uma plataforma de formação, também seja uma plataforma de apoio às carreiras dos jovens músicos. Há uma vontade de os apoiar e encorajar, de lhes abrir portas”.

 

Há um esforço em tornar acessível àqueles que não têm possibilidade mas nem sempre se consegue”

A Academia Internacional de Música de Lisboa irá funcionar em parceria com a Metropolitana, que disponibiliza parte das suas instalações para a organização das aulas e apoia através de bolsas de estudos concedidas aos seus alunos no valor de 2800 euros. Ainda assim, os preços elevados para o mercado nacional exigem mais apoios: “É necessários um esforço económico muito maior. Tentamos que seja o mais justo possível, que haja bolsas. Apesar de termos apoios muito importantes, precisamos de mais para facilitar várias situações, porque além da propina, há o esforço do alojamento, da viagem, da alimentação. Isso era outro aspeto que queria melhorar - oferecer alojamento”.

Há também uma parceria com a Orquestra Geração para atribuir bolsas integrais a 13 alunos que terão direito a participar sem qualquer custo: “Há um esforço em tornar acessível àqueles que não têm possibilidade mas nem sempre se consegue. Pessoalmente, é uma frustração grande porque sempre que vejo um caso que se não se pode realizar por uma questão de dificuldade financeira, fico bastante tocado”.

 

Prémio de Composição CCB DSCH

O grande destaque desta edição é o Prémio de Composição CCB DSCH (Schostakovich Ensemble), que pretende distinguir uma obra de música de câmara e está aberto a compositores portugueses ou estrangeiros a residir em Portugal há mais de cinco anos. As obras candidatas deverão ter sido compostas entre Abril de 2012 e Abril de 2017 exclusivamente para trios, quartetos ou quintetos e deverão ter entre cinco e 15 minutos. O prémio atribuído terá o valor de cinco mil euros, o maior prémio de composição em Portugal. A obra vencedora será apresentada no Verão Clássico de 2017.

“É uma grande novidade, uma ideia já com alguns anos. Há, sem dúvida, um conjunto de compositores de grande qualidade, um segundo renascimento da composição portuguesa, depois do primeiro no início do séc. XX. Há uma pujança grande na composição portuguesa, muitas obras infelizmente não estão editadas ou não são tocadas ou não estão acessíveis”, sublinha Pinto-Ribeiro.

A ideia é“incentivar a composição ao galardoar obras de grande qualidade” e ir criando “um catálogo de obras”, já que o concurso é anual e vai ter continuidade: “Nós sentimos que havia necessidade de um concurso de reconhecimento de obras de excelência, que fossem ficando associadas a um prémio e que não tivesse limite de idade, que estivesse aberto a todos os compositores. Por exemplo, na literatura e noutras áreas, nós temos prémios que são prémios de qualidade mas que não limitam”.

Não obstante ser um prémio nacional, a organização quer que tenha um reconhecimento internacional: “Tivemos imprensa estrangeira no ano passado, por isso acreditamos que ao apresentar a obra, criamos uma referência e, quem sabe, daqui a alguns anos passar a ser um concurso internacional”. Garantida está também a edição da obra.

 

a Música de Câmara exige dos compositores a maior profundeza de pensamento e perfeição”

Para Filipe Pinto-Ribeiro, a Música de Câmara “é sempre uma área mais complexa a todos os níveis”, sobretudo da composição: “Como dizia Schostakovich, a Música de Câmara exige dos compositores a maior profundeza de pensamento e perfeição porque se nota. Para tocar e se fazer sucesso na Música de Câmara também é necessária muita atenção ao detalhe. É complexo, exige muito dos intérpretes e também do público. A música sinfónica e a ópera, por exemplo, são muito mais imediatas, têm outro efeito e poder no público”. Defende ainda que “muitas das grandes obras primas da maior parte dos compositores estão na música de câmara, são tesouros!”

O facto de ser mais difícil de ouvir - “exige do público uma grande concentração e preparação”, justifica as enormes dificuldades na sua programação: “Do ponto de vista financeiro, seria lógico haver mais Música de Câmara, temos espaços maravilhosos em todo o país, onde se podiam programar, mas sente-se uma grande dificuldade. Acho que isso tem a ver com a tradição, com a formação de público, que prefere ouvir uma orquestra do que um quarteto de cordas”.

 

tem que haver um esforço para se chegar ao público e para lhes explicar um pouco o que é a Música de Câmara”

Explica que a Música de Câmara também está muito ligada à tradição: “Enquanto no centro da Europa temos uma série de países onde a Música de Câmara é muito importante, onde há vários festivais de música de câmara, em locais próximos das pessoas, como igrejas, etc, em Portugal, nós não temos essa tradição”.

No entanto, é preciso começar a inverter este panorama: “Ao nível dos agrupamentos de Música de Câmara tem que haver um esforço para se chegar ao público e para lhes explicar um pouco o que é a Música de Câmara, porque ela em si é uma das áreas mais eruditas da música, por aí torna-se mais difícil chegar ao grande público”. 

 

Mais informações

Prémio de Composição CCB DSCH

Gilberto Bernardes

Doutorado pela Universidade do Porto – Faculdade de Engenharia sob a égide da Universidade do Texas em Austin (EUA) na área da geração de música automática. É Mestre pelo Conservatório de Amesterdão e Licenciado pela ESMAE, onde atualmente leciona. Obteve igualmente o diploma de nível superior às disciplinas de saxofone e música de câmara no Conservatório Niedermeyer (Paris, França).

Gilberto Bernardes é um saxofonista e criador que dá especial atenção aos domínios dos média digitais e improvisação. Tem-se apresentado a solo com a Orquestra Gulbenkian, Banda Sinfónica Portuguesa, Orquestra de Sopros da União Europeia e em vários festivais dentro e fora de Portugal.

É membro-fundador do Quarteto de Saxofones do Porto, do duo Blank Page, do Quarteto UNISAX e integra o grupo de música contemporânea Oficina Musical.

 

 

DC – O teu doutoramento aborda a geração de música automática. Em que consiste esse teu trabalho?

GB - O meu trabalho de investigação foca-se maioritariamente na criação de mecanismos ou modelos que permitam a uma máquina compor de forma automática ou auxiliar o utilizador a fazê-lo de forma mais célere e apresentando soluções para uma dada circunstância musical. Para isso, tenho de compreender o que está na génese da criação e da escuta musical e, posteriormente, simular esses mesmos mecanismos em agentes artificiais que permitam agilizar o trabalho dos músicos ou permitir, a quem não tem conhecimento na área, a possibilidade de integrar a experiência da criação musical.

Parece algo saído de um qualquer filme de ficção científica, mas na verdade hoje em dia, quase de forma transparente, os dispositivos electrónicos (com mais ou menos inteligência) estão presentes em toda o processo da criação musical. Veja-se as salas de concerto ou o métier dos compositores, em toda a cadeia de valores do universo musical é impensável ignorar as contribuições tecnológicas, das quais, a meu ver, os instrumentos musicais são o seu grande expoente. Nada me parece tão natural como continuarmos a explorar os meios inovadores da tecnologia dentro do universo musical. Na verdade, sempre foi assim.

 

DC – Podes dar-nos um exemplo?

GB – Sim, claro. Um exemplo concreto de uma tecnologia que nasceu pela mão do grupo de computação sonora e musical do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores - Tecnologia e Ciência (INESC TEC), que integro desde 2009 é o aplicação “a.bel”. Esta aplicação para teve recentemente a sua estreia na Sala Suggia da Casa da Música no passado dia 26 de Outubro de 2015 e será levada em breve para fora do país.

Nós chamámos o público a integrar ativamente no espetáculo através dos seus dispositivos móveis (telemóveis) que atuaram como instrumentos musicais. Repensámos o lugar do espetador para que este pudesse de forma intuitiva participar como elemento ativo num concerto de música.

Foi uma experiência única. Nunca estive numa situação tão inusitada num duplo papel de programador e intérprete (saxofonista) a esta escala. Foi um desafio imenso para a grande equipa que trabalhou no projecto. Ao desconhecido, presto eu o meu maior empenho, inquietação e admiração.

 

 

 

O universo da música contemporânea é como uma “questão sem resposta.” E, no fundo, o que interessa é saber colocar boas questões”

 

 

 

DC – É então essa tua curiosidade pelo desconhecido que te leva a apostar na investigação?

GB – Penso que sim. Não sei claramente quais os estímulos que acabaram por tornar a investigação como a minha principal atividade, ou a que mais tempo me absorve. É curioso levantar-me todos os dias para deslocar-me a uma instituição preenchida com um universo de colaboradores, na sua maioria engenheiros, e na qual uns poucos músicos se movimentam. Mas, o propósito que me leva lá, isto é, a busca de ferramentas que permitam aos computadores compreender e em última análise manipular e criar música, é um desafio enorme e que me é muito querido.

 

DC – Mas não descuras a tua atividade como instrumentista...

GB – Tento não o fazer. O ser músico e, principalmente, instrumentista, está na gênese de toda a minha actividade profissional, arriscaria dizer até pessoal, mas isso pouco diz respeito aos leitores. A minha atividade como interprete não é vasta, mas tem um carácter que diria muito experimental. Encaro sempre cada concerto como um projeto a que preciso de reconhecer alguma identidade e coerência. Digamos que tento centrar a minha atividade em poucos, mas novos projetos.

Um programa é uma história, no fundo é uma estrutura que pode e deve ser tão elaborada como a forma musical. Começo sempre a partir de uma ideia, uma obra, ou um qualquer estímulo. A partir de um destes elementos, desenho uma possível narrativa, que pode ou não ser entendida pelo público.

No entanto, esta terá seguramente uma certa unidade que fará com que o ouvinte consiga estabelecer pontes com o seu imaginário. Para além desta preocupação, tento sempre que cada concerto expanda horizontes. Não me refiro a ideias megalómanas, mas sim ao meu próprio universo, ou seja, que me traga algo de novo, que me faça aprender algo e que expande de certa forma a minhas capacidades enquanto músico.

Uma das forma de colocar estas ideias em prática é ao estabelecer colaborações seja com compositores, ou cineastas, ou escritores, etc. Prezo imenso a criação nas suas várias vertentes e em particular estéticas contemporâneas. Vejo-me como um amante de arte, com uma enorme predileção pelas artes plásticas e literatura. É daí que grande parte das vezes surgem a ideias base para o trabalho.

O universo da música contemporânea é como uma “questão sem resposta.” E, no fundo, o que interessa é saber colocar boas questões. É neste território de constante interrogação onde me coloco constantemente perante a realidade.

 

 

 

Podemos “esculpir” sons através de meios eletrónicos como puros devaneios oníricos. Podemos criar em segundos um instrumento nunca antes imaginado”

 

 

 

DC – A música contemporânea é a tua grande paixão no universo da música?

GB – Sim, o domínio que me é mais querido dentro do universo do sonoro é seguramente a música contemporânea e, em especial, o trabalho com componentes eletrónicos. É um território jovem por explorar e com tantas possibilidades quantas a imaginação assim quiser.

O que no mundo da música eletrónica mais me fascina, em comparação com o domínio da música acústica, é a possibilidade da metamorfose sonora. O digital não tem forma. É um universo infinito. Podemos “esculpir” sons através de meios eletrónicos como puros devaneios oníricos. Podemos criar em segundos um instrumento nunca antes imaginado, ou ilusões do movimento que desafiam os próprios sentidos. É um universo fascinante.

 

DC – E outros projetos?

GB - Em paralelo aos projetos a solo que vou apresentado, tenho igualmente entrado constantemente em palco na companhia de excelentes músicos e amigos com os quais tenho o prazer de partilhar experiências musicais. Refiro-me tanto aos vários projetos de música de câmara a que estou associado (Heartbrakers, UNISAX, Quarteto de Saxofones do Porto, Blank Page, etc), como ao universo orquestral e, em especial, à Banda Sinfónica Portuguesa. É um privilégio poder partilhar a ânsia e o nervosismo que sempre se instala antes de uma apresentação.

A música de câmara (tão levemente explorada pelas nossas escolas) é para mim um dos meus maiores prazeres enquanto músico e um pilar na aprendizagem de qualquer instrumentista. Dentro da atividade tão solitária quanto a interpretação musical, é um enorme conforto quando sabemos que estamos acompanhados por quem partilha a vontade maior de fazer música.

 

 

 

O menos talentoso dos alunos faz-me crescer tanto ou mais do que um especialmente dotado para a prática musical. É ele que ao desarticular de tal forma uma partitura faz-me reparar em algo de inesperado”

 

 

 

 

Da Capo (DC) – És também professor na ESMAE e na Escola Profissional de Música de Espinho. Gostas de ensinar?

Gilberto Bernardes (GB) - Ensinar é para mim uma tarefa paralela e interligada à minha atividade como músico. É uma partilha sob uma forma direta, desmistificada e bastante desarticulada da experiência do palco. No fundo, é como o mágico que desvenda os seus truques numa lógica e discípulo-mestre. Mas estes dois últimos conceitos são perigosos, pois é uma atividade de partilha mútua.

Mais do que ensinar, prefiro olhar a atividade como aprender. Ou seja, colocar a tónica no que recebe conhecimento. Não acredito que quem aprende seja só o aluno. Aprendemos todos: professores, alunos, colegas (com quem nunca dispenso trocar impressões). É uma verdadeira música de câmara.

O menos talentoso dos alunos faz-me crescer tanto ou mais do que um especialmente dotado para a prática musical. É ele que ao desarticular de tal forma uma partitura faz-me reparar em algo de inesperado (risos). Também o que consideramos especialmente dotado, no fundo, acredito que seja um que se adeqúe com facilidade aos modelos de educação em prática. Os grandes desafios encontram-se nos que tendem a mostrar poucos resultados na aplicação dos modelos regulares. Acredito que todos são seres musicais e que para potenciarmos essa qualidade temos de encontrar o trilho (ou método) certo. É aqui que reside o grande sucesso de um professor e músico (arriscaria outras profissões, mas irei limitar-me ao que, por inerência do destino, sei falar): a identificação e absorção dos estímulos que despontam as qualidades de cada um. É preciso estar atento e saber ouvir.

 

 

 

 

a interpretação nasce naturalmente de uma audição cuidada, ou seja, do exercício máximo que é saber o que ouvir e como ouvir”

 

 

 

DC – O que é fundamental ensinar a um aluno?

GB - Falar nas diferenças e desafios dos diferentes níveis de ensino ou dos seus alunos é-me muito difícil, porque cada aluno é um projeto único. Talvez arriscasse dizer umas generalidades, fruto da minha experiência, que me guiam a focar os primeiros anos de aprendizagem no desenvolvimento das capacidades técnicas dos alunos e numa característica que para mim é seminal: saber ouvir. Sim, não falei em interpretar, mas sim em saber ouvir.

Julgo que a interpretação nasce naturalmente de uma audição cuidada, ou seja, do exercício máximo que é saber o que ouvir e como ouvir. É sabido que a nossa percepção auditiva foca-se em elementos muito específicos e diferenciados de indivíduo para indivíduo. Ao treinar a audição atenta julgo estar a criar o interprete—criador ou não, pois o ouvinte interpreta tanto ou mais que o artista.

 

 

 

 

a música é verdadeiramente um lugar privilegiado para pensar a educação pelo seu carácter único na relação entre professor-aluno”

 

 

 

 

DC – Qual é o segredo para ensinar com sucesso?

GB - Acho que devemos ter uma abertura e atitude humilde face à atividade de ensinar e aprender. Não diria que [ensinar] é uma tarefa impossível, mas não estará muito longe. E, acho que a música é verdadeiramente um lugar privilegiado para pensar a educação pelo seu carácter único na relação entre professor-aluno, assim como pelas várias componentes não-exatas que a integram.

Acho que, acima de tudo, devemos assumir culpa em todo o processo. Não nos devemos excluir como pessoas com gostos e opiniões do processo educativo. Ao emprestarmos a nossa individualidade, enriquecemos a partilha de experiências. Assim como nunca devemos (digo eu isto a mim próprio repetidas vezes) desonrar o compromisso. E como? Quem me dera saber!

Para mim, a grande chave para o sucesso é a motivação. E, se há algo que peço para nunca deixar de ter, é a vontade enorme que sinto todos os dias de querer fazer mais, melhor e diferente. Reinventar(-me).

Dias da Música 2016

A viagem começou em 2015, quando André Cunha Leal anunciava o mote para os Dias da Música de 2016: “Portugal é importantíssimo, está na nossa vocação. De Brasil a Macau, nós temos uma identidade musical, há todo um sentimento quase comum que nos une a todos, a Bossa Nova, o Samba, canção em patuá de Macau...”. Lembrava que sobretudo a partir do séc. XIX, havia uma grande abertura por parte da música erudita às influências do folclore, que “ganha uma ligação muito mais direta com aquilo que nós chamamos a música de raiz, de tradição”. A promessa seria também trazer erudita indiana, chinesa, japonesa, africana: “se percorrermos o mundo vamos encontrar exemplos de muito boa música”.

Foi com esta expectativa que chegamos aos Dias da Música de 2016, num fim-de-semana prolongado, primaveril, véspera de feriado nacional. O tempo estava convidativo mas o palco exterior por onde passavam ensembles e grupos de câmara das escolas não fora montado por falta de confiança nesse tempo, que em 2015 obrigara a cancelar vários concertos. Como diria o velho provérbio “quem anda à chuva molha-se” e se há coisa que não pode ser molhada são os instrumentos. Mesmo assim, ao pé da bilheteira teríamos o Palco PJM.

 

O desafio dos jovens músicos

Mas voltemos à viagem à volta das músicas do mundo. A novidade seria a Sala Júlio Verne, na Praça do CCB, com concertos informais dirigidos às famílias: ritmos cubanos, jazz, blues, sonoridades africanas e indianas, tango, música brasileira e árabe.

No Grande Auditório as músicas seriam de Debussy, Gerswin, Arturo Márquez, Luís de Freitas Branco, Elgar, Mendelsshon, Dvorak, Sérgio Azevedo, Manuel de Falla, Korsakov, Prokofiev, Copland, Nielsen, Grieg, Sibelius, Glazunov, Borodin, Ravel, Verdi, Puccini e Bernstein. Salvo uma fugida à América, permaneceríamos na Europa e com os habituais intérpretes: Orquestra Metropolitana, Sinfónica Portuguesa, Gulbenkian e Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP). A excepção não fora coincidência como confirmaria depois Miguel Leal Coelho a propósito dos cinco concertos com orquestras de jovens: “Uma aposta arriscada mas ganha. Sabíamos que não era tão atrativo em termos de público mas fizêmo-lo pela sua qualidade e por serem o futuro”. Falamos da OJ. Com (Orquestra de Jovens dos Conservatórios Oficiais de Música), Orquestra XXI, JOP (Jovem Orquestra Portuguesa) e Orquestra Académica Metropolitana. Falamos também de jovens maestros como Dinis Sousa e Jan Wierzba.

 

Do Ocidente ao Oriente

No Pequeno Auditório, o percurso seria mais “animado” ou surpreendente. Comecemos pela Fusão Oriental com o Ensemble Darcos e o Yogistragong. Viajámos com a música tradicional das ilhas de Java e Bali e com o Cycles de Nuno Côrte-Real para gamaleão e quarteto de cordas. Seguimos para os mares de Itália, onde ouvimos lendas e histórias de Alfio Antico, canções antigas que ganham vida pelo canto, alaúde, archlute (guitarra barroca), colascione (instrumento da família do alaúde) e percussão.

Dar à volta ao mundo implica necessariamente voltar ao passado ainda que este seja recente. E se queremos multiculturalismo, nada melhor do que visitar Nova Orleães, sob o lema “Deixa os bons tempos rolarem”. A mistura da música europeia com latino-americana e afro-americana, o jazz, o blues, o swing, ao estilo dixieland pelos portugueses Desbundixie.

Voámos depois “Entre Tangos y Boleros” com a Camerata Atlântica, onde encontrámos a alma latino-americana: Carlos Gardel, Astor Piazzolla, Mariano Mores, Augustín Lara, Mendez Garcia, Consuelo Velásquez...

A Fusão de Culturas”, árabe e ocidental, acontecia com o Trio Rabih Abou-Khalil. E seria o próprio compositor Abou-Khalil a brilhar no oud (alaúde árabe), acompanhado pelo acordeão de Luciano Biondini e as percussões de Jarrod Cagwins. E desta forma poética fecharíamos a volta ao mundo sem sair do Pequeno Auditório. Porém, ainda nos faltava um dia de viagem.

Regressaríamos, no domingo, à Europa, com a Canção da Terra (versão de câmara) de Gustav Mahler. Em palco o Ensemble Mediterrain, quase todo em português, sob a direção do também luso Bruno Borralhinho. Um concerto que nos deixou vontade de ouvir de novo, noutros palcos, noutros momentos.

De Mahler para Boccherini, Rossini e Takemitsu, com a OCP e Pavel Gomziakov ao violoncelo. Pedro Carneiro voltaria ao mesmo palco com a OCP quatro horas depois, com Tatiana Samouil no Concerto para Violino nº 5 de Mozart e também para a estreia absoluta da obra Illuminations de Miguel Azguime.

Entre os dois concertos da OCP, parámos em Portugal com Nuno Côrte-Real, que nos apresentou o livro primeiro do Novíssimo Cancioneiro, inspirado nas melodias tradicionais portuguesas. A palavra viria das vozes do Coro Ricercare, acompanhado pelo Ensemble Darcos.

 

Da Diáspora

Noutros palcos, nas salas Luís de Freitas Branco, Sophia de Mello Breyner, Almada Negreiros e Fernando Pessoa a viagem podia ser feita da Rússia Romântica de Tchaikovsky aos Sons da Índia pela sitar de Paulo Sousa e pelas tablas de Francisco Cabral. Ou pela “Turquerie: devaneios barrocos de uma fantasia oriental” pelo Ludovice Ensemble, a “Espanha aqui tão perto...” pelo pianista Daniel Cunha, ou a “Volta ao mundo em 40 minutos” pelo Quarteto Vintage acompanhado pelo percussionista Luís Arrigo.

O Ensemble Mediterrain voltaria ao palco com música de “Inspiração Grega”, o Quarteto Arabesco apresentou um programa latino com Boccherini, Carlos Paredes, Armandinho, Pedro Jóia e Paco de Lucia.

Surpreendente seria “Uma tarde num jardim persa”, uma fusão entre música iraniana, com instrumentos clássicos e tradicionais, como o kamancheh (instrumento de cordas da região da Pérsia). As intérpretes iranianas intercalaram a música com poesia persa. Igualmente impressionante foi “Uma Parceria Israelo-Palestiniana” pelo Duo Amal, dos pianistas Bishara Haroni e Yaron Kohlberg, com música árabe e israelita. E o “Mantra: Uma Conversação Musical pelo Oceano Índico” com o quarteto vocal The Orland Consort, acompanhados pela tabla, sitar e Shahid Khan na voz. A música seria o resultado do encontro dos missionários portugueses com os indianos de Goa no séc. XVI. Também sobre a presença portuguesa em Goa, o trio Portogoesas com as obras tradicionais, ainda hoje cantadas pelas famílias goesas.

Sobre a Diáspora, ouvimos também os Sete Lágrimas com sons de todo o mundo, entre os séculos XVI e XX: vilancico ibérico, fado, chorinho brasileiro, mornas africanas, canções tradicionais de Timor, Macau, Índia, Brasil... Da Guiné Bissau veio o mestre da kora (com 21 cordas) – José Galissá. E Eduardo Ramos, no alaúde árabe, apresentou o Concerto das Três Culturas com os convidados Carlos Mendonça na flauta e Baltazar Molina – darbuka e tar: cantigas galaico-portuguesas, sefaritas e tradicionais árabes. Uma abordagem à época medieval, onde a música e a poesia misturavam cristãos, muçulmanos e judeus.

 

Da união entre os povos

“Queremos que a música seja uma celebração de paz e fraternidade, de união e partilha entre os povos, independentemente da sua origem, região ou religião”, destacava Miguel Leal Coelho na conferência de imprensa. O ambiente era de festa, tal como tem acontecido em todas as edições. E de facto em equipa ganhadora não se mexe. Os números falam por si: mais concertos, mais bilhetes vendidos. É indubitável o sucesso dos Dias da Música no panorama da música portuguesa.

No entanto, sentiu-se a falta de mais Diáspora, mais multi-culturalismo, mais povos ou música de outros povos. Estavam lá é certo, mas podiam ser mais. Ficámos com a sensação de que a música erudita fora do Ocidente é tímida, como se a volta ao mundo demorasse 70 dias na Europa e EUA e apenas 10 nos outros continentes.

Ludovice Ensemble

Ainda jovens, Fernando Miguel Jalôto e Joana Amorim perceberam que para fazerem Música Antiga em Portugal teriam de “meter mãos à obra”. Foi assim que há 11 anos, a partir do zero, fundaram o Ludovice Ensemble. Hoje, contam já com um disco editado para a conceituada editora franco-belga Ramée-Outhere; uma nomeação para os International Classical Musical Awards; a apresentação em alguns dos grandes festivais estrangeiros como o Festival Oude Musik de Utrecht, o Laus Polyphoniae de Antuérpia ou La Chaise-Dieu em França...

Com mais de 100 obras interpretadas, é pelas mãos de Fernando Miguel Jalôto que passa toda a dinâmica do grupo, desde a escolha do repertório até à negociação com programadorese diretores de festivais.

 

Da Capo (DC) - Como nasceu o Ludovice Ensemble?

Fernando Miguel Jalôto (FMJ) - O Ludovice Ensemble nasceu do encontro entre dois músicos portugueses - eu e a Joana Amorim - na Holanda, onde nos encontrávamos a estudar Música Antiga no Conservatório Real da Haia, que logo de início sentiram que tinham muitas afinidades e gostos em comum.

Apesar dos grande sonhos e expectativas que alimentávamos enquanto estudantes, após o regresso a Portugal, apercebemo-nos dos grandes limites da vida musical na nossa área e da falta de oportunidades de trabalho. Os grupos que existiam eram poucos e a qualidade não nos satisfazia - estamos a falar de uma época em que eram realmente pouquíssimos os músicos portugueses com uma formação específica - e de qualidade - nesta área.

Era claro também que Portugal estava demasiado afastado dos grandes centros da Música Antiga europeia e que, por muito que nos esforçássemos, as nossas oportunidades de sermos chamados regularmente por grupos internacionais era limitada.

Eu ainda equacionei ficar lá fora, mas por razões pessoais e familiares tive de regressar. Não tínhamos grandes planos para criar um grupo do zero - ambos achávamos que ainda nos faltava muita experiência e conhecimento, mas se queríamos trabalhar na nossa área e com o nível que ambicionávamos tínhamos mesmo de criar a nossa própria "empresa". Tínhamos tantos sonhos e projetos que nos lançamos, sem saber bem aonde é que tudo isto nos levaria. Um pouco como todos os jovens empresários... a única diferença é que sabíamos desde o início que nunca ficaríamos ricos com este "negócio"...

 

DC - E porquê Ludovice?

FMJ - Nunca é fácil arranjar um nome para um grupo. Queríamos um nome que simultaneamente fizesse alusão a Portugal, ao nosso património artístico, e também mantivesse as portas abertas à nossa ligação íntima com a multiplicidade e variedade da cultura europeia; que estabelecesse pontes com o estrangeiro, onde nos formámos e aprendemos tanto, e ao mesmo tempo honrasse a nossa herança. Não nos queríamos limitar ao repertório português, o que para nós, sobretudo na altura, parecia ser muito redutor e, por isso, não podia ser nada de muito patriótico; mas queríamos também abordar e valorizar o nosso legado e identidade.

Como eu havia estudado Arquitetura na universidade e a Joana havia estudado Belas Artes, acabámos por nós recordar do arquiteto e ourives alemão Johann Friedrich Ludwig, que ficara conhecido em Portugal como Ludovice.

Adorávamos Mafra, havíamos vibrado com a leitura do "Memorial do Convento" do Saramago ('Baltasar e Blimunda' chegou a ser equacionado como nome para o grupo, que é o título do romance em inglês), e Ludwig havia tido um papel único e incontornável na introdução do Alto Barroco internacional em Portugal no tempo de D. João V, tal como nós aspirávamos também a ter um papel relevante na introdução e renovação das Práticas Históricas Interpretativas em Portugal... por isso acabamos por eleger este nome.

O facto de ninguém saber muito bem como se pronuncia mas toda a gente ser capaz de o dizer, com um sotaque mais à italiana ou à francesa, também nos seduziu... mostra exatamente as variadas influências e aspirações do grupo. Mais tarde, acabámos por conhecer vários membros da família Ludovice, descendentes diretos do insigne arquiteto, que nos têm recebido de uma forma sempre muito calorosa; até já lhes pedimos a honra de nos tornarmos "membros honorários" da família...

 

 

 

a Música Antiga não é um repertório específico; é sobretudo uma forma de olhar a música, qualquer que ela seja”

 

 

 

DC - Têm apostado mais na divulgação da Música Antiga. Em que compositores têm apostado mais?

FMJ - Bem, apostamos na Música Antiga porque é exatamente aquilo que estudamos e nos especializamos. Mas dentro do "saco" da Música Antiga cabe muita coisa... a Música Antiga não é um repertório específico; é sobretudo uma forma de olhar a música, qualquer que ela seja, uma opção de abordagem interpretativa que se aplica a qualquer época ou estilo.

A chamada Música Antiga são as Práticas Históricas de Interpretação, ou seja a interpretação de cada repertório partir do estudo e análise das fontes contemporâneas e a recolha do máximo de informação que nos permita um vislumbre de como é que as obras foram criadas e interpretadas no seu tempo. Perceber que cada obra, compositor e estilo é específico e que não há generalizações nem "receitas" que se apliquem indiferentemente.

As nossas opções interpretativas - desde a escolha dos instrumentos, à eleição dos tempos, das dinâmicas, das articulações, do fraseado ou dos ornamentos - são "informadas" com o conhecimento atualmente disponível. Não quer dizer que sejamos arqueólogos ou nos sujeitemos a alguma espécie de "encenação" ou reconstrução do passado - mesmo que o quiséssemos, seria impossível... é um puzzle em que faltam demasiadas peças!

Somos músicos do século XXI e tocamos para o público do nosso tempo. Mas as opções que tomamos são conscientes, são escolhas nossas... não nos sujeitamos a seguir aquilo que o maestro ou um professor famoso um belo dia decidiu que era melhor ou mais bonito, nem queremos ser escravos das sugestões - muitas vezes aleatórias - dos editores de partituras. As escolhas são nossas, mas sempre tentando ir ao encontro do diálogo frutuoso e indispensável que em tempos existiu entre compositor e intérprete, e que nós ansiamos por recriar mesmo que nos separem 300 anos.

 

Enquanto cravista, organista e, ocasionalmente, fortepianista, e respeitando a minha formação, posso executar obras do século XV ao início do século XIX; o cravo tem também um fascinante repertório do século XX e XXI, mas que eu raramente abordo, pois requer técnicas e conhecimentos específicos.

A Joana, enquanto traversista e flautista (de bisel) tem uma extensão de repertório igualmente imensa. Estamos a falar de quatro ou cinco séculos de música... num tempo em que cada país e cada região seguia um determinado estilo ou uma diferente tradição, em que cada compositor escrevia centenas ou mesmo milhares de obras. Por isso, eu tenho em casa cinco instrumentos de tecla e a Joana tem umas dez flautas... modelos, estilos, afinações diferentes, os mais adaptados a cada época.

Inicialmente privilegiámos música de câmara instrumental ou vocal-instrumental dos séculos XVII e XVIII, sobretudo francesa e alemã. No entanto, nestes 11 anos interpretámos já muita música italiana, portuguesa, inglesa, espanhola...

Quando completámos os nossos 10 anos em 2015, fizemos as contas e constatámos que neste período interpretámos obras de exatamente 105 compositores... e em 2016 já acrescentamos mais uns três ou quatro à lista.

Quanto aos mais tocados... não temos um cálculo seguro, mas seguramente são Marc-Antoine Charpentier, François Couperin, Johann Sebastian Bach, Carl Philipp Emanuel Bach e Georg-Philipp Telemann. Temos um arquivo bem organizado, um dia faremos as contas.

 

 

 

Para a maior parte dos nossos concertos no estrangeiro, os diretores e programadores pedem-nos música portuguesa”

 

 

 

DC - Que música portuguesa têm feito? Têm “descoberto” obras esquecidas nos arquivos?

MJ - Como "música portuguesa" no Ludovice temos uma noção muito abrangente. Consideramos nesta categoria obras de autores portugueses, escritas em Portugal ou nos estrangeiro, mas também obras de compositores estrangeiros que residiram em Portugal e aqui escreveram obras, ou ainda, excepcionalmente, compositores que, apesar de não terem visitado o nosso país, escreveram obras para instituições portuguesas. Enfim, tudo o que nos permita recriar a "paisagem sonora" portuguesa nos séculos XVI, XVII e XVIII.

Este repertório nacional tem vindo a ocupar um lugar cada vez mais importante no nosso repertório. Para a maior parte dos nossos concertos no estrangeiro, os diretores e programadores pedem-nos música portuguesa, música feita em Portugal ou relacionado com o nosso país.

Assim, compositores como Francisco António de Almeida têm-nos acompanhado por França, Espanha, Bélgica e República Checa, juntamente com Pedro António Avondano, Carlos de Seixas, Pedro Lopes Nogueira ou João Cordeiro da Silva.

Dos compositores estrangeiros que viveram e trabalharam em Portuga,l apresentamos frequentemente obras de Domenico Scarlatti, David Perez, Antonio Maria Schiassi, Giovanni Bononcini, Emanuele d'Astorga, José Palomino... de quase todos eles tocámos obras em primeira audição, que descobrimos nos arquivos e bibliotecas, e nós mesmos editamos. Lembro árias de Almeida e Cordeiro da Silva, sonatas de Avondano, cenas operáticas e obras sacras de Perez, peças para violino de Nogueira, um concerto de Schiassi, duetos e cantatas de Bononcini e Astorga... No meu trabalho como musicólogo, que depois acaba por se refletir diretamente na escolha de alguns programas do Ludovice Ensemble, destaca-se sobretudo a descoberta, estudo e divulgação da obra do compositor napolitano Antonio Tedeschi, bem como a obra excelente de Giovanni Giorgi, um dos maiores compositores italianos que viveu em Portugal.

Mas também apresentámos já programas com os nossos polifonistas como Cardoso, Lobo, Magalhães, Morago, Brito e Melgaz, como aquele que levámos a Antuérpia, em que interpretámos também a obra integral de uma compositora judia-portuguesa, Leonora Duarte, que nunca conheceu Portugal mas que se dizia "da Nação Portuguesa".

 

 

 

Gostamos de cruzar fronteiras, mas não com o mero objetivo do que é mais fácil "vender", ou do que pode agradar mais às massas”

 

 

 

DC - Apostam também na interação com outras artes? Que produções têm desenvolvido nesse sentido?

MJ - Sim, sempre que temos oportunidade. Fizemos - e temos ainda na gaveta - muitos projetos com um carácter multidisciplinar, que estabelecem pontes com as artes "irmãs" como a dança, o teatro, a poesia, mas também as artes visuais. Infelizmente, nem sempre os programadores estão receptivos a essas ideias e, frequentemente, a escassez de meios financeiros acaba por impedir que levemos para a frente estas propostas.

No entanto, fizemos já vários espetáculos com dança barroca e contemporânea - nomeadamente com os bailarinos e coreógrafos franceses Olivier Collin e Akiko Veaux mas também com as portuguesas Catarina Costa e Silva e Alexandra Campos - e com teatro e declamação - com a extraordinária atriz e encenadora Louise Moaty.

Frequentemente, deixamo-nos inspirar por obras de arte que acabam por ser determinantes na escolha e alinhamento dos programas: já fizemos concertos inspirados na pintura de Antoine Watteau, por exemplo, ou na obra do escritor Pascal Quillard, quando revisitámos a banda sonora do filme "Tous les matins du monde" do Alain Corneau; recentemente, no Museu Gulbenkian, criámos um programa para ilustrar musicalmente uma coleção de pintura inglesa e, em breve, apresentaremos no CCB dois concertos inspirados e dedicados ao Padre António Vieira.

Ideias e projetos não nos faltam! Falta só quem acredite neles e nos ajude a concretiza-los. Até porque gostamos de nos manter fiéis a uma "linha dura" no repertório, que nem sempre é a mais apreciada. A moda da "fusão" mais ou menos aleatória de estilos musicais não nos atrai; misturas sem sentido com o folk ou o pop podem ser muito do agrado do público, mas não nos cativam.

Claro que se podem fazer confrontos inteligentes, provocantes, enriquecedores. Penso no trabalho do Jordi Savall, por exemplo. Na Gulbenkian em 2015, tocámos Debussy, um arranjo meu da "Petite Suite" original para piano a 4 mãos, com um bailarino a improvisar: são esses diálogos que nos atraem... Outro exemplo: iremosem breve fazer um programa em diálogo com um grupo de música clássica indiana; eles tocarão ragas e eu tocarei transcrições originais para cravo, da autoria de um compositor inglês setecentista. A ideia e todo o projeto é da responsabilidade da Joana que, para além de traverso e flauta de bisel, toca bansúri (flauta indiana).

Gostamos de cruzar fronteiras, mas não com o mero objetivo do que é mais fácil "vender", ou do que pode agradar mais às massas; não somos elitistas mas, como diziam os Gato Fedorento, gostamos de "elevar os padrõezinhos"!

 

DC - Qual a formação que adoptam com mais frequência?

MJ - A versatilidade é uma das nossas maiores qualidades. O Ludovice Ensemble apresenta-se com maior frequência como um duo de flauta e cravo ou como um trio, acrescentando uma viola de gamba ou violoncelo; ou ainda como um quarteto, acrescentando ainda um violino; mas é muito comum haver também um ou dois cantores e já fizemos vários projetos como uma pequena orquestra barroca, como um ensemble vocal de oito cantores com baixo contínuo, ou mesmo como coro, solistas e orquestra... já fomos um consort de cinco violas da gamba com órgão e um duo de sopranos com contínuo!

Apresentámos óperas, cantatas, motetos, missas, vésperas, concertos, sinfonias, suites, sonatas para uma grande variedade de combinações instrumentais e vocais. A formação em quinteto é talvez a nossa favorita: traverso, violino, viola da gamba ou violoncelo, tiorba ou guitarra, cravo ou órgão, a que se junta com frequência um cantor - é a formação do nosso CD, por exemplo.

Mas também é frequente, sobretudo no estrangeiro com música portuguesa, apresentarmo-nos como um trio ou quarteto de cordas com cravo e um cantor. Por cá, já apresentámos programas em que éramos 40 músicos em palco!

 

 

 

Não temos fundos, não temos apoios, não temos por detrás nenhuma grande máquina publicitária nem patrocinadores endinheirados...”

 

 

 

DC - Qual o papel do Miguel no Ludovice? Passa tudo pelas suas mãos?

FMJ - Sim. Absolutamente tudo. Em primeiro lugar, divulgar ao máximo o nosso trabalho, quer de forma pessoal com encontros e telefonemas, mas também através de cartas, emails e das redes sociais. Depois, negociar com programadores e diretores de festivais, até encontrar um projeto aliciante e compensador para ambas as partes.

Seguidamente há que aprimorar os programas, selecionar as obras e frequentemente isso envolve um trabalho prévio de pesquisa, investigação, transcrição e edição das obras, das quais apenas existem manuscritos ou edições originais preservadas em bibliotecas e arquivos; por vezes, existem edições modernas mas que não são fiáveis, o que já me levou a ter de contactar diretamente bibliotecas em Itália, França ou Alemanha.

Cada obra tem ainda de ser cronometrada, para sabermos a sua duração, sobretudo porque na maior parte dos casos não existem gravações no mercado que nos orientem e um erro meu recorrente é os programas resultarem demasiado longos.

Depois, há que escolher os artistas que melhor se adequam a um determinado programa, fazer contactos, convites, acertar cachets e outros pagamentos. Há toda uma imensa parte burocrática que se relaciona com contratos, pagamentos, recibos, reservas de hotéis, de viagens de avião, etc. Seguidamente tenho de reunir e organizar biografias, fotografias e outros materiais promocionais, tais como pequenos textos de apresentação para os programadores ou para a imprensa; frequentemente escrevo também as notas ao programa para as folhas de sala. Depois tenho de estudar as partituras, decidir pormenores interpretativos, escolher o melhor tempo e carácter de cada obra, definir quem toca o quê, se repetimos uma parte do andamento, se é necessário ornamentação extra...

O repertório que fazemos depende muito da liberdade do intérprete, mas às vezes, para tornar o tempo de ensaio mais produtivo, há que fazer escolhas e tomar decisões atempadamente. Finalmente, tenho de estabelecer um plano de ensaios preciso, que assegure que a cada obra é atribuído tempo suficiente de ensaio e, ao mesmo tempo, evitar que os músicos se cansem em demasia ou percam muito tempo em esperas.

Obviamente que tenho de estudar a minha parte e sou eu que afino diariamente o cravo e/ou órgão antes de cada ensaio ou concerto. Claro que em algumas destas tarefas tenho a ajuda imprescindível da Joana Amorim - a opinião dela é fundamental na escolha dos programas, sobretudo aqueles que incluem flauta; frequentemente é ela que decide alguns dos músicos a convidar, edita e revê partituras ou prepara as partes, encarrega-se de fazer os seguros dos instrumentos, vai buscar e levar músicos ao aeroporto, faz as reservas dos hotéis... mas a Joana tem uma vida familiar e profissional mais complicada do que a minha, pois para além de intérprete, é professora e mãe a tempo inteiro! Por isso evito sobrecarregá-la, para além de que, devo confessar, sou um pouco "Controlfreak" e gosto de manter tudo sob o meu controlo.

 

DC - Gravaram o primeiro CD em 2012. Para quando os próximos?

FMJ - Pois... mas uma vez projetos não faltam. Os sonhos são muitos: "devíamos gravar isto... queria tanto gravar aquilo..." mas, e o dinheiro??? Não temos fundos, não temos apoios, não temos por detrás nenhuma grande máquina publicitária nem patrocinadores endinheirados. Mas temos um projeto "na calha", se tudo correr bem ainda gravamos este ano, para sair em 2017, mas ainda está tudo um pouco vago.

Dias da Música 2016

"Em 1873 Júlio Verne descreve a tentativa do inglês Phileas Fogg em dar a volta ao mundo em apenas 80 dias – uma verdadeira proeza para a época, só possível graças à determinação do protagonista e do seu fiel ajudante Passepartout. Com este livro, não foi apenas Phileas Fogg a viajar, mas todos os que se deixaram levar pela imaginação indo com ele até paragens nunca antes pensadas pela maioria dos leitores.

A música, para muitos a mais universal das linguagens, aquela que mais une e, simultaneamente, uma das melhores formas de caraterização identitária de um povo e de uma cultura, permite viajar.

Foi a partir desta ideia que nasceu a vontade de programar estes Dias da Música em Belém de 2016; uma viagem à volta do mundo, não em 80 dias, mas em 80 concertos."

 

https://www.ccb.pt/Default/pt/DiasDaMusica

Mais Informações

Dora Rodrigues

Dora Rodrigues nasceu em Braga, cidade onde se diplomou no Conservatório Calouste Gulbenkian. Completou posteriormente a licenciatura na Escola Superior de Música do Porto, com Oliveira Lopes, prosseguindo os seus estudos na Côte d’Azur, com Ileana Cotrubas, em Itália, com Enza Ferrari, e em Espanha, com Elisabete Matos. Integrou o European Opera Center, em Liverpool, e a European Network of Opera Academies, em Varsóvia, com o apoio da Fundação Gulbenkian.

Foi selecionada para o conceituado BBC-Cardiff Singer of the World, onde se apresentou com a Welsh National Orchestra em St. David’s Hall, sob a direção de Paul Daniel. Colabora regularmente com o pianista João Paulo Santos, destacando-se a sua participação recente nos "Serões Musicais no Palácio da Pena". Integra o L’Effetto Ensemble, projeto de música de câmara com o guitarrista Rui Gama.

 

 

Da Capo (DC) - Como começaste a estudar música?

Dora Rodrigues (DR) - Estive quatro anos a estudar fora de Braga, pois os meus pais eram professores e estavam a dar aulas a 30 quilómetros de casa. Para conseguir estar perto deles acabei por fazer os quatro anos na escola onde o meu pai estava. A partir daí, acharam que precisava de ficar num local definido, e esse local era Braga.

Sempre fui uma miúda muito irrequieta, sempre a bater palmas, por isso o meu pai decidiu preparar-me para fazer provas para a Gulbenkian. Tinha 9 anos, caí de para-quedas numa turma que já estava junta desde a primeira classe. Aprendi alguma coisa dois meses antes de fazer as provas, pois ia ingressar diretamente no primeiro grau de piano e tinha que mostrar alguma coisa.

O meu pai sempre esteve ligado à música. Estudou música quando esteve no seminário, o que acontecia com muitos minhotos, por isso tinha a noção de que eu tinha de ter alguma base para a minha idade. Tive aulas, fiz provas, entrei e foi aí que começou toda a viagem.

Nos primeiros meses foi complicado porque os meus colegas já estavam habituados a assistir a concertos, eu não tinha nada disso a não ser o que fazia em casa com o meu pai. Percebi que aquilo era um prazer e, rapidamente, passei a entrar naquele mundo. Entrei no Ballet, o que para mim foi fantástico porque me ajudou imenso na postura, no conhecimento dos músculos do corpo, no controle. A Gulbenkian, que na altura era uma escola-piloto, tinha a vantagem de ter o ensino integrado. Hoje já muitas escolas fazem isso mas para mim foi fulcral porque como os meus pais trabalhavam fora, não podiam andar comigo de escola em escola, se calhar não iria conseguir ter o apoio que tive na Gulbenkian, já que tinha lá todas as disciplinas e podia ocupar o tempo livre a estudar.

Mais tarde começaram a fazer as atividades extracurriculares, onde havia o coro. Foi aí que a minha voz começou a destacar-se um bocadinho e eu comecei a perceber que, se calhar, num coro, tinha de ter mais cuidado porque se ouvia demais. Mas, por outro lado, fez com que eu investisse mais na disciplina de Técnica e Repertório Vocal (era assim que se chamava na altura).

 

DC – O Canto foi óbvio?

DR - Eu comecei pelo piano e fiz o 8º grau, mesmo quando já estava na ESMAE, voltava a Braga só para terminar o piano. Era uma paixão minha e também me ajuda muito hoje, porque consigo estudar e acompanhar-me.

O Canto surgiu quando eu tinha uns 15/16 anos, porque o meu corpo também estava definido. Então, ao estabilizar em termos corporais, a minha voz amadureceu, assumiu uma vibração diferente para os meus colegas, sobretudo na disciplina de Coro, com o maestro António Baptista, que me mandou cantar sozinha numa aula e me disse, depois de me ouvir, que eu tinha de investir na disciplina de Canto. Era uma sensação boa, de ter uma voz com algum poder dentro de mim, era engraçado e o facto de depois ter ido para a disciplina de Canto.

A primeira audição foi uma revelação, o facto de estar de frente para o público, a comunicar (nas audições de piano estamos na lateral e não de frente como no Canto). O facto de ter esse contacto e ser quase um contador de histórias, era como jogar ao faz-de-conta. A minha timidez também se esvaía, e acabava por vir a personagem que estava a interpretar.

 

 

 

 

"Tive pessoas que foram santas na minha vida. Tive muita sorte, acho que devemos ser agradecidos a quem nos deu a mão e a quem, mais do que nos deu elogios, nos criticou."

 

 

 

 

DC - O que te encantava era essa transformação ou a música e si?

DR - Era tudo! O que tem de bonito no Canto, sobretudo na ópera, é o facto de haver tantas componentes à volta do que é a música em si. A música deve ser tratada logo de início como se fosse uma obra de solfejo, depois tratá-la tecnicamente, como a vou pôr no meu corpo, e só depois é que eu vou ao texto e à musicalidade o corpo já está preparado para receber essa informação. Para mim era um desafio, o passar vários estádios até chegar a altura de interpretar.

O Canto para mim tornou-se algo muito cerebral, que fui aprendendo ao longo do meu percurso. Eu tenho já alguns anos disto, também porque comecei muito cedo.

 

DC – Quando te estreaste na ópera?

DR - Tinha 18 anos quando fiz a minha primeira ópera, a Carmen, no Coliseu do Porto. A Elisabete Matos fazia o papel da Micaela, com a direção do saudoso maestro Ivo Cruz. Logo depois o São Carlos fez uma produção para jovens e eu fiquei. Foi tudo muito repentino. Depois comecei a fazer concursos, fiz uma produção no Canadá... de repente apareceu muita coisa. Tive de aprender a ter resistência. Tive pessoas que foram santas na minha vida. Tive muita sorte, acho que devemos ser agradecidos a quem nos deu a mão e a quem, mais do que nos deu elogios, nos criticou.

Uma das pessoas por quem tenho um carinho enorme pela ajuda que me deu foi, sem dúvida, a Maestra Enza Ferrari, a quem eu digo que é a minha "mamma de la musica". Foi uma pessoa que me abriu os olhos, não só em termos de repertório, mas ajudou-me a adquirir maturidade. Agradeço igualmente aos professores e direcção da ESMAE pelo apoio incondicional quando, ainda aluna, já fazia bastantes produções e, no entanto, sempre me davam uma ajuda extra.

A oportunidade de me fazer em palco com pessoas como a Eva Marton, quando me estreei no palco do São Carlos. Nunca mais me esqueço quando ela chegou à minha beira, aquele mulherão que era e é a cantora que sempre foi, e disse-me: “Dora, canta con gl'occhi”. São pequeninas coisas, que me deixavam a pensar, ou seja, todas as críticas e elogios que me davam, eu tentei sempre incorporar e tornar aquilo em algo positivo e construtivo. À Elisabete Matos por todos os ensinamentos e dedicação.

A minha voz sempre, desde miúda, pediu um repertório mais pesado e o facto de ter tido sempre a ajuda do maestro João Paulo Santos, da Elisabete Matos, do professor Oliveira Lopes, quando estava na ESMAE, da Enza Ferrari, da Ileana Cotrubas, que me levou para Côte d'Azur e eu ficava lá dias e dias e dias no estúdio dela, foi fundamental.

Eu acredito que a voz é como um instrumento, que está definido desde o início, o repertório é que não está definido porque ainda não há a maturidade vocal para poder afrontar esse repertório.

Só agora estou a chegar à idade em que posso realmente afrontar.

 

 

 

"Agora assistimos a produções que são feitas à "fast music", que são produções feitas em duas semanas, sem tempo de paragem."

 

 

 

 

DC - É fundamental conhecer-se a si própria...

DR - Claro! Trabalhar naquele sentido... Hoje há muitos cantores, gente com muita qualidade, antigamente não era tanta gente, mas havia mais cuidado. Agora assistimos a produções que são feitas à "fast music", que são produções feitas em duas semanas, sem tempo de paragem. Na altura de outros maestros, cantores e encenadores isso era impensável.

Tem de se dar tempo, noção, do que se pode aceitar e até onde se pode ir, isso faz com que no estudo nunca se aborde repertório que nos pode levar tecnicamente por um caminho errado.

 

DC - Essa gestão implica o conhecimento muito profundo de si próprio. Neste caso ter uma boa equipa de orientadores pode fazer toda a diferença numa carreira?

DR - Sim, eu acho que um cantor precisa de um professor para toda a vida, porque precisa de um ouvido externo. Isso é muito importante porque muitas vezes a sensação que nós temos, não é propriamente aquilo que sai. A igualdade da vocalidade, a igualdade tímbrica da voz tem de ser sempre a mesma. Eu não posso fazer um grave muito largo, a soar como um instrumento e de repente ao ir para o agudo, soar como uma coisa estridente. Tem de haver uma ligação. Se isso acontece quer dizer que em termos técnicos eu estou a fazer mal, porque se eu faço estridente quer dizer que não tenho a abertura suficiente, quer dizer que a laringe vai subir, que eu vou criar pressão sobre as minhas cordas, isso vai ser prejudicial a longo prazo.

 

 

 

 

"O facto de sabermos que não é algo absolutamente matemático, que sirva para toda a gente, que toda a gente veste a mesma camisa, fez-me estar atenta, que tenho de ir buscar o que preciso a vários lados. "

 

 

 

DC - Neste processo de aprendizagem, o que é que aprendeste de fundamental em cada local por onde passaste?

DR - Com Ileana Cotrubas, foi a noção do que é cantar em máscara. Ela dizia sempre para levantar as maçazinhas do rosto como se fosse uma balança. Eu achava uma delícia. Equilibrar a balança, que é uma expressão muito engraçada que a Elisabete Matos também usa. Ela é uma mulher pequena, mas com uma noção do que era a largura da respiração e do corpo, que fazia depois que se conseguisse adaptar a qualquer instrumento. Nós somos todos diferentes mas a base é a mesma. Temos de nos ajustar a cada instrumento que nos aparece à frente e a cada corpo, cada fisionomia. Isso fez-me sempre estar atenta. Parece uma coisinha que não tem muita importância, mas fez-me perceber que um bom professor pode ser bom para uma pessoa mas para outra não, porque os instrumentos são diferentes e a nossa percepção e entendimento são diferentes. Compete a nós cantores assimilarmos a informação e ajustarmos ao nosso corpo.

O facto de sabermos que não é algo absolutamente matemático, que sirva para toda a gente, que toda a gente veste a mesma camisa, fez-me estar atenta, que tenho de ir buscar o que preciso a vários lados. Isso é também uma certa posição de honestidade e humildade perante o que é a técnica. Estou sempre a aprender, porque o meu repertório foi mudando, vou acrescentado um e tirando outro. Tenho sempre camisas que vou ajustando conforme a necessidade.

As pessoas que mais me ajudaram a definir repertório foram várias.

A Elisabete é uma pessoa por quem tenho um carinho enorme, é também bracarense, conheço toda a família dela. Estudei com familiares dela, o meu primeiro professor de música foi o Prof. Matos, tio dela, ou seja, eu conheço a família toda muito antes de a conhecer. Por isso quando nós nos conhecemos foi engraçado porque já havia muita coisa em comum. Tenho uma grande admiração por ela, pela performer que é e por ser uma grande referência no mundo lírico. O facto de termos raízes parecidas, termos uma linguagem com a qual nos entendemos, é normal, acho que os minhotos têm este lado generoso, afável, falam imenso mas têm uma linguagem muito própria. Também sabem amuar muito rapidamente! (risos)

O facto de ser também uma pessoa que percebe isso, facilmente nos entendemos. Ela percebeu desde o início que a minha voz era uma voz que estava a crescer, que tinha um certo carisma e que tinha de ser incutido em mim uma certa paciência, muito estudo técnico, até chegar à idade em que posso fazer o repertório certo.

 

 

 

"O facto de ter tido essa noção, de ter sido chamada a atenção, de saber qual é o meu limite e trabalhar só até o meu limite, ajudou-me a ter saúde vocal."

 

 

 

DC - Podemos dizer que de certa forma estás agora a começar a tua carreira?

DR - Sim, estou. Tenho a noção que estive muito tempo a fazer coisas que foram desafios e me ajudaram a ter saúde vocal, brilho que é necessário, porque o repertório sendo prematuro poderia criar problemas técnicos irreversíveis. O facto de ter tido essa noção, de ter sido chamada a atenção, de saber qual é o meu limite e trabalhar só até o meu limite, ajudou-me a ter saúde vocal.

 

DC - E qual é o teu repertório?

DR - Nesta fase, tenho de começar a abordar mais Puccini, o primo Verdi, o Donizetti mais pesado, as rainhas... Já fiz uma abordagem das quatro últimas de Strauss e percebi que é por aí que tenho de começar a ir. A voz está a começar a pedir isso. Mas é a tal questão, se não se tem brilho, a técnica no sítio, é um repertório que não se consegue fazer nem ter a resistência para o fazer, não se consegue manter. Por isso, com calma, não pode ser tudo de uma vez, vou pondo as obras no corpo e deixar amadurecer, está na altura. Já tive de dizer não a muitas coisas e custa dizer o primeiro não, mas teve de ser e não me arrependo.

Fernando Lapa

Nascido em Vila Real, em 1950, Fernando Lapa fez os estudos musicais no Conservatório de Música do Porto, onde concluiu o Curso Superior de Composição na classe de Cândido Lima. Autor de vasta obra, estreou até ao presente mais de centena e meia de peças, desde a música sinfónica à ópera ou concerto, passando pela música coral, de câmara, para teatro ou cinema, etc. Está representado em numerosas gravações em CD e tem partituras editadas em Portugal e na Alemanha.

Dirigiu o Coro Académico da Universidade do Minho durante 16 anos, foi crítico musical no jornal Público entre 1994 e 2006, tem ainda vários artigos publicados em livros, revistas e jornais. É professor de Análise e Técnicas de Composição no Conservatório de Música do Porto desde 1984 e de Composição e Orquestração na ESMAE. 

 

Da Capo (DC) – Como é que começou a interessar-se pela música?

Fernando Lapa (FL) – Não sou de uma família de tradições musicais embora a minha mãe tenha muita sensibilidade para a arte e para a música. Talvez tenha sido essa ambiente que se viveu em casa, sobretudo quando éramos pequeninos e a minha mãe cantava muito connosco. Nós somos oito irmãos. 

Só comecei a estudar música mais tarde. Andei no Seminário de Vila Real durante alguns nos e tive lá um professor extraordinário, o Padre Minhava. Os transmontanos conhecem-no, ele é um músico autodidata, toca muitos instrumentos e é um pedagogo absolutamente excepcional. A capacidade de ensinar, de pôr os outros a fazer, é muito grande, mesmo em meios onde isso não é tão comum. Ele foi o meu primeiro professor e deve ter percebido que eu tinha mais jeito ou gosto, por isso começou a dar-me trabalho mais específico.

 

DC – Entretanto saiu do Seminário...

FL – Sim, nessa altura ingressei no Conservatório do Porto e comecei a fazer os estudos de forma mais sistemática. Em Vila Real não havia nenhuma escola de música, por isso quem quisesse estudar música tinha de ir para uma cidade onde houvesse conservatório.

 

DC – Veio sozinho para o Porto?

FL – Numa fase inicial ia e vinha todas as semanas, fazia viagens de quatro horas de camioneta pela estrada do Marão, com uma paisagem lindíssima! No conservatório estudei Formação Musical com a professora Teresa de Macedo e Composição com Cândido Lima. Fiz também o geral de Piano, na altura era obrigatório.

 

 

 

"Mas há outras questões que têm a ver com a criatividade, com a capacidade de invenção, a liberdade, a capacidade de risco. Isto não se aprende nas aulas, também não sei ensiná-lo, mesmo sendo professor há muito tempo."

 

 

DC – A Composição foi sempre uma escolha óbvia?

FL – Sim, eu tocava piano, aprendi guitarra e experimentei o violoncelo. Já na infância, quando comecei a dominar interiormente o jogo dos intervalos, desenvolvi muito cedo a capacidade de audição interior, que é fundamental para um compositor. Habituei-me a fazer isso de forma quase espontânea, percebi que era engraçado ser eu a pôr as notas e a escrevê-las no papel, a mudá-las, a pôr uns acordes... Quando cheguei ao conservatório já queria fazer o curso de Composição.

A minha formação musical foi sempre feita a partir da audição interior, por isso tenho um treino muito grande a esse nível. Escrevi muitas peças sem tocar sequer uma nota, porque me habituei a ouvi-las, como qualquer compositor, que ouve as coisas de forma interna senão não consegue representar nada.

 

DC – O que é fundamental para se ser compositor?

FL – Muitas coisas e se calhar não tão complicadas assim. A maior parte delas são comuns a todas as pessoas que têm uma atitude criadora, como um poeta, cineasta, encenador de teatro, pintor... são coisas semelhantes. Há um lado de formação técnica, de bagagem, de conhecimento, ferramentas que se trabalham nas escolas, que se vão aprendendo.

Mas há outras questões que têm a ver com a criatividade, com a capacidade de invenção, a liberdade, a capacidade de risco. Isto não se aprende nas aulas, também não sei ensiná-lo, mesmo sendo professor há muito tempo.

Aquilo que faz de nós verdadeiramente compositores ou que faz a diferença toda, não se sabe explicar bem. Dou muitas vezes esse exemplo quando tento explicar a um amigo porque gosto tanto de uma peça, tento procurar as palavras que traduzem melhor esse fenómeno mas não consigo. Mesmo que fale imenso tempo sobre isso talvez só consiga mostrar o meu entusiasmo, mas a razão verdadeira porque aquela música mexe comigo são de outra ordem, não o consigo verbalizar.

 

 

 

"Hoje é cada vez mais difícil dizer as diferenças entre as escolas porque há um fenómeno, uma técnica geral entre as duas escolas, que é o pluralismo"

 

 

DC – Podemos dizer que existem duas escolas de Composição em Portugal: Lisboa e Porto?

FL - Não. Hoje é cada vez mais difícil falar de diferenças entre as escolas, porque constatamos que existe um saudável pluralismo. Não há uma corrente ou estética oficial, mas isso também acontece na música contemporânea em geral.

 

DC – E a escola de Fernando Lapa?

FL – Não tenho nenhuma escola! Eu faço a música de uma certa forma, claro, mas isso não corresponde a uma escola ou estética determinada, nem pela minha vontade de a querer fazer assim, nem pela vontade querer pertencer a alguma em particular! 

 

DC – Mas não há aspetos que distinguem o seu ensino?

FL – Tenho uma preocupação grande com a cultura portuguesa. Sou, de facto, um compositor português, de raiz nacional. Não quero dizer que o que é nacional é bom, sem mais. Mas aquilo que são as virtualidades da escola portuguesa, sim, eu sou fruto disso.

 

 

 

"Sempre pensei que a nossa força, a nossa energia e diferença, está sobretudo no que nós somos e naquilo que nos distingue dos outros, não por ser melhor ou pior"

 

 

DC – Mas teve também influências estrangeiras?

FL – Houve uma fase em que admiti ir estudar para Estrasburgo, cheguei a estar lá mas acabei por tomar outra decisão. A formação hoje faz-se em qualquer lado, com qualquer pessoa. Nós temos hoje a mesma informação em qualquer parte do mundo, temos acesso às mesmas coisas, trabalhamos com as mesmas ferramentas, conhecemos as mesmas estéticas, ouvimos as mesmas obras – temos acesso às mesmas partituras! É uma aldeia global! Isto é absolutamente fantástico!

Tem também outras provações... Neste ponto estou 100 por cento de acordo com Miguel Torga quando ele diz: “O universal é o local sem paredes”. Ouvi esta frase há pouco tempo mas é isto que corresponde à minha perspectiva. Não sou líder de coisa nenhuma. Tenho uma forma de pensar e de ser. Sempre pensei que a nossa força, a nossa energia e diferença, está sobretudo no que nós somos e naquilo que nos distingue dos outros, não por ser melhor ou pior – é por sermos diferentes, daí dar muita importância à geografia, ou seja, sempre associei os lugares às pessoas, a cultura aos sítios.

Há um conjunto de história que todos carregamos, que tem a ver com o sítio onde nascemos, com a cultura onde vivemos. Isto para mim é um elemento distintivo, não há ninguém que tenha os nossos olhos, que veja como nós vemos. Algumas pessoas, às vezes, fogem a esta realidade…

 

DC – Fogem do ser português?

FL – Sim, fogem, do ser português e das suas origens. Aliás, a Europa perdeu completamente por isso, por desprezar a capacidade e a força das regiões. Falava-se na globalização e na Europa das regiões, mas de uma Europa que tivesse em conta o peso relativo de cada Estado, da sua cultura. Hoje faz-se tábua rasa disso, com leis aplicadas cegamente a todos, como se isto fosse um Estado só. Tem sido dramático para a Europa e para o mundo.

A perspectiva de ser daqui, ter nascido aqui, ter este universo todo por trás tem muita importância. Sinto que há compositores para quem este elemento é igualmente importante, como Lopes-Graça, Eurico Carrapatoso, Luís Tinoco, entre outros. Porque trabalham muito sobre a realidade cultural portuguesa. Por exemplo, quando quero escrever sobre alguma coisa qualquer, sinto-me logo a pensar na Sophia ou no Eugénio, no Pessoa e por aí fora...

 

DC – Tenta passar isso aos seus alunos?

FL – Não sei se passo. Claro que falamos disto, assim como de outras coisas. Se sou assim, tento lidar com a realidade dessa forma.

 

 

 

 "preciso que a música contemporânea, a música que se faz hoje, seja ouvida pelas pessoas, muitas vezes e com qualidade, para que o público possa fazer escolhas"

 

 

DC – Mas é este elemento que os torna originais!

FL – Sim. Por exemplo, estive num projeto já dois anos com uns contos da Clarice Lispector, uma importante escritora brasileira. São 12 histórias conhecidas de todos os brasileiros, que a Clarice contou à sua maneira, de forma resumida, muito viva e interessante. Eu não conhecia essas histórias, mas para mim foi excitante fazer uma música que estivesse por baixo das palavras. Foi curiosa a perspectiva dos brasileiros sobre “como é que um português faz música para um texto brasileiro?”. As pessoas sentiam que era um português a compor sobre o ambiente da história brasileira!

 

DC – O que é que gosta mais de compor?

FL – Gosto de tudo! (risos) Quem já escreveu perto de 300 peças, já escreveu um bocadinho de tudo.

 

DC – Há alguma área ou instrumento que não tenha ainda explorado e que queria fazê-lo?

FL – Quando escrevemos para orquestra está lá quase toda a gente. Já escrevi para quase todos os meios comuns. Mas faltará sempre alguma coisa: tinha escrito muito pouca coisa para acordeão, mas a minha última peça, por sugestão do Síntese, Grupo de Música Contemporânea, estreada em Outubro, envolve acordeão.

 

DC – Tem alguma preocupação relativamente à circulação da música?

FL - A divulgação da música é uma das minhas batalhas. E é também algo que está presente na minha forma de entender o meu papel como músico e compositor. Precisamos de fazer com que a música esteja ao alcance de toda a gente. E, depois, é preciso que a música contemporânea, a música que se faz hoje, seja ouvida pelas pessoas, muitas vezes e com qualidade, para que o público possa fazer escolhas. Há algumas histórias de sucesso, de ações de divulgação e de trabalho em sítios que não são emblemáticos. Mas, apesar do que se andou, não é todos os dias que se pode ouvir Emanuel Nunes em Bragança, Chaves ou Viseu…

 

 

 

"cada vez há mais jovens e grupos a querer e a fazer música de qualidade"

 

 

DC – Ainda lhe falta alguma coisa?

FL – Eu sou muito ligado a coros, já escrevi muita coisa para coros amadores e profissionais, arranjos, etc. Mas ainda não escrevi nenhuma missa, que é uma coisa que hei de escrever. Também ando com vontade de escrever alguma coisa no registo de um motete. Já fiz dois Magnifcats, um deles foi para o Porto 2001, Capital Europeia da Cultura. Foi uma coisa de que se falou pouco. A peça foi estreada por um coro inglês importante, na Igreja da Senhora da Conceição, num ciclo se chamava “Música Sacra do séc. XXI”. A peça não é muito difícil mas dá algum trabalho.

 

DC – Mas não se voltou a cantar?

FL – Não.

 

DC – Desde 2001, nunca mais se voltou a ouvir?

FL – Não. Eu também não sou promotor de concertos.

 

DC – Não tem ninguém a promover as suas obras?

FL – Os músicos têm de fazer isso! Não sou eu! Não ando com a peça no ar a pedir para a tocarem! Nunca fiz isso porque não é o meu trabalho.

 

DC – Recebe regularmente encomendas?

FL – Sim, de todo o tipo. Tenho tido, felizmente, apesar dos tempos de crise. Encomendas de grupos, instituições, etc. Tenho também pedidos constantes dos colegas de profissão.

É também uma coisa curiosa em Música de Câmara: cada vez há mais jovens e grupos a querer e a fazer música de qualidade. Se vão fazer um concerto fora, mesmo que seja na Galiza, gostam de levar música portuguesa. Mas para muitas formações não há repertório. Quase sempre me pedem peças ou arranjos. Muitas vezes não tenho tempo para escrever, embora gostasse de o fazer! Das coisas que mais gosto, é de escrever para um grupo, saber quem vai tocar. Em Música de Câmara, devo ter escrito perto de 100 peças, quase todas a pedido dos grupos, não foram encomendas formais, por exemplo, não me pagaram. Há muita música que tem sido feita assim.

 

 

 

"Dificilmente vemos uma pessoa com experiência artística profunda a dizer que é o máximo e dá lições a toda a gente. Os grandes artistas não são assim, pelo contrário, têm uma curiosidade muito grande em saber como as coisas são, como funcionam."

 

 

 

DC – Parto do princípio de que o seu trabalho é mais transpiração do que inspiração. A inspiração é um mito?

FL – Não, não há música sem inspiração, nem artista sem inspiração. Mas isso é gratuito, não se explica nem se sabe dizer como um um milagre. Sem inspiração não haveria arte. Há coisas que nos chegam, não se sabe dizer o dia nem a hora, mas que transformam.

A curiosidade, a capacidade de observação é muito importante num artista. Todos os artistas têm de ter isso – é a capacidade de olhar para as coisas, fazer perguntas, de ser simples, humilde. Dificilmente vemos uma pessoa com experiência artística profunda a dizer que é o máximo e dá lições a toda a gente. Os grandes artistas não são assim, pelo contrário, têm uma curiosidade muito grande em saber como as coisas são, como funcionam. Esta curiosidade quase infantil é fundamental para um pintor, arquiteto, etc. Mas só conseguimos tocar as pessoas quando abrimos uma porta para esse mistério.

 

DC - É uma das críticas que fazem à música contemporânea, ignorar a inspiração?

FL – É injusta, porque a maior parte da música contemporânea também anda à procura disto. As ferramentas e linguagens são complexas. A arte hoje, sobretudo na música, é também explicação.. Não se consegue fazer nada se não dominarmos as ferramentas mas eu diria que o mais importante da arte está noutro lado. A música não é um exercício só de ferramentas.

 

DC – O que é que o inspira?

FL – Tudo! Quando digo tudo, podem ser coisas muito diferentes. Sou muito sugestionado pela literatura, gosto muito de poesia. Sinto-me próximo dos poetas, pela capacidade deles dizerem coisas com poucos elementos, de encontrarem a forma concreta de fazerem uma frase, uma sílaba, um som.

Também gosto muito de outras artes. Gosto muito de desenhar e pintar, cheguei até a pensar ir para Belas Artes.

 

DC – Pela sua capacidade de observação é muito fácil captar um motivo de inspiração?

FL –  Eu gosto de muitas coisas. A gente vive rodeada de coisas fantásticas, mas de algumas que são muito simples, corriqueiras, ou mesmo banais… cruzamo-nos com pessoas e situações que nos interpelam ou que registamos, num sítio qualquer. Há muita coisa que nos impressiona, que mexe connosco. A música é, muitas vezes, feita de coisas assim.

 

 

 

 

 "Faço experiências muito diferentes, por isso são as próprias experiências que se encarregam de me trazer dados novos"

 

 

DC – Como define o seu estilo de composição?

FL – Não sei (risos). Faço experiências muito diferentes, por isso são as próprias experiências que se encarregam de me trazer dados novos. A maioria das obras são encomendas de instituições, com condicionantes que determinam muitas vezes o formato. Mas eu gosto disso, de desafios diferentes, de escrever para alguém, grupo ou formação.

 

DC – Sente a influência de algum compositor em especial?

FL - Revejo-me muito na posição de Berio. É talvez o compositor que me diz mais. E também Lindberg, gosto muito da música dele; Messian, também gosto muito; Bartok, um compositor que ainda hoje me parece muito moderno, tem coisas geniais para o tempo em que as fez, com grande qualidade... Gosto também muito da música de Ligeti. Gosto dos clássicos da música do séc. XX. Também gosto de uma parte da música serial, de que hoje se diz muito mal, embora tivesse havido uma altura em que se dizia só bem. Há a tendência para se resumir a história a chavões, mas se a gente ouvir novamente com atenção a música de Alban Berg, Webern, Schoenberg (só para falar nessa santíssima trindade), constatamos que é uma música de extraordinária qualidade. E apesar de muitos criticarem a sua técnica de aparência tão técnica e matemática, teremos que reconhecer que se trata sempre ferramentas para se chegar a outro lado.

A música está cheia de escolhas, de gostos, de tensão, de dimensão espiritual, de vontade de dizer coisas. Muitas vezes há um julgamento muito apressado, ao dizer que determinada música é esquisita, agressiva, agreste, dissonante! Mas até poderá ter as cores todas, como toda a música tem!

Se formos para o passado, gosto muito de toda a polifonia portuguesa, que é o nosso território de crescimento e afirmação. Eu sou muito ligado à música vocal e coral, e como tal constato que há coisas extraordinárias feitas pelos nossos compositores nos séculos XVI e XVII – coisas extraordinárias e mal conhecidas ainda, apesar de serem cada vez mais estudadas e gravadas. Mas ainda são muito mal conhecidas pelos portugueses e também pelos próprios músicos!

Na música portuguesa há também uma figura incontornável, talvez o maior compositor de todos os tempos, que é o Lopes-Graça. É impossível ficar-se indiferente àquela forma pessoal.

Gosto muito de Claudio Carneyro, que me parece, da sua geração, talvez o mais simples, o mais ingénuo, o mais original. É um compositor requintado, mesmo quando faz coisas pequenas com poucos meios. Tenho muito orgulho em ser professor numa escola onde ele foi diretor.

Claro que devia dizer logo o nome de Bach. Há dois compositores que para mim são... Mozart é seguramente o compositor que tem a marca do milagre. Mozart faz coisas que são absolutamente gratuitas, inexplicáveis e inexplicadas. Essa dimensão que aponta para outra realidade da arte, Mozart tem-na quase sempre.

Gosto também da pequena forma e o Schumann para mim é uma referência. Aquele equilíbrio, aquela capacidade de dizer muito em pequena coisa – é uma referência, uma inspiração.

Mas muitos mais! Como trabalho com a História da Música, gosto muito de muita coisa diferente. É difícil escolher!

Não estou a dizer que tenha afinidades estéticas com todos estes compositores ou que componha como eles. Estou apenas a dizer que os aprecio na sua forma de ser e estar, que admiro o equilíbrio que conseguem, a originalidade, a raça, a individualidade que conseguem pôr naquilo que fazem.

 

 

 

 "as duas coisas de que mais gosto de fazer são compor e ser professor"

 

 

DC – Há algum intérprete para quem gostasse de escrever?

FL – Não penso muito nisso. Alguns dos músicos mais importantes portugueses já tocaram peças minhas.

 

DC – A sua ambição é a música?

FL – Sim e sobretudo porque a parte da realização e da concretização não é trabalho meu. Nunca fui eu a dizer que queria gravar ou editar determinada obra. Claro que têm, naturalmente, o meu apoio. Os intérpretes são simpáticos, tocam muito bem a música e eu, quando posso, acompanho. Gosto que os intérpretes percebam que eu aprecio o trabalho deles.

 

DC – Gostava de ser compositor a tempo inteiro?

FL – Não o sei. Eu também preciso, interiormente, do que faço, porque gosto de ser professor. Gosto também de vozes, de dirigir coros. Agora não estou a dirigir nenhum coro, mas dirigi durante muito tempo. Mas as duas coisas de que mais gosto de fazer são compor e ser professor.

 

 

 

 "faz falta que alguém acompanhe o que se faz até para só dizer que existe, mas sobretudo para que possa haver alguma opinião a circular"

 

 

DC – Por que é que deixou de fazer crítica musical?

FL – Porque o PÚBLICO deixou de fazer. Fui crítico do PÚBLICO durante 14 anos. Escrevi seguramente umas 300 críticas. Mas os jornais já desinvestiram nisso há muito tempo! Quando escrevia no PÚBLICO, nos anos 90, os jornais tinham regularmente crítica de música. PÚBLICO tinha, diariamente várias páginas da área da Cultura, às vezes mais de 4!

 

DC – Por que é que isso acabou?

FL – Porque isto mudou, porque agora o planeta começou a achar que é melhor haver fotografias grandes, títulos muito gordos e notícias pequeninas. As pessoas também deixaram de gostar de ler romances inteiros e agora só querem ler os resumos dos romances porque é mais rápido! Isto é uma caricatura mas é um pouco assim. As pessoas, hoje, não têm tempo nem paciência, começaram a achar que os jornais deviam ter um grafismo mais apelativo, com letras maiores, casos sensacionalistas na capa, etc.

Lembro-me de que eu e o Sérgio Andrade, editor do PÚBLICO, fizemos uma entrevista à Maria João Pires, que ocupou cerca de quatro página do jornal. A capa era a Maria João Pires no Rivoli, ou seja, foi a capa de um jornal diário!

Isto mudou muito. Os jornais todos! Viraram para outro lado. Do ponto de vista dos músicos é uma perda grande, pois faz falta que alguém acompanhe o que se faz até para só dizer que existe, mas sobretudo para que possa haver alguma opinião a circular. A crítica é, no fundo, falar sobre as coisas. 

 

 

 

 "uma componente do meu trabalho é fazer com que a música seja acessível a toda a gente"

 

 

DC – Momentos mais marcantes da sua carreira?

FL - Algumas das experiências mais importantes como compositor também estão relacionadas com uma certa vertente pedagógica. (Não no sentido de pretender dar lições a quem quer que seja - também preciso delas para mim - mas procurando fazer a minha parte para que alguma coisa possa mudar. Estou empenhado nisso. Não me esqueço da terra onde nasci nem do país de onde sou; por isso, uma componente do meu trabalho consiste em fazer com que a música seja acessível a toda a gente.

Há algumas coisas que aconteceram na Porto 2001, quando a Casa da Música ainda estava em construção, que tiveram a participação e o envolvimento de populares. Por exemplo, a ópera “A demolição”. Estou a falar também da primeira Liberdade, a primeira peça que foi tocada na Sala Suggia da Casa da Música foi minha – uma encomenda do Serviço Educativo. Foi uma peça para a Orquestra do Porto, com um coro de mais de 250 vozes, com a participação de escolas regulares que escolheram o tema Liberdade. Escolhi poemas de Sophia, a poetisa que adorava. O palco da Casa da Música estava completamente preenchido com jovens intérpretes, a orquestra foi dirigida pela maestrina Sian Edwards. O espetáculo foi um momento especial – agradou-me muito!

Escrevi o primeiro Concerto para Guitarra Portuguesa e Orquestra, para o encerramento da Capital Nacional de Cultura, em Coimbra. O guitarrista foi Paulo Soares.

Lembro também um espetáculo exemplar, “Então ficamos”, porque juntou gente de sítios e práticas musicais muito diferentes, no encerramento de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, apresentado no multiusos. A sala seria de cinco a sete mil lugares, a plateia ficou com três ou quatro mil lugares, o resto era palco, que era enorme, com árvores reais no meio com efeitos absolutamente fantásticos! Havia um camião TIR em cena, o maestro saiu de lá até à orquestra e na parte de trás do camião estava o coro. O maestro Peter Bergamin dá a entrada, o motor começa a trabalhar e dá-se início a um espetáculo de cerca de duas horas...

Foi um espetáculo grande, com 500 pessoas em palco e uma orquestra enorme – a Filarmonia das Beiras estava reforçada, também com outros instrumentos tradicionais que não fazem parte da orquestra. Em palco estavam também o José Mário Branco, a Amélia Muge, os Mão Morta, o Pacman, a Magna Ferreira, concertinas e cavaquinhos, o Coral de Letras da Universidade do Porto, o Coro de Pevidém... O espetáculo foi gravado e transmitido pela RTP 2, mas julgo que tinha potencial para ser transmitido por outro canal…

A direção artística era minha e do José Mário Branco, que é um compositor extraordinário – ficámos amigos neste processo. Mas a equipa artística, responsável pela criação da obra incluía também o Carlão dos Da Weasel, a Amélia Muge, o José Martins, os Mão morta. Era esta a gente criadora do espetáculo, que foi construído de uma forma especial com as comunidades, muitos amadores e profissionais. Contou com uma encenação fabulosa do António Durães, que dirigiu uma equipa extraordinária de profissionais em todos os domínios, na iluminação, na cenografia, nosom…. Foi uma experiência exemplar, como trabalho de grupo, como coordenação entre colegas, como criação de uma partitura, como obra musical... Não posso deixar de o considerar uma das coisas mais bonitas que pude fazer e em que pude participar.

Outro espetáculo com outra ambição foi o encerramento da Rota do Românico, uma iniciativa de várias câmaras municipais. O concerto envolveu a Orquestra do Norte, a soprano Rita Vieira e coros de escolas de música, paróquias e outros. Foi a Magna Ferreira que dirigiu tudo. Voltamos à perspetiva de a música poder chegar a mais pessoas – é esta a filosofia. O concerto foi um sucesso, mas os condimentos do espetáculo permitem que as pessoas se afirmem nesse tipo de território e que façam coisas à sua medida, mas bem feitas.

Experiências com grandes grupos, em projectos deste tipo, permitem-me também escrever em registos mais descomprometidos e livres.

Tenho também podido fazer algumas coisas para grupos de câmara especiais, por exemplo, com o Síntese da Guarda. Escrevi para ele uma peça sobre 13 poemas pequeninos do escritor brasileiro Marco Lucchesi, da Academia Brasileira de Letras. Foi este escritor que fez a minha apresentação antes de um concerto com música minha que fizemos no Rio de Janeiro. Ficámos logo amigos, criou-se uma sintonia que não é muito fácil acontecer. Como gosto muito de poesia, fiquei logo fascinado quando li os seus poemas, daí termos combinado fazer a peça sobre estes poemas. Creio que a peça tem a possibilidade de poder vir a circular por outros lados.

Guardo também outros momentos, como o quarteto que escrevi para o Quarteto de Cordas de Matosinhos, as várias peças para o António Saiote... Lembro-me de uma peça minha que foi editada na Alemanha por uma editora que já desapareceu e era especializada em música para contrabaixo. Eu tinha feito uma peça para o Florian, contrabaixista da Orquestra do Porto, que a estreou num congresso de contrabaixo, nos Estados Unidos. Algum tempo depois uma das suas partes foi gravada em CD, numa editora alemã, em Dortmund, por um duo em atividade na Alemanha. Estas coisas só acontecem porque a peça está editada e consta do catálogo de uma editora. Se estivesse fechada no computador do compositor, ninguém sabia que ela exista…

 

Capella Duriensis

“Aprender em todas as direções”, no espírito dos mestres renascentistas é, na opinião do diretor artístico britânico Jonathan Ayerst, um dos propósitos do grupo coral Capella Duriensis, que nasceu em 2012 e tem já dois discos editados. Um contrato discográfico com a referência editorial mundial Naxos para gravação de música renascentista portuguesa e a iniciativa de um projeto educativo para o canto coral são dois dos feitos do grupo.

Quem observa o seu trabalho percebe que a alegria, a partilha e o entusiasmo nascem do contributo de cada voz para a harmonia conjunta. Por isso esta entrevista é também uma conversa a várias vozes.

 

Da Capo (DC) - O projeto “Capella Duriensis” teve início em 2012, como tem evoluído a formação do grupo?

Jonathan Ayerst, Diretor Artístico (JA) - Fomos sempre à volta de 14 pessoas. Contudo, tal como o grupo está a evoluir, gostamos de fazer performances com menos vozes. Sabemos que se houver demasiadas pessoas, não nos conseguimos concentrar. Para obras grandes, de compositores românticos, trabalhamos com 16 e quando estamos em tour ou fazemos música renascentista, integramos oito ou nove pessoas. De certa forma esse é o nosso objetivo: ter um conjunto, um reservatório de cantores a partir do qual extraímos grupos para fazer determinados projectos.

 

DC - O vosso repertório é muito vasto e abarca períodos históricos diversos: obras renascencistas, canções populares da Europa Ocidental e Oriental, música sacra da Igreja Ortodoxa Oriental e composições dos séculos XX e XXI. Como é que escolhem o vosso repertório?

JA - Acho que estamos sempre a perguntar-nos isso mesmo, quem somos e para onde vamos? Somos todos músicos interessados e com a mente aberta. Isto não é um grupo em que se procura pessoas capazes de fazer, o importante é aprender e praticar. Quando eu comecei também não tinha experiência de trabalho com a música renascentista, para além da minha experiência na infância. Por isso eu tenho aprendido, eles também e temos interesse em aprender em todas as direções.

Por outro lado, frequentemente temos de fazer propostas interessantes para atrair as atenções e receber convites. A música russa ortodoxa foi escolhida para despertar o interesse e sermos convidados para os festivais. Temos amigos que falam russo, eles ajudam com a língua, fazemos um bom trabalho e isso é que é importante.

Pessoalmente eu tenho muita experiência com música contemporânea, pelo que posso ajudar nessa área e relativamente à música medieval, todos aprendemos e gostamos de o fazer. Para além disso, temos também um interesse consistente na música portuguesa renascentista, que estamos agora a gravar para a editora Naxos, uma vez que queremos representar esta música a nível internacional.

E também gostamos da variedade.

Pedro Ferreira, Baixo (PF) - Apesar de parecer um espaço de tempo muito grande, de 1500 ao século XXI, na verdade há duas grandes áreas de enfoque: a polifonia portuguesa (uma grande parte daquilo que fazemos foi escrito nos séculos XVI e XVII) e a música contemporânea onde podemos incluir as obras russas do fim do século XIX.

Também trabalhamos o canto gregoriano, mas como a polifonia está assente no canto gregoriano, é quase uma extensão natural daquilo que fazemos. O canto gregoriano e a música medieval também estão muito relacionados, daí aparecer também a música medieval.

 

 

"Não compreendo porque é que a sociedade cultural portuguesa não reconhece, não celebra a sua própria música."

 

 

DC - Os temas gravados no vosso primeiro CD “Rito Bracarense”, resulta de pesquisa própria. Como é feito esse trabalho de pesquisa?

PF - A música esteve adormecida nos arquivos da Sé de Braga durante séculos. Foi o Jonathan e outros colegas que estiveram lá a tirar o pó e a transcrever para que pudéssemos ler aquilo que lá estava.

JA - O trabalho de pesquisa e transcrição do “Rito Bracarense” foi feito em colaboração com o musicologista Luís Henriques. Frequentemente gostamos de trabalhar com musicólogos ou instrumentalistas, para fazer um programa. Mas por vezes também nos pedem para fazer um programa em particular. No Festival de Música Antiga de Utrecht disseram-nos que apenas gostariam que levássemos canto gregoriano, por isso tivemos de fazer um programa de 45 minutos de canto gregoriano, o que foi um grande estímulo para nós.

 

DC - Ainda há muita música escondida em arquivos à espera de ser descoberta?

JA - Definitivamente. Há muito repertório em bibliotecas, como no caso de Coimbra, eles estão muito ansiosos por que alguém transcreva as obras. Não compreendo porque é que a sociedade cultural portuguesa não reconhece, não celebra a sua própria música. Claro que há muitos grupos que interpretam esta música, mas porque é que não é ensinado nas escolas, porque é que não é mostrado como um grandioso feito nacional?

A nível internacional, esta música é conhecida através das gravações inglesas e por isso é tão importante que haja gravações de grupos portugueses também.

 

DC - Em Inglaterra, a relação com a música antiga é diferente?

JA - É preciso cautela quando se comparam países, mas penso que em Inglaterra existe uma tradição coral fantástica que está em perigo, vai diminuindo à medida que o tempo passa. Eu próprio recebi essa educação, em que começamos aos sete anos com uma rotina diária de leitura, canto, interpretação.

 

 

"percebemos que também temos de treinar a nossa audiência para que entenda a música, porque há de facto uma falta de tradição de interpretação e compreensão da música"

 

 

DC - Quando se fala de Renascença em termos históricos gerais, pensamos numa mudança de mentalidades relativamente à idade medieval, de abertura de horizontes a todos os níveis. Também podemos fazer esse paralelismo com a música?

PF - De uma forma muito simplista, se pensarmos que na Idade Média a música de referência era o canto gregoriano, que é uma música relativamente fácil em termos de escrita porque todas as vozes cantavam a mesma coisa e o mesmo texto ao mesmo tempo (apesar de ser muito difícil de cantar bem é muito fácil de ouvir), a Renascença começa a construir em cima dessa linha simples com quatro e às vezes oito vozes que por vezes estão a cantar músicas diferentes com textos diferentes em momentos diferentes. Portanto é uma construção fantástica que põe em causa aquilo que era o paradigma, a referência até essa altura.

Relativamente ao conteúdo, no canto gregoriano o conjunto de textos era relativamente restrito e, a partir da polifonia, mais textos sacros são utilizados.

Igor Vale, Baixo (IV) - De tal forma a música se tornou mais complexa, o que preocupou o Vaticano. A Igreja entendia que com o canto gregoriano era muito mais fácil perceber o texto e com a polifonia tornou-se bastante mais difícil. E é verdade, mesmo bem cantado por vezes há momentos em que é difícil compreender o conteúdo e a Igreja não estava de acordo com isso na altura.

JA - Em geral, a Renascença é um avanço enorme de pensamento, por isso na música, os aspetos polífónico e harmónico, ou seja, o linear e o vertical (a maneira como as vozes se encaixam ao mesmo tempo, criando harmonias, mas também as relações entre as vozes ao longo do tempo) desenvolveram-se incrivelmente, tornaram-se muito mais complexos.

Com o Concílio de Trento, determinaram que se tinha de simplificar para as pessoas poderem compreender. Houve uma espécie de crise na música: poderiam eles simplificar no sentido de nivelar por baixo? De certa forma, compositores como Palestrina surgiram com uma nova estética, muito pura e simples, mas também muito expressiva.

Em termos musicais, a Renascença portuguesa é mais tardia do que nos outros casos. Chega numa altura muito boa, porque tem simplicidade mas também uma maturidade emocional. É muito expressiva mas também contida devido ao momento e às influências, que levaram algum tempo a chegar aqui. E também devido às estruturas sociais que se tinham implementado para treinar os músicos. Havia muitos mosteiros onde as crianças eram ensinadas, daí que praticamente todos os compositores portugueses fossem religiosos. Foram educados em instituições religiosas e ensinados metodicamente nas regras, na disciplina e na prática da escrita desta música e apenas com este treino poderiam emergir as habilidades.

 

DC - Como é que encaram neste momento o estado da música no contexto português?

JA - Quando começámos este projeto, pensei que o mais importante seria poder treinar-me a mim e aos meus colegas na interpretação deste tipo de música, mas depois percebemos que também temos de treinar a nossa audiência para que entenda a música, porque há de facto uma falta de tradição de interpretação e compreensão da música.

No exterior, deparamo-nos com audiências que nos encontram a metade do caminho. Quando cantamos aqui, é mais difícil, as pessoas estão a ouvir as obras pela primeira vez e estamos sempre a tentar ter uma relação mais próxima com a audiência.

 

 

"A música que fazemos não é um repertório que chega a grandes públicos, temos de estar cientes disso e ser realistas. Quisemos abrir as portas também pela via da imagem"

 

 

DC - Que aspirações têm relativamente a esta formação de público?

JA - Um dos nossos sonhos é tentar influenciar esta situação através de um projeto de educação que realizámos pela primeira vez este ano, chamado “Summer Singing”, que decorreu em Braga e teve a participação de 80 pessoas. Durou três dias e o convite era aberto a cantores de coro, de qualquer coro, para virem trabalhar connosco e preparar um concerto, com workshops sobre música, com programas específicos de aprendizagem. Tivemos também um debate sobre música coral, aulas de ioga, ou seja, tudo o que tivesse a ver com preparação e música. Foi uma experiência fantástica, muito positiva em todos os aspetos.

 

DC - Vão repetir o “Summer Singing” em 2016?

JA - Sim, temos muita sorte em ter apoio do Seminário de Braga e do Auditório Vita e o nosso desejo é fazê-lo novamente e torná-lo mais longo.

 

DC - Nota-se que existe um cuidado do grupo ao nível da imagem, nomeadamento dos registos em vídeo. Isso está relacionado também com a necessidade de se darem a conhecer?

Inês Flores, Soprano (IF) - Nós estamos numa era em que é tudo muito visual. A música que fazemos não é um repertório que chega a grandes públicos, temos de estar cientes disso e ser realistas. Quisemos abrir as portas também pela via da imagem e por isso apresentar-nos de forma a entrar pelas plataformas digitais e chegar mais facilmente a casa das pessoas.

Uma pessoa pode ir ao google, ao youtube ou facebook fazer uma pesquisa e depara-se com um vídeo com imagens e uma história interessantes, fica a ouvir e quem sabe não passa a gostar desse tipo de repertório, ou então começa a conhecer o nome do grupo e reconhece quando o ouve em algum lado. Temos trabalhado com pessoas muito interessantes nessa área, o Alexandre Cabrita grava e faz a edição de vídeo e tem sido muito interessante.

 

 

"não é muito habitual haver grupos a gravar música portuguesa desta época, embora algumas destas obras já tenham sido gravadas por grupos ingleses. Falamos da chamada época de ouro da música portuguesa"

 

 

DC - Como é que conseguiram despertar o interesse da editora Naxos, que é uma referência internacional?

PF - Conseguimos fundamentalmente mostrando o nosso trabalho, enviando maquetas e currículos e passando por uma discussão em que eles avaliaram a qualidade e depois debatemos o tipo de projeto que podemos fazer. Para eles é um projeto de alguma forma único, não é muito habitual haver grupos a gravar música portuguesa desta época, embora algumas destas obras já tenham sido gravadas por grupos ingleses. Falamos da chamada época de ouro da música portuguesa porque de facto tivemos um período fantástico em termos de qualidade dos nossos compositores.

Portanto, sendo um projeto de alguma forma único também ao nível da Naxos, era uma forma de proporem algo diferente ao seu público. Fizemos um contrato com eles para a edição de 3 CDs. O primeirojá saiu, o segundo está gravado e irá sair para o ano, provavelmente durante o primeiro semestre. Os CDs estão disponíveis online a nível mundial, também na FNAC e existe ainda a versão tradicional, de suporte físico.

 

DC - Quais os próximos concertos agendados?

PF - Já temos diversos concertos planeados para 2016 e certamente outras irão aparecer: temos presença marcada no Festival de Guimarães, para Ourense em Espanha e para Sintra. Temos feito concertos pelo país todo, incluindo as ilhas.  

 

http://capelladuriensis.com

https://pt-pt.facebook.com/capelladuriensis

Entrevista de Maria Vítor Mota

Francisco Morais Franco

Tem mais de 30 prémios (17 deles prémios máximos) em concursos nacionais e internacionais, entre eles: London International Guitar Competition 2012, XII Guitar Art Festival (Belgrado), 23ª Edição Prémio Jovens Músicos, David Russell Honorary Prize (Vigo). O jovem guitarrista de Francisco Morais Franco nasceu na Covilhã, onde começou a estudar com Dejan Ivanovic, licenciou-se no Piaget de Almada e, em 2014, concluiu com classificação máxima o Mestrado em Performance na Kunst Universität Graz - Áustria, com o professor Paolo Pegoraro.

 

A sua mais recente conquista foi o 1º Prémio no concurso do I Festival Internacional de Guitarra de Amarante, em 2015, empurrando para o 2º lugar o “rei dos concursos” Marko Topchii (Ucrânia), que apesar de ter apenas 24 anos, já ganhou mais de 50 prémios em todo o mundo. “Depois de toda a energia investida em preparar o concurso, de criar espectativas e de passar por tantas dúvidas… é uma cereja no topo do bolo. Fiquei muito contente com a experiência, com o feedback que tive de algumas pessoas e com o prémio em si”, diz Francisco Morais Franco. O valor do prémio vai ser investido numa pós-graduação em Sevilha, com vários professores relevantes no panorama atual da Guitarra: “Neste momento parece-me a melhor aplicação possível para mim”.

Destaca a organização do Festival de Amarante, que foi “extremamente profissional no acompanhamento aos participantes, à qualidade dos artistas convidados, aos concertos, às infraestruturas, aos prémios do concurso, etc. Foi um grande trabalho e merece sem dúvida ser mais divulgado e apoiado”.

 

o único resultado que se deve esperar quando se faz um concurso é a evolução que se tira do nosso estudo/preparação”

Dos 25 prémios que já arrecadou, destaca o Prémio honorífico David Russell, em Vigo, em 2006: “O David Russell era, e é, um ídolo para mim, e naquela altura era daquelas pessoas que eu via só na capa dos CDs. Tê-lo conhecido no concurso feito em nome dele, só por si já tinha sido o concretizar de um sonho, ter recebido o prémio foi indescritível”.

Realça ainda o Prémio Jovens Músicos em 2009, e o London International Guitar Competition, “pela preparação longa e exigente, e pelas oportunidades que se abriram depois”.

Defende que a importância dos concursos é relativa, já que “para alguns será muito importante, para outros pode não ter qualquer relevância, e isso é perfeitamente legítimo”. No seu caso tem sido importante: “Estabeleceu-me objetivos/metas a cumprir; aprendi muito com as experiências que fui vivenciando em concursos; conheci outros músicos/colegas, com abordagens e conhecimentos diferentes, que me influenciaram e motivaram para fazer melhor do que aquilo que fazia”.

Outro aspeto importante foram os prémios dos concursos, não só pela componente monetária mas também pela divulgação que trazem e pelas oportunidades que criam. Mas em última instância, devo dizer que, para mim, o único resultado que se deve esperar quando se faz um concurso é a evolução que se tira do nosso estudo/preparação. Tudo o que vier para além disso é um extra”, sublinha.

 

[Dejan Ivanovic] Era a pessoa com quem eu queria mesmo estudar, admirava-o como músico e como professor”

A escolha de Guitarra foi um acaso. “Eu queria simplesmente estudar música, não tinha um instrumento definido. Lembro-me de ir com a minha mãe pela primeira vez ao Conservatório da Covilhã e de naquele dia estar inclinado para escolher o piano. Por sorte, havia um aluno daqueles mais avançados a tocar guitarra no cimo das escadas, e isso aliado ao facto de na secretaria me terem dito que tinham um ótimo professor de guitarra (Dejan Ivanovic), convenceu-me a escolher o instrumento”, conta.

O mesmo professor, Dejan Ivanovic, que o levou a fazer o curso superior no Instituto Piaget em Almada: “Era a pessoa com quem eu queria mesmo estudar, admirava-o como músico e como professor. Foi aliás a única escola a que me candidatei”.

 

Foi muito mais decisivo ter professores competentes e empenhados e estar em escolas super dinâmicas que me ofereceram oportunidades para evoluir”

O facto de ter estudado numa cidade do interior pode ter sido positivo: “A região assegura o essencial ao nível da educação e a programação cultural, que embora não seja de destaque, é minimamente presente. Podemos não ter concertos do Grigory Sokolov nem do Jordi Savall, mas convenhamos que a maioria das crianças não tem maturidade para dar o devido valor a eventos desta magnitude. Foi muito mais decisivo ter professores competentes e empenhados (como o professor Pedro Rufino), e estar em escolas super dinâmicas que me ofereceram oportunidades para evoluir”.

Naturalmente, teve de sair da Covilhã para prosseguir no ensino superior e, mais tarde, sair também do país para estudar com Paolo Pegoraro, na Áustria. “No meu último ano da licenciatura eu já tinha decidido que queria ir estudar para fora. No entanto acabei por fazer um “gap year” e fiquei mais um ano em Portugal. Este ano foi bastante importante para mim, tive que aprender a conhecer-me enquanto estudante mas sem professor”, explica.

Fez concursos na Europa e num deles acabou por conhecer o professor Paolo Pegoraro, que o convidou para ser seu aluno em Graz: “Consegui conciliar um país com uma forte prática cultural, com um professor com quem poderia aprender imenso e numa perspectiva musical diferente da que eu tinha”.

 

Tive de abdicar de várias coisas, várias vezes. Mas toda a gente o faz”

Uma carreira de conquistas mas também de sacrifícios: “Tive de abdicar de várias coisas, várias vezes. Mas toda a gente o faz e não deixei de ir aproveitando a vida por causa disso. Mas desde que se tenha retorno e realização no que se faz, para mim compensa”.

Após ter integrado o Kroiser Ensemble – Contemporary Music Project em Kiev, no passado mês de Dezembro, uma iniciativa de quatro músicos de quatro países (Portugal, Sérvia, Ucrânia e Japão), relacionada com música contemporânea.

 

Continuamos a ter um mercado muito pequeno e cerrado, onde é muito difícil entrar e ser-se devidamente remunerado”

Em Portugal, reconhece que “houve uma mudança bastante significativa” ao nível da educação: “Refiro-me a este boom do ensino articulado. Se for bem gerido pode significar que teremos gerações mais sensibilizadas para a música”.

No panorama da Guitarra, confirma uma evolução muito positiva nos últimos anos. “Em grande parte devido à proliferação de festivais de guitarra, muitos deles direcionados para as camadas mais jovens. Atualmente, acho que temos uma comunidade guitarrística mais informada, com muito mais interesse e dinamismo”, afirma.

Porém, as oportunidades de tocar ainda são demasiado frágeis: “Continuamos a ter um mercado muito pequeno e cerrado, onde é muito difícil entrar e ser-se devidamente remunerado”.

 

Para muitos [músico] continua a ser uma profissão não séria, mais ao nível de simples ocupação ou hobby”

“As gerações dos nossos pais, dificilmente mudarão a sua perspetiva sobre o que é um músico. Para muitos continua a ser uma profissão não séria, mais ao nível de simples ocupação ou hobby, levada a cabo por alguém que não tinha bons resultados a matemática ou português”, aponta.

Acha que devem ser os próprios músicos a tentar mostrar precisamente o contrário: “Que é algo que requer muita seriedade, profissionalismo, conhecimento e dedicação (mas sem esquecer a auto realização que se tira disso!)”.

Lourenço Macedo Sampaio

Lourenço Macedo Sampaio é já um veterano dos palcos. Integrou a Gustav Mahler Jugendorchester e colaborou com a Orquestra Sinfónica de Londres, Orquestra de Paris, Staatskapelle Dresden, Welsh National Opera, Royal Philharmonic, Oviedo Filarmonia, Orquestra Gulbenkian e a Orquestra Sinfónica do Porto. Concluiu recentemente o Artist Diploma sob a orientação de Paul Silverthorne, chefe de naipe da Orquestra Sinfónica de Londres.

 

o PJM é uma ferramenta fundamental do panorama cultural português”

Lourenço Macedo Sampaio afirma que o PJM já mudou a sua carreira: “Proporcionou-me oportunidades que nunca tive, nomeadamente tocar a solo com a Orquestra Gulbenkian. Espero usar o prémio e as oportunidades que dele resultaram para poder lançar a minha carreira e apostar nos projetos que estou a desenvolver como profissional”.

É a segunda vez que concorre ao PJM (Prémio Jovens Músicos), mas desta vez, além de ser o vencedor em Viola, nível superior, leva também o Prémio Maestro Silva Pereira/Jovem Músico do Ano: “Foi importante ganhar este Prémio, na medida em que me permitiu tocar novamente – desta vez o concerto completo de Bartok – com a Orquestra Gulbenkian. Adicionalmente, a bolsa de estudos é uma importante ferramenta para continuar o aperfeiçoamento técnico e musical com outros professores no estrangeiro”.

Considera, assim, que “o PJM é uma ferramenta fundamental do panorama cultural português. É uma oportunidade enorme para o desenvolvimento pessoal e profissional dos jovens músicos portugueses – e nesse sentido, assegura o futuro da música em Portugal. Além disso, permite aos profissionais tomarem conhecimentos de jovens talentosos e assim poderem enriquecer o panorama cultural português dando-lhes oportunidades de trabalho e de inclusão na profissão”.

 

tentámos pensar unicamente em música e na maravilha da profissão que temos”

Explica que “todas as provas foram preparadas com um estudo intensivo de todas as peças que foram apresentadas, interpretando todas as informações fornecidas pelo compositor, assim como consultando diversas gravações de estilos diferentes das mesmas peças”. Teve o apoio da professora Olga Vasilyeva e procurou também “tocar em público o programa o maior número de vezes possível para estar o mais ‘à vontade’ possível com a situação do concurso”.

E a situação envolve sempre ansiedade e nervos, “pois é nessa altura que “tudo acontece” e um deslize poderá afetar a execução da peça, pois estas são sempre de grande dificuldade técnica.” É na própria performance que está também o mais emocionante: “tentámos ter o prazer de aproveitar todo o trabalho desenvolvido em casa e pensar unicamente em música e na maravilha da profissão que temos. Tocar com orquestra é também um momento muito emocionante.”

 

é muito importante ter outra área de conhecimento para além da música”

Desde que começou a estudar música aos 8 anos que “foi sempre um prazer enorme”.

A decisão de fazer música como profissão surgiu ao terminar o conservatório, mas nada o impediu de se licenciar também em Bioquímica pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. "No meu caso foi muito importante ter outra área de conhecimento para além da música, na medida em que essa outra área complementou o trabalho que fiz no âmbito da música e acabou por ser também uma fonte de método de trabalho e até de alguma inspiração", sublinha.

Determinante tem sido a família e a inspiração dos professores, maestros e colegas: “indicaram-me sempre o melhor caminho para a minha carreira”

 

uma base sólida de ensino de música em Portugal e uma quota de talento enorme”

Acha fundamental um jovem músico estudar no estrangeiro, não obstante haver “uma base sólida de ensino de música em Portugal e uma quota de talento enorme”. Contudo, defende que “quanto mais conhecimento e experiências diferentes se conseguir ter, melhor é o nível que somos capazes de apresentar”.

“Não quero com isto dizer que os jovens que não estudaram no estrangeiro não fazem música ao mais alto nível, quero antes dizer que, naturalmente, quem tem experiência num grande centro musical (que não são todas as cidades no estrangeiro) tem obviamente contacto com culturas musicais diferentes e tem mais contacto com grandes intérpretes e nomeadamente grandes orquestras, cujas visitas a Portugal são, infelizmente, raras”, explica.

Acredita que a nova geração de músicos portugueses tem um “talento sem precedentes, que irá sem dúvida enriquecer Portugal e honrar os portugueses”.

 

Portugal tem uma agenda cultural boa, ainda que bastante centralizada”

Diz que “dentro do possível e com as limitações financeiras existentes, Portugal tem uma agenda cultural boa, ainda que bastante centralizada – o que, felizmente, está a mudar”. Considera “fundamental o aparecimento de novos projetos com imenso mérito, dos quais destaco, sem desprimor para nenhum outro, a Orquestra XXI que permitiu reunir tanto talento luso assim como levar concertos de música erudita a concelhos que raramente têm acesso a ela”.

“À parte deste projeto, muitos outros de enorme qualidade têm surgido e acho que isso é um grande sinal do desenvolvimento do panorama cultural português”, acrescenta. Salienta ainda a ESMAE, “com projetos musicais cada vez mais ambiciosos e com um nível musical altíssimo”.

“Sei que tudo isto irá dar os seus frutos no futuro. Espero também que haja vontade política para acarinhar e estimular a cultura portuguesa, em especial a Música”, afirma.

 

ser feliz a fazer música”

O maior objetivo de Lourenço é “ser feliz a fazer música”, por isso quer que todos os projetos musicais em que esteja envolvido sejam de grande nível musical. “Se me perguntarem um projeto que me tenha marcado e que me tenha tido vontade de o agarrar posso mencionar a experiência que tive com a Orquestra Sinfónica de Londres e Bernard Haitink. Foi de facto algo que apresentou os valores musicais mais altos que conheço e que me deixou com vontade de tentar perseguir esta orquestra”, destaca.

Para já, prossegue o seu trabalho a nível pessoal, com alguns recitais e concertos em Portugal. Fundou em Londres o Anglo-Portuguese Ensemble, formação de cordas sem maestro composta por músicos portugueses e britânicos, com um ciclo de 5 concertos em 2015/2016, além de um concerto no próximo Festival Internacional do Marvão.

No final do último ano, formou também com “três colegas excecionais” – todos laureados do PJM - o Quarteto António Fragoso, que já teve a sua digressão inaugural e que promete dar muitos mais concertos nos próximos meses. “É um projeto que também me motiva imenso, pois é outro grande prazer que tenho o de tocar em quarteto, especialmente com estes três músicos tão especiais”, diz. A nível orquestral, está à experiência para Assistente de Chefe de Naipe na Ópera Nacional do País de Gales, assim como com um contrato na Orquestra Sinfónica Portuguesa.

 

Lourenço Macedo Sampaio

Nascido em 1989, Lourenço Macedo Sampaio formou-se no Conservatório de Música do Porto, na classe de Professor Jean-Loup Lecomte com nota máxima. Vencedor do Prémio Jovens Músicos 2015 – Nível Superior e Jovem Músico do Ano 2015, licenciou-se em Música com nota máxima pela Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo na classe do Professor Ryszard Woycicki de quem recebeu também ensinamentos de Música de Câmara.

Desde os 16 anos tem aulas com Ana Bela Chaves, primeira violeta solista da Orquestra de Paris, e Valentin Stefanov, solista internacional laureado do Concurso Marguerite Long – Jacques Thibaud. Em 2009, começou o seu estudo com Igor Sulyga, violeta principal dos Virtuosos de Moscovo (dirigido por Spivakov), membro do Quarteto de Cordas de Moscovo e atual violetista do Quarteto de Cordas Kopelman.

Em 2010, recebeu a primeira aula de Gérard Caussé, de quem obtém assíduo apoio e ensinamento. Concluiu em 2014 o Mestrado da Royal Academy of Music como bolseiro de mérito do Leverhulme Trust, Santander Universities UK e da Fundação Calouste Gulbenkian.

Nos últimos anos tem frequentado masterclasses com Nobuko Imai, Maxim Vengerov, Rivka Golani, Yuri Bashmet, Diemut Poppen, Avri Levitan, Tatjana Masurenko e Luís Muñiz. Venceu o Concurso de Instrumentos de Arco do Alto Minho em 2008 e, aos quinze anos, foi laureado no Concurso Internacional Júlio Cardona. Venceu também o Prémio Helena Sá e Costa em 2013 tendo por isso atuado a solo com a Orquestra Sinfónica da ESMAE em 2014. Por duas ocasiões atuou a solo com a Orquestra do Conservatório de Música do Porto.

Integrou a International Mahler Orchestra e colaborou com a Orquestra Sinfónica de Londres, Orquestra de Paris, Staatskapelle Dresden, Welsh National Opera, Royal Philharmonic, Oviedo Filarmonia, Orquestra Gulbenkian e a Orquestra Sinfónica do Porto, atuando em ambas as salas da Filarmonia de Berlim, na Kurhaus de Wiesbaden, Filarmonia de Colónia, Centraltheater de Leipzig, Liederhalle de Estugarda, Sala Pleyel, Nova Filarmonia do Luxemburgo, Auditório Nacional de Espanha em Madrid, Auditório Príncipe Felipe em Oviedo, Sala São Paulo no Brasil, Casa da Música, Auditório Gulbenkian, entre outras. Foi igualmente membro da Gustav Mahler Jugendorchester 2014 e 2015.

Concluiu recentemente o Artist Diploma sob a orientação do Professor Paul Silverthorne, chefe de naipe da Orquestra Sinfónica de Londres.

Joana Gama

Pianista e investigadora, Joana Gama foi também vencedora da edição de 2008 do Prémios Jovens Músicos na categoria de piano. A sua actividade concertística desdobra-se em recitais a solo, colaborações com diferentes agrupamentos portugueses e concertos com orquestra.

Na classe de António Rosado, concluiu em 2010 o mestrado em interpretação na Universidade de Évora, onde prossegue actualmente estudos de doutoramento sobre música contemporânea portuguesa para piano, como bolseira da FCT.

Como pianista e performer, nos últimos anos tem estado envolvida em projectos que associam a música às áreas da dança (Tânia Carvalho, Luís Guerra, companhia Útero), do teatro (Esticalimógama), da fotografia (Eduardo Brito) e do cinema (João Botelho, Miguel Seabra Lopes). Acaba de lançar o seu primeiro disco: QUEST, um projecto de piano e electrónica partilhado com o músico Luís Fernandes, editado pela Shhpuma. Gravou diversas vezes para a Antena 2.

 

Da Capo (DC): O que fez apaixonar-se pelo piano? Sempre foi o seu sonho?

Joana Gama (JG): Não sei o que me fez apaixonar pelo piano, mas tenho a certeza que é o instrumento certo para mim. Quando entrei na escola aos 5 anos, com natural inocência, disse que queria estudar canto. Como não era possível fazê-lo naquela idade recomendaram-me o piano, porque seria uma boa base na minha formação, e desde então não pensei em mudar.

 

DC: O que foi mais marcante na sua passagem pelo Conservatório de Música Calouste Gulbenkian?

JG: Guardo um carinho enorme pela Gulbenkian pois frequentei a escola entre os 5 e os 17 anos e, apesar das normais “dores de crescimento”, foram anos felizes. Mas quando penso na Gulbenkian vêm-me imediatamente duas pessoas à cabeça: Ema Pais Martins, a minha primeira professora de piano que me incutiu o gosto de tocar em público e João Paulo Teixeira, professor com quem terminei o 8º grau, que me dedicou muitas horas de trabalho e me deu a conhecer os grandes pianistas e o vasto repertório para piano.

 

 

"A RAM borbulhava com actividades e isso teve impacto em mim e deu-me energia para ir para Lisboa e ser pro-activa na organização de concertos"

 

 

DC: Como foi a sua passagem pela Royal Academy of Music (RAM) ? O que a fez regressar a Portugal e ir para a Escola Superior de Música de Lisboa (ESML)?

JG: Viver em Londres e estudar na RAM foi muito importante na minha vida e no meu percurso musical pois abriu-me os horizontes a vários níveis. Mas acabei por decidir não terminar lá o curso para vir estudar com a pianista Tania Achot na ESML.

 

DC: Quais foram as principais diferenças que sentiu entre a RAM e a ESML?

JG: As diferenças que senti não foram tanto ao nível do ensino mas ao nível do ambiente da escola, da instituição. Na minha altura a ESML tinha pouca actividade para além das aulas e dado que ainda fiz o curso na Rua do Ataíde, a própria escola não tinha condições para os alunos lá estarem fora dos períodos de aulas.

Contrariamente, a RAM tinha muitas salas de estudo por isso grande parte dos alunos passavam lá o dia e daí surgiam ideias e colaborações. A RAM borbulhava com actividades - masterclasses, concertos de músicos de renome internacional, concursos internos, concertos de colegas - e isso teve impacto em mim e deu-me energia para ir para Lisboa e ser pro-activa na organização de concertos e no desafio de colegas e outros artistas para projectos.

 

DC: Alguma vez se arrependeu da escolha que fez?

JG: Nunca me arrependi de ter voltado para Portugal e, tendo consciência que provavelmente a minha vida teria sido muito diferente, acho que foi a escolha certa.

 

 

"estar envolvida pela massa sonora de uma orquestra é algo muito especial"

 

 

DC: O que gosta mais: tocar a solo, música de câmara ou orquestra?

JG: Esta é a minha ordem de preferência: tocar a solo, ser solista com orquestra, fazer música de câmara, integrar uma orquestra. Se por um lado gosto da sonoridade do piano a solo, estar envolvida pela massa sonora de uma orquestra é algo muito especial.

 

DC: Ganhou o PJM na categoria de Piano em 2008. Qual é a importância de vencer o PJM? Que portas lhe foram abertas?

JG: A minha participação no PJM foi um momento feliz, o corolário de um período intenso de trabalho sob a orientação do então meu professor, o pianista António Rosado. Como consequência do PJM tive vários momentos importantes pois pude tocar com a Orquestra Gulbenkian, com a Orquestra do Algarve, fazer uma recital no São Luiz e realizar uma gravação para a Antena 2.

 

DC: Foi premiada no Prémio Jovens Músicos (PJM) em 2005, na categoria de música de câmara. Por que não continuou este projeto?

JG: Sempre gostei e gosto muito de fazer música de câmara. Porém até agora nunca me dediquei a uma formação com elementos fixos porque a vida foi-me levando para outros caminhos. Em 2005 fiz música de câmara na ESML e concorri ao PJM com o flautista Fernando Marinho mas acabámos por não dar seguimento ao duo depois do final do curso.

 

 

"Sinto-me sempre muito empolgada na estreia de uma obra e gosto muito do trabalho com os compositores."

 

 

DC: Tem dedicado muito do seu trabalho à música contemporânea e, principalmente, música portuguesa. Como é estrear uma obra? Que preparação faz? Qual o diálogo que mantêm com o compositor?

JG: Sinto-me sempre muito empolgada na estreia de uma obra e gosto muito do trabalho com os compositores. Procuro, por um lado, corresponder ao que o compositor pretende e, por outro, dar a minha opinião em questões interpretativas e práticas da peça (pormenores de notação, apresentação da partitura, adequação da escrita ao instrumento…). Tem sido muito enriquecedor este trabalho com os compositores ao longo do tempo!

 

DC: Quais os momentos mais marcantes da sua carreira?

JG: Há vários, mas posso indicar três momentos: a minha estreia com orquestra, em 2005, quando interpretei o Concerto em Sol de Ravel com a Orquestra da ESML no Palácio da Ajuda; o concerto dos Laureados do PJM na Casa da Música quando toquei o 1º andamento do Concerto de Ravel com a Orquestra Gulbenkian; o Recital que fiz na edição de 2015 do Festival Dias da Música em Belém com música de Satie, Cage, Nyman, Pinho Vargas, Glass e Sakamoto. Nestas três ocasiões fui invadida por uma felicidade imensa.

 

 

 "parto sempre da música nas várias colaborações em que tenho estado envolvida"

 

 

DC: Pode-nos falar um pouco sobre os projetos em que está envolvida? Como dança, teatro, fotografia, cinema? De que forma a música é aliada a estas formas de arte?

JG: Apesar de me interessar explorar outros meios de expressão, parto sempre da música nas várias colaborações em que tenho estado envolvida. Por me interessar a relação da música com as outras Artes, e a própria diversidade dentro de cada meio de expressão, tenho trabalhado com artistas muito distintos como a Tânia Carvalho ou o Miguel Moreira na dança ou João Botelho e o Manuel Mozos no cinema. E tenho vindo a trabalhar regularmente com o Eduardo Brito nas áreas da fotografia, vídeo e cinema.

 

DC: Na área do cinema, a Joana teve participações em três filmes portugueses: La Valse (2012) de João Botelho; Incêndio (2011) de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes; A Cidade e o Sol (2011) de Leonor Noivo. Qual foi o seu papel nestes filmes?

JG: No caso do filme da Leonor Noivo, apenas cedi uma gravação minha da peça “Vers la flamme” de Scriabin. No filme “Incêndio” fiz de dupla da actriz principal, a Joana Craveiro, cujo papel era o de uma professora de canto muito severa que acaba com a casa incendiada pelos alunos. Foi um processo muito engraçado mas complicado pois, numa das cenas, tive de tocar o lied “Erlkönig” de Schubert num piano desafinado e em muito mau estado, coberto por “cinza”.

No filme do João Botelho, que representa a primeira apresentação pública, numa soirée parisiense, da peça “la Valse” de Ravel toco um excerto da versão da peça para 2 pianos com o Nuno Vieira de Almeida. As filmagens foram no salão nobre do Teatro São Carlos e usei peruca para me parecer com a pianista Marcelle Meyer.

 

 

"[QUEST] Foi um processo de trabalho muito tranquilo e prazeroso e em cujo resultado tenho bastante orgulho."

 

 

DC: Em Junho de 2014 lançou o seu primeiro disco em colaboração com Luís Fernandes - QUEST, editado pela Shhpuma. Pode contar-nos como foi esta experiência? Gostou do resultado final?

JG: Este projecto surgiu de uma conversa informal com o Luís Fernandes onde percebemos que ambos gostaríamos de explorar o formato piano + electrónica. Foi um processo de trabalho muito tranquilo e prazeroso e em cujo resultado tenho bastante orgulho. A recepção também tem sido boa, fizemos vários concertos tanto no país como no estrangeiro, parte do álbum foi inclusivamente usada na banda sonora do filme “A Glória de Fazer Cinema em Portugal” de Manuel Mozos e a música “Let Bygones be bygones” deu o título e a banda sonora a um filme da Susana Abreu.

 

DC: Acerca de QUEST, Rui Eduardo Paes escreveu: “O piano e as manipulações de computador não estão em foco, e sim as múltiplas formas como os sons pianísticos são transformados, dissecados, colocados em “loop” ou virados do avesso. Como se um terceiro instrumento fosse fantasmizado pelos dois outros em presença.” Pode comentar esta frase?

JG: QUEST não se trata de um projecto improvisatório - as músicas foram compostas para o disco e é essa a base do que apresentamos ao vivo. Nos concertos o piano tem vários microfones que captam o som que é manipulado pela electrónica e enviado para o público. Ou seja, o que público ouve é uma mistura do piano e da electrónica que no fundo dá origem ao tal terceiro instrumento que o Rui Eduardo Paes refere.

 

 

"Procuro o meu equilíbrio como pessoa, como pianista e não consigo separar a vida pessoal da vida profissional porque o meu “trabalho” sou eu, é indissociável"

 

 

DC: Projetos para breve?

JG: Para Dezembro de 2015 está marcada a estreia de uma nova obra para piano e electrónica de Tiago Cutileiro no Festival Dias de Música Electroacústica em Seia. Em 2016 vou dedicar boa parte do meu tempo ao evento SATIE . 150 que criei para assinalar os 150 anos do nascimento do compositor Erik Satie e que consiste na realização de um recital por mês, em vários pontos do país, com música de Satie. Ainda em 2016 está previsto um novo trabalho com o Luís Fernandes assim como os preparativos de uma peça para crianças, uma encomenda do Teatro São Luiz, que estreará em 2017.

 

DC: Tem algum compositor ou obra preferida?

JG: Há uma obra que me impressionou muito na minha adolescência e que ainda hoje me comove: a Sonata para piano nº3 op.5 em Fá menor de Brahms. No que diz respeito a compositores, tenho um grande carinho pelo John Cage e pelo Erik Satie, pela música, pelas suas personalidades e pelo que representam na História da Música.

 

DC: Quais as renúncias que teve de fazer para se entregar à música? Teve de abdicar da vida pessoal? Como organiza a sua vida, os seus tempos livres, a sua preparação técnica, os ensaios, as viagens?

JG: Gosto muito da vida que tenho e tenho procurado orientar as minhas escolhas de acordo com o que julgo que é melhor para mim. Procuro o meu equilíbrio como pessoa, como pianista e não consigo separar a vida pessoal da vida profissional porque o meu “trabalho” sou eu, é indissociável. Assim como o que faço quando não estou a estudar ou a dar concertos também faz parte de mim. E dado que sou eu que faço a produção dos meus concertos, procuro optimizar o tempo de trabalho ao piano e ao computador.

 

DC: Imaginaria a sua vida sem a música?

JG: Nem pensar.

 

http://www.joanagama.com/

2€DUO, VENCEDOR PJM

Juntaram-se propositadamente para participar no Concurso Gilberto Paiva, onde obtiveram o segundo prémio. André Nadais e Pedro Tavares acabaram por achar uma boa oportunidade para concorrerem ao Prémio Jovens Músicos (PJM). Com o 2€Duo ganharam o primeiro prémio na categoria de Música de Câmara – Nível Médio.

 

O objectivo inicial seria apenas chegarem à fase final do PJM, mas após passarem a fase eliminatória, queriam ganhar e fizeram tudo por isso: “Com ensaios todos os dias nas férias, com o equilíbrio entre estudo, descanso e diversão em conjunto, cada vez nos tornamos mais próximos (apesar de sermos amigos há cinco anos) para fazer com que o duo resultasse como um só. Após um mês de ensaios árduos e com a ajuda do nosso professor (Pedro Fernandes) conseguimos ganhar a final e terminar o ensino secundário da melhor forma possível”.

 

podemos mostrar toda a nossa “força” e o poder que duas marimbas podem ter”

Mais difíceis do que as provas foram os ensaios: “São os momentos nos quais não estamos de acordo com algum aspeto técnico ou musical, os momentos nos quais não conseguimos tocar uma passagem corretamente (independentemente das vezes que a repetimos) e os momentos de montagem dos instrumentos e deslocação”.

Inesquecível foi a interpretação da última obra da prova final - Ultimatum II de N. Zivkovic: “além de ser uma obra que significa bastante para nós, foi a obra mais gratificante de tocar pois podemos mostrar toda a nossa “força” e o poder que duas marimbas podem ter”.

 

o PJM é um dos grandes impulsionadores e descobridores de jovens músicos em Portugal”

André e Pedro esperam que o PJM abra as portas do mercado de trabalho, não só como duo mas também individualmente. “Deu-nos um grande visibilidade e projeção a nível nacional no mundo da música”, sublinham.

Acreditam que “o PJM é um dos grandes impulsionadores e descobridores de jovens músicos em Portugal. Aposta nestes jovens músicos dando oportunidades que no dia-a-dia não são possíveis”.

 

A influência do professor Pedro Fernandes

Já tocam juntos há cinco anos mas só este ano criaram o 2€Duo. Desde que começaram a estudar música, logo perceberam da sua grande importância. “Mas apenas aos treze, catorze anos de idade decidimos que era a música que queríamos para a nossa vida.”, contam.

A maior influência tem sido o professor de percussão Pedro Fernandes: “Pela ajuda, pelo tempo disponibilizado, pelo tempo de trabalho incansável, pelas vezes que nos chamou a atenção, nos “deu na cabeça” e pelo crescimento a nível pessoal que nos proporcionou”.

 

"no estrangeiro existem imensas oportunidades que aqui não conseguimos obter"

Defendem que as escolas em Portugal estão bastante qualificadas: “A única diferença para nós é que no estrangeiro existem imensas oportunidades que aqui não conseguimos obter devido à falta de apoio e investimento que o Governo faz na Cultura”.

Por outro lado, há uma nova geração “cheia de força, garra, com excelentes resultados, músicos a triunfar mundialmente e com muito talento”, que vai “mostrar o melhor que Portugal tem”.

 

o principal é fazer muita música, de todos os géneros e sempre que possível”

“Achamos que todos têm um objetivo como tocar numa orquestra especifica, estudar num certo lugar, mas o principal é fazer muita música, de todos os géneros e sempre que possível”, explicam. Acreditam que se fizerem o que gostam “com paixão e com muito sacrifício”, acabam por chegar ao topo.

Para já não podem sonhar muito com o duo, que com a distância as universidades que frequentam, fica em segundo plano, à espera de tempo para ensaios e mais projectos: “Vamos apostar para já nas nossas carreiras individuais e tocar juntos sempre que tivermos a oportunidade para tal”.

Rui Gama

Rui Gama é um dos mais destacados guitarristas da sua geração. Realizou a Prova de Especialidade, vertente Instrumento – Guitarra, na Escola Superior de Música de Castelo Branco, depois de ter feito Mestrado em Performance na Universidade de Aveiro.

Apresentou-se em público regularmente a solo e em música de câmara nomeadamente em duo com Hugo Sanches com o Trio de Guitarras do Porto. Integra L’Effetto Ensemble, com a soprano Dora Rodrigues e Ciglia Ensemble, com o bandolinista António Vieira. Gravou “Dezassete Peças para Guitarra” do compositor Paulo Bastos e, recentemente, “Acerca da felicidade” de Javier Ribas, com a Orquestra Portuguesa de Guitarras e Bandolins, um disco lançado este ano. E está a preparar a gravação de um CD do L’Effetto Ensemble com obras de compositores portugueses e espanhóis.

Ainda em 2015, criou a Orquestra de Cordas Dedilhadas do Minho, um grupo de instrumentistas de cordas dedilhada, do qual é diretor artístico. Teve ainda tempo para desenvolver várias sessões sobre “Música e Cinema".

Professor do Quadro do Conservatório Calouste Gulbenkian em Braga exerceu também funções docentes na Licenciatura em Guitarra na Universidade do Minho e integrou a Direcção Pedagógica da Companhia da Música de Braga.

 

Da Capo (DC) - Concluiu os Cursos Complementares tanto de percussão como de guitarra, mas prosseguiu os seus estudos apenas em guitarra. Porquê? Sempre foi o seu instrumento predileto? Como ficou a percussão?

Rui Gama (RG): A guitarra foi o primeiro instrumento que aprendi a tocar com o meu pai e o meu avó (amadoramente) e, talvez por isso, tenha uma relação grande com a guitarra.

No Conservatório do Porto fiz o curso complementar em instrumento guitarra clássica. Quando criaram pela primeira vez os cursos profissionais na área da música, a Escola Profissional de Espinho foi uma das primeiras a ministrar oficialmente o curso de percussão e, na altura, jovem que divagava quanto ao futuro, com o apoio de alguns amigos decidi fazer as provas de acesso. Tive sorte, o primeiro professor Carlos Voss, percussionista residente da Orquestra Gulbenkian aceitou-me na sua classe, apesar de não ter experiência neste instrumento e, por alguma razão, o professor gostou de mim. Foram três anos em que tive que estudar bastante para adquirir técnica capaz de poder tocar os diversos instrumentos que fazem parte da percussão. Foi duro mas muito gratificante. Desenvolvi competências, não só, mas acima de tudo, a nível rítmico e destreza motora.

A guitarra foi o instrumento que estudei desde sempre e, como não havia na altura ensino superior em percussão, foi em conversa com o Prof. Álvaro Salazar sobre o seguimento dos estudos para o ensino superior que surgiu o valioso conselho em contactar o Prof. José Pina com o intuito de lhe pedir que me ouvisse tocar e desse a sua opinião. A partir desse momento, tive o apoio necessário para me preparar para as provas de acesso e fazer o ingresso no Curso Superior de Instrumento – Guitarra, na ESMAE.

Relativamente à percussão, fui o responsável por abrir o curso no Conservatório Calouste Gulbenkian, em Braga. Por coincidência, no ano em que o curso iniciou, precisavam de um professor de percussão e um professor de guitarra para algumas horas. Nessa altura, penso que no país devia ser o único que poderia satisfazer essa necessidade (risos). Leccionei as duas disciplinas nos primeiros anos até ao momento em que achei que não fazia mais sentido, visto que investi a minha formação na guitarra. Entretanto, abriu o curso superior de percussão na ESMAE e o mais lógico seria convidar os meus colegas a assumir a docência desse instrumento, como na realidade veio a acontecer.

Entretanto deixei por completo a percussão. Pelo meio ainda tive aulas de bateria numa disciplina do mestrado, mas ficou por aí.

 

 

"Vim com a mente mais aberta, livre e com menos preconceitos, com uma perspetiva mais abrangente a vários níveis, repertório, musical, artístico."

 

 

DC - Que critérios estiveram na base das escolhas que fez, escolas, concursos, professores, etc? Porquê percussão na Escola Profissional de Música de Espinho e Guitarra no Conservatório de Música do Porto?

RG - A Escola Profissional de Música de Espinho porque foi uma das primeiras academias a aderir ao regime de ensino profissional da música e oferecer, entre outros instrumentos, o curso percussão. Com uma estrutura nova, um programa vocacionado, acima de tudo, para a prática instrumental, fez com que tivesse a possibilidade de evoluir rapidamente. Isto foi possível porque os cursos profissionais estão estruturados de forma a que os alunos tenham uma prática instrumental elevada, um currículo que valoriza e potencia o número de horas que o aluno passa com o instrumento. Podemos discutir o tipo de ensino, se tem lacunas ou não nas áreas científicas, proponho essa discussão para outra altura.

O Conservatório do Porto e a ESMAE, primeiro porque sou natural do Porto e estudar longe tem custos acrescidos. A preferência da Escola Superior foi influenciada pela escolha do professor de instrumento.

 

DC - Como foi a sua passagem pelo Conservatório Nacional da Região d’Aubervilliers? Por que sentiu esta necessidade? Portugal não estava a oferecer-lhe o que precisava naquele momento?

RG - Conheci o Professor Alberto Ponce num workshop organizado pela ESMAE, resultou desse encontro a possibilidade de ir estudar com ele para Paris e fui, claro!

Foi uma experiência bastante enriquecedora. De lá trouxe a vivência de uma cidade que fervilha cultura, dos colegas músicos de variadíssimas nacionalidades, essa troca de experiências, de vivências e o facto de estar fora, fez com que tivesse outra imagem do nosso país dando mais valor ao que temos, ao que conseguimos conquistar e evoluir nestes 40 anos de “liberdade criativa”.

Vim com a mente mais aberta, livre e com menos preconceitos, com outros conhecimentos e ao mesmo tempo reforçando conhecimentos já adquiridos, mas sim, com uma perspetiva mais abrangente a vários níveis, repertório, musical, artístico.

Foram diversas as diferenças que senti, um país que apoia a cultura e valoriza a educação, dando oportunidade, apoios e mecanismos para que todos tenham acesso, desenvolvam e melhorem as suas competências. Por outro lado, sentimos que existe um sentido patriota, penso que é uma defesa natural, os de fora têm de provar sob os mesmos parâmetros, o dobro!

Postura bastante contrária ao que acontece no nosso país, o que é um pouco estranho. Em Paris encontrei essa união, mas não quero dizer com isso que não recebam bem quem vem de fora, pelo contrário, quero dizer apenas que senti um pouco isso, e tenho pena que no meu país não exista essa proteção que se transforma inevitavelmente numa alavanca importante na motivação e projeção em todos as áreas, desde a cultura ao empreendorismo, etc...

 

 

"bastava reunir um grupo de trabalho de pessoas competentes e organizar ciclos de concertos pelas inúmeras e belíssimas salas que temos em todo o território nacional"

 

 

DC - Qual o motivo para Portugal continuar a ser visto como uma periferia? Não poderíamos estar também no centro?

RG - Poderíamos e vamos estando! Nós temos excelentes escolas, músicos, professores, aliás, nestes últimos 30 anos as escolas formaram um número considerável de músicos de excelência artística que muitos estão espalhados nos vários continentes.

Com tantos burocratas nos nossos ministérios, bastava reunir um grupo de trabalho de pessoas competentes e organizar ciclos de concertos pelas inúmeras e belíssimas salas que temos em todo o território nacional. É urgente rentabilizar os investimentos feitos nas diversas infraestruturas de norte a sul, é um desperdício de recursos, não o fazer.

Um exemplo a seguir para internacionalizar os nossos jovens músicos é o que fazem os Consulados que estão sediados no nosso país, trazem os seus artistas, organizam concertos aproveitando, dessa forma, para divulgar a sua cultura e dar oportunidade aos músicos de se apresentarem, serem conhecidos, etc...

 

DC - Depois da sua passagem por França veio fazer o mestrado na Universidade de Aveiro. Porquê?

RG -  Porque a Universidade de Aveiro foi a primeira a abrir um mestrado em performance. Eu faço parte de uma geração que está sempre a necessitar de realizar, de superar mais um degrau inventado para, como dizem, uniformizar todo o ensino sem olhar às especificidades de cada área. Podemos dizer que só agora o curso de música tem o mesmo percurso académico que todos os outros, desde o básico ao secundário e depois do superior até ao Doutoramento.

A minha geração andou sempre ao sabor das inúmeras reformas aplicadas ao ensino vocacional da música. No fundo, tivemos de estar constantemente (a nível académico) em reciclagem, provar que fomos, somos, seremos capazes de estar habilitados, neste caso, para o ensino. Essa reciclagem levou-me a Aveiro ao mestrado, como mencionou, e, mais recentemente, a prestar provas públicas no Instituto Politécnico de Castelo Branco – ESART tendo obtido o Título de Especialista em Música – Instrumento Guitarra.

 

 

"receio é que com a falta de investimento na cultura, o abandono das políticas educativas nas artes, consigamos “regressar ao passado” no pior sentido: A cultura ser só para quem “pode”!"

 

 

DC - Já frequentou várias universidades portuguesas, que nos tem a dizer sobre o seu ensino? Em que é que podiam melhorar, se acha que têm alguma coisa para melhorar.

RG - A música tem chegado a um grande número de jovens e de vários estratos sociais, o que é bastante positivo. Por isso, até ao dia de hoje, o acesso ao ensino da música tem crescido gradualmente com excelentes resultados. Cada vez mais os alunos estão mais bem preparados. Existe uma progressão normal que não existia há 20 anos, o facto de os alunos começarem a ter aulas de música no 1º ciclo e poderem continuar o seu percurso até ao ensino superior faz com que exista uma estrutura equilibrada na sua progressão académica. Paralelamente, há um conjunto de atividades que as escolas e os professores promovem, que potenciam e motivam os jovens músicos a participar ativamente, nomeadamente, concursos, masterclasses, intercâmbios etc.

Melhorar, há sempre algo para fazer melhor, o que tenho receio é que com a falta de investimento na cultura, o abandono das políticas educativas nas artes, consigamos “regressar ao passado” no pior sentido: A cultura ser só para quem “pode”!

 

DC - O que acha do ensino da Guitarra Clássica em Portugal?

RG -  Penso que está em constante evolução tanto em qualidade como na competência dos professores. Eu espero que com a atual “ajuda” do Estado, não haja retrocesso. Nos anos 70 poucos eram os que tinham acesso ao ensino artístico. Foram cerca de 40 anos a investir na formação, o que deu frutos hoje em dia. Se não houver essa continuidade será tudo perdido.

O investimento nesta área vocacional foi transferida, a partir de 2011, para o fundo social europeu. Contudo, as constantes mudanças de estratégia do governo e a falta de injeção de capital na educação e cultura está a destabilizar tudo o que foi conseguido nestas últimas décadas. Não nos podemos esquecer que grande parte dos jovens que ingressam nas universidades são formados maioritariamente nas escolas particulares, nas academias, os conservatórios são só cinco no continente e dois nas ilhas.

O número de alunos cresceu consideravelmente porque este fundo europeu deu a possibilidade de haver mais financiamento e, como tal, mais oferta e procura. O panorama atual é de uma chacina moral, intelectual e educacional sem piedade e poderá fazer desmoronar num ano o que se conquistou em quarenta.

 

 

"Fazer música de câmara é um trabalho intimista e quando temos a sorte de encontrar um músico ou músicos que partilham as mesmas ideais, estéticas e dedicação, o resultado só pode ser excelente."

 

 

DC - Quais os momentos mais marcantes da sua carreira?

RG - O Concerto de Aranjuez, na Casa da Música do Porto sob a direção do maestro Martin André, foi a primeira vez que toquei esse concerto com orquestra e fi-lo com músicos de excelência. É igualmente marcante quando temos alunos premiados em concursos - é gratificante ver o nosso trabalho reconhecido pelos pares.

Muitos dos concertos que fiz com o Hugo Sanches, enquanto guitarrista, tenho saudades desse tempo, apresentamo-nos em bastantes concertos em duo. Dávamo-nos muito bem, musicalmente e pessoalmente. Tenho alguns registos em áudio e vídeo e sinto alguma nostalgia ao ouvi-los. Fazer música de câmara é um trabalho intimista e quando temos a sorte de encontrar um músico ou músicos que partilham as mesmas ideais, estéticas e dedicação, o resultado só pode ser excelente.

Recordo também alguns dos concertos que fiz com o Trio de Guitarras do Porto. Foi um trabalho intenso onde aprendi bastante com o Professor Pina, embora já tivesse terminado o curso, passamos horas e horas a fazer adaptações e arranjos para esta formação. Aprendi que é necessário encontrar e perseguir o equilíbrio, aprendi que a fronteira entre o “bom e o mau gosto” está muito próxima. Foi necessário o uso do seu conhecimento e experiência e muitas horas de trabalho exaustivo. Contudo, todo esse trabalho surtiu os seus efeitos enriquecendo os concertos que tive o prazer de integrar com o Trio de Guitarras do Porto. Essas horas que passei nesse período são agora uma ferramenta de trabalho essencial nas adaptações que faço para a Orquestra de Cordas Dedilhadas do Minho (OCDM) e para o projetos Ciglia e L’Effetto Ensemble. A última adaptação que fiz foi exatamente para esta última formação que mencionei, canto e guitarra, da obra de António Fragoso “Serenade”, que originalmente é para canto e piano, e que foi estreada este ano no 27º Festival de Música de São Roque.

Todo o conhecimento e prática que tive me ajudaram bastante. No fundo, tudo o que é formação é uma mais valia. O saber não ocupa lugar.

 

DC - O que gosta mais: tocar a solo, música de câmara ou com orquestra?

RG - Gosto de todas! (risos) Todas são diferentes. Gosto de tocar a solo porque tenho liberdade para me concentrar na minha interpretação. É mais solitário no sentido que estamos sós com o instrumento, mas há uma espécie de feedback ou química com o público.

Quando era mais novo estive ligado ao jazz onde participei em várias masterclasses e, como tal, tenho essa prática de tocar em grupo que me é muito gratificante. No jazz a questão do improviso e o diálogo no momento com os colegas são uma característica. Por isso, o “bichinho” da música de câmara ou música de conjunto, como queiram chamar, sempre esteve presente.

Atualmente, tenho-me dedicado à música de câmara. Fiz durante muitos anos só com guitarra em duo, trio, quarteto. Mas senti uma enorme vontade de fazer com outros instrumentos e, ultimamente, tenho feito com canto, tem sido um trabalho de pesquisa e de adaptação de repertório que se tem revelado muito frutífera.

Também fiz com violino, flauta e recentemente tenho um projeto com bandolim. Acho importante que o bandolim ressurja em Portugal e, dessa tentativa, nasceu o projeto Ciglia Ensemble com o bandolinista António Vieira. No ano passado fizemos um concerto sobre a temática “Música e Cinema” onde abordamos temas de filmes como o “Padrinho” “O bom, o Mau e o Vilão” para o qual fiz adaptações para quinteto, “dois bandolins, bandola, guitarra e contrabaixo”, com obras de Ennio Morricone e Nino Rota .

 

 

"Estamos a preparar a gravação de um CD com obras de compositores espanhóis e portugueses."

 

 

DC - Pode-nos falar um pouco sobre os projetos que têm? Nomeadamente com a soprano Dora Rodrigues e António Vieira?

RG - O projecto com o bandolinista António Vieira partiu inicialmente de uma colaboração conjunta, conforme mencionei na questão anterior, neste momento estamos a montar um programa que se situa entre o período barroco e o contemporâneo. Tentamos dar relevo ao repertório original para bandolim e ao mesmo tempo incluir obras de compositores portugueses como, por exemplo, Aleixo Botelho da Ferreira sec. XVIII.

Com a soprano Dora Rodrigues surgiu naturalmente, canto e guitarra é uma formação interessante, que funciona bem e é equilibrada, além disso, existe um vasto repertório original. Recentemente, foi-nos dedicada uma obra composta pelo compositor Paulo Bastos, “Cinco Indícios de Ouro, com poemas de Mário de Sá Carneiro”. Estamos a preparar a gravação de um CD com obras de compositores espanhóis e portugueses, repertório com o qual nos identificamos.

 

DC - Como foi gravar “Dezassete Peças para Guitarra” do compositor Paulo Bastos? 

RG - O Paulo Bastos é um compositor que muito admiro. Tem uma obra vasta e muito diversificada e este projeto foi um desafio para o Paulo Bastos porque foi a sua primeira obra para guitarra. Tudo surgiu após o interesse do Instituto dos Estudos da Criança da Universidade do Minho, através da Doutora Elisa Lessa, que consistiu em editar as pequenas peças a solo e duo, intituladas “Dezassete Peças para Guitarra”.

Este CD foi gravado no estúdio do Conservatório de Braga, com Serafim Barreiro na gravação e masterização, e foi um trabalho interessantíssimo porque foi o casamento perfeito entre o intérprete e o compositor. Pude trabalhar diretamente com o Paulo Bastos e ir verificando se eram exequíveis algumas partes propostas, fazendo um trabalho intensivo de encontrar o equilíbrio entre o efeito e intenção do compositor com a execução final do instrumentista.

 

 

"é um desafio [Orquestra de Cordas Dedilhadas do Minho]: estar constantemente à procura de repertório e de fazer este projeto crescer"

 

 

DC - É o diretor artístico da Orquestra de Cordas Dedilhadas do Minho. Como nasceu este projeto?

RG - A orquestra surgiu da vontade de um grupo de instrumentistas de cordas dedilhadas da zona norte em poder usufruir e oferecer aos seus pares a possibilidade em fazer música de conjunto não só com profissionais da área, como alargar o leque e abrir à comunidade, criando oficinas em que se possa integrar instrumentos de carácter mais popular, como ter uma vertente pedagógica convidando alunos, dando assim a oportunidade de porem em prática todo o investimento na sua formação.

Chamei-lhe orquestra porque são vários instrumentos da família dos cordofones, bandolins, viola braguesa, guitarra portuguesa, procurando as várias sonoridades, como numa “orquestra tradicional” e tendo assim a possibilidade de poder interagir com esses timbres, não só fazendo adaptações de obras como preparar obras compostas originalmente para esta formação. Este projeto sediou-se no Minho porque uma grande percentagem dos instrumentistas são desta zona e porque é uma província com umas raízes tradicionais muito vincadas e que ajudariam a enaltecer todo o projeto.

 

DC - Quais são os desafios que esta orquestra lhe propõem? Como o repertório, etc.?

RG - É a gestão humana e as relações humanas que são necessárias. Estou a trabalhar com toda a equipa e fazer sentir que todos têm um papel fulcral para que o projeto chegue a bom porto. É necessário manter acesa a chama porque os apoios são difíceis. Tenho que agradecer à Universidade Católica Portuguesa de Braga porque foram os primeiros a abrir-me as portas e a ceder-me uma sala de concertos que é fabulosa, uma antiga capela reconvertida em sala de espetáculos, uma sala lindíssima. Tenho tentado junto da câmara de Braga, sem sucesso, chegar ao pelouro da cultura, pode ser que num futuro próximo o consiga. Todos estes projetos culturais precisam de ter algum apoio da cidade, da região, do distrito, não é por acaso que decidimos chamar Orquestra de Cordas Dedilhadas do Minho porque realmente queremos abranger toda a região minhota, mas não é um projeto que está fechado, queremos crescer. Agora, precisamos de ter algumas instituições que nos apoiem. Se não conseguirmos essa sinergia confrontamo-nos com um processo mais moroso.

É um desafio pelo qual tenho lutado bastante junto dos meios de comunicação social, usando todas as ferramentas que estão à nossa disposição para publicitar a orquestra.

É um projeto muito recente ainda, tenho noção disso, começou em janeiro/fevereiro. Já tivemos o concerto de apresentação que foi um sucesso. Tive a sorte de ter a participação de três músicos fantásticos: Miguel Simões, violinista; o Luís Ribeiro, saxofonista; Dora Rodrigues, Soprano. Neste concerto tocamos adaptações, portanto, não teve nenhuma obra original mas isto deveu-se ao facto de querermos mostrar ao público a versatilidade desta formação e o quanto temos para oferecer.

Portanto, este é um desafio: estar constantemente à procura de repertório e de fazer este projeto crescer.

 

 

"tento ao máximo tocar repertório de compositores portugueses porque temos um repertório considerável e de muito valor - gostaria de conseguir incentivar e criar condições para que haja mais produção."

 

 

DC - Como foi ser solista com a Orquestra Portuguesa de Guitarras e Bandolins?

RG -  A OPGD é um projeto ambicioso que tem adquirido o seu papel de destaque no panorama nacional e internacional. Fazer parte da história desta orquestra é um orgulho. A minha colaboração tem sido assídua e o meu destaque vai para uma obra do compositor Javier Ribas que foi premiada num concurso de composição. É uma obra original para orquestra de plectros e guitarra solo. Quando surgiu o convite não só fiquei entusiasmado por estrear a solo com uma orquestra desta natureza como a obra escolhida era um desafio.

Não sei precisar quantos concertos fizemos, sob a batuta de vários maestros, até que culminou, recentemente, com a gravação de um CD com repertório original e com obras escritas para estes músicos em particular. Falo de compositores como Paulo Bastos, Osvaldo, Luís Pato. Neste CD também está incluído o “Acerca da felicidade” do compositor espanhol Javier Ribas.

Foi uma experiência fantástica, o concerto foi gravado no Auditório da Casa das Artes do Porto, sob a direção do grande bandolinista Juan Carlos Muñoz, com um técnico alemão que também tem formação na área, o que é uma mais valia. O seu lançamento está previsto acontecer ainda em 2015.

 

DC - Que período gosta mais de tocar?

RG - Acho que me identifico com o período “contemporâneo”, embora goste bastante do barroco. Penso que até aos dias de hoje se desenvolveu muito o cuidado do timbre e de uma procura exaustiva dos recursos do instrumento no seu todo. Por outro lado, tento ao máximo tocar repertório de compositores portugueses porque temos um repertório considerável e de muito valor e gostaria de conseguir incentivar e criar condições para que haja mais produção.

 

 

"Quem me dera ter mais duas ou três vidas para poder “passar” por toda a música, mas não há tempo para tudo. É preciso delinear bem o caminho desde cedo."

 

 

DC - Projetos para breve?

RG - Estamos a preparar com a OCDM um concerto com orquestra e bandolim solista. A obra chama-se “Suite de Retratos”, do compositor Brasileiro Radamés Gnatalli, com cinco andamentos.

O L’Effetto Ensemble está a preparar o projecto “Alma”, na primeira parte com um compositor espanhol Enrique Granados e três portugueses, Paulo Bastos, António Fragoso e Rui Soares da Costa. Na segunda parte, mais adaptações dos compositores argentinos Alberto Ginastera e Carlos Gustavino. Com o Ciglia Ensemble um recital com obras barrocas no Conservatório da Madeira e tocarei a solo com a Orquestra Portuguesa de Guitarras e Bandolins sob a direcção do Maestro José Eduardo Gomes com gravação em directo para a RTP Madeira. Portanto há muito que fazer!

 

DC -  Tem algum compositor ou obra preferida?

RG - Tenho vários! Contudo, a Chaconne andamento da Partita nº2 para Violino do J. S. Bach, transcrição do grande mestre Andrés Segovia, é uma das minhas obras de eleição. Sempre que a volto estudar é um enorme desafio e um prazer! As Cinco Bagatelas de William Walton, a Sonata do António José, a Sonata A. Ginastera. Há muitas obras que me tocam por variados motivos: o desafio, o conteúdo, a época. Mas, admito, é muito difícil limitar a escolha somente a uma obra ou um compositor. Quem me dera ter mais duas ou três vidas para poder “passar” por toda a música, mas não há tempo para tudo. É preciso delinear bem o caminho desde cedo.

 

 

"É preciso ter consciência que o músico, quanto mais tempo passar com o instrumento melhor será o seu desempenho. Não é estudando uma ou duas horas por dia que se consegue."

 

 

DC - Quais as renúncias que teve de fazer para se entregar à música? Teve de abdicar da vida pessoal? E as compensações?

RG - Passar horas entre “quatro paredes” a praticar com a guitarra enquanto os meus amigos iam fazer outras coisas(risos). É preciso ter consciência que o músico, quanto mais tempo passar com o instrumento melhor será o seu desempenho. Não é estudando uma ou duas horas por dia que se consegue.

É preciso ter um estudo diário razoável, desenvolver as diferentes memórias e ter um conhecimento estrutural e formal do repertório que se está a preparar. Com a idade, o músico vai sabendo gerir melhor o tempo e ser mais objetivo, mas a prática diária é imprescindível. A compensação é reconhecer que se é capaz e que valeu a pena todo o esforço investido ao abdicar de estar noutro sítio.

 

DC - Como organiza a sua vida, os seus tempos livres, a sua preparação técnica, os ensaios, as viagens?

RG - É tudo muito bem organizado, com as prioridades bem definidas mas com espaço para se poder desfrutar da companhia de quem gosta de nós, esse é o melhor investimento.

 

 

"Nós temos um número considerável de músicos que estão na “prateleira”. Tiveram uma formação fantástica e não têm espaço para tocar".

 

 

DC - O que acha que mudou no panorama da música erudita em Portugal?

RG - Em primeiro lugar, o número de alunos que tiveram acesso ao ensino da música. Só isso é imenso. Por conseguinte, o número de músicos já formados que no nosso país. Isso é fantástico. Há espaço para toda a gente e todos podemos aprender uns com os outros. São estes desafios que fazem com que queiramos ser cada vez melhores, independentemente da idade ou onde estamos. No meio de toda esta concorrência também há coisas negativas, mas temos que ter a capacidade de separar as diferênciar e dar importância ao que é positivo. No fundo é não perder tempo com quem não nos quer bem.

 

DC - Que soluções sugere para os problemas que afetam a música portuguesa? Se acha que há problemas, claro.

RG - Nós temos um número considerável de músicos que estão na “prateleira”. Tiveram uma formação fantástica e não têm espaço para tocar. Houve um investimento tremendo em salas de concerto e na sua recuperação, pelo país todo. Bastava haver um organismo que nos colocasse a rodar pelo país. Em vez de termos projetos megalómanos para dar nas vistas, devia haver uma rotatividade dos músicos, do norte ao sul do país, em todos os teatros que existem. Se os músicos não tocarem não faz sentido todo o esforço que fizeram. Um músico sem palco, seja ele qual for, não é feliz.

 

 

"basta estar com a guitarra nas mãos e se possível com alguém a partilhar, já me alimenta a “alma”."

 

 

DC - Pode falar mais sobre o projeto que desenvolveu em música e cinema?

RG - O projeto começou com as propostas da professora Elisa Leça da realização de várias sessões, ao final da tarde das quartas-feiras, com o tema “Música e Cinema”, em que havia um convidado que falava sobre um compositor e um filme e depois havia um momento musical em que eram tocadas algumas das obras desse filme.

 

DC - O que acha do cinema português?

RG - Penso que está em crescimento e a evoluir, apesar das dificuldades prementes devido aos cortes sucessivos dos apoios por parte dos órgãos estatais competentes. Mesmo assim, devido à insistência e persistência de alguns, continuam a criar com qualidade nesta área. Tivemos, recentemente, o desaparecimento do nosso ícone do cinema português. Fazendo uma retrospectiva neste 100 anos, surgiram inúmeros cineastas, muitas vezes independentes, com poucos recursos, mas que fazem coisas fantásticas.

 

DC - O que acha das bandas sonoras portuguesas?

RG - Não tenho grande conhecimento. Sei que recorrem maioritariamente a grupos portugueses de música ligeira, música pop. Acho isso interessante e é uma forma de dar visibilidade à nossa música, quer seja erudita ou não.

 

DC - Qual é o seu maior sonho?

RG -  Continuar a fazer música como se fosse a primeira vez!

 

DC - O que é a música para si?

RG - É a minha profissão e o meu hobby. Imaginava-me a fazer coisas diferentes, mas onde realmente me sinto realizado é no meio musical. Não digo economicamente (risos) mas basta estar com a guitarra nas mãos e se possível com alguém a partilhar, já me alimenta a “alma”.

 

Boa sorte para a vossa revista, continuem! Acho importante haver um meio de divulgação do trabalho que está a ser feito por todos os músicos portugueses e de quem está ligado à música.

 

Canal You Tube

Rui Gama

 

GONÇALO LÉLIS, PJM VIOLONCELO

O vencedor do Prémio União Europeia das Competições Musicais para Jovens (EMCY), Gonçalo Lélis, quis participar no Prémio Jovens Músicos (PJM) por ser um dos concursos mais importantes dentro do país: “poderá dar-me alguma projecção e abrir novas oportunidades”. Espera agora “poder apresentar-se em público com mais frequência, tanto em recital como em concerto com orquestra”. Mas sabe que “um concurso, só por si, não define a carreira de um músico”.

 

a componente psicológica crucial, pelo que a preparação mental é igualmente importante”

Foram inúmeras as horas que passou a estudar para as provas, mesmo conhecendo quase todo o repertório: “À excepção da peça a solo que toquei na final (Ciaccona da Suite 2 de Britten) e, evidentemente, da encomenda Antena 2, já tinha trabalhado todo o programa. Ao longo do ano lectivo, fui “refrescando” o repertório para o concurso e com o aproximar de cada prova concentrava-me apenas nas obras que iria tocar nas diversas rondas. Para além do estudo individual, toquei o programa para diferentes professores e fiz alguns recitais”.

A maior dificuldade foi controlar o nervosismo: “Foi na final onde senti a pressão atingir o ponto mais alto”. Por isso, considera “a componente psicológica crucial, pelo que a preparação mental é igualmente importante”. “Contudo, por motivos completamente distintos, a gravação para a pré-selecção foi igualmente difícil, pois apesar dos inúmeros takes, nunca conseguia sentir-me 100 por cento satisfeito com o resultado final”, revela.

 

num meio verdadeiramente propício ao desenvolvimento de um músico”

Diz que “a pressão imposta por um desafio como um concurso incentiva uma pessoa a ultrapassar obstáculos e a alcançar novos patamares”. E os bons momentos acabam, naturalmente, por acontecer: “A verdade é que acabei por desfrutar muito em palco, principalmente na eliminatória. E, sem dúvida, o anunciar dos resultados, que representou o culminar de tanto tempo de trabalho”.

O trabalho actual de Gonçalo é passado na Escuela Superior de Música Reina Sofia, em Madrid, onde estuda com Natalia Shakhovskaya e Ivan Monighetti: “Nesta escola pude conhecer grandes nomes do panorama mundial, assistir a concertos memoráveis e estar num meio verdadeiramente propício ao desenvolvimento de um músico. Permitiu-me entrar em contacto com uma realidade completamente diferente”.

 

a carreira de um músico não se prende a uma zona geográfica”

Agora, o mais importante é “procurar evoluir ao máximo e aproveitar as oportunidades que vão surgindo (tocar e ouvir concertos, trabalhar com grandes professores, participar em masterclasses, etc.)”. Depois, quer participar em concursos e, sobretudo, “conseguir tocar em mais concertos”.

Para mim, a meta ideal seria conciliar uma intensa actividade camerística com concertos como solista. É um objectivo muito difícil de alcançar, principalmente nos dias que correm, onde o mercado é extremamente competitivo”, confessa. E o mercado para a música pode ser em qualquer lugar, porque “a carreira de um músico não se prende a uma zona geográfica” .

Aponta como exemplo o número cada vez maior de portugueses a entrar em escolas e orquestras de grande prestígio ou a destacarem-se em importantes concursos internacionais: “o número de compatriotas meus admitidos na Escuela Reina Sofia tem vindo a aumentar exponencialmente nos últimos anos”.

 

Existe um estado de crise artística causado pela predominância da cultura de massas”

A questão fundamental não se baseia em ir ou não para o estrangeiro, pois em qualquer parte existem escolas, alunos ou professores melhores ou piores, mas sim em existir uma forte relação professor-aluno, na qual há um empenho extremo de ambas as partes e em estar inserido num meio que incentive a formação de um jovem músico”, explica.

O problema é que, em Portugal, a segunda condição é difícil de encontrar: “são raros os casos onde existe um ambiente competitivo ou uma oferta cultural que abra novos horizontes”. E acrescenta: “Não me parece que a música erudita tenha peso suficiente na cultura portuguesa, devido em grande parte à falta de apoios e de interesse. Existe, sim, um estado de crise artística, comum a outros campos que para além da música, sintoma causado pela predominância da cultura de massas”.

Sugere como solução “para combater este desequilíbrio, uma maior divulgação da música erudita nos meios de comunicação, para que assistir a um bom concerto se tornasse um hábito comum”.

 

percebi que o violoncelo era realmente o mais importante para a minha vida”

Foi pela influência dos pais, ambos professores no Conservatório de Música de Aveiro, que começou a estudar música. O interesse pelo violoncelo surgiu graças à famosa gravação do quinteto “A Truta” com Jaqueline du Pré, Barenboim, Perlman, Zukerman e Mehta, que ouvia vezes sem conta. “A partir, talvez, dos 13 anos percebi que o violoncelo era realmente o mais importante para a minha vida e que era o que gostaria de fazer a nível profissional”, conta.

No que diz respeito a personalidades marcantes, tem vários nomes em mente, como Natalia Shakhovskaya, Truls Mork, Natalia Gutman, Andras Schiff, Gunter Pichler... “No entanto, se escolhesse apenas um, seria inquestionavelmente Pavel Gomziakov, com quem comecei a estudar em 2009. Foi, e continua a ser, a minha mais forte influência musical; sempre demonstrou uma dedicação incondicional, e um apoio constante, tanto a nível artístico como humano”, sublinha. 

João Silva, PJM Oboé

Filho de peixe sabe nadar, é caso para dizer em relação a João Silva, vencedor do PJM em Oboé, nível médio. O pai é clarinetista Sargento-Chefe na Banda da GNR e a irmã, Patrícia Silva, estuda Clarinete na ESML. Em casa, o tema principal de conversa é a música. Não admira que quando foi estudar para o Conservatório Nacional, aos 13 anos, já sabia que queria ser músico. E sabia também das exigências da profissão.

 

o PJM é uma boa rampa de lançamento para o futuro”

É já um veterano do PJM, sobretudo em Música de Câmara, categoria onde arrecadou vários prémios. “Concorri três vezes em Música de Câmara e fui sempre premiado: a primeira foi em 2012 com o Trio C3PO nível médio, obtivemos o 2º Prémio; em 2013, com o Quarteto Oboé Concórdia, novamente nível médio, obtivemos o 3º Prémio e, este ano, com o Quinteto Klaue no nível Superior, obtivemos o 2º Prémio”, conta.

Defende a importância dos concursos, não apenas pelos prémios, mas “sobretudo pela preparação que é feita antes e durante o concurso”. Neste sentido, “o PJM é uma boa rampa de lançamento para o futuro, tal como já foi e continua a ser para muitos jovens músicos.”

 

o mais importante é aproveitar o concerto e a oportunidade de tocar o Concerto de Mozart com a Orquestra Gulbenkian”

Obviamente que um prémio é sempre bom, porque traz reconhecimento e hoje em dia é muito importante sermos lembrados, também para ter oportunidades. E é bom recordar que o Concurso PJM é o concurso mais importante em Portugal e bastante divulgado por todo o país”, sublinha.

Destaca ainda o nível excelente dos colegas vencedores: “Tive oportunidade de ouvir tocar alguns dos vencedores, tais como o Gonçalo Lélis de violoncelo e o Bruno Santos de trompete. Já conheço o Pedro Côrte-Real há alguns anos, visto que estudámos juntos no Conservatório Nacional de Lisboa e sempre tive muita admiração pelo trabalho dele. E claro, o Lourenço Sampaio que tive oportunidade de conhecer durante o concurso e cuja experiência musical já fala por si”.

O Prémio Maestro Silva Pereira não era a sua prioridade: “sinto que o mais importante é aproveitar o concerto e a oportunidade de tocar o 1º andamento Concerto de Mozart com a Orquestra Gulbenkian”. Aproveitar ao máximo esta oportunidade, sem esquecer o facto de ser dirigido pelo maestro Jean-Marc Burfin, que considera “um excelente maestro”.

 

tive que me focar na precisão e no mínimo detalhe possível”

Não há segredos para vencer, apenas um “método de trabalho rigoroso” e seguir as orientações dos professores. “Obviamente que para esta prova tive que me focar na precisão e no mínimo detalhe possível, essencial para a preparação de qualquer concurso”, diz. Estabelece objectivos, mas foca-se “em aprender o máximo e evoluir a cada dia que passa”.

Difícil de passar é a ansiedade e ultrapassar o desgaste típico das competições: “Creio que a espera para mim e o pouco descanso são sempre dos momentos mais difíceis de uma competição. Só quero fazer a minha prova para poder respirar e descansar um pouco”.



O suporte dos professores, família e amigos

A estudar há dois anos na Hochschule für Musik und Tanz, em Colónia, na Alemanha, João Silva confessa que a ajuda dos professores Óscar Viana e Luís Marques foi fundamental: “Foram eles que me formaram em Portugal, por isso tenho, e terei, sempre um agradecimento profundo, pois foi com eles que dei as minhas primeiras caminhadas”.

E, claro, o apoio incondicional do seu actual professor Christian Wetzel: “ajuda-me em tudo o que preciso e é, sem dúvida, um dos melhores professores a nível mundial. Aliás, posso dizer que muito do que conquistei nestes últimos dois anos em Colónia, e fora desta cidade, foi graças ao meu professor”.

Outro suporte igualmente importante tem sido a família, os pais, a irmã, a namorada e o amigo Christopher Koppitz. “Posso dizer que me ajudaram a evoluir muito como músico e como pessoa”, sublinha. Os seus amigos em Portugal também têm estado “sempre presentes”.

 

O mais importante é poder desfrutar o prazer de fazer boa música”

Na sua ainda curta carreira, destaca a participação na Orquestra de Jovens do Mediterrâneo, onde teve a oportunidade, juntamente com a sua irmã, de tocar sob a direçcão do Maestro Gian Andrea Noseda, o bailado Romeu e Julieta de Prokofiev. “Este é, sem dúvida, um momento que não vou esquecer”, afirma.

Vai “continuar a aproveitar as aulas em Colónia” e, no próximo ano, vai concorrer a academias de orquestra na Alemanha. “Mas eu prefiro pensar dia após dia em vez de pensar no futuro. Obviamente tenho objectivos para o meu futuro, mas prefiro não ficar obcecado e perder tempo a pensar no que pode acontecer “, diz.

Porém, admite que um dos seus sonhos é tocar numa grande orquestra: “Uma orquestra que seja forte em todos os aspectos, que tenha bom ambiente - é uma coisa muito difícil de encontrar em algumas orquestras hoje em dia. O mais importante é poder desfrutar o prazer de fazer boa música”.

 

as pessoas têm tendência para concorrer para fora do país principalmente pela falta de oportunidades”

Pode-se fazer boa música Portugal, aliás, tem a certeza que se faz. Mas há outras vantagens em estudar no estrangeiro: “deu-me muitas mais oportunidades de fazer música em diferentes sítios, de conhecer novas culturas e novos professores, ouvir muitos e variados concertos todas as semanas”.

O problema e Portugal é a falta de oportunidades: “há escolas muito boas, mas as pessoas têm tendência para concorrer para fora do país principalmente pela falta de oportunidades ou simplesmente porque se tem uma admiração por um professor, o que também é uma boa razão”.

 

No estrangeiro ficam admirados com a nossa energia, dedicação e perfeccionismo”

Eu considero que Portugal é um país com muito potencial, temos produzido grandes músicos em todos os instrumentos e a tendência é para aumentar cada vez mais, o que é óptimo. No estrangeiro ficam admirados com a nossa energia, dedicação e perfeccionismo”, sublinha.

Considera que há uma “geração de grandes talentos, tanto a estudar em Portugal como no estrangeiro”. Dá o exemplo da Orquestra XXI, onde já tocou, que é formada por instrumentistas a estudar e trabalhar no estrangeiro: “Tem tido um grande sucesso. Enfim, temos jovens competentes para poder ingressar numa orquestra seja ela onde for”.

 

João Miguel Moreira da Silva

Nasceu a 27 de Outubro de 1995 em Lisboa. Frequentou a Escola de Música do Conservatório desde 2008, como aluno do professor Luís Marques. Começou a aprender Oboé aos 9 anos na Banda de Pêro Pinheiro, dirigida pelo seu pai, João Aires Moreira da Silva, e, meses mais tarde ingressou no Conservatório Regional de Sintra, na classe do professor Óscar Viana.

Participou em vários estágios de orquestras de jovens e foi membro da Orquestra Sinfónica Juvenil, sob direcção de Christopher Bochmann. Em 2012 pertenceu à Orquestra do Festival Internacional de Viena. Foi chefe de naipe na Orquestra de Jovens do Mediterrâneo, em 2013.

Ainda em 2013, foi admitido na Hochschule für Musik und Tanz, em Colónia, na Alemanha, uma das mais conceituadas escolas no mundo para a sua variante, Oboé, na classe do Professor Christian Wetzel.

João Silva gravou para a produção de filmes e discos e também para programas de rádio e de televisão nacionais e internacionais. Tocou com o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa.

Foi galardoado no concurso internacional de instrumentos de sopro Terras de La-Salette, em Oliveira de Azeméis, com o primeiro prémio na categoria infantil (2008) e juvenil (2010) e o segundo, e único atribuído, na categoria júnior (2012). Em 2011, foi ainda primeiro classificado no concurso interno do Curso Profissional da Escola de Música do Conservatório Nacional, com um jurí presidido por Jean Sébastien Béreau.

Em 2011, juntamente com dois colegas, formou o Trio C3PO, laureado no PJM em 2012 com o 2º Prémio, na Categoria de Música de Câmara, nível médio. Em 2013, com ganham o 1º Prémio do Concurso de Música de Câmara Gilberta Paiva.

Ainda em 2013, formou o grupo Oboé Concórdia juntamente com mais três colegas, com o qual é laureado com o 3º Prémio do PJM, na Categoria de Música de Câmara, nível médio.

Em 2014 integrou a Orquestra XXI sob a direcção de Dinis Sousa e tocou a solo com a Orquestra Sinfonieta de Braga. Foi também convidado a integrar a Orquestra de Jovens do Mediterrâneo.

É membro do Quinteto Klaue desde 2014, com o qual foi galardoado, este ano (2015), com 2º Prémio PJM, na categoria de Música de Câmara, nível superior. Também em 2015, venceu o 1º Prémio, nível sénior, no Concurso Internacional Terras de La-Salette.

Foi Bolseiro da Fundação Inatel, da Universidade Música e Artes Cénicas de Viena, da Escola Superior de Música e Dança de Colónia e do Estado de Colónia. É actualmente bolseiro do Estado da Cidade de Colónia.

Bruno Santos, PJM Trompete

Tem apenas 16 anos e já é um vencedor do Prémio Jovens Músicos, em Trompete, nível médio. Bruno Santos começou a tocar Trompete aos nove anos, na Banda Sociedade Filarmónica Riachense. Dois anos depois, ingressou no Conservatório de Torres Novas Choral Phydellius, onde estudou com Luís Carreira. Foi vencedor duas vezes no concurso Korinna Ferreira. Actualmente, estuda na Escola Profissional Metropolitana, em Lisboa, no 2º ano, na classe do professor Filipe Coelho.

 

sem trabalho não chegamos a lado nenhum”

Tudo começa agora. Este concurso pode mudar a minha carreira. No entanto, sem trabalho não chegamos a lado nenhum”, diz Bruno Santos, vencedor do PJM em Trompete, nível médio. O trabalho implicou muito estudo, para “estar a 200 por centro” na prova: “Aquecia normalmente o meu instrumento, lutava contra as minhas dificuldades consoante o repertório que iria executar e tocava-o todo umas semanas antes da prova. Nas vésperas, relaxava os lábios para não ir cansado do trabalho intenso que tinha realizado.”

O mais difícil foi encontrar “dez excelentes trompetistas” na eliminatória da Casa da Música. E esperar um mês para realizar a prova final: “Fiquei muito ansioso para o grande momento e queria que tudo saísse perfeito, talvez isso me prejudicasse um bocado” .

 

oportunidade única interpretar uma obra a solo com a Orquestra Gulbenkian”

Sentiu-se privilegiado em tocar, na final, para o seu ídolo Jorge Almeida e para o “grande músico e professor” António Quítalo. Considera também “uma oportunidade única interpretar uma obra a solo com a Orquestra Gulbenkian”.

Sobre o PJM, o jovem laureado afirma ser “um concurso de referência nacional, de uma importância capital no que diz respeito à promoção de jovens talentos”.

 

Influência do irmão, João Pedro, também vencedor PJM

Na sua curta carreira, destaca como “momentos mais importantes toda a partilha musical” com os professores Luís Carreira e Filipe Coelho. Porém, a maior influência é o seu irmão João Pedro Santos, clarinetista, também vencedor do PJM e Prémio Maestro Silva Pereira, em 2006.

Desde pequeno que tinha o sonho de ser músico. Grande parte da minha infância, acompanhei alguns concertos do meu irmão que, de certa forma, me influenciaram para o contexto musical. Nunca pensei numa decisão do meu futuro de vida. Simplesmente para mim só existia um rumo, nunca ponderei mais nenhum caminho. Foi tudo muito natural”, explica.

 

o mais importante é trabalhar com regularidade”

Vai continuar a trabalhar e a dedicar-se à música: “Um dos meus objetivos passa por tocar numa orquestra de referência e ter oportunidade de me apresentar a solo cá em Portugal e no estrangeiro”.

Defende que “o mais importante é trabalhar com regularidade”, por isso não está fora de hipótese sair do país: “o facto de um músico querer ir estudar para o estrangeiro, só demonstra a vontade de querer adquirir mais conhecimento musical e, certamente, ter a oportunidade de partilhar momentos com músicos de referência mundial”.

 

Em todas as gerações há “grandes talentos”

Como referências musicais tem Maria João Pires, Artur Pizarro, Lang Lang, entre outros, os quais ouve com frequência.

Em relação à sua geração, acredita que “é um pouco diferente das outras, mas como em todas elas, há grandes talentos e vários tipos de ambições”.

Um Músico, um Mecenas


A temporada de concertos com instrumentos históricos prossegue no Museu Nacional da Música.
O próximo concerto do ciclo UM MÚSICO, UM MECENAS é já no dia 1 de Outubro, Dia Mundial da Música, pelas 18h. Paulo Gaio Lima interpreta "À volta das Suites de Bach" em mais um instrumento histórico da colecção, o violoncelo Stradivarius Chevillard-Rei de Portugal construído em 1725 e classificado como Tesouro Nacional.


PROGRAMA
Bach - Prelúdio BWV 997 em Ré menor (versão Pedro S. Silva);
Schenck - Ciaconna;
Bach - Partita BWV 1013 em Ré menor;
Scipriani - Studio;
Biber - Passacaglia;
Bach - Suite BWV 1007 em sol Maior;
 

Festival Jovens Músicos

O Festival Jovens Músicos promove concertos com os laureados do concurso PJM e não só, conferências e lançamentos de discos na Fundação Calouste Gulbenkian, entre 30 de setembro e 2 de outubro.

Os bilhetes são gratuitos mediante os lugares disponíveis, podendo ser levantados durante os horários de funcionamento das bilheteiras da Fundação.

Programa:

30 SETEMBRO

16h00 - Auditório 3: Cerimónia de Entrega dos Prémios

17h00 - Auditório 3: Conferência "Música e Internet", com João Firmino (Sintoma Records), Jorge Prendas (Casa da Música) e moderação de Miguel Cadete

18h00 - Auditório 2: Apresentação do CD "Sensations... Illusions" pelo Nuno Guedes de Campos Trio

19h00 - Grande Auditório: Ensemble MPMP + Sete Lágrimas
Ensemble MPMP (dir. Jan Wierzba - ex-laureado PJM) com Marina Pacheco (soprano, ex-laureada PJM) e André Baleiro (barítono)
Concerto de Escárnio e Maldizer (30') - quatro poemas medievais recriados por quatro compositores contemporâneos
Nuno Peixoto de Pinho - Foi um dia Lopo jograr, poema de Martim Soares (ca.1200-1260)
Edward Luiz Ayres d'Abreu - Foi a cítola temperar, poema de Martim Soares (ca.1200-1260)
Filipe Melo - Ai, dona fea, foste-vos queixar, poema de João Garcia de Guilhade (fl. 1250)
Gonçalo Gato - Comendador, u m'eu quitei, poema de Rui Pais de Ribela (fl. 1250)

Sete Lágrimas (dir. Filipe Faria e Sérgio Peixoto)
Concerto Diáspora (40')
Anónimo (Séc. XVI) - Na fomte está Lianor
Tradicional (Macau) - Bastiana
Filipe Faria e Sérgio Peixoto (texto de vilancico anónimo do Séc. XVI) - - Parto triste saludoso
Joaquim António da Silva Calado (1848-1880) - Flor amorosa
Tradicional (Timor) - Mai fali é
Filipe Faria e Sérgio Peixoto (texto anónimo do Séc. XVI) - Triste vida vivyre (contrafactum textual sobre salmo La Terre au Seigneur appartient de Claude Goudimel)
Manuel Machado (c.1590-1646) - Dos estrellas le siguen
Tradicional (África do Sul/Moçambique) - Yamukela (sobre arranjos de Pe. Arnaldo Taveira Araújo OFM n. 1929)
Romance Sefarad (Marrocos) - Mosé salió de Misraim

21h30 - Grande Auditório: Grande Final PJM
Solistas laureados com a Orquestra Gulbenkian (dir. Jean Marc-Burffin)
Mozart - Concerto em Dó (excerto) João Miguel Silva, oboé
Alexander Aroutiounian - Concerto (excerto) Bruno Filipe Santos, trompete
Lars-Erik Larsson - Konzert (excerto) Pedro Côrte-Real, saxofone
Bela Bartók - Concerto (excerto) Lourenço Sampaio, viola de arco
A. Dvorák - Concerto Op. 104 (excerto) Gonçalo Lélis, violoncelo
Maurice Ravel - Le Tombeau de Couperin


1 OUTUBRO


17h00 - Auditório 3: Conferência Música como factor de inclusão, com Luísa Valle (Gulbenkian), Alexandre Dias (Orquestra de Câmara Portuguesa), Helena Lima (Orq. Geração), Narcisa Costa (Ensemble Juvenil de Setúbal) com moderação de Beatriz Dilão


18h00 - Auditório 2: Concerto Ensemble Juvenil de Setúbal - projecto de inclusão (dir. Rui Maia)
Tradicional Africana (arr. Tony Haynes) - Spirit of Africa
Luís Salgueiro - Gentes
Daniel Bernardes - Planície
Vivaldi (arr. Sara Ross) - Inverno e Verão (de As Quatro Estações)

19h00 - Grande Auditório: Música de Câmara
Agrupamentos vencedores dos níveis médio e superior

2€ Duo (André Nadais e Pedro Soares Tavares, percussões)
N. J. Zivkovic - Ultimatum II
Obra a anunciar

Perspective Trio (Pedro Costa, piano; Guilherme Sousa, oboé; Paulo Ferreira, fagote)
André Previn - Trio para Oboé, Fagote e Piano

Stratos Quartett (da Universität für Musik und Darstellende Kunst de Viena e Joseph Haydn Institut, em parceria com o Festival Harmos)
Johannes Brahms - Quarteto com Piano Op.25

21h30 - Grande Auditório: Orquestras Juvenis (dir. José Eduardo Gomes - ex-laureado PJM)
Jovem Orquestra Portuguesa
Pedro Lima - Outra Vez - eternas despedidas (estreia nacional)
Mozart - Sinfonia Concertante (com ex-laureados PJM: Pedro Lopes, violino, e Ricardo Gaspar, viola)

Orquestra Juvenil Geração
Sibelius - Finlandia Op.26
Franz Suppé - Cavalaria Ligeira, Abertura
Tchaikovsky - Marcha Eslava Op. 31



2 OUTUBRO

17h00 - Auditório 3: Apresentação de novo CD Musicos do Tejo - Il Trionfo d'Amore de Francisco António Almeida, com Marcos Magalhães, Marta Araújo, Edward Ayres Abreu, Rui Magno Pinto e moderação de David Cranmer


18h00 - Auditório 2: Apresentação de novo CD do Trio do Desassossego apoiado pela GDA
Pedro Lopes (violino), Catarina Gonçalves (violoncelo), Ricardo Vicente (piano) vencedores do PJM Música de Câmara Nível Superior 2013
Mozart - Trio para Piano, Violino e Violoncelo em Sol Maior, K.564 Allegro
Wolfgang Rihm - Fremde Szenen III

19h00 - Grande Auditório: Música Barroca
Músicos do Tejo (dir. Marcos Magalhães com Adriana Ferreira, flautista ex-laureada PJM e António Carrilho em flauta de bisel)
John Playford - The english dancing master (excertos)
Vivaldi - Concerto Tempesta di Mare para flauta de bisel e orquestra
Carlos Seixas - Sinfonia em Fá (adaptada da Sinfonia para cravo solo PM41)
Carl Philipp Emanuel Bach - Concerto em Sol Maior, para flauta, cordas e baixo contínuo

21h30 - Grande Auditório: Concerto de Gala
Orquestra Gulbenkian (dir. Jean-Marc Burfin)
Fábio Cachão - Intermitências (obra vencedora do prémio de composição SPA / Antena 2)
Concerto pelo Jovem Músico do Ano (a anunciar dia 30 de Setembro)
António Pinho Vargas - A Impaciência de Mahler

Filipe Alves

Se fosse jogador de futebol, Filipe Alves andaria nas bocas do mundo português mas, pelo menos, andará nas bocas do mundo alemão. É um dos raros portugueses que já tocou com a Orquestra Filarmónica de Berlim, foi o primeiro português na Academia Herbert von Karajan e um dos que ainda se pode gabar por ter sido dirigido pelo mestre Claudio Abbado. E já trabalhou com maestros como Daniel Barenboim, Sir Simon Rattle, Claudio Abbado, Franz Welser-Möst, Herbert Blomstedt, Christoph Eschenbach, Jukka-Pekka Saraste, Semyon Bychkov, Zubin Mehta.

Também colaborou com os German Brass e é, desde 2012, 1º Trombone Solista da Orquestra Filarmónica de Hamburgo e da Ópera Estatal de Hamburgo. Em Abril deste ano, venceu a audição para Trombone Solista da Staatskapelle Berlin.

 

Da Capo (DC) – Como começaste a estudar Música?

Filipe Alves (FA) - Comecei como quase toda a gente dos metais, na banda. O meu irmão e o meu primo eram as únicas pessoas da família que andavam na banda (o meu irmão Paulo hoje toca Trombone na Banda da GNR). Na minha aldeia, quase todos os jovens tocavam na banda. Era incrível. A minha mãe insistiu um bocado e eu também me entusiasmava a ver o meu primo a tocar trombone, dizia que gostava de tocar aquele instrumento. Foi assim, inscrevi-me naquele de ver no que aquilo ia dar, aquilo para mim era uma brincadeira.

 

DC – E quando é que começou a tornar-se mais sério?

FA - Humildade à parte, as pessoas viam se tu tinhas talento, havia pessoas mais velhas na minha banda como o Victor Pereira e o Nuno Madureira, dois clarinetistas que já tinham muita rodagem como músicos, que nos aconselhavam a ir estudar porque acreditavam que nós (eu e o meu irmão) tínhamos talento. A minha mãe com algum esforço lá conseguiu pôs-me na Academia de Castelo de Paiva e fui aí que eu comecei realmente a abrir os olhos e a começar a entrar noutro patamar.

 

DC – E depois foste para a Covilhã….

FA - Foi uma espécie de destino. Eu estava a tocar na minha banda enquanto que na noutra estava a tocar o professor de Trombone da Covilhã (Nuno Scarpa). No fim, nas marchas que tocamos em conjunto, a minha banda não tinha uma dessas marchas, então eu e o meu colega José Fernando tivemos de nos juntar a esse trombonista para ver a partitura. Ele acho que nós tínhamos talento e interessou-se em ter-nos como alunos na Covilhã.

Foi na Covilhã que a minha vida realmente mudou.

 

 

"O facto de estar na Covilhã nunca me impediu de fazer nada, eu fazia as materclasses e as audições para orquestras de jovens na mesma"

 

 

DC – O facto de teres estudado numa escola do interior, como a Escola Profissional da Beira Interior na Covilhã não limitou de alguma forma os teus estudos?

FA - No meu caso não, já que o meu professor tocava no Grupo de Metais do Seixal, na altura muito famoso em Portugal. Eles faziam sempre masterclasses com os melhores músicos, por isso acabavam por levar os alunos. Isso também tem a ver com o professor que temos, se nos abre os olhos, nos mostra as melhores gravações… tem mais a ver com as pessoas e não com os locais ou ambientes. O facto de estar na Covilhã nunca me impediu de fazer nada, eu fazia as materclasses e as audições para orquestras de jovens na mesma. Trabalhava e tinha a noção daquilo que era, porque o meu professor me ajudava, me avisava do que era realmente importante. Tive um excelente professor, tive muita sorte.

 

DC – Depois da Covilhã, foste para a Metropolitana. Como foi essa experiência?

FA - Antes de ir para a Metropolitana, estive um ano em Castelo Branco, onde tive a oportunidade de estudar com o Vilela, que é um excelente músico e uma excelente pessoa. Depois fui para Lisboa, para a Metropolitana, onde havia uma classe de Trombone muito boa, isso motivou-me imenso. Além disso, o meu irmão também estava em Lisboa. Fui trabalhar com o professor Reinaldo Guerreiro. Tive sorte com os meus professores, eles vieram na altura em que precisar e deram-me aquilo que eu estava a precisar naquele momento.

 

DC - O que é que aprendeste com cada um deles que consideras hoje fundamental para o teu percurso?

FA - O Álvaro Pinto, na Academia de Castelo de Paiva, foi excelente para começar, deu-me boas bases. Na Escola Profissional da Covilhã, o Nuno Scarpa foi o professor que mais me marcou, que mais modificou coisas em mim, me dava mais confiança e me motivou a trabalhar pra chegar mais longe. Conseguiu-me manter motivo durante seis anos, não houve uma única aula em que perdesse motivação. Com o Reinaldo trabalhei mais o detalhe, não me deixava passar absolutamente nada, era mesmo muito exigente.

 

 

"o que me marcou mais foi a qualidade da orquestra [Mahler], o rigor de trabalho, o profissionalismo – eu precisava daquilo"

 

 

DC – Também tiveste uma participação activa nas orquestras de jovens. Em que medida contribuiu para o teu crescimento?

FA - Queria ir às orquestras de jovens pela fama que elas tinham. Um Orquestra como a Mahler soa muito bem, é um nível muito bom. Mas depois de ir lá, fiquei com outra noção, motivou-me a sair, a ter consciência daquilo que queria.

Claro que o ambiente, os lugares que visitava, correr um pouco o mundo com malta da minha idade é fantástico mas o que me marcou mais foi a qualidade da orquestra, o rigor de trabalho, o profissionalismo – eu precisava daquilo.

 

DC – E depois acabaste por ir para Berlim…

FA - A ideia de ir para Berlim surgiu antes de acabar a universidade, ainda me faltava um ano para acabar o curso. Quando estava na orquestra Mahler, um colega meu que estudava em Berlim incentivou-me a ter aulas com o Stefan Schultz, em Berlim. Foi uma conversa normal de colegas.

Entretanto, esse meu colega convidou-me a fazer um programa na escola dele, onde já estava a estudar o Gabriel Antão. Na altura havia um concurso importante de trombone e estava a ser difícil encontrarem trombonistas para esse programa - 7ª de Bruckner. Aceitei e pensei logo em ter uma aula com o Stefan Schultz. Mais uma vez, foi um bocado de sorte.

Na aula que tive com Stefan Schultz, ele perguntou-me se eu queria estudar com ele. Eu respondi que queria muito ir estudar com ele, só não sabia se poder ir imediatamente. Optei por acabar o curso na Metropolitana mas mantive sempre o contacto (fiz algumas aulas) com o Stefan Schultz. No ano a seguir, concorri e entrei para a universidade

Nesse ano também entrei no Remix Ensemble (estive lá dois anos) e conciliei com Berlim. Vinha a Portugal fazer os programas com o Remix.

 

 

"Claro que tocar na Orquestra Filarmónica de Berlim é fantástico. Aquilo para mim era impensável. Foi brutal! O meu primeiro programa foi com o Abbado – ainda tive a sorte de trabalhar com ele"

 

 

 

DC – Foi nessa altura que entraste para a Academia da Orquestra Filarmónica de Berlim?

FA - Em Fevereiro de 2012, ganhei a prova mas só comecei em Maio. Só estive dois meses porque entretanto ganhei o lugar de solista na Ópera de Hamburgo.

 

DC – Foste o primeiro português a entrar na Academia da Filarmónica de Berlim. Como foi essa experiência?

FA - Em relação a ser o primeiro, para mim isso não tem importância. Até tenho pena de ser eu o primeiro porque isso é sinal que já chegamos tarde. Felizmente, entraram logo outros a seguir de mim.

Claro que tocar na Orquestra Filarmónica de Berlim é fantástico. Aquilo para mim era impensável. Foi brutal! O meu primeiro programa foi com o Abbado – ainda tive a sorte de trabalhar com ele. Não tinha muito para tocar, só toquei na primeira parte. Foi espectacular. Embora ele já estivesse fisicamente debilitado, as pessoas respeitavam-no muito.

Com o Claudio Abbado ainda cheguei a fazer um programa interessante. Ele falou para mim logo no primeiro ensaio, a dizer que eu podia tocar mais forte num pequeno solo que tinha.

 

DC – A atitude da orquestra é diferente?

FA - Não é diferente das outras orquestras. Claro que os músicos são muito bons, são escolhidos ao pormenor, a orquestra tem muita tradição, mas em termos de ambiente é uma orquestra normal, com as rotinas normais de qualquer orquestra.

Mas eu estive lá muito pouco tempo.

 

DC – Ficaste com pena dessa experiência ter sido tão curta?

FA - Eu fiz a prova em Hamburgo porque o Stefan Schulz insistiu. Ele disse que a Academia não era aquilo que eu precisava, embora fosse óptimo estar lá e tocar ao lado dele na Filarmónica. Ele disse que eu precisava de ganhar experiência como primeiro trombone numa orquestra. Aconselhou-me a fazer provas para orquestras. A partir do momento em que entrei em Hamburgo, deixei a Academia. Comecei logo em Setembro.

 

 

"A ópera é um espectáculo muito mais completo, por isso acaba por ser enriquecedor"

 

 

DC – Para ti tocar ópera foi diferente?

FA - Primeiro, gosto muito de ópera, mas tenho de admitir que não gosto de todo o tipo de ópera. Claro que tocar dez vezes a mesma ópera numa temporada, torna-se repetitivo, isso é o que eu gosto menos numa orquestra de ópera.

Num teatro, os ensaios são diferentes, a orquestra tem de se sacrificar por causa da parte cénica, dos cantores. A planificação é muito diferente. Numa orquestra sinfónica, as semanas são sempre iguais, têm uma rotina definida, enquanto que na ópera a rotina difere muito de semana para semana, não há semanas iguais em termos de horários.

 

DC – Como músico, é muito diferente tocar em palco e no fosso?

FA - Claro que sim, numa orquestra sinfónica estou mais exposto, o importante é ouvir a orquestra, o que ela está a tocar, enquanto numa ópera, a orquestra passa para segundo plano, pelo menos para as pessoas que estão a ouvir, até se esquecem que estamos lá a tocar.

Uma falha pode passar despercebida mas acaba-se por ter outro tipo de dificuldades, como acompanhar um cantor. Também é incrível a quantidade de repertório que se toca numa ópera, já passei todo o tipo de programa, às vezes temos de montar uma ópera de Strauss só com dois ensaios. A ópera é um espectáculo muito mais completo, por isso acaba por ser enriquecedor.

Mas sinto falta de tocar programa sinfónico na minha orquestra, embora haja coisas que nós tocamos que são incríveis. Não posso esquecer que em Hamburgo temos um dos melhores ballets do mundo! Fazemos produções excelentes! Coisas que nunca conseguiria fazer numa orquestra sinfónica.

 

 

"Até posso dizer agora que quero ir para Berlim, mas não sei se daqui a alguns meses vou dizer a mesma coisa. Muita coisa pode acontecer. Tenho de experimentar."

 

 

DC – Quais os compositores que gostas mais de tocar?

FA - Puccini sem dúvida! Nem é de tocar, porque Puccini até nem tem muito para os trombones tocarem. Depois para tocar, gosto muito de Richard Strauss e Wagner – têm muita coisa para os metais, para a orquestra em geral.

 

DC – Sentes-te contente em Hamburgo?

FA - Sim, muito contente, tem sido uma experiência muito positiva. Estou muito contente na cidade, com os meus colegas, sobretudo com os meus colegas de trombone, é um trabalho fantástico!

 

DC – Ganhaste recentemente a audição na Staatskapelle em Berlim. Foi uma opção tua querer mudar ou foi só para experimentar?

FA - Foi um bocado de tudo. A partir do momento em que tenho um trabalho por três anos, já estou familiarizado com os meus colegas, com a cidade, com tudo. Mesmo que queira mudar, não sei se me vou sentir bem nesse local, com essa mudança. Até posso dizer agora que quero ir para Berlim, mas não sei se daqui a alguns meses vou dizer a mesma coisa. Muita coisa pode acontecer. Tenho de experimentar. Por aquilo que conheço de Berlim, da orquestra, da temporada, dos maestros…

 

 

"Se eu vou para uma prova, tenho de pensar que a vou ganhar, que estou em condições de a vencer. Se achar que não tenho condições, não vou."

 

 

DC – Para ti, a nível pessoal, o que significa ganhares mais uma audição? Não é fácil ganhar várias audições em diferentes orquestras…

FA - Tenho que ser sincero e admitir que me dá uma satisfação pessoal. É sinal de que mantive o nível ou até terei subido.

 

DC – Tiveste uma preparação especial para esta audição ou seguinte o mesmo método?

FA - Preparei de uma maneira muito diferente. Aliás, preparei em 13 dias, decidi concorrer e em menos de duas semanas tinha a prova. Talvez por agora ter outro tipo de maturidade que não preciso de dois meses de preparação para uma prova deste nível. E consegui, a prova correu-me bem, não foi perfeita, mas foi suficiente. Claro que isso me dá uma grande satisfação.

 

DC – Neste tipo de provas, como é que lidas com a ansiedade, com os nervos?

FA - Não lido muito bem. Sou capaz de estar duas noites sem dormir antes das provas, sobretudo na véspera. Fico preocupado, ansioso, quero estar logo a tocar. Quero descansar, dormir, mas não consigo, fico a pensar nos excertos que tenho de tocar, no que me vão pedir para tocar.

Se eu vou para uma prova, tenho de pensar que a vou ganhar, que estou em condições de a vencer. Se achar que não tenho condições, não vou. O objectivo máximo é o primeiro lugar e não o segundo. Faço muita pressão sobre mim mesmo.

E o facto de já tocar numa orquestra, já ser músico profissional, acrescenta ainda mais responsabilidade, ou seja, tenho de apresentar mais maturidade do que um estudante.

 

 

"Eu algum dia, quando estava em Portugal, pensava em tocar com o Barenboim ou o Zubin Metha? Agora é uma coisa super normal para mim!"

 

 

DC – O que achas que mudou em Portugal para o crescente sucesso dos seus músicos a nível internacional?

FA - É um bocado como a moda. É preciso dois ou três começaram para depois toda a gente querer fazer o mesmo. Por exemplo, no Trombone, já temos o Gabriel Antão em Viena, o Francisco Couto em Helsínquia. Começam a haver resultados! Acredito que nós sirvamos de exemplo para outros se lançarem, arriscarem, lutarem por mais.

Eu algum dia, quando estava em Portugal, pensava em tocar com o Barenboim ou o Zubin Metha? Agora é uma coisa super normal para mim!

Com as redes sociais, a globalização, tudo se torna mais fácil também. Há 10 anos, quando estava na escola profissional a informação chegava mas não como agora, isso acaba por ser estimulante.

Também surgiu a moda de que no estrangeiro é que é bom. A rotina que se está a criar em Portugal é fazerem lá a licenciatura e depois fazerem o mestrado no estrangeiro.

 

DC – Isso é positivo ou negativo?

FA - É positivo, de negativo não tem nada. Experimentar outras culturas e outro tipo de ideias não tem nada de negativo, muito pelo contrário. Mesmo que não seja aquilo que as pessoas estavam à espera, é sempre uma experiência de vida diferente.

 

 

"Aqui [Alemanha] a rotina é ir ver um concerto, em Portugal a rotina é ir ver um jogo de futebol. "

 

 

DC – Na mesma altura em que ganhaste o lugar em Hamburgo, também ganhaste na Gulbenkian em Lisboa. O que te levou a optar por Hamburgo?

FA - Por aquilo que agora tenho, por exemplo, por ter a oportunidade de trabalhar com um grupo fantástico como o German Brass, pelas tournées, pela convivência com músicos incríveis… Por mais que eu pudesse ter essas oportunidades na Gulbenkian, seria hipócrita da minha parte dizer que ia ser igual. É impossível porque as coisas não chegam a Portugal da mesma maneira do que chegam aqui. No centro da Europa é tudo muito perto, ao contrário de Portugal que está mais isolado. Aqui é um campeonato diferente.

Há mais oportunidades e o nível musical é diferente. É uma questão profissional. E ainda há questão do próprio país, falta muita coisa, faltam projectos, concertos.

 

DC – O que é preciso mudar em Portugal?

FA - Tudo precisa de investimento. A Alemanha, Suíça, Inglaterra são países com outros recursos económicos. De qualquer das formas, podia haver mais investimento em Portugal, podia-se arriscar mais. E os investimentos que se fazem nem sempre são bem aplicados, às vezes gasta-se muito em coisas que não têm qualidade, valor.

É uma questão de mentalidade - afinal o que é mais importante? É uma questão delicada porque não temos a tradição musical erudita que existe no centro da Europa. Aqui a rotina é ir ver um concerto, em Portugal a rotina é ir ver um jogo de futebol.

 

DC – Que contacto manténs com Portugal?

FA - Já tive convites para dar masterclasses, não com muita regularidade mas contactam-me da parte dos músicos, professores. Da parte das direcções, do poder, não há contactos.

 

DC – Achas que não há a noção do que está a acontecer com a avalanche de músicos portugueses com sucesso internacional?

FA - Não, não têm essa noção. A comunicação social ignora completamente. Fala-se apenas nas redes sociais, entre colegas. É inédito termos um português a tocar na Filarmónica de Berlim como o Abel Pereira, que agora está em Washington; os portugueses que estão na Ópera de Zurique; a Adriana Ferreira na Orquestra Nacional de França, etc, etc.

Como é possível não haver ninguém que divulgue isto nos meios de comunicação social? Pelo menos na RTP, que é pública!

 

 

"As pessoas da minha terra apoiam-me e têm muito orgulho em mim mas o meio político não dá qualquer valor – nunca me convidaram para nada. Há pessoas com formação que me perguntam se eu toco na banda de Hamburgo…"

 

 

DC – E na tua terra, em Cinfães?

FA - Nunca ninguém falou comigo, nem me ajudou em nada, da parte do poder de Cinfães. Cheguei a pedir uma bolsa de estudo mas nada. Estou a dar o meu exemplo mas há outros exemplos. As pessoas que dão nome à terra, que fazem outro tipo de música são negligenciadas.

As pessoas da minha terra apoiam-me e têm muito orgulho em mim mas o meio político não dá qualquer valor – nunca me convidaram para nada. Há pessoas com formação que me perguntam se eu toco na banda de Hamburgo…

 

DC – Gostarias de voltar a Portugal?

FA - Sim, para passar férias, estar com a família.

Nunca sabemos as voltas que a vida dá, mas neste momento está completamente fora dos meus horizontes.

 

 

"A classe de Trombone em Portugal tem muito bom nível. O problema é a falta de oportunidades."

 

 

DC – Que conselhos podes deixar aos jovens trombonistas?

FA - Primeiro é ser humilde e trabalhar. Depois é ter as ideias no sítio, ou seja, saber realmente aquilo que quer. Desde muito novo que sabia o que queria e trabalhei muito para conseguir esse objectivo. Se deres tudo o que tens, haverás de conseguir alguma coisa. Não acredito que quem trabalha realmente com humildade, que se sacrifique, não consiga alguma coisa, pode não ser o que se quer, mas alguma coisa consegue-se.

Trabalho, trabalho, dedicação, trabalho e saber o que se quer e lutar por isso.

 

DC – Como vês o panorama do Trombone em Portugal?

FA - A classe de Trombone em Portugal tem muito bom nível. Sei que há muito talento a aparecer mas pessoas com talento sempre existiram. O problema é a falta de oportunidades.

 

DC – Se tivesses oportunidade de realizar um projecto em Portugal, o que farias?

FA - Pode ser que nos próximos tempos haja alguma novidade. Tenho em mente algumas coisas mas não quero adiantar nada agora.

Uma coisa que investia seria na gravação de um disco.

Por outro lado, se ganhasse o Euromilhões abriria um restaurante, ajudaria a minha família e iria à Polinésia Francesa. A gastronomia é do que melhor temos em Portugal.

 

 

Biografia

Filipe Alves nasceu em Tarouquela, Cinfães. Iniciou os estudos musicais de trombone com 11 anos na Banda Marcial de Tarouquela, e estudou posteriormente na Academia de Música de Castelo Paiva. Dois anos mais tarde, a convite do professor Nuno Scarpa, ingressou na Escola Profissional de Artes da Covilhã. Frequentou a licenciatura na Academia Nacional Superior de Orquestra, em Lisboa, na classe do professor Reinaldo Guerreiro.

Posteriormente, sendo bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, mudou-se para Berlim, onde frequentou o mestrado em performance na Universität der Künste Berlin, na classe do professor Stefan Schulz. Em 2012 foi academista na Orquestra Filarmónica de Berlim, onde teve a oportunidade de trabalhar com maestros como Sir Simon Rattle, Claudio Abbado e Andris Nelsons.

Frequentou masterclasses e cursos de aperfeiçoamento com professores como Dennis Wick, Henrique Crespo, Christhard Gössling, Jesper Busk Sorensen,  Andreas Klein. Foi membro da Orquestra de Jovens da União Europeia e 1º trombone da Gustav Mahler Jugendorchester, tendo feito digressões pelas principais salas de concerto da Europa.

Filipe Alves foi trombonista do Remix Ensemble entre 2011 e 2012. Desde 2012 é 1º Trombone Solista da Orquestra Filarmónica de Hamburgo e da Ópera Estatal de Hamburgo. Paralelamente colaborou com os German Brass, a Orquestra Sinfónica da NDR de Hamburgo, a Orquestra Sinfónica da WDR de Colónia, Orquestra Gulbenkian, Orquestra Sinfónica Portuguesa, entre outras.

Teve a oportunidade de trabalhar com maestros como Daniel Barenboim, Sir Simon Rattle, Claudio Abbado, Franz Welser-Möst, Herbert Blomstedt, Christoph Eschenbach, Jukka-Pekka Saraste, Semyon Bychkov, Zubin Mehta.

Em 2008 ganhou o 1º prémio, nível superior, no Concurso Prémio Jovens Músicos, tendo tocado a solo com a Orquestra Gulbenkian o Concertino de F. David. Em 2014 foi laureado com o Prémio Eduard Söring, da Fundação para a promoção da Ópera Estatal de Hamburgo. Em Abril de 2015 venceu a audição para Trombone Solista da Staatskapelle Berlin. Filipe Alves é artista da prestigiada marca Bach.

Créditos: Patrícia Andrade

JOP no Festival Young Euro Classic 2015

Esta é a segunda digressão internacional consecutiva da JOP. No ano passado, o Festival de Kassel, na Alemanha, fez o convite directo à JOP, na sequência da sua pertença à EFNYO. Este ano, levaram também na bagagem o convite para o Festival Young Euro Classic 2015.

“O sucesso em Kassel foi enorme, tendo a JOP ter sido votada a orquestra favorita do público. Este êxito inédito levou o Festival a renovar o convite para 2015, com a distinção para realizarmos o concerto de encerramento”, afirma Alexandre Dias, director executivo da OCP.

Sob a direcção de Pedro Carneiro, a JOP apresentou-se no Festival de Kassel, no dia 9 de Agosto e no Konzerthaus de Berlim, no dia 12 de Agosto, concerto inserido no Festival Young Euro Classic. O programa incluiu a Sagração da Primavera de Stravinsky e a Sinfonia Concertante para violino, viola e orquestra, tendo como solistas Pedro Lopes (violino) e Ricardo Gaspar (viola). Em Berlim, ainda houve espaço para a estreia da obra Once Again (encomenda da JOP) do jovem compositor Pedro Lima Soares.

 

“esta peça é o reflexo de uma busca que se adivinha eterna”

"Once Again – Eternal Goodbyes vive como uma tábua rasa que se molda em diferentes universos paralelamente ao tempo, sendo que a mudança é eterna mas o corpo sempre o mesmo. Tal e qual como eu, que vivo dizendo adeus a tudo aquilo que fui ontem, esta peça é o reflexo de uma busca que se adivinha eterna”, explica Pedro Lima Soares.

Com apenas 20 anos de idade, confessa que está “a descobrir maneiras de diferentes de olhar a vida e a conjugar em si mesmo alguma responsabilidade que a idade acarreta”. Confirma que “o estado juvenil e inocente” em que se encontra é, sem dúvida, um factor essencial na sua produção: “As primeiras experiências no papel, as primeiras reproduções da nossa música, as primeiras frustrações – tudo isso são componentes muito importantes que constroem o compositor que há́ dentro de mim”.

“Enquanto jovem compositor, sofro de bloqueios, dúvidas, alegrias e tristezas, e tem sido sempre assim, faz parte da vida. E de uma maneira mais poética, eu sinto que estou sempre a despedir-me do Pedro que já viveu ontem", acrescenta.

 

“Várias pessoas disseram-nos que os alemães jamais esqueceriam aquele dia”

Alexandre Dias destaca “a resposta da orquestra e o nível artístico das performances em cada um dos concertos”. E a recepção germânica: “O profissionalismo, a elevação e a dignidade com que fomos recebidos e tratados antes e depois dos concertos, pela organização e direcções dos dois festivais”.

As críticas publicadas foram “muitíssimo positivas” e a reacção do público foi “entusiástica e emotiva”: “Foi assim um sucesso estrondoso. Além dos concertos terem sido excepcionais, a escolha do encore foi genial. Várias pessoas disseram-nos que os alemães jamais esqueceriam aquele dia. Foi extraordinário, em Berlim tivemos de repetir o encore”.

“A recepção à peça de Pedro Lima Soares foi muito entusiástica; o Mozart foi fenomenal com Pedro Lopes e Ricardo Gaspar, que estiveram impecáveis e cheios de vigor; e por fim, a 'melhor Sagração da minha vida', confessou ao maestro Pedro Carneiro, Gabriele Mintz, directora do Festival”, sublinha.

 

“a sala, a orquestra, a acústica, o público, estava tudo em sintonia”

Pedro Lopes, o Solista de Violino, actualmente a estudar na Universidade de Hannover (Alemanha), admite que não gosta de ser Solista, no sentido “antiquando” do ofício: “Normalmente o solista é aquele que toca e a orquestra vai atrás. Aquele que manda acima de tudo e de todos. Eu amo música de câmara. Nesse sentido foi um pouco desafiante no início porque a orquestra estava à espera de outra coisa. Eu, tanto quanto o Maestro Pedro Carneiro e o Ricardo Gaspar pedimos que a orquestra tocasse "com" e não "para". Essa foi, a meu ver, uma das mais notáveis aprendizagens da JOP desde o primeiro ensaio ao concerto de Berlim”.

A oportunidade de partilhar o palco com o Ricardo também foi marcante: “ele é um músico abismal! Não foi preciso falar muito... Foi ouvir e juntar três ou quarto vezes”. E tocar na Konzerthaus foi a realização de um sonho: “a sala, a orquestra, a acústica, o público, estava tudo em sintonia. E Mozart!!! Os ingredientes para um dos mais fabulosos momentos da minha breve carreira”.

 

“a JOP prova ser de indiscutível valor educativo e cultural, e de projecção internacional”

Para trás ficam enormes dificuldades em angariar financiamento com a devida antecedência: “É fundamental um compromisso público e dos privados a médio longo prazo, na comparticipação da sustentabilidade deste projecto inédito no nosso país”.

Defende que, com esta digressão, “a JOP prova ser de indiscutível valor educativo e cultural, e de projecção internacional do que melhor se faz em Portugal”. Assim, vão “continuar a trabalhar a 200 por cento para angariar apoios públicos e privados”.

Para quase já, em Setembro, a JOP vai estar no Prémio Jovens Músicos, seguindo-se uma nova temporada, com audições, masterclasses, estágios, concertos e digressão internacional.

 

O que dizem os jovens músicos…

“em Portugal existem muito bons músicos com uma enorme vontade de fazer e de partilhar boa música”

“Foi uma experiência incrível. Estou muito feliz por ter tido a oportunidade de fazer parte deste projecto e de mostrar que em Portugal existem muito bons músicos com uma enorme vontade de fazer e de partilhar boa música. Foi muito difícil conseguirmos fazer esta digressão mas valeu a pena. Representar o meu país em Berlim foi extremamente importante. Sinto - me grata à JOP por me ter dado esta oportunidade.

Penso que a melhor coisa que posso destacar é o espírito de trabalho em conjunto que temos. Somos uma orquestra muito unida, partilhamos as nossas opiniões e sensações dentro e fora de palco. Partilhar o palco com estes músicos foi gratificante. Os sorrisos de cumplicidade trocados a meio dos concertos, a ajuda entre os colegas do naipe, a troca de impressões sobre certos aspectos musicais, a partilha de experiências, histórias e conhecimentos formam esta bonita união nesta grande orquestra.

Infelizmente não somos uma orquestra financiada pelo Estado, a organização e direcção teve de arranjar imensos apoios para esta digressão se realizar, o que complicou muito as coisas. Não nos sentimos muito apoiados nem valorizados pelo nosso país mas é para isso que cá estamos: para partilhar a nossa música e fazer ver que afinal vale a pena apoiar a educação e arte neste país”.

Ana Sofia Leão, Violoncelo, concluiu o 12º ano e quer estudar na ESMAE

 

 

“Os apoios escasseiam e foi muito difícil conseguir o montante necessário para a digressão”

“A experiência foi espectacular. O repertório era exigente, em especial a Sagração da Primavera mas a orquestra esteve à altura. Fomos a Kassel como orquestra preferida do público do ano passado, e penso que voltámos a deixar bom ambiente.

Na Konzerthaus em Berlim o público também adorou. A orquestra esteve muito bem, com energia, concentrada, com enorme espírito de solidariedade e de partilha. No fundo esse concerto foi, parafraseando o maestro Pedro Carneiro, "uma celebração do trabalho realizado ao longo do ano de trabalho". Não foi fácil, mas penso que o resultado final foi altamente positivo.

Eu penso que o ponto mais positivo foi a digressão ter-se realizado efectivamente. Os apoios escasseiam e foi muito difícil conseguir o montante necessário para a digressão. Foram muitas iniciativas de fundraising, apoios de mecenas, uma contribuição dos próprios músicos... Todas as orquestras inscritas na EUFYO (Federação Europeia de Orquestras Juvenis) são financiadas pelo Estado, coisa que não acontece com a JOP, apesar das provas dadas”.

Daniel Pinheiro, Percussão, recém-licenciado pela ANSO (Metropolitana)

 

 

“em Portugal, a vida musical e cultural nacional está muito abaixo e com muito pouca adesão em relação a este país [Alemanha]”

“Foi uma experiência inesquecível porque, em primeiro lugar, trabalhamos com pessoal jovem de todos os lugares do país, com ideias e formas diferentes de trabalhar. Consegues partilhar todas estas coisas, crescer em conhecimento e como pessoa; em segundo lugar, a oportunidade que se tem em conhecer outro país e uma nova cultura, neste caso a Alemanha, é algo fascinante pois nós, como pessoas, precisamos de conhecer para sermos melhores e a Alemanha superou a minha expectativa. Absorvi mais do que aquilo que estava à espera.

Continuamos a nossa tour em Kassel (o primeiro local fora de Portugal), uma cidade extremamente civilizada de pouca população e movimento, muito simpática e caridosa, bela e bem cuidada com jardins enormes e muito bem tratados.

Deparámo-nos ao segundo dia no auditório de Stadthalle com uma sala gigante, acusticamente bem trabalhada e lotada. Onde vemos isto em Portugal? Seguimos no quarto dia para Berlim e encontrámos uma cidade com beleza indescritível onde só víamos arte. Percorria-se uma rua e não conseguíamos fugir a uma imagem de Daniel Barenboim a dirigir com a sua batuta ou mesmo cartazes a publicitar bailados. Onde vemos isto em Portugal?

Nesta cidade, actuámos na Konzerthaus, uma sala de excelência que muito dificilmente eu irei pisar de novo. Novamente, esta sala de renome, lindíssima, trabalhada ao pormenor, ilustrando em escultura todos os compositores que mais conhecemos até hoje, com cerca de dois mil lugares, estava lotada. Tudo isto para dizer que consegui chegar ao fim deste estágio e consegui perceber que, em Portugal, a vida musical e cultural nacional está muito abaixo e com muito pouca adesão em relação a este país que hoje é um dos grandes na economia europeia.

A JOP iniciou a Tour na Escola Superior de Música de Lisboa no contexto da programação da International Youth Lisbon Music Fest, onde o auditório conseguiu obter metade dos lugares ocupados e com entrada gratuita. Onde vemos isto na Alemanha?

Neste estágio, no que toca ao trabalho em si, fez-se repertório de um nível muito elevado, visto que esta orquestra tinha jovens de 12 anos. As obras são de alguma exigência musical e técnica mas, incrivelmente, acho que toda a orquestra conseguiu ultrapassar rapidamente os obstáculos existentes favorecendo assim todo o lado musical exigido nas obras.

Trabalhar com o maestro Pedro Carneiro também foi uma boa experiência e tenho de admitir que é um homem sábio. É uma pessoa fantástica que também tem o seu lado com bravura. Este seu lado acontece porque muitas vezes os elementos não absorviam à primeira a mensagem, mas acho que esta face conseguiu criar uma motivação à orquestra.

Dou também os parabéns aos professores orientadores Armando Martins, Natália Monteiro, Marco Fernandes e Pedro Lopes pelo trabalho e empenho que tiveram nos ensaios de naipes antes e durante o trabalho da orquestra.

Sinceramente, esta digressão trouxe a todos os participantes uma bagagem gigante de trabalho, conhecimento, elogios, e acima de tudo amizade”.

Miguel Pais, Trompete, aluno da ESML

 

“É um luxo poder trabalhar com um músico e com um ser humano como o Maestro Pedro Carneiro”

“A Digressão da JOP foi o culminar de todo um trabalho que começou em força por volta de Fevereiro. Obviamente que há uma evolução notória dos seus elementos; mas isso será mais ou menos comum todos os estágios de orquestras de jovens. A convivência, as brincadeiras e as saudades felizmente também o são, de uma forma ou de outra.

A equipa de professores era fantástica! Sempre houve um ambiente muito confortável de união entre os professores e na relação destes com os alunos. Isso é meio caminho para o sucesso de um projecto. Professores que se entregam de alma e coração e alunos que depositam a sua confiança nos seus tutores.

Para além disso, há aspectos que são únicos neste projecto. A questão da Consciência Corporal, por exemplo, orientado pela Teresa Simas. As várias tertúlias pelos vários professores (incluindo os da Páscoa) sobre temas que fazem muitos esforçar um sorriso nervoso típico de quando se sai da zona de conforto. E isso é saudável! É saudável encontrar desafios novos, explorando novas possibilidades na busca de soluções para problemas de longa data.

Apesar do grande esforço que a JOP faz para tentar apoiar os seus elementos ela não conta, à semelhança da maior parte das orquestras de jovens nacionais europeias, com apoios provados ou do estado continuados. Esse é um senão das dificuldades financeiras que a JOP enfrenta. Ainda assim, é pelo menos para já, este é um problema que tem vindo a ser contornado com o empenho e esforço de todos.

O Maestro Pedro Carneiro tem uma visão muito fresca e vanguardista da aprendizagem musical e da própria missão do músico dentro da classe e na sociedade. Aprendo imenso com ele nos programas da OCP. É um luxo que os elementos da JOP possam beber de um pouco dessa vontade, dessa paixão e dessa ideologia. Quando mais se deixarem contagiar, mesmo que muitas vezes não entendam muito bem em que direcção estão a ir, estou certo que chegarão a lugares inesperados. E esses são surpreendentemente os melhores lugares onde uma pessoa pode ambicionar chegar. É um luxo poder trabalhar com um músico e com um ser humano como o Maestro Pedro Carneiro”.

Pedro Lopes, Violino, Aluno na Hochschule für Musik Theater und Medien Hannover

Ricardo Carvalhoso na Ópera de Zurique

Ricardo Carvalhoso é o novo tubista da Philharmonia Zürich, Orquestra da Ópera de Zurique, depois de vencer a audição para Tuba –Solo, em Abril deste ano. Junta-se assim aos seus colegas portugueses, Filipa Nunes (clarinete), Samuel Bastos (oboé) e o academista Marco Silva (trompete). O jovem tubista deixa, assim, a Orquestra Filarmónica de Nice, onde estava há três anos.

 

“No fundo este sempre foi o meu sonho mas nunca pensei chegar tão longe”

De Arcos de Valdevez para Zurique. “No fundo este sempre foi o meu sonho mas nunca pensei chegar tão longe”, confessa Ricardo Carvalhoso. A vida não vai mudar muito – “estudar, tocar e evoluir”, o que muda é a “instituição de trabalho”.

Como chegou até aqui, o percurso que teve de percorrer, no fundo o segredo do sucesso: “A preparação é o elemento mais importante para ser bem-sucedido numa audição de orquestra. Numa primeira fase é necessário um estudo individual no aperfeiçoamento do reportório para o concurso, atingir o "standard" requerido. Posteriormente, tomar uma opinião profissional, seja através dum professor ou de outros colegas e desta forma realizar várias simulações que tragam amadurecimento à performance”.

Depois, os nervos: “O sistema nervoso é algo muito pessoal, cada um deve aprender analisar-se após cada experiência. No final de contas uma primeira ronda numa audição de orquestra pode ser tão curta como cinco minutos por isso é melhor deixar os nervos em casa (risos)”.

 

“há cada vez mais jovens portugueses a aventurarem-se pelo mundo fora”

Chegar a uma orquestra com portugueses também não o deixa indiferente: “É fantástico poder chegar ao local de trabalho e falar a nossa língua. Para além disso também temos a oportunidade de fazer umas "jantaradas e ver a bola" de vez em quando”.

Sobretudo é sinal de que algo está a mudar no panorama dos músicos portugueses: “Algo está a mudar, sem dúvida! Há 15 anos, quando eu comecei a aprender música, estudar no estrangeiro era visto como um privilégio e estava associado a certas dificuldades financeiras e outros preconceitos. Hoje em dia creio que esse tabu já foi quebrado e há cada vez mais jovens portugueses a aventurarem-se pelo mundo fora. Essa é a verdadeira razão pela qual na última década se tem verificado um sucesso acentuado dos portugueses no panorama musical além-fronteiras".

 

“em Portugal dá-se muitas vezes o valor a quem não o tem ou a quem não se o devia dar”

No caso da Tuba em particular, destaca “o trabalho desenvolvido nas últimas décadas pelos tubistas portugueses, com grande destaque para o excelente professor e artista internacional, Sérgio Carolino, já está a dar frutos há muitos anos.

No entanto, há ainda muito trabalho a fazer, sobretudo ao nível do apoio aos artistas: “Algo que sempre me deixou perplexo é observar como a valorização das artes e da cultura pode ser tão ímpar em relação ao verdadeiro valor dos nossos artistas”.

Diz que “em Portugal dá-se muitas vezes o valor a quem não o tem ou a quem não se o devia dar. Sendo necessário às vezes ir para fora para apreciar como os portugueses se integram e se fazem reconhecer pelas comunidades estrangeiras”. E exemplifica: “O talento é como as ervas daninhas, nasce em qualquer canto. Mas o talento português só nasce em Portugal e, em Portugal, sempre se arrancaram muitas "ervas daninhas". Felizmente essa mentalidade está a mudar e os jovens músicos portugueses começam a poder acreditar que vencer é possível”.

 

“dezenas de estudantes licenciados em artes abandonam o país devido à ausência de meios para veicular as suas carreiras”

Carvalhoso também passou pelas comunidades estrangeiras. Após se licenciar na ESMAE com Sérgio Carolino, continuou a sua formação artística sob a orientação do Prof. Anne Jelle Visser, na Universidade das Artes de Zurique. Defende que uma das maiores diferenças no ensino é “a diversidade de oportunidades que são postas à disposição dos estudantes e o número de infra-estruturas existentes”. E, claro, “o apoio e atenção do público que na maior parte dos casos suporta financeiramente o ensino e a música em geral”.

“Não quero com isto dizer que a qualidade do ensino em Portugal seja inferior, eu próprio sou licenciado em Portugal. Contudo, e para desgosto do contribuinte, nos últimos anos, dezenas de estudantes licenciados em artes abandonam o país devido à ausência de meios para veicular as suas carreiras”, sublinha.

 

“não posso deixar de referir o incontornável Sérgio Carolino, que sempre me inspirou desalmadamente”

Na sua ainda curta carreira, afirma que os seus momentos mais marcantes na música contam-se pelos dedos: “No polegar está a academia na Filarmónica de Munique, os concertos que fiz com aquela orquestra foram sem dúvida os mais intensos da minha vida. Nos dedos seguintes, a conquista do meu primeiro trabalho na Orquestra Filarmónica de Nice, com a qual tive o prazer de me apresentar como solista em 2014; o 1º lugar no Prémio Jovens Músicos (2009); uma tournée memorável na China com a Orquestra Mundial de Jovens (2009/10); e a participação no Festival de Música Schleswig-Holstein (2011)”.

Zurique inaugura a outra mão, ainda livre: “Escusado será dizer que esta nova vitória na ópera de Zurique também conta. Deixando assim uma mão livre para o futuro. (risos)”.

“Como personalidades influentes no meu percurso não posso deixar de referir o incontornável Sérgio Carolino, que sempre me inspirou desalmadamente e o meu excelente Prof. Anne Jelle Visser que me mostrou o caminho a seguir”, realça.

 

“Ser músico é um dom e viver da música um privilégio”

Ricardo Carvalhoso confessa que gostaria de regressar um dia ao país que o viu nascer e crescer, até porque “a música é uma viagem interminável”.

“Eu aconselho a todos os jovens que estudam música a serem perseverantes e a terem orgulho naquilo que fazem. Ser músico é um dom e viver da música um privilégio”, salienta.

 

Ricardo Carvalhoso

O tubista português Ricardo Carvalhoso têm vindo a estabelecer-se nos últimos anos como um dos artistas mais promissores da sua geração. Nascido em Arcos de Valdevez em 1986, desde cedo mostrou interesse pela música, especialmente como meio de comunicação e integração do ser. Depois de uma breve passagem pelo trompete, Ricardo descobriu a Tuba aos 14 anos de idade. Apenas dois anos mais tarde, foi admitido na Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo do Porto, licenciando-se em 2008 na classe do Prof. Sérgio Carolino. Nesse mesmo ano, mudou-se para a Suíça onde continuou a sua formação artística sob a orientação do Prof. Anne Jelle Visser na Universidade das Artes de Zurique.

Ao longo do seu percurso, Carvalhoso foi laureado em diversas ocasiões tanto nacional como internacionalmente. Destaque para o Prémio Jovens Músicos 2009, Concurso Internacional de Metais do Vale de Aosta 2010, Concurso Internacional de Tuba "Ville d'Avray" 2011 e o prémio da fundação Kiefer Hablitzel.

Foi membro da Orquestra Mundial de Jovens entre 2009 e 2010 e da Orquestra do Festival de Música de Schleswig-Holstein em 2011.

Em Maio de 2012, após ter integrado a Academia da Orquestra Filarmónica de Munique, Ricardo Carvalhoso foi nomeado Tuba-Solo da Orquestra Filarmónica de Nice e desde Abril 2015 ocupa o mesmo posto na Orquestra da Ópera de Zurique.

Jonathan Luxton

Jonathan Luxton

Foi um Jonathan Luxton descontraído, leve e simpático que se apresentou na palestra do 1º Festival HornProject, no passado dia 15 de Maio, no Conservatório Nacional. Respondeu de forma simples e directa às perguntas de João Gaspar, do Quarteto HornProject. O porquê de ter renunciado ao lugar de 1ª Trompa na Orquestra Gulbenkian e que recordações guarda dos 30 anos, em que ocupou esse lugar, assim como a sua experiência como professor na ESML, foram sem dúvidas as questões mais proeminentes.

Mas, o mais espantoso do discurso de Luxton foi a forma descomplexada com que falou da sua vida actual, onde a música não lhe preenche o tempo nem lhe deixa muitas saudades, apesar de ainda não ter tido coragem de ouvir a Orquestra Gulbenkian. Uma vida dedicada à sua quinta, sem o stress do palco e a pressão de estar sempre na melhor forma. O Jonathan de hoje mostra-se consciente de que a obra que deixou, o trabalho que desenvolveu, dão-lhe o direito de gozar plenamente a sua reforma. Quem o ouviu terá ficado com a certeza de que o baú das memórias que Jon guarda enquanto músico é o seu maior tesouro, o brilho que nos encanta e nos faz querer saber mais.

 

João Gaspar (JG) – Vivia num país com mais tradição cultural e musical… Por que é que decidiu vir para Portugal?

Jonathan Luxton (JL) – É uma boa pergunta. Eu comecei a tocar em orquestras profissionais aos 19 anos. Fiz concursos, ganhei experiência, mas nunca ganhei uma posição numa orquestra. Toquei em várias orquestras como extra (reforço), mas eu queria um lugar a tempo inteiro, no quadro.

 

JG – Mas o Jon não conhecia Portugal?

JL – Não, quando fiz o concurso, tinha lido no jornal, no Daily Telegraph, nos anúncios de concursos para orquestra. Lá estava escrito Orquestra Gulbenkian, que queria 1ª Trompa e 2º Fagote.

 

JG – O Jon já tinha experiência como 1ª Trompa na Orquestra da CEE.

JL – Sim, mas a Orquestra da CEE não era uma orquestra profissional. Fiz três digressões com a CEE.

 

"Quando cheguei à Gulbenkian eram sempre peças de Mozart! Foi um grande choque no início!"

 

JG – Como é que foi esse período de experiência na Gulbenkian? Quanto tempo foi?

JL – A primeira coisa que vocês precisam saber é que naquela época a Gulbenkian era apenas uma orquestra de câmara. Só tinha dois oboés, duas flautas, dois clarinetes, dois fagotes e duas trompas! A Orquestra era muito mais pequenina.

Eu tinha a experiência de tocar sinfonias de Mahler, Bruckner, Tchaikovsky, etc. Quando cheguei à Gulbenkian eram sempre peças de Mozart! Foi um grande choque no início!

 

JG – Durante quanto tempo foi essa experiência?

JL – A Gulbenkian não mudou muito. Quando eles me ligaram, numa sexta-feira em Janeiro, às 5h30 da tarde, eu estava a sair para o musical I sing in the rain, em West Ham, ia fazer uma substituição. Eles queriam que eu fosse tocar. Quando? – perguntei. Segunda-feira – responderam. Segunda-feira? Daqui a três dias? Até quando? – questionei. Até ao final de Julho – disseram. Pensei: daqui a três dias vais para outro país e ficas lá seis meses…

Cheguei aqui, as pessoas foram muito amigáveis… Embora nesse ano, 83/84, foi o ano em que mais choveu em Portugal. O centro de Cascais, onde estão os bares, estava com cerca de dois metros de água. Sempre a chover!

 

JG – Depois de Julho ficou efectivo?

JL – Fiz mais uns meses. Gostei das pessoas, da orquestra… e gostei especialmente de uma senhora que tocava ao meu lado e se tornou minha esposa, há 30 anos. Denise, a minha esposa, toca 2º Flauta e Piccolo. Naquela altura as trompas tocavam ao lado das flautas. Valeu a pena casar com ela!

 

JG – Falavam a meio dos ensaios?

JL – Sim!

 

JG – Em 84 ganhou finalmente a posição de 1º Trompa?

JL – Sim, fiz o concurso em Setembro na Gulbenkian e ganhei.

 

JG – Lembra-se de quem era o júri na altura?

JL – Foi muito diferente de agora. Estavam o Alfredo Flores, o 2º Trompa não estava no júri; o Andrew, oboé; Arlindo Santos, fagote; o 1º Violoncelo Clélia Vital; o Aníbal Lima…

 

"uma coisa é ganharem o concurso, mas outra é ganhar experiência"

 

JG – Durante estes anos foi júri de audições, não só nas orquestras de jovens mas sobretudo para os lugares de posição na Gulbenkian. Entretanto, a Gulbenkian contratou 2º, 3º e 4º Trompa. Lembra-se da sua prova para 1º Trompa? E lembra-se do que exigia aos outros nas provas?

JL – Lembro-me, sim! 2ª Trompa é diferente de 1º Trompa. Quais as coisas que queria, por exemplo, para 2ª Trompa? Bom som, boa afinação, tocar junto com o 1º Trompa. Para 3ª Trompa é preciso saber tocar solos mas saber ficar abaixo da 1ª Trompa, não deve querer saltar para 1ª.

As provas das outras trompas, na Gulbenkian, foram nos anos 90, quando a orquestra ainda estava em transição para orquestra sinfónica. Era diferente de hoje.

 

JG – Enquanto júri, o que é que tinha mais em atenção nas provas?

JL – Obviamente tinham de tocar bem. Mas é bom lembrar que uma coisa é ganharem o concurso, mas outra é ganhar experiência, porque a experiência é muito importante. Pode tocar muito bem o Mozart nº 3 ou o Adagio e depois quando se senta na cadeira da orquestra não pode tocar nenhuma nota desafinada com a 1ª Trompa.

 

JG – Esta sua experiência fê-lo também mudar como pedagogo? Foi o primeiro professor de Trompa na ESML e formou uma imensa geração de trompistas. Lembra-se quando começou na ESML?

JL – O Paulo Guerreiro foi o meu primeiro aluno em 1989. Mas comecei em 88 com o curso livre para preparar alunos para concorrer ao curso de Trompa.

 

JG – Faz ideia de quantos alunos passaram por si?

JL – Não faço ideia… Muitos!

 

"Obviamente o nível de Trompa em Portugal é muito alto."

 

JG – O que acha da evolução da escola de Trompa em Portugal? Desde que chegou cá até quando terminou a sua carreira há dois anos?

JL – Nós tínhamos bons muito bons instrumentistas, trompistas, fagotistas, etc., mas eram poucos, apenas um ou dois em cada instrumento. Agora são muitos mais! Este tipo de festival como estão a fazer agora não existia! Não existiam masterclasses.

 

JG – Era mais difícil conseguirem os resultados que pretendiam?

JL – Os iniciados, as crianças, são muito melhores hoje! Fazem-se orquestras, grupos… isso não existia! Isto é uma grande transformação!

 

JG – Mas as tecnologias fazem a diferença…

JL – Ajudam, sim. Mas na nossa época ouvia-se também muita música, nós tínhamos os vinis, as cassetes… tínhamos de procurar mais, não era fácil encontrar mas existia!

 

JG – Ao longo da sua carreira mudou a sua forma de ensinar? Procurou implementar cá o sistema de ensino inglês?

JL - Eu dei aulas em Évora, na Escola Profissional e em Azambuja. É normal os professores ensinarem o que lhes foi ensinado, por isso transmiti o que aprendi em Inglaterra. O Abel, por exemplo, fez aulas na Alemanha. Assim, em Portugal temos agora várias ideias, uma mistura de métodos e isso é muito bom. Obviamente o nível de Trompa em Portugal é muito alto.

 

"não acho que o nível em Londres seja melhor do que cá, em Trompa"

 

JG – Já fez várias masterclasses em Portugal e no estrangeiro…

JL – Sim, fiz na China, Brasil, Londres, Espanha…

 

JG – Faz ideia de quantos países visitou à conta da música?

JL – Não faço ideia…

 

JG – Como professor tem sido júri em várias orquestras de jovens e nas provas de acesso ao ensino superior. O que é que espera numa prova?

JL – Se os alunos têm a oportunidade de estudar numa boa escola como, por exemplo, a ARTAVE - muito bem! Mas se eles não têm essa oportunidade, se estudam numa escola pequena sem as mesmas condições e oportunidades e condições da ARTAVE, eu pensava sobretudo no potencial do aluno, nas suas habilidades, se era musical ou não, se tinha a capacidade de chegar longe, e não no nível que já tinha atingido na altura da prova. Pensava no nível que o aluno poderia atingir com boa orientção e não no nível que tinha atingido com determinadas condições.

 

JG – Diz-se que em Portugal se faz tanto com tão pouco… Por exemplo, em Londres há muitos mais recursos…

JL – Sim, mas eu não acho que o nível em Londres seja melhor do que cá, em Trompa. A nível da Escola Superior de Música de Lisboa, Porto, Aveiro, Espinho, está no mesmo nível.

 

"a Orquestra Gulbenkian não trabalha muito, enquanto que as orquestras em Londres trabalham muito"

 

JG – Há cada vez mais alunos a irem estudar para fora.

JL – Verdade, e também querem posições de orquestra fora de Portugal.

 

JG – Mas o Jon nunca quis ir estudar para fora de Londres?

JL – Quando cheguei cá, tinha 23/24 anos, passados dois anos, estava casado e um ano depois já tínhamos crianças. Quando tinha 35 anos pensei em tentar uma formação ou uma posição fora, mas pensei: quero ficar com a minha esposa e não quero que me aconteça o mesmo que acontece a muitos casais musicais, que acabam por se separar.

Além disso, a Orquestra Gulbenkian não trabalha muito, enquanto que as orquestras em Londres trabalham muito, fazem tournées de 10 dias, 10 concertos, voltam para Londres e têm logo concerto no dia seguinte.

 

JG – Lembro-me de uma vez o professor ter herpes e mesmo assim recusou-se a ficar em casa. Insistiu e fez o programa. Porquê?

JL – Estúpido! Não sei… talvez por ser o meu último concerto na Gulbenkian.

 

"quando se tem uma posição em orquestra há vários anos, os colegas são muito mais simpáticos"

 

JG – Ao longo destes anos, sentiu altos e baixos na sua carreira?

JL – Todas as pessoas passam por montanhas e vales. Acho que o mais importante para todos os profissionais é tentar que os vales fiquem o mais próximo possível das montanhas, ou seja, que a diferença entre eles sejam pouca.

 

JG – Houve alguma semana mais difícil, terrível?

JL – Nós fizemos a 4ª Sinfonia de Mahler, os dois primeiros andamentos é só trompa, sempre trompa. Eu nunca toco com assistente. Eu toquei dois concertos, quinta-feira, sexta-feira, cheguei no sábado ao Porto para fazer masterclass, com os alunos do Bernardo e do Abel, peguei na trompa mas não consegui tocar sequer uma nota. Nada. Não toquei na masterclass. À noite tive concerto no Europarque, em Santa Maria da Feira.

 

JG – Qual é o sentimento?

JL – Horrível! Imaginem o que é chegar a um masterclass e não conseguirem tocar nem uma nota!

 

JG – Alguma vez sentiu que uma situação dessas pudesse pôr em causa o seu trabalho?

JL – Não, porque quando se tem uma posição em orquestra há vários anos, os colegas são muito mais simpáticos. Graças a Deus, tive poucos problemas. É preciso tocar muito mal para ser chamado à atenção pelo diretor. Nunca fizeram isso comigo.

 

JG – Nunca foi chamado, então, ao gabinete do diretor?

JL – Não, por isso não, mas por outras coisas como gritar com maestros.

 

"Quando somos jovens, pensamos que podemos fazer qualquer coisa"

 

JG – Não lhe aconteceu nada, nenhuma história?

JL – Vocês sabem que a Gulbenkian toca à quinta-feira às 9h e à sexta-feira às 7h. Antigamente, na quinta era às 9h30 e à sexta era às 6h30. Sabem também que às vezes, qualquer zona de Lisboa pode ficar com muito trânsito. Nós vivemos em Cascais, no nosso carro estavam a minha esposa, 2º flauta; a 1ª flauta e o 3º trompa. Trânsito horrível. Fizemos desvios, deixámos o carro na Eduardo VII, fomos a pé para a Gulbenkian, chegámos lá às 6h28. Pedimos para esperar para nos vestirmos mas não dava porque havia músicos que ainda iam tocar à noite para a Orquestra Sinfónica, no São Carlos, às 9h. Nós chegamos daquela forma mas o concerto correu bem!

 

JG – Foi a única vez que lhe deve ter acontecido já que o Jon sempre foi muito rigoroso com os horários. Todos os dias, estava na Gulbenkian às 8h30 para o ensaio das 10h. Era uma rotina que tinha?

JL – Era a minha rotina desde que comecei a ficar mais velhote. Quando somos jovens, pensamos que podemos fazer qualquer coisa. Depois dos 45, 46 anos, é preciso estudar mais, não sei porquê, mas senti necessidade de estudar mais, porque se falha mais facilmente. Antes disso não chegava tão cedo para os ensaios. É preciso aquecer pelo menos 10, 20 minutos antes dos ensaios. É muito importante.

 

JG – Ao longo da sua carreira as suas rotinas fora mudando?

JL – Sim, mudei muito, porque o corpo não reage da mesma maneira de quando tínhamos 25 anos. É natural.

 

JG – Sempre se ligou muito aos valores da disciplina, do rigor, um pouco também como os seus hobbys. Foi treinador de râguebi…

JL – Deixei de jogar râguebi quando deixei de tocar trompa. Joguei dos 11 aos 42 anos. Depois fui treinador em Cascais, Carcavelos, Oeiras.

 

JG – Fez tantos jogos como tocou a 5ª de Beethoven?

JL – Fiz mais jogos.

 

JG – Qual foi a obra que tocou mais vezes?

JL – 7ª de Beethoven. Fizemos a 7ª de Beethoven na tournée à Índia, Espanha, França… sempre 7ª de Beethoven.

 

"Têm de ter disciplina e ter um gravador para se gravarem e ouvirem. Isto é muito importante, pois pensamos que tocamos sempre muito bem, mas às vezes não é assim"

 

JG – Quais foram os maestros com quem gostou mais de trabalhar?

JL – Em primeiro, o Dudamel, ele fez um concerto connosco, tivemos muita sorte, foi absolutamente fantástico. Esa-Pekka Salonen e Jukka-Pekka Saraste e, sem dúvida, Michael Zilm.

Mas quero-vos contar uma história com o nosso maestro Muhai Tang… nós fizemos um concerto na Alemanha, com três a quatro mil pessoas. Na segunda parte, ao tocar a nota de afinação, a minha válvula estava presa, não ia para cima nem para baixo., completamente fechado. Darcy, a nossa 4ª Trompa, saiu para procurar óleo, dissemos ao maestro para esperar um pouco. Tentamos com o óleo mas não funcionava. Pedi mais tempo ao maestro mas ele negou e mandou-nos tocar só com três trompas. Eu usei a trompa da Darcy, ela ficou de fora. Mas o maestro ainda me mandou falar com o público e explicar o que estava a acontecer, qual era o problema. Então eu fui à frente da orquestra, no palco, e expliquei em inglês. É uma memória muito interessante…

É estranho porque o maestro Muhai Tang fez as aulas de direção na Alemanha, por isso ele fala muito bem alemão, mas ele não queria falar, queria que fosse eu.

 

JG – Quais os conselhos fundamentais que pode deixar aos seus alunos?

JL – Eu sou perfeccionista e gosto de passar isso para as outras pessoas. A posição de 1ª Trompa exige um assistente, em todos os programas, mas em Portugal nunca é usado, só raramente.

Na minha opinião, um 1º trompista tem de estar sempre em forma, em qualquer orquestra. Têm de ter disciplina e ter um gravador para se gravarem e ouvirem. Isto é muito importante, pois nós pensamos que tocamos sempre muito bem, mas às vezes não é assim. Sempre que estudei para concertos, fiz gravações, ouvi-me tocar. E para os jovens de hoje é muito fácil fazerem gravações com as novas tecnologias. Na gravação não há batota, é a verdade.

 

JG – O que é que não gosta em alguém que está a tocar ao seu lado?

JL – Depois do solo, há a tradição do assistente bater com os pés para elogiar o solo mas nunca deve fazer isso enquanto o solista não terminar o solo e tirar o bocal da boca.

 

"pensei que era melhor sair enquanto estivesse em forma, não queria ficar e dois anos depois as pessoas notassem a minha quebra. Eu queria acabar num nível respeitável."

 

JG – Como é que se sentia no final da carreira?

JL – Eu queria ficar reformado. Tive oportunidade para ficar, tinha 55 anos e 30 anos de orquestra. Pediram-me para ficar mas pensei que era melhor sair enquanto estivesse em forma, não queria ficar e dois anos depois as pessoas notassem a minha quebra. Eu queria acabar num nível respeitável.

 

JG – Quais os melhores momentos que passou na orquestra?

JL – O primeiro concerto que fizemos com Michael Zilm e quando tocámos com o maestro Penderecki.

 

JG – Sente que cumpriu o seu dever?

JL – Sim. Mas há muitas peças que não toquei e gostaria de ter tocado. Em termos de aulas, é uma pena que na época do Ângelo, do Paulo, que não tenha havido estas oportunidades [festivais, masterclasses] para os alunos.

 

"Não toco, não estudo. Estou a dedicar-me à agricultura e construção civil, na minha quinta."

 

Questões da Plateia

Como é que um 1º Trompa de uma Orquestra como a Gulbenkian faz a sua gestão do estudo das obras que vai tocar ao longo da temporada? Como gere física e emocionalmente as coisas?

JL – Às vezes é bom outras vez é mau. Há períodos de deserto sem nada e há períodos com muita coisa. Ao ter o plano da temporada, tenho de pensar bem. Se temos uma peça mais difícil como o Cavaleiro da Rosa, temos de estar muito em forma! Se fizermos esta peça na mesma altura que a Sinfonia Alpina, obviamente que não podemos estudar este programa todos de uma vez; temos, por exemplo, de estudar meses antes o Cavaleiro da Rosa.

Deves estudar as coisas mais brutais, mais difíceis, quando o programa da orquestra é mais light, com Mozart’s e Beethoven’s.

 

Alguma sinfonia ou obra que o tenha marcado mais?

JL – 9ª de Mahler

 

O que é que faz agora?

JL – Não toco, não estudo. Dirijo um coro amador. Estou a dedicar-me à agricultura e construção civil, na minha quinta.

 

Deixou o desporto?

JL – Sim, depois de 45 anos, não estou a fazer quase nada no desporto.

 

Mas por que é que decidiu tomar essa decisão radical?

JL – Não sei, fiz muito tempo… quero fazer outras coisas.

 

"É fantástico tocar numa orquestra mas quando se tem 55 anos, fica-se um pouco farto."

 

E consegue viver sem a música?

JL – Para mim, ao fim de 30 anos, a Trompa significa trabalho, é o meu instrumento de trabalho. Um amigo meu que toca 3º Trompa na BBC diz que agora, ao fim de tantos anos, que a Trompa é 75 por cento trabalho e apenas 25 por cento de amor à música.

É fantástico tocar numa orquestra mas quando se tem 55 anos, fica-se um pouco farto. Há outras coisas que quero fazer. E também quero passar o meu lugar a outra pessoa…

 

Assistiu às provas para o lugar que deixou vago?

JL – Sim.

 

O que acha do Gabriele, o trompista selecionado? O seu lugar está bem entregue?

JL – Eu escolhi o Gabriele, ele tocou muito bem nas provas. Mas agora vamos ver como vai correr. Não o vi ainda a tocar na orquestra, por isso não sei.

 

Depois de se ter retirado, já sabemos que nunca mais tocou, não tem saudades, por momentos, de tocar?

JL – Humm… Não, não muito… Fiquei contente por ter deixado. Já não toco há muito tempo, se tentar tocar agora vai ser difícil recuperar o nível que tinha.

 

É preciso ter muita força para ao fim de 30 anos de carreira dizer: “chega, terminei no auge”.

 

Paulo Guerreiro – Gostaria de dizer que para mim foi um prazer enorme ter trabalhado com o professor Jon, fui o seu primeiro aluno no ensino superior. Aprendi imenso com ele, toquei muitas vezes com ele na altura em que a Gulbenkian só tinha duas trompas e nos chamava (eu e o Augusto) para tocar nos programas que pediam quatro trompas.

Acho que a lucidez com que chegou ao final da carreira é aquilo que eu gostaria de ter quando passar pelo mesmo. Felizmente, na Gulbenkian os músicos podem reformar-se aos 55 anos, nós temos de trabalhar até aos 66, 67 anos.

Vai haver agora concurso para Solista A na Orquestra Sinfónica Portuguesa, em Julho, porque precisamos de mais um. Eu, com 49 anos, tenho dito repetidamente que aquilo que eu gostaria seria estar mais quatro ou cinco anos à frente do naipe e depois, não podendo reformar-me, que era o que eu gostava… É preciso ter muita força para ao fim de 30 anos de carreira dizer: “chega, terminei no auge”.

Não quero que venha ninguém manchar o que fiz em 30 anos. Todos sabemos que passamos depressa de bestiais a bestas. Fazemos 30 anos bem, mas se fazemos seis meses mal, somos os piores do mundo. Foi isso que o professor Jon quis evitar.

Subscrevo completamente o que o professor Jon diz, estudo muito mais hoje do que estudava quando era jovem. A nossa exposição em orquestra, como 1º Trompa, é brutal. Quero agradecer ao professor tudo o que fez ao longo da carreira, que foi brilhante, e todos os alunos que deixou.

Gil Magalhães

Gil Magalhães é, desde 2008, professor de Flauta Transversal, Técnicas de Interpretação e Música de Câmara na Universidade do Minho. É também professor na Academia de Música Valentim Moreira de Sá em Guimarães e no Conservatório da Jobra. Paralelamente, frequenta o quarto ano do Programa Doutoral em Performance Musical da Universidade de Aveiro. De 1993 até 2004 foi flautista efetivo da Orquestra do Norte, 1ª Flauta/Solista “A”/Chefe de Naipe desde 1998, na qual realizou, durante este período, mais de 1000 concertos em Portugal, Espanha e França. Do seu extenso currículo destaca-se a sua ligação às bandas filarmónicas, onde tem desenvolvido um trabalho notável como maestro.

 

Da Capo (DC) - O que te fez apaixonar pela flauta?

Gil Magalhães (GM) - Confesso que não foi amor à primeira vista! O instrumento dos meus sonhos era a Tuba! Aprendi vários instrumentos até aos 12 anos, quando tive o primeiro contacto com a flauta transversal. Os primeiros meses não foram fáceis, mas aprendi a gostar com o tempo. Aos poucos a sonoridade do instrumento começou a conquistar-me, e tornou-se um vício tocar flauta, ao ponto de estudar 5 horas diárias! A partir daí houve um juramento de amor eterno à flauta e à musica!

 

DC - Que critérios estiveram na base das escolhas que fizeste, escolas, concursos, professores, etc?

GM - Comecei a aprender música com o meu pai, José Magalhães. Na altura, praticamente a única opção era estudar no Conservatório do Porto, assim fiz, e tive como primeiro professor de flauta o professor Olavo Barros. A partir daí foi tudo muito rápido, participei em vários concursos, obtive alguns prémios, e foram surgindo convites para colaborar em muitos projetos de música de câmara, orquestras e recitais, até fazer o concurso para a Orquestra do Norte em 1993.

Somente em 1998 continuei os estudos superiores, trabalhando com o professor Eduardo Lucena. Nesse período de tempo entre 1993 e 1998 fui trabalhando particularmente e em masterclasses com vários professores. Considero-me um privilegiado em ter sempre estudado com mestres que além da parte artística, possuíam uma maturidade e um sentido ético muito elevado. São valores que ainda hoje fazem parte do meu ideal enquanto pedagogo, juntamente com o especial cuidado em manter a escola e a tradição na execução musical.

 

 

"As muitas horas de estudo obrigam sempre a renunciar algo. Quando a música nos preenche a alma e o coração não pensamos nisso."

 

 

DC - Quais os momentos mais marcantes da tua carreira?

GM - O primeiro momento foi a primeira vez que toquei numa orquestra profissional. Era muito jovem, tinha 17 anos, e toquei Piccolo na 9a Sinfonia de Beethoven com a Orquestra do Porto, na primeira vez que veio dirigir o Maestro Omri Hadari. Lembro o seu carisma e forte personalidade, e o enorme elogio que fez à minha performance na Orquestra. Foi nesse dia que disse para mim próprio: "é isto que fazer o resto da vida!".

Outro momento marcante foi a entrada na Orquestra do Norte, tinha 19 anos, e coincidiu com o meu início de carreira como maestro na Banda de Música de Sabrosa. O primeiro de muitos concertos a solo com a Orquestra do Norte, na interpretação do Concerto de Jacques Ibert, foi igualmente marcante. Destaco igualmente o convite para integrar a OSEM - Orquestra Sinfonica do Estado do México, que não sendo o primeiro, surgiu numa fase fantástica da minha vida - o nascimento da minha filha mais velha! Destaco igualmente os oito anos como maestro da Banda de Vale Cambra e, desde outubro de 2012, como maestro da Sociedade Musical de Arcos de Valdevez, uma das bandas de referência em Portugal. Seguiram-se imensos momentos marcantes, mas penso que os que acabei de referir foram os que marcaram de forma mais intensa.

 

DC - Quais os colegas que te marcaram mais? Poderias contar alguma pequena história/passagem com algum deles?

GM - Posso dizer que faço parte de uma grande geração de talentosos músicos, salientar nomes poderia ser injusto para alguns. Contudo tenho de referir duas pessoas por quem tenho um especial apreço: o professor Luís Meireles, professor do Conservatório de Música do Porto, fomos colegas de Orquestra. Nos seis meses que trabalhamos juntos foi o meu pai da Orquestra, elogiando quando merecia, repreendendo-me quando as coisas não estavam a ser como deviam. Ainda hoje temos uma forte amizade e projetos em conjunto.

O outro colega é o Carlos Jorge Ferreira, colega de uma vida artística, cruzamos os nossos percursos musicais em imensos projetos, desde as escolas que frequentámos às que leccionámos, grupos de música de câmara, Orquestra do Norte, Bandas, etc. Sendo somente dois dias mais velho do que eu, foi um exemplo de dedicação, persistência, integridade, tendo, numa fase mais indecisa da minha vida, sido importante para que eu retomasse os meus estudos musicais. Recordo a sua capacidade de estudar qualquer obra musical de uma forma que poucos teriam resistência para o fazer, utilizando uma sequência de três notas repetidas e intercaladas, realizadas com o metrónomo extremamente lento. Aplicava esse modelo à obra toda! Com isso adquiria uma enorme solidez técnica e sonora.

 

DC - Quais as renúncias que tiveste de fazer para te entregares à música? Tiveste de abdicar da vida pessoal? E as compensações?

GM - As muitas horas de estudo obrigam sempre a renunciar algo. Quando a música nos preenche a alma e o coração não pensamos nisso. É certo que em determinadas fases da minha vida tive de fazer opções, e com a idade é natural que a balança se vá equilibrando. É verdade que a música é uma paixão e consome uma grande parte da minha vida. Não foi e não é de todo fácil a gestão do tempo com quem partilha a vida conosco, mas acima de tudo sou uma pessoa feliz e realizada. Agradeço à minha família o apoio e a paciência que têm tido comigo, em especial à Isabel (minha esposa) e aos meus filhotes.

 

 

"só posso estar imensamente grato por ter feito parte dessa grande orquestra que é a Orquestra do Norte"

 

 

DC - Como organizas a sua vida, os seus tempos livres, a sua preparação técnica, os ensaios, as viagens e a tua vida familiar também intensa?

GM - A energia contagiante, o otimismo e a força de vontade sempre fizeram parte daquilo que sou. Por isso, desde que me conheço, sigo o adágio popular "deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer". Assim, acordo todos os dias por volta das 6h da manhã, para estar igualmente cedo nos locais onde trabalho. Com isto consigo ter o tempo para estudar e praticar. Além disso, como tenho por norma uma hora de viagem de carro todos os dias, utilizo esse tempo para planear o trabalho, ouvir muita e boa música, fazer exercícios de respiração, articulação que, se trabalhasse ao lado de casa, a cama não o permitiria! Fazendo contas, ao fim de uma semana ganho umas horitas que à partida não as teria!

 

DC - Que memórias guardas da tua longa passagem (11 anos) pela Orquestra do Norte?

GM - Nos mais de 1000 (!) concertos que realizei, com centenas de maestros diferentes, nas dezenas de concertos a solo que tive o privilégio de realizar, nas centenas de récitas de Ópera, na imensa e variada discografia gravada, nas inúmeras viagens em Portugal, em Espanha e França, nos prestigiados Festivais, com os grandes intérpretes, eruditos e não só, do nosso tempo, na partilha de cultura com os colegas de diferentes nacionalidades, os diferentes públicos desde a aldeia mais improvável de receber um concerto de Orquestra às Grandes Salas do País... Com tudo isto só posso estar imensamente grato por ter feito parte dessa grande orquestra que é a Orquestra do Norte - projeto único no nosso país, desde 1992!

 

DC - Foste convidado pelo Maestro Enrique Batiz para, na qualidade de Flautista Co principal, integrar a Orquestra Sinfónica do Estado do México. Por que não aceitaste o convite?

GM - Eu e a minha esposa estávamos grávidos pela primeira vez... Era uma mudança radical, que seria financeiramente e culturalmente enriquecedora, mas seria igualmente injusto para a minha esposa e filha querer que deixassem tudo para vir comigo. A vida é feita de opções, e deixa-me imensamente feliz saber que apreciam o meu trabalho!

 

 

"Os nossos jovens não precisam e não merecem que lhes pintemos o quadro da vida tão macabro como o que tem sido feito! Temos de arrumar com os "Velhos do Restelo", dotando os nossos jovens das melhores ferramentas para vencerem e serem felizes"

 

 

DC- O que significa para ti seres o primeiro professor de Flauta da Universidade do Minho?

GM - Uma responsabilidade enorme! O curso é recente, mas os frutos estão a aparecer. O departamento de Música da Universidade do Minho respira arte, partilha amizade e respeito, promovendo uma saudável troca de experiências artísticas entre alunos e professores. No caso específico da classe de Flauta Transversal, procuro dar continuidade ao trabalho efetuado pelos meus colegas do ensino secundário artístico, numa fase determinante da vida dos futuros artistas e professores.

Estou seguro que a missão de um pedagogo é ser inspirador, dotando os seus pupilos do maior número de ferramentas para uma vida profissional de sucesso. Nos dias de hoje é cada vez mais difícil, devido a fatores como a crise financeira e a crise de valores, e, é nestes momentos que temos que ser mais determinados e resilientes. Os nossos jovens não precisam e não merecem que lhes pintemos o quadro da vida tão macabro como o que tem sido feito! Temos de arrumar com os "Velhos do Restelo", dotando os nossos jovens das melhores ferramentas para vencerem e serem felizes, tarefa extremamente árdua, mas seguramente compensadora!

 

DC - Como foi passar de intérprete a tempo inteiro para professor a tempo inteiro?

GM - Penso que nunca fui intérprete a tempo inteiro, como também não sou, neste momento professor a tempo inteiro. Durante vários anos da minha carreira a balança pendeu mais para a performance, depois houve uma inversão. Acho que é a procura de fazermos imensas coisas que nos torna mais sábios e realizados.

 

DC - O que achas do atual panorama do ensino superior em Portugal?

GM - O ensino artístico em Portugal está a preparar muito bem os nossos jovens. Desde a iniciação aos mestrados e doutoramentos, têm  surgido imensos talentos e imensos bons instrumentistas e professores. O problema é a falta apoio e valorização que os nossos governantes apresentam em relação ao ensino artístico. Temos matéria prima, temos mão de obra, falta um investimento mais sustentado para que possamos ter ainda melhores resultados acadêmicos e profissionais.

 

 

"Se não me renovar constantemente, se não me aperfeiçoar, se parar de me atualizar, será o princípio do fim!"

 

 

DC - Como está a correr o teu doutoramento na Universidade de Aveiro? É sobre quê?

GM - Neste momento está em "stand-by", o trabalho tem sido bastante e tive necessidade de parar um pouco. Contudo, conto retomar a breve prazo e concluir. A minha tese de doutoramento tem como enfoque os recursos tecnicos e expressivos utilizados pelo Bansuri na música do Norte da Índia, e a  sua aplicação na flauta Transversal Ocidental moderna. É fascinante o caráter de realização espiritual paradigmático  da música  Hindustânica na ligação  entre a espiritualidade e a prática  musical, e o cruzamento entre a produção  do som e o funcionamento do universo.

 

DC - Em relação à música de câmara tens tido um trabalho diversificado. Quais o projectos mais ativos neste momento?

GM - Entre recitais com obras a solo e com piano, o "ExpressOriente Duo" com o Carlos Lima é o projeto mais activo e regular, estando programada este ano a gravação do nosso primeiro CD com obras de compositores portugueses, das quais somos dedicatários.

 

DC - O que há ainda para conquistar?

GM - Tudo! Se não me renovar constantemente, se não me aperfeiçoar, se parar de me atualizar, será o princípio do fim! Orgulho-me do meu passado, dá-me imensa força, mas não posso ficar a olhar sempre para ele, tenho de pensar o futuro! Tenho de ser cada vez mais fascinante e inspirador para os alunos, tenho de transmitir felicidade ao meu público enquanto performer, seja como instrumentista ou maestro. Enfim, são imensas conquistas!

 

 

"As bandas filarmónicas são as orquestras do povo, e têm evoluído de uma forma soberba. As bandas continuam a ser uma escola inigualável na formação musical e social dos nossos músicos"

 

 

DC - Tens uma forte ligação às bandas filarmónicas… que importância tem e teve o mundo filarmónico na tua vida?

GM - Sou filarmónico desde pequeno, por tradição familiar. As bandas filarmónicas são as orquestras do povo, e têm evoluído de uma forma soberba. Reconheço que adquiri imensas competências nas bandas por onde passei, desde a leitura à primeira vista, a capacidade de fazer música em conjunto, a responsabilidade, o brio, o respeito pelos músicos amadores. Mesmo com a excelente qualidade dos nossos conservatórios, academias e universidades, as bandas continuam a ser uma escola inigualável na formação musical e social dos nossos músicos.

 

DC - Como te sentes mais realizado: intérprete, maestro ou professor?

GM - Em todas elas! O facto de ser maestro e professor condiciona a minha visão enquanto instrumentista. Como maestro o lado de professor está implícito, e o facto de ser instrumentista permite ter uma maior consciência das necessidades de quem está do outro lado da estante. Por último, sou um professor mais completo pelo facto de assumir as outras duas posições, pois tenho consciência das necessidades, limitações, frustrações que a prática da arte musical aporta.

 

DC - Se tivesses a oportunidade de integrar um projecto, o que farias/inovaria?

GM - Gostava de realçar o Jaime Reis e o seu projeto DME - Dias de Musica Electroacústica,  com o qual tive a imensa honra em colaborar nestes dois últimos dois anos e realçar a força deste projeto, que divulga a música do nosso tempo fora dos grandes centros culturais. Fascinou-me verificar que o seu trabalho está a dar frutos fantásticos, e, enquanto performer pude constatar que o público de uma cidade do interior, como Seia, reagiu de forma bastante informada e interessada, fenómeno por vezes raro noutros meios com maior oferta cultural. É esta ideia que me fascina e sempre me fascinou - continuar a divulgar a arte musical nos meios cujo acesso a ela é mais difícil.

 

 

Temos cada vez mais e melhores músicos em Portugal. Temos cada vez mais compositores a escrever para as mais variadas formações. Contudo, com poucas exceções, ainda há falta de apresentações musicais eruditas regulares em imensas cidades deste país.

 

 

DC - O que achas que mudou no panorama da música erudita em Portugal?

GM - Temos cada vez mais e melhores músicos em Portugal. Temos cada vez mais compositores a escrever para as mais variadas formações. Contudo, com poucas exceções, ainda há falta de apresentações musicais eruditas regulares em imensas cidades deste país. Mesmo nas duas maiores cidades a oferta não é comparável às duas maiores cidades de qualquer outro país da CEE. Mas o caminho faz-se caminhando, e já estivemos mais longe!

 

DC - Que soluções sugeres para os problemas que afectam a música portuguesa? Se achas que há problemas, claro.

GM - Uma maior divulgação da nossa música erudita continua a ser uma necessidade. Continuamos a ser bombardeados em três canais televisivos generalistas, por programas que absorvem a tarde de todos os fins-de-semana  que, não raras vezes, apresentam o que de menos bom temos culturalmente em Portugal. Utilizar algum desse tempo, para dar a conhecer outras sonoridades, outras sensações, para conquistar público. Num sistema político inconstante como o nosso, o público transforma-se em votos, e o investimento na área crescerá.

 

DC - Como vês a nova geração de músicos portugueses? Que conselhos lhes podes deixar?

GM - Vejo imenso talento! Que nunca deixem de lutar pelos seus sonhos... Cada vez temos mais qualidade e será desastroso desistirmos deste talento. "Só não consegue, quem desiste!". Se ao talento juntarmos resiliência, respeito, honestidade e ambição, estarão seguramente condenados ao sucesso! Coragem!

 

DC - Projectos para breve.

GM - Concluir o doutoramento e gravar o primeiro CD do ExpressOriente Duo são os dois projetos imediatos. Há mais projetos na forja que divulgarei brevemente!

 

Página Facebook

http://expressorienteduo.wordpress.com/

Severa, o Fado de um Fado

Trabalham habitualmente com música erudita os intérpretes e compositores deste projecto ligado ao Fado. Ana Barros (voz) e Bruno Belthoise (piano) consideram que o Fado pode mostrar ainda novas faces, dado que as novas abordagens têm privilegiado uma renovação mais estética, visual e temática do que propriamente musical.

Com efeito, pediram a alguns compositores portugueses - Sérgio Azevedo, Carlos Marecos, Carlos Azevedo - que criassem arranjos sobre fados tradicionais, para voz e piano. A participação destes compositores trouxe contemporaneidade às peças, apenas lhes foi pedido que a história do Fado e da Severa fosse de alguma forma transportada para o seu trabalho.

O resultado foi agora lançado num disco - Severa, que mereceu a colaboração da Antena 2, Instituto Camões, Rui Vieira Nery (consultor científico), Pure Sound e Museu do Fado, com edição do MPMP. E sobretudo dos 100 apoiantes que aderiram à campanha de crowdfunding e assim garantiram a edição e distribuição do CD, que conta com a participação especial de Miguel Amaral, na Guitarra Portuguesa.

 

“Seria pena se o Fado ficasse sempre da mesma maneira”

“Tentamos de alguma forma tornar o Fado mais erudito. Acho importante pegar nas raízes da música tradicional e dá-las de outra forma ao público”, diz Ana Barros. “Na realidade, estamos a fazer outro som. Seria pena se o Fado ficasse sempre da mesma maneira”, sublinha Bruno Belthoise.

O que não muda é a forma de estar na música: “A técnica é a mesma, como intérprete não noto diferença nenhuma, porque a minha entrega tem de ser a mesma, tanto a nível musical como emocional”. Para a cantora lírica, filha de uma fadista, “este projecto vem, de alguma forma, cortar os preconceitos que estão arreigados a uma forma demasiadamente tradicionalista de ver o fado”: “O que queremos é dar cores diferentes ao fado que já existe. Vamos vesti-lo com “roupas” mais modernas, mas ele nunca perderá a sua essência, essência essa que nos faz vibrar, tremer e chorar ao ouvi-lo”.

 

“uma aventura relacionada com a voz do amor de um povo”

O facto de ser francês, não impediu a Bruno Belthoise de se associar a um tipo de música exclusivamente português: “Não sou português, não sou fadista nem toco guitarra portuguesa, então como fazer? Ao estudar as obras descobertas em Lisboa, senti intuitivamente que o meu piano, um dia, viria a substituir a tradição e a mergulhar de uma forma moderna, mesmo insolente, no mundo do fado. Hoje, esta aventura musical emocionante toma o caminho de uma re-criação, a de uma nova cor para viver fado, uma aventura relacionada com a voz do amor de um povo, a força e a fragilidade simbólica de Maria Severa. E foi mesmo ao piano que esta viagem começou para mim...”

A ideia de invocar a memória da Severa, surgiu da vontade de destacar um mito, típico da alma portuguesa. “O destino da Severa confunde-se com o próprio destino da Fado. Fomos buscar temas e textos sobre a vida e morte dela”, conta. A pesquisa foi orientada por Rui Vieira Nery, conselheiro científico do projecto. 

 

“Vida curta, saborosa e triste”

Aliando a música a uma forte vertente cénica, "Severa - O fado de um Fado” não é apenas um concerto, mas é também um espectáculo único, com encenação, cenografia e conceito cénico de Pedro Ribeiro, em actividade na Royal Opera House de Londres.

“A representação da Severa é uma clássica personalidade do fado que tinha tudo para ser colocada em placas de mármore saudosistas. E assim foi. Toda a sua vida é um exemplo perfeito de destino malfadado onde homens perdidos de vinho assaltam o amor pelas ruelas da Mouraria. Ela de “pelo na venta” soube como ganhar à vida e para ilustrar os sentimentos que não sabia falar, cantou. Vida curta, saborosa e triste”, diz Pedro Ribeiro.

 

Lançamento do CD

O primeiro concerto de lançamento aconteceu no passado dia 8 de maio, no Museu do Fado. O CD já está à venda no site do MPMP. Estão também programados mais concertos de lançamento:

5 Junho, 21h | Teatro Nacional de São João, Porto

12 Julho, 17h30 | Museu Romântico, Porto

16 Julho, 21h30 | Museu Nogueira da Silva, Braga

Daniel Cunha nos EUA

Do Fado ao Tango, um projecto com o pianista grego Evangelos Spanos, já vai na segunda digressão nos Estados Unidos no espaço de apenas um ano. Porém, ainda não chegou a Portugal. Foi também nos EUA, em 2011, que obteve com distinção o grau de Doutor em Artes Musicais com Especialização em Piano pela Universidade do Kansas, onde trabalhou com Sequeira Costa e onde já obtivera antes, em 2006, o grau de Mestre.

 

Da Capo –  "A Musical Journey from the Iberian Peninsula to Argentina - from Fado to Tango" é um projecto que tens com o pianista Evangelos Spanos. Como foi a vossa primeira digressão nos EUA?

Daniel Cunha (DC) - Este duo surgiu da minha amizade com o pianista grego Evangelos Spanos. Conhecemo-nos quando fui estudar para os EUA com o prof. Sequeira Costa. Ambos estudámos com ele. Começámos a tocar repertório para dois pianos em 2009, com os tangos de Astor Piazzolla, compositor de que ambos gostávamos…

Na Universidade do Kansas, onde estudei, lecciona um professor de origem mexicana que organizava concertos chamados de “Fiesta Cultural”. Eram noites de música Ibérica ou Latino-Americana. A primeira actuação do nosso duo foi num desses concertos, onde tocámos os tangos de Piazzolla, na transcrição de Pablo Ziegler para dois pianos, que foram um sucesso. Depois de outros concertos acabou por surgir a oportunidade de tocarmos numa das principais salas do Estado do Kansas (EUA), o Lied Center of Kansas, em Agosto de 2011. Nesse concerto tocámos os inevitáveis tangos mas acrescentámos também alguma música espanhola. Foi um concerto muito bem recebido pelo público que está quase na sua totalidade disponível no Youtube.

O meu colega Evangelos gosta muito de fado. Mostrei-lhe o Fado Burnay, de Eduardo Burnay, numa transcrição para dois pianos de Armando José Fernandes, e ele gostou bastante. Por isso tivemos a ideia de o tocar. O Fado e o Tango têm uma relação especial. Há uma nostalgia presente em ambos os géneros. Aliás, há quem defenda que o Tango teve origem no próprio Fado. Por estas razões resolvemos criar este projecto de uma viagem musical do Fado (Fado Burnay) ao Tango (tangos de Astor Piazzolla/Pablo Ziegler), passando também pela música espanhola (Três Danças Andaluzas de Manuel Infante e Rapsódia Espanhola de Ravel) e por outros géneros da música Argentina (Três Romances Argentinos de Carlos Guastavino).

Chegámos a ser convidados para tocar num festival só de tango, o “Encuentro Tango”, organizado pela Universidade da Califórnia em Riverside (Center for Iberian and Latin American Music) mas esse convite não se materializou devido a um problema meu de saúde. Mas fizemos a tournée este ano (2014), com este programa para dois pianos From Fado to Tango. Foram três concertos no espaço de um mês, no Kansas (Schmitt Music Auditorium), Califórnia (Universidade da Califórnia – Riverside) e Oklahoma (Universidade de Tulsa – Lorton Performance Center).

A recepção foi bastante boa. Fomos convidados a voltar à Califórnia em 2015, para um festival de música colombiana.

 

Da Capo – Onde voltaram a repetir este programa...

DC – Sim, entre Fevereiro e Março de 2015, nos Estados Unidos. Fomos convidados para voltar à Universidade da Califórnia em Riverside para participar no “Encuentro Colombiano”, festival dedicado à música colombiana, como tinha antes referido. Além disso também voltamos ao Lied Center of Kansas. Apresentámos o programa “From Fado to Tango”, mas tocámos alguns Tangos Brasileiros de Ernesto Nazareth, numa versão para dois pianos de Francisco Mignone, em vez da Rapsódia Espanhola de Ravel. Para além destas apresentações a dois pianos, fiz um recital a solo em directo nos estúdios da Kansas Public Radio e uma masterclass de piano na Universidade do Kansas. Foi um mês em cheio.

Em Portugal ainda não surgiram oportunidades de apresentação deste programa. É difícil por várias razões: a escassez de salas com dois pianos (o que implica o aluguer de um segundo piano, com custos acrescidos) e o facto de o Evangelos Spanos viver nos Estados Unidos. No entanto não perdi a esperança e penso que se houver vontade e interesse tudo pode ser possível.

 

 

"As masterclasses que me marcaram mais foram as do prof. Sequeira Costa. Houve logo uma empatia mútua"

 

 

Da Capo - Como surgiu a paixão pelo piano, pela música?

DC – Os meus pais não são músicos, mas são amantes da música e começaram a levar-me a concertos desde os três anos. Comecei os estudos musicais aos quatro anos nos Gambozinos. Aí cheguei a ter algumas aulas de piano mas o que me lembro é das classes de conjunto. A minha mãe disse-me que nessa altura eu estava encantado pelos violinos. Mais tarde, na minha escola primária, conheci um rapaz, o Manuel Araújo, que é hoje um destacado pianista português. Ele já tocava piano bastante bem e estudava com a Norma Silvestre, professora brasileira que estava em Portugal e que tinha uma classe privada de piano, perto de minha casa.

Estudei alguns anos com a Norma e quando tinha 11 anos fui para o Conservatório de Gaia estudar com o prof. Luís Filipe Sá. Estudei com ele no conservatório a partir do 3º grau e depois na ESMAE. Estudei com ele durante 11 anos.

Sempre tive a liberdade de frequentar masterclasses, conhecer outros professores como, inicialmente, o prof. Jaime Mota, a prof. Helena Sá e Costa, e, mais tarde, já na Escola Superior, com professores como Luiz Moura Castro, Vitaly Margulis, entre outros. Mas as masterclasses que me marcaram mais foram as do prof. Sequeira Costa. Houve logo uma empatia mútua. Tenho muito respeito por ele como músico, pianista e pedagogo. Isso aliciou-me…

 

Da Capo - E foste estudar com ele para os Estados Unidos, para a Universidade de Kansas…

DC – Sim, em 2004. Numa das masterclasses que tive com o prof Sequeira Costa, disse-lhe que estava interessado em estudar com ele. Felizmente ele aceitou-me. No início fiz o mestrado, que durou dois anos. Não estava a pensar seguir para doutoramento mas depois acabou por acontecer e fazer sentido.

Regressei a Portugal em 2011, no início do ano lectivo, e logo comecei a dar aulas de piano na Academia de Música de Espinho. Além disso dei também aulas de Mestrado no Instituto Piaget em Viseu. Em 2012 seguiu-se uma série de masterclasses e concertos. Dei concertos na Suíça, com a Nádia Rigolet, violinista e violetista. Tivemos também um concerto no Luxemburgo. Toquei também a solo nos Encontros de Piano da Fundação Eng.º António de Almeida, pelo que 2012 foi um ano bastante preenchido.

 

 

"A minha ambição é entrar no ensino universitário. Idealmente, teria alunos mais interessados e com um nível superior"

 

 

Da Capo - O teu objectivo é ser intérprete?

DC - Sim, mas eu gosto de dar aulas. Obviamente que o facto de ter bons alunos (alguns já premiados em concursos) contribui para que eu tenha gosto em dar aulas. Mas também há os alunos do articulado que começam o primeiro grau aos 10 anos, sem bases. Não quer dizer que estes não tenham hipótese de evoluir no piano por começarem mais tarde, mas torna-se mais difícil. As escolas deviam investir mais no ensino preparatório. Procurar fazer mais publicidade a este tipo de ensino nas escolas.

A minha ambição é entrar no ensino universitário. Idealmente, teria alunos mais interessados e com um nível superior. Teria também mais espaço para tocar, para estudar e evoluir.

 

Da Capo – Que professores te marcaram mais?

DC - É difícil de escolher visto que todos me marcaram de uma determinada maneira. A professora Norma Silvestre era muito boa com crianças. Era bastante metódica e criava um ambiente musical rico – nós tínhamos coro, fazíamos óperas infantis (ela também era encenadora)…

O professor Luís Filipe Sá marcou-me mais porque estive 11 anos com ele. É um professor muito exigente e tê-lo desde os 11 anos foi muito bom. Ele tratou-me sempre como se eu tivesse 18 ou 19 anos. Isso era difícil para mim, por vezes, mas foi muito positivo e teve bons resultados. Só posso estar-lhe grato por me ter dado boas bases pianísticas e musicais.

O professor Sequeira Costa….

 

 

"[Sequeira Costa] É um professor muito exigente a nível técnico e musical, que tem uma imaginação muito fértil e sabe como obter no piano os mais variados resultados, de acordo com cada compositor"

 

 

Da Capo - Que influência teve o prof. Sequeira Costa no teu crescimento como artista?

DC – Teve muita. Com ele dei um salto bastante grande a muitos níveis. É um professor muito exigente a nível técnico e musical, que tem uma imaginação muito fértil e sabe como obter no piano os mais variados resultados, de acordo com cada compositor. Ele é muito peculiar em relação aos estilos de cada compositor. As aulas dele eram sempre muito intensas, havia sempre muita informação. Confesso que ainda estou a processar toda essa informação. Foram muitos anos. Só depois de ter acabado os estudos com ele é que comecei a libertar-me, a crescer.

 

Da Capo – E a prof. Helena Sá e Costa?

DC - A prof. Helena Sá e Costa marcou-me bastante, ainda me marca, porque, além de me ter dado vários e valiosíssimos conselhos musicais, encorajou-me muito. Acabei por ter com ela uma relação próxima. Ia visitá-la várias vezes a sua casa, onde também tive aulas particulares. Entrar naquela casa era como viajar no tempo, recuar ao início do séc. XX à época onde viveram os meus ídolos e referências musicais, como Cortot, Edwin Fischer e Wilhelm Kempff, etc. Muitas dessas personalidades estiveram naquela casa e os seus retratos autografados estão pendurados naquelas paredes. É um ambiente único.

A dona Helena era um ser humano muito completo, uma grande artista e uma pessoa muito bondosa, humilde e carinhosa – isso é muito importante num professor. O exemplo dela é inspirador.

 

 

"Um concurso tem a parte boa da competitividade que te faz atingir novos patamares de exigência mas tem um lado quase desportivo que é bastante anti-musical e anti-artístico"

 

 

Da Capo – Foste premiado em vários concursos. É fundamental passar por este tipo de competição?

DC - Eu penso que sim. Pode ser um factor motivador para os alunos pois premeia o trabalho feito. Num nível mais avançado dá visibilidade, embora fazer muitos concursos pode não ser muito bom, porque tornar-se num pianista de concursos é limitador.

Confesso que não lido muito bem com concursos mas há pessoas que gostam dessa adrenalina e até tocam melhor nesse tipo de provas. Cada caso é um caso. Um concurso tem a parte boa da competitividade que te faz atingir novos patamares de exigência mas tem um lado quase desportivo que é bastante anti-musical e anti-artístico. Massificar a música, tocar de determinada maneira só para agradar ao júri, tem o perigo de a música ficar um pouco de lado.

 

Da Capo - Como se constrói um pianista?

DC - Ter um professor que nos guie desde pequenos, bastante cedo – a idade ideal para se começar é por volta dos cinco, seis anos. E que saiba guiar-nos a nível técnico e musical e na escolha do repertório, porque não se podem saltar etapas. Há um tempo certo para se tocar cada obra, cada compositor. Por exemplo, não se pode saltar dos estudos de Czerny para Chopin sem fazer os de Cramer ou Moskowsky. Não se pode dar aos alunos coisas difíceis muito cedo, pois nem mental nem fisicamente eles terão as bases suficientes para superar tais dificuldades.

 

Da Capo - É mesmo preciso um aluno de piano começar muito cedo, logo no preparatório?

DC - Sim, acho que a relação física com o instrumento deve começar desde cedo. O piano é um instrumento complexo, é fácil começar, o som é imediato, mas depois vai-se tornando mais difícil.

 

 

Dar aulas e estudar piano são coisas bastante isoladas, por isso é importante ter-se vida social e fazer outras actividades para compensar esse isolamento.

 

 

Da Capo - É verdade que um pianista tem de estudar oito horas por dia?

DC - Não, acho um exagero esse número. Eu penso que nunca estudei oito horas por dia! O máximo que estudei foram seis horas. Para mim a qualidade de estudo é mais importante que a quantidade. Claro que é importante manter um ritmo diário de estudo. Dou-me por contente se conseguir quatro horas de estudo com qualidade e concentração. Claro que se alguém tiver a capacidade de manter a concentração, a frescura mental e física durante essas oito horas, tanto melhor.

 

Da Capo – Como organizas a tua vida? Que cuidados tens de ter como pianista?

DC - É tudo uma questão de equilíbrio. Dar aulas e estudar piano são coisas bastante isoladas, por isso é importante ter-se vida social e fazer outras actividades para compensar esse isolamento. Como é uma vida sedentária, convém fazer-se exercício físico… Por exemplo, gosto de dançar (salsa, forró, etc.). É uma forma de descontrair, descomprimir, que faço questão de fazer de vez em quando.

É necessário fazer intervalos durante o estudo, pois estudar pode ser muito repetitivo e pode causar lesões.

 

Da Capo - Quais as principais exigências e compensações da profissão?

DC - Quem quer ser pianista tem de gostar mesmo muito de música. Tem que sentir que não pode viver sem ela. Tem de ser mesmo apaixonado porque é uma vida dura, com bastantes sacrifícios, mas acaba por ser compensadora a nível pessoal, apesar da luta constante para se ser reconhecido. É no palco que me sinto mais realizado.

 

 

"O mecenato é muito forte nos EUA. Há a tradição de as pessoas darem donativos para os artistas e entidades artísticas e costumam ser bastante generosas."

 

 

Da Capo – Os palcos são diferentes? Há vários tipos de público?

DC - Sim, existem algumas diferenças. Às vezes tem a ver com a exposição que as pessoas têm à música clássica. Quando estão menos expostas à música, as pessoas podem ser mais entusiastas nas suas reacções. Depois há as próprias diferenças culturais dos públicos. Por exemplo, nos Estados Unidos aplaudem, normalmente, muito menos tempo do que cá em Portugal mas são capazes de se levantarem logo que acaba o concerto se tiverem gostado. Até se riem no fim de uma peça mais efusiva.

As salas variam muito, essencialmente na acústica e na qualidade dos pianos. É a nossa maldição de pianistas termos de tocar sempre num instrumento que não conhecemos e que, muitas vezes, não está nas melhores condições. Temos que ser camaleões e adaptarmo-nos a estas circunstâncias.

 

Da Capo - Que diferenças notas nos Estados Unidos em relação a Portugal?

DC - A cidade onde estive, Lawrence, no centro dos EUA, está situada no Estado do Kansas que é muito conservador. É uma cidade pequena, universitária, mas além do Departamento de Música da Universidade e da temporada do Lied Center não há muita coisa a acontecer ao nível da música clássica. Quando estive lá complementava a minha sede de cultura com viagens a Kansas City, onde vão grandes artistas tocar.

O mecenato é muito forte nos EUA. Há a tradição de as pessoas darem donativos para os artistas e entidades artísticas e costumam ser bastante generosas. As orquestras americanas têm muito pouco ou nenhum apoio do Estado e o mecenato é premiado com redução de impostos, ou seja, quem faz mecenato praticamente não paga impostos.

 

Da Capo – O mecenato poderia ser uma solução para os problemas que afectam a música portuguesa?

DC - Sim, se houvesse essa possibilidade de apoiar as artes, penso que só se ganhava se houvesse mais flexibilidade fiscal como contrapartida.

Conheço um casal amigo nos EUA, o Dave e Gunda Hiebert, que financia o departamento de piano da Universidade, dá bolsas aos alunos e também financia concertos de música clássica. São pessoas excepcionais.

 

 

Os cachets baixaram de tal forma que quase não vale a pena tocar. (...) Ainda há pouca aposta nos novos valores portugueses, o que é muito triste.

 

 

Da Capo – O que achas do panorama da música erudita em Portugal?

DC – As coisas estão muito paradas. Toda a gente sente isso, há pouca dinâmica, pouco dinheiro, e também algum aproveitamento por parte das entidades promotoras de concertos. Tem que se tentar contornar porque há uma sede de cultura por parte das pessoas, mas por outro lado, os artistas não podem fazer as coisas de graça. Os cachets baixaram de tal forma que quase não vale a pena tocar, se considerarmos o número de horas de trabalho que a preparação de um concerto por um artista escrupuloso exige.

Actuar num concerto é um serviço artístico, mas ainda existe a mentalidade de não se reconhecer o trabalho de um músico, de um artista em geral quando comparado com outras profissões. A situação económica e financeira não ajuda mas também pode servir de justificação para tudo. Não deixa de ser contraditório com a situação de crise financeira actual que as entidades portuguesas que promovem concertos pareçam preferir contratar músicos vindos de fora a contratar músicos portugueses de igual valia artística, pagando cachets mais caros.

Ainda há pouca aposta nos novos valores portugueses, o que é muito triste.

 

Da Capo – Que soluções sugeres?

DC – Há pouca sensibilidade por parte da classe política, sensibilidade social, cultural, e isso reflecte-se em tudo.

Por outro lado, os músicos, como professores, devem incutir nos seus alunos o gosto pela música, pois isso, a longo prazo, pode ajudar a criar público, além de contribuir para uma formação melhor do indivíduo em termos humanos.

Na tentativa de arranjar mais concertos, de criar mais dinâmica na vida cultural, a solução pode passar por arranjar projectos mais originais, mais próximos do público.

 

 

"parece que não temos país para absorver esses músicos, todos os talentos que temos… muita gente está a emigrar"

 

 

Da Capo - A massificação do ensino e a proximidade com os principais centros culturais da Europa tem sido fundamental na elevação da qualidade dos músicos portugueses?

DC – Sim, mas parece que não temos país para absorver esses músicos, todos os talentos que temos, o que é triste… muita gente está a emigrar e outros tantos têm esse pensamento. Eu também penso nessa possibilidade. Gosto muito de Portugal e gostava de ter condições para ficar cá.

 

Da Capo – Que conselhos tentas passar aos teus alunos?

DC – Mesmo tendo pouco tempo de aulas com os alunos, é importante incutir o gosto pela música, por ouvir gravações, falar de música sem ser apenas ao nível técnico - é importante ligar as duas coisas., porque uma não vive sem a outra.

 

Da Capo - Próximos projectos...

DC - Gosto bastante de fazer música de câmara, gostava também de tocar mais com orquestra mas não há grandes oportunidades. Foi muito bom tocar com a Orquestra Sinfónica Portuguesa e com o Paulo Oliveira, o Concerto para 2 Pianos de Poulenc, dirigido pelo Pedro Neves. Infelizmente, não há continuidade…

Fiz também recital a solo para o programa Euroclassical, que é uma rede de cooperação europeia de escolas de música de topo que visa apoiar alunos e ex-alunos nas suas carreiras profissionais. Apresentei a suite Goyescas de Enrique Granados na sua versão integral, acompanhado de projecções das gravuras de Goya que inspiraram esta obra e por um comentário introdutório. Foi em Janeiro deste anos no Teatro Helena Sá e Costa. O recital foi filmado e  estádisponível no site da Euroclassical lá para Setembro de 2015: http://www.classicalplanet.com/webeuroclassical/interpretes/

Espero repetir este programa das Goyescas no ano de 2016, aquando dos 100 anos da morte de Granados, e em 2017, aquando dos 150 anos do seu nascimento.

Há também a possibilidade de voltar aos Estados Unidos para mais uma tournée a dois pianos From Fado to Tango, juntamente com Evangelos Spanos.

Queria referir que o meu site pessoal estará pronto em breve, mas aproveito para deixar a minha página do Youtube: https://www.youtube.com/user/danfilcunha/videos. Deixo também a playlist de vídeos a dois pianos do meu duo com o Evangelos Spanos: https://www.youtube.com/playlist?list=PL94BDA2B663C04494

Edição Impressa

Um ano depois, a história actual da música portuguesa confirma os nossos melhores augúrios. Melhores no sentido da qualidade, do talento e trabalho confirmados. Foi notável o número de portugueses que se revelou em 2014, seja ao receber prémios em concursos, seja ao ganhar o tão desejado lugar numa orquestra. Os músicos portugueses estão a provar que merecem estar também no panorama da música internacional. As sementes estão a dar frutos. O que acontecerá aos frutos que crescem nas árvores das nossas escolas é outra história, com augúrios bem mais sombrios.

Nesta segunda edição fomos ao encontro das sementes lançadas por António Saiote, quando regressou de Paris e Munique disposto a revolucionar o Clarinete em Portugal. Da escola de Saiote saíram demasiados talentos para caber nesta edição, por isso optamos por procurar alguns dos seus antigos alunos que lançam hoje as suas próprias sementes nas escolas superiores do país: Nuno Silva (Metropolitana), Carlos Piçarra Alves (ESART), Nuno Pinto (ESMAE) e Luís Carvalho (Universidade de Aveiro). A prova do futuro promissor destas novas sementes está no elevado número (só em 2014) de jovens clarinetistas laureados em concursos internacionais. E não fosse também o vencedor do Prémio Maestro Silva Pereira/Jovem Músico do Ano, Horácio Ferreira, igualmente clarinetista!

Do passado, do presente e também sobre futuro, ouvimos António Pinho Vargas, que em 2014 viu o seu Magnificat distinguido pela Sociedade Portuguesa de Autores e as suas obras Requiem (2012) e Judas (2002) editadas pela Naxos.

Para o futuro chegam-nos promessas da Orquestra Geração e da Jovem Orquestra Portuguesa. Da nova geração de cantores que têm passado sobretudo pela Guildhall School of Music and Drama (Londres), aqui representada por Bárbara Barradas e Inês Simões. E, claro, dos laureados do Prémio Jovens Músicos!

Mas já no presente temos a confirmação do sucesso internacional de Abel Pereira, que depois de nos orgulhar com o lugar (ainda que à experiência) de 1º Trompa na de Berlim, surpreende-nos ao conquistar a cadeira de chefe de naipe da Orquestra de Washington DC. Também na cadeira de chefe de naipe, mas na Orquestra de Munique, está o violetista Jano Lisboa. Em Dresden está Bruno Borrralhinho (violoncelo). O CD de Rui Lopes com a English Chamber Orchestra está a ser muito aclamado pela crítica internacional. E podemos continuar…

Voltamos porque os nossos músicos merecem ser conhecidos, valorizados, aplaudidos e, antes de mais, escutados!

 

Pontos de Venda

Online:

Paleta dos Sons

 

Lojas:

Ava Musical Editions

Rua Nova do Loureiro, 14

1200-295 Lisboa

 

D. Caeiro

Av. Júlio Dinis, 14 (Ao Campo Pequeno)

Av. António Serpa 3 D,

1050-026 Lisboa

 

Tomás Miranda Luthier

R. dos Poiais de S. Bento, 25

1200-345 Lisboa

 

Ritmos e Minúcias

Santa Maria da Feira

http://www.ritmoseminucias.com/

 

Paleta dos Sons

Praceta Soeiro Pereira Gomes, 76

4500-216 Espinho

 

Mimúsica

Travessa da Fonte Velha, nº 35

4300-202 Porto

 

Amadeus, Instrumentos Musicais

Rua José Rodrigues, Lote 5

4935-171 Darque

Viana do Castelo

 

Escolas:

Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga

Dias da Música 2015

É precisamente com a consciência do enorme poder da música na Sétima Arte, que o CCB decide dedicar os Dias da Música em Belém de 2015 à música no cinema, sob o tema Luzes, Câmara… Música!

Um pretexto para, através da Sétima Arte, se revisitar toda a grande história da música e alargar o leque das ofertas musicais, da música erudita ao jazz, do fado à música latino-americana, passando pelos grandes temas que, tendo sido apresentados no cinema, se tornaram verdadeiros fenómenos de popularidade. Tudo com um enfoque especial para a relação entre a música e a imagem.

De 24 a 26 de abril de 2015, concertos, oficinas, conferências e visualização de filmes, artistas de primeira linha dos panoramas nacional e internacional, jovens intérpretes e até compositores vão levar-nos numa viagem pela História do Cinema através da sua música, sempre no clima de festa que caracteriza os Dias da Música.

 

Ver programa completo

Joana Carneiro

Joana Carneiro é, desde janeiro de 2014, Maestrina Titular da Orquestra Sinfónica Portuguesa. Em 2009 foi nomeada Diretora Musical da Sinfónica de Berkeley. É também Maestrina Convidada da Orquestra Gulbenkian e Diretora Artística do Estágio Gulbenkian para Orquestra (Orquestra de Jovens) da Fundação Calouste Gulbenkian. Procuramos Joana Carneiro a propósito do concerto do passado dia 8 Março, no grande auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, onde dirigiu a Sinfonia n.º 3 em ré menor, de Gustav Mahler, interpretada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, a meio-soprano María José Montiel, o Coro do Teatro Nacional de São Carlos e o Coro Juvenil de Lisboa.

 

Da Capo (DC): Porquê a 3ª Sinfonia de Mahler? E porquê Kodo Yamagishi, Coro Juvenil de Lisboa e Maria José Montiel?

Joana Carneiro (JC): Está relacionado com uma estratégia de programação em geral. Enquanto eu estiver com a orquestra gostava de passar algumas peças do grande repertório sinfónico. No ano passado fizemos a segunda de Mahler também com a Maria José Montiel e correu muito bem e, por isso fazia sentido convidá-la de volta.

E, continuando este ciclo de sinfonias de Mahler, que eu espero continuar nas próximas temporadas, fez sentido ser a terceira até porque tem a ver com o coro feminino disponível. O Coro Juvenil de Lisboa é um coro que também está ligado ao Teatro Nacional de São Carlos e, portanto, fazia sentido juntar estas forças todas para fazer a 3ª sinfonia de Mahler.

Além de que, como peça de repertório sinfónico é uma belíssima peça, cheia de otimismo e que fala da humanidade e, também dos anjos e da vida celestial e da vida terrena.

 

DC: Podemos esperar uma integral das sinfonias de Mahler nas próximas temporadas da OSP?

JC: [risos] Sim, distribuídas por temporadas, espero que sim. Espero que, enquanto eu estiver com a OSP, possamos continuar este ciclo que não será ao longo da temporada mas ao longo de um espaço de tempo.

 

 

“[A OSP] É uma orquestra cheia de músicos muito bons e com uma atitude ótima perante a música”

 

 

DC: Como tem sido a sua experiência como maestrina titular da OSP?

JC: Tem sido um período de grande satisfação, em primeiro lugar. De grande satisfação no meu trabalho com os músicos. É uma orquestra cheia de músicos muito bons e com uma atitude ótima perante a música, ou seja, sempre que trabalho com a orquestra tenho sentido uma vontade enorme de trabalhar, de fazer boa música e coisas bonitas. Sempre com uma atitude construtiva, portanto a minha primeira resposta é que é um trabalho de grande satisfação, tem sido um período muito bom da minha vida em termos de relação com músicos e com um grupo que quer fazer coisas boas ao mais elevado nível.

Tem sido também um período de aprendizagem porque quando um maestro chega a uma orquestra é evidente que aprende quais são os valores da orquestra, o que é que a orquestra está a fazer e só a partir daí é que pode construir um plano a médio e longo prazo que vá ao encontro daquilo que são os ideais da orquestra. Portanto, tem sido um período de aprendizagem nesse sentido.

Eu estou cá há um ano, sendo que comecei muito perto da minha nomeação, portanto tinha um tempo limitado para estar junto da OSP. Este temporada ainda é híbrida nesse sentido porque já tínhamos a temporada toda programada. Na próxima temporada terei uma vida mais sediada em Lisboa para estar mais próxima da OSP.

 

DC: O que a tem surpreendido mais na OSP?

JC: Eu sempre tive um enorme respeito e uma enorme admiração pelos músicos desta orquestra e pelo trabalho que a orquestra e a instituição têm desempenhado ao longo do tempo, até porque passaram por tempos difíceis e conseguiram sempre manter uma programação e manter a sua atividade. 

 

 

“o essencial é garantir que a orquestra [OSP] tenha uma temporada regular, de elevada qualidade, anunciada atempadamente”

 

 

DC: Quais as maiores dificuldades que enfrenta na OSP como maestrina?

JC: Nós vivemos tempos que não são fáceis para o mundo da música clássica, não falo só de Portugal, falo de todo o mundo. Nós vemos constantemente orquestras com problemas financeiros que, evidentemente, depois se traduzem em problemas de outra natureza.

Eu diria que o maior desafio e a vontade que eu tenho enquanto maestrina titular da OSP é garantir um plano a médio e longo prazo para a Orquestra, ou seja, que a Orquestra e que a nossa Instituição tenham uma visão para o futuro, que seja clara com aquilo que nós queremos fazer em termos de repertório, construção de orquestra, renovação da orquestra porque começamos também a fazer concursos este ano: concursos para concertino, viola, violoncelo assistente, 1º oboé. Tem de haver uma estratégia de como é que a Orquestra se vai renovar e colmatar algumas falhas que tem em determinados naipes.

Digamos que o maior desafio para mim, neste momento, é ter a certeza que isso vai acontecer, criar uma estrutura e um plano que permita que a orquestra continue a crescer e florescer.

 

DC: Que projetos gostava de realizar no Teatro Nacional São Carlos?

JC: Eu tenho muitos projetos em termos pessoais, em termos de óperas, em termos de colaboração com cantores, encenadores, artistas, convidados, tenho muitos sonhos. Mas eu acho que o essencial é garantir que a orquestra tenha uma temporada regular, de elevada qualidade, anunciada atempadamente, portanto, este é o grande sonho, e que isso permaneça a longo prazo.

É isso que nós precisamos neste momento, ter essa estabilidade artística, é para isso que nós estamos a trabalhar. Mas é evidente que tenho muitos sonhos, como fazer mais sinfonias de Mahler, de Bruckner.

 

 

“a orquestra terá a oportunidade para sair de Lisboa e, como o nome indica, ser uma orquestra portuguesa e não só de Lisboa”

 

 

DC: No fundo ser uma orquestra que seja de uma importância igual às orquestras estatais de outros países, possivelmente…

JC: Sim, mas eu creio que esta orquestra tem uma enorme importância no nosso país.

 

DC: Importância tem, mas do ponto de vista da temporada, da sua regularidade, de atuar nos grandes palcos, se calhar não só da cidade de Lisboa…

JC: Claro, e sim, eu espero que na próxima temporada já sairmos de Lisboa e, se tudo correr bem, com a temporada que estamos a preparar, a orquestra terá a oportunidade para sair de Lisboa e, como o nome indica, ser uma orquestra portuguesa e não só de Lisboa. É esse também um dos sonhos, por a orquestra a tocar noutros palcos, colaborações com outros teatros. Digamos que são sonhos.

Há peças de música em particular que eu gostaria de fazer com a orquestra, mas eu acho que a mensagem mais importante é realmente que a orquestra tenha esta estabilidade artística e também uma visibilidade/projeção grande junto do nosso público.

 

 

“[o que] tenho que fazer é ter uma presença ainda maior dos compositores portugueses nas nossas temporadas”

 

 

DC: Tem algum cuidado em inserir compositores e intérpretes portugueses na programação da OSP? Teresa Palma Pereira, por exemplo, vai tocar a solo com a OSP em Maio sob a direção de Pedro Neves.

JC: Eu creio que existe essa preocupação, mas tenho que trabalhar cada vez mais nesse sentido. Temos tido a presença de alguns compositores portugueses, alguns maestros portugueses, aqueles que estão a trabalhar em Portugal, cantores, solistas. Mas aquilo que eu, como maestrina titular da OSP, sinto que tenho que fazer é ter uma presença ainda maior dos compositores portugueses nas nossas temporadas. É um trabalho que continuo a fazer e a investigar para não descurar esse lado que acho essencial.

 

DC: E de jovens compositores portugueses? Parece não haver muita aposta por parte do Teatro nos jovens talentos, como há noutras orquestras.

JC: Eu tenho trabalhado muito com jovens compositores portugueses e espero conseguir surpreendê-los daqui a muito pouco tempo. Porque isto é realmente um dos objetivos.

 

DC: Por exemplo, a Orquestra Gulbenkian que faz…

JC: Sim, sim, sim. Eu trabalhei muitas vezes nos workshops com os jovens portugueses. Eu espero que, no sentido da sua pergunta, o possa surpreender positivamente num futuro muito próximo.

 

 

“a faceta sinfónica e a faceta lírica da orquestra vão estar as duas muito bem representadas na temporada 15/16”

 

 

DC: Como seria a OSP ideal, “perfeita”?

JC: [risos] Essa é uma pergunta muito difícil de responder, porque nós trabalhamos com um ser vivo ou com o ser que é. Creio que a orquestra, bem, no fundo foi aquilo que eu lhe disse. Uma orquestra que tivesse a segurança que nós merecemos e nós precisamos.

A OSP é uma orquestra de enorme qualidade. O ideal seria ter a estabilidade artística para programarmos a médio e longo prazo e a projeção para o público que merece. É isso que eu sinto que seria a OSP ideal. Era isso que nós precisamos.

 

DC: Já pensou na próxima temporada da OSP? Pode adiantar-nos alguma coisa?

JC: Em termos dos títulos líricos ainda não posso, infelizmente. Mas posso dizer que vamos continuar a nossa relação com CCB e aprofundá-la. Temos bastantes concertos e projetos para além de concertos sinfónicos com o CCB, porque sentimos que o CCB é o palco natural para a formação da orquestra enquanto orquestra sinfónica.

Fico muito contente por esta generosidade e abertura grande em termos artísticos do CCB em relação a orquestra. Por isso, posso-lhe dizer  que a temporada 15/16 vai refletir esse estreitar e aprofundar de relação com CCB. E, nesse sentido teremos, penso eu, uma atividade lírica e uma atividade sinfónica muito boas e muito claras, ou seja, a faceta sinfónica e a faceta lírica da orquestra vão estar as duas muito bem representadas na temporada 15/16.

 

 

“a oitava de Mahler seria um desafio, não sei se alguma vez foi tocada ao vivo em Portugal”

 

 

DC: Sabemos que esteve quase acertada a integral dos poemas sinfónicos de Strauss numa temporada anterior, podemos esperar por essas grandiosas obras no futuro?

JC: Foi antes de eu chegar, no ano Strauss. Podemos esperar por Strauss, Bruckner, Mahler, Chostakovitch. Penso que vamos continuar a fazer esse tipo de repertório porque temos uma orquestra que toca muito bem esse repertório, está motivada para tocá-lo, tem um número de músicos suficiente e é a sua natureza sinfónica, o seu repertório natural.

 

DC: Quais são as obras que seriam um grande desafio tanto para si como para a OSP?

JC: Bom, não sei. Nós hoje falávamos de fazer uma oitava de Mahler, por exemplo. Acho que é um sonho a ter e fazer aqui no Grande Auditório do CCB. É uma das peças que eu gostaria muito de fazer, mesmo a oitava de Bruckner é outra peça que eu acharia que seria um desafio muito bonito para a orquestra. Mas há tantas peças do repertório que eu poderia nomear.

Mas a oitava de Mahler seria um desafio, não sei se alguma vez foi tocada ao vivo em Portugal.

 

 

"no futuro, vou ter de organizar as coisas de uma forma que me permita também ter uma vida pessoal"

 

 

DC: Como consegue conciliar as tarefas diretora musical da Orquestra Sinfónica de Berkeley, maestrina principal da OSP e maestrina convidada da Orquestra Gulbenkian, onde também é diretora artística do projeto para jovens Estágio Gulbenkian para Orquestra?

JC: E acresce que, felizmente, ainda faço concertos como convidada. Estive este ano em Londres, na English National Opera, agora estou a fazer uma ópera em Gotemburgo. Este ano tem sido bastante preenchido. Esta minha temporada, talvez tenha sido a mais complicada.

Na vida de um músico, maestro ou solista, normalmente, tudo é programado com bastante antecedência e aquilo que estou a fazer para as próximas temporadas é ter as coisa organizadas de uma forma que me permita, realmente, dirigir como maestrina convidada e viajar menos para os outros países, para me concentrar mais nas orquestras onde eu tenho os lugares que descreveu. Neste momento é preciso muita organização, concentração, muito método e perceber que, no futuro, vou ter de organizar as coisas de uma forma que me permita também ter uma vida pessoal [risos] que eu acho que sacrifiquei.

 

DC: Consegue ter tempo para a sua vida pessoal? Até que ponto a música compensa os sacrifícios que faz por esta profissão?

JC: Uma carreira na música e na vida em geral é uma maratona. Agora estou numa fase em que as coisas estão um bocadinho mais aceleradas. Mas a curto prazo vai ser submetida a uma desaceleração porque preciso também de cuidar da minha vida pessoal, tem a ver com fases.

Estes últimos seis meses foram mais complicados em termos da conciliação da vida profissional com a vida pessoal, mas os próximos seis meses vão ser muito diferentes, é uma questão de tempo.

Há fases de maior e menor trabalho fora, é uma questão de gestão familiar e, neste caso, de ter o meu marido que participa muito nas decisões que são tomadas.

 

 

“Portugal tem ótimas escolas, sem dúvida. E não é uma opinião, a prova disso são os músicos que nós temos lançados pelo mundo fora”

 

 

DC: O que é preciso para se ser um bom maestro? E um bom líder de grupo/orquestra?

JC: Para ser um bom músico e um bom maestro em geral tem que se conhecer a música que se está a tocar e a dirigir. Tem que se ter um conhecimento e uma visão daquilo que se quer para uma peça e saber transmitir isso ao longo de um período de ensaios para que a mensagem do compositor seja transmitida.

O maestro tem que encontrar uma forma física e verbal de conseguir inspirar os músicos. Eu acho que um bom maestro é isso, sabe o que está a fazer e sabe transmitir e inspirar os músicos para tocar ao seu mais elevado nível.

Ser maestro titular de uma orquestra é outra questão. Existem responsabilidades acrescidas, tem que se ter uma visão para orquestra do ponto de vista do crescimento artístico, tem que se planear, ter em conta para onde quer ir com a orquestra e programar de acordo com isso, ter a noção do lugar dessa orquestra na sociedade em que está inserida. Um maestro titular de orquestra tem que ter uma série de características e funções que um maestro que não é principal não terá.

Portanto, é importante que um bom maestro titular seja alguém que consiga ter uma visão clara daquilo que quer num momento e, num momento futuro, consiga traduzir esse plano e coloca-lo em prática.

 

DC: Na sua opinião, Portugal tem condições para formar bons maestros?

JC: Sem dúvida. O nosso ensino musical é de um ótimo nível, nós temos formado músicos belíssimos, não estamos só a falar de maestros, a qualidade musical é inequívoca. O programa que existe na Metropolitana, o curso superior de direção de orquestra é um curso completíssimo. São raras as escolas de direção de orquestra pelo mundo fora que têm uma estrutura tão completa e uma estrutura curricular como o curso que eu fiz e maestros como Pedro Neves, por exemplo, que trabalha connosco. Tem um professor extraordinário que é o maestro Jean-Marc Burfin a liderar esse curso de direção de orquestra e que tem formado, penso eu, maestros de enorme qualidade. Ainda esta semana tivemos como assistente na OSP o Jan Wierzba que é um excelente maestro, que também veio da Metropolitana e começa a ter uma carreira muito boa, a fazer coisas muito boas.

Acho que Portugal tem ao nível do ensino de conservatório e ensino superior ótimas escolas, sem dúvida. E não é uma opinião, a prova disso são os músicos que nós temos lançados pelo mundo fora.

 

 

“preocupa-me quando as pessoas não têm as condições para fazer e ensinar música”

 

 

DC: Como encara toda a polémica em torno da Escola de Música do Conservatório Nacional? Na verdade, muitos dos grandes músicos portugueses começaram nessa instituição.

JC: Eu vou-lhe ser muito sincera, não estou muito próxima deste assunto porque eu nos últimos seis meses estive muito pouco tempo em Portugal, ou seja, tenho acompanhado de fora. É evidente que me preocupa quando as pessoas não têm as condições para fazer e ensinar música. Isso preocupa-me imenso. Acho que uma instituição, como disse, que formou alguns dos nossos melhores músicos, merece ter boas condições para trabalhar.

 

DC: Qual foi o momento que marcou definitivamente a sua carreira como Maestrina e que a fez dar o “salto”?

JC: Eu diria que em primeiro lugar o facto de existir um curso de direção de orquestra em Portugal, isso foi uma condição absolutamente essencial.

 

DC: Mas é um curso relativamente recente…

JC: Eu entrei há 20 anos para este curso, por isso não é assim tão recente. Se não existisse este curso em Portugal, não sei se teria seguido esta profissão, provavelmente seria médica porque comecei a estudar medicina ao mesmo tempo.

Outros momentos importantes, acho que foi o facto de ir estudar para fora. Aos 21 anos, ter ido estudar para fora foi determinante para ter uma carreira internacional. O meu primeiro emprego foi nos EUA. E, o facto de ter feito algumas masterclasses, houve uma masterclasse em particular com o maestro Michael Tilson Thomas que foi um momento de viragem claramente na minha carreira. Foi no ano 2000 em Miami com a New Orleans Symphony. A partir daí fui convidada para vários concursos, maestro assistente de orquestra e para outras masterclasses com maestros muito bons. Eu diria que esse momentos foram muito importantes.

 

 

“A música é uma arte para nós exprimirmos quem somos como seres humanos. É a forma mais simples e completa de definir aquilo que fazemos”

 

 

DC: Irá dirigir alguma ópera no Teatro Nacional de São Carlos?

JC: Sim, este ano vou fazer o Rake’s Progress do Stravinsky e na próxima temporada, pelo menos uma produção vou fazer. Aliás, é um campo da minha área de direção de orquestra, a minha atividade é maioritariamente sinfónica mas este ano fiz duas óperas fora de Portugal, uma em Londres e outra na Suécia. Portanto, é uma vertente que eu também valorizo muito e que farei com a OSP. Este ano faço uma ópera e depois um bailado.

 

DC: Não pode dizer qual?

JC: Ainda não, ainda não. [risos] Mas já sei qual é que é.

 

DC: Segundo a sua perspetiva, como define música?

JC: [risos] O que é a música? Sabe que por acaso eu acho que a música é uma coisa muito simples. Eu não sei se lembram quando nós começávamos a estudar música, aos seis anos, davam-nos duas páginas de Iniciação Musical e nós tínhamos que fazer um exame sobre essas páginas, decorar uma série de definições e a primeira definição era (nunca mais me esqueci): “Música é a arte de exprimir sentimentos e despertar sensações através de sons”. E, para mim, a música é só isso e é tudo isso. É uma arte para nós exprimirmos quem somos como seres humanos. É a forma mais simples e completa de definir aquilo que fazemos.

 

 

“Tocar um instrumento é uma coisa que tem muito de intelectual mas, ao mesmo tempo, temos de nos libertar dessa parte técnica e deixarmo-nos levar pela emoção”

 

 

DC: O que sente quando está em palco?

JC: Muitas coisas, muita emoção como é evidente. Quando se dirige o último andamento desta sinfonia de Mahler é impossível uma pessoa não ficar arrepiada, mesmo quando se está a tocar. Os músicos também me disseram que ficam emocionadíssimos quando tocam esta música. Mas é evidente que há muitas outras sensações. É preciso uma concentração constante, um maestro e os músicos têm que estar concentrados naquilo que estão a fazer para o fazer excelentemente, mas temos que estar já no que vem a seguir e como é que cada uma das secções se relacionam.

Apesar de existir muita emoção é um trabalho muito racional, de gestão de tempo, daquilo que se está a ouvir, tem que se reagir àquilo que se está a ouvir e a partir desse som saber para onde vamos e como vamos lá chegar. Há uma dose muito grande de intelecto, às vezes, mais do que de emoção.

Como nós depois nos deixamos levar pela emoção? Somos músicos, não é? Não somos intelectuais e qualquer músico dirá isso. Tocar um instrumento é uma coisa que tem muito de intelectual, de destreza física, saber onde se põe o dedo, a afinação, de estar a ouvir, de estar a tocar. Tem muito de intelectual mas ao mesmo tempo temos de nos libertar dessa parte técnica e deixarmo-nos levar pela emoção.

 

DC: Enquanto está a dirigir pensa como o público estará a absorver essa música transmitida por si e pelos músicos da orquestra?

JC: Só estou concentrada na música. é evidente que nós fazemos o que fazemos para o público e só assim é que faz sentido porque tudo é partilhado com o público mas quando estou a dirigir um concerto ou quando estou a trabalhar com a orquestra aquilo que penso é na música pura e simplesmente. Quer dizer, espero que esteja agradar o público mas é um sentimento em geral não é um sentimento que tenha em conta enquanto estou a fazer o meu trabalho.

 

 

“todos nós, músicos, vivemos para trazer essa felicidade pois as palmas são sinónimo de felicidade, de que alguém se sentiu bem por ouvir a música”

 

 

DC: Já estreou muitas obras? Como é o tocar algo que nunca foi ouvido?

JC: Já, felizmente. A minha preparação é idêntica a uma obra que já tenha sido tocada ou mesmo gravada. A grande vantagem é que, ao contrário de Mahler que não está entre nós, tenho acesso ao compositor e, portanto, qualquer dúvida consigo falar com ele. É uma preparação em que o compositor tem, muitas vezes, um papel importante.

 

DC: Qual é a sensação de receber palmas no fim de um concerto?

JC: É muito boa e creio que todos nós, músicos, vivemos para trazer essa felicidade pois as palmas são sinónimo de felicidade, de que alguém se sentiu bem por ouvir a música, se sentiu mais feliz, mais enriquecido com aquilo que nós estamos a fazer e, nesse sentido, é uma sensação de que cumprimos o nosso dever.

 

 

“gostaria muito [de ficar na OSP] porque encontro uma enorme qualidade humana e musical que não tem limites, que pode ir a qualquer lado, chegar àquilo que sonhar e quiser"

 

 

DC: Até quando gostaria de ficar à frente da OSP?

JC: [risos] Uma data especifica? Eu não lha sei dizer. Eu gostaria de ficar com a orquestra algum tempo, acho que para fazer sentido e para conseguirmos dar os passos que creio e penso que todos queremos que a orquestra dê. Gostaria de ficar algum tempo, alguns anos, não sei ao certo quantos.

 

DC: Uma Berliner tem maestros por largos períodos e a OSP não teve maestros titulares por longos períodos…

JC: Três anos. Mas digo-lhe com sinceridade: sinto-me muito bem com a orquestra e gostava muito de ficar algum tempo. Estou em Berkeley desde 2009 e tenho contrato até ao final de 2017. Sinto agora, ao fim de cinco/seis anos, que comecei a receber os frutos dessas sementes que plantei. E creio que este período de oito/dez anos é um período em que aquilo que nós idealizamos se começa a realizar porque qualquer plano artístico demora muito tempo e na vida as coisas demoram tempo.

Nós temos uma ideia, conhecemos as instituições e depois é que são plantadas sementes que vão brotando e dando frutos passado algum tempo. Eu dira que em Berkeley começo a ver essa estabilidade e sinto que a orquestra agora está em felicidade de cruzeiro, digamos assim.

Ter um tempo seria bom, gostaria muito porque encontro uma enorme qualidade humana e musical que não tem limites, que pode ir a qualquer lado, chegar àquilo que sonhar e quiser.

Portanto, gostaria de ficar. Tenho contrato até ao final de 2016.

 

 

“o que desejo para esta orquestra é que tenha uma ótima temporada, anunciada com tempo, uma ótima projeção junto do público e um plano artístico a médio e longo prazo”

 

 

DC: Nota-se nos últimos anos que na OSP entram e saem maestros com diferentes ideias, criando incerteza e instabilidade nos músicos… É o nome da orquestra está em jogo…

JC: Mas foi aquilo que eu lhe disse, o mais importante é a estabilidade artística é isso o que nós desejamos para qualquer orquestra, mas o que desejo para esta orquestra é que tenha tudo aquilo que merece, que tenha uma ótima temporada, anunciada com tempo, uma ótima projeção junto do público e um plano artístico a médio e longo prazo.

 

DC: Vai ser para breve o anúncio da próxima temporada?

JC: Assim que for possível, mas espero que seja atempadamente, assim que esteja completa e tudo alinhavado anunciaremos com certeza.

 

Entrevista de João Vidinha e Maria Fernandes

 

GRANDE ENTREVISTA ANTÓNIO PINHO VARGAS

A sua obra Magnificat (2013) para Coro e Orquestra recebeu o Prémio Autores SPA 2014 na categoria de música erudita. Na temporada em que é Artista Associado à Metropolitana, foi lançado o CD Naxos com as suas obras Requiem (2012) e Judas (2002), interpretadas pelo Coro e Orquestra Gulbenkian, sob direcção de Joana Carneiro e Fernando Eldoro. António Pinho Vargas é mais do que um compositor, sociólogo ou professor. É o mestre de todos nós.

 

Da Capo (DC) - A sua peça Magnificat (2013) para Coro e Orquestra, recebeu o Prémio Autores SPA 2014 na categoria música erudita. Que significado tem para si este Prémio?

António Pinho Vargas (APV) - Qualquer prémio deve-se agradecer, em primeiro lugar. Foi uma satisfação. Eu disse na cerimónia, que teve lugar nos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Lisboa, que agradecia, que ficava muito contente, mas também disse que ficaria contente se o prémio contribuísse para que eu ouvisse uma vez mais a peça antes de morrer. Não foi uma coisa muito simpática de se dizer naquela circunstância. Mas muitas outras pessoas que receberam prémios naquele dia disseram coisas pouco otimistas, críticas do actual estado das coisas. Considerei importante dizer na presença de muita gente de outras áreas artísticas que, a situação da minha obra, que é a de todo um campo, era aquela.

Neste caso, sei particularmente do que estou a falar, tal como sei que não tenho muitas razões de queixa, comparado com outros colegas.

Mas nós todos sabemos muito bem que a regra é que as peças sejam tocadas uma ou duas vezes e, quando já é a segunda, é com alguma sorte. No caso do Magnificat foi tocado as duas vezes associadas à estreia.

Nós sabemos que um dos problemas principais que afeta a música portuguesa é a reposição de peças. Claro que é mais fácil tocar várias vezes peças se forem, por exemplo, música de câmara, para solistas, orquestras de cordas, do que se forem peças de grandes dimensões que, de uma certa maneira felizmente, é o que eu tenho feito mais ultimamente mas por isso pago esse preço correspondente. Posso dizer-lhe que o mesmo se aplica ao Requiem e é válido igualmente para o Judas, o Magnificat e as quatro óperas, mas o Requiem tem o maior efetivo instrumental, repor esta peça noutra sala em Portugal é muito difícil porque não temos salas com capacidade para abarcar tantas pessoas em palco. Mesmo na FC Gulbenkian não será provável a reposição por outro tipo de razões.

Quanto à forma como trabalho posso dizer que nos últimos quinze ou vinte anos componho cada vez mais livremente. Procuro uma ideia inicial, tudo decorre desse gesto primeiro, que abre um horizonte e o que se segue não tem interditos a não ser aqueles que eu próprio defino para cada obra. Todas as questões de estilo, de linguagem musical obrigatória ou de "necessidade histórica" do material me são completamente estranhas. Conheço bem a origem histórica dos interditos, fizeram sentido no passado, mas não creio que façam hoje. Conheço os conceitos, sei o quer dizer modernismo, pós-modernismo, etc., mas, em nenhum momento, nos últimos anos, esses conceitos me aparecem ou me perturbam durante a composição. Estou a criar um discurso, uma narrativa musical e tenho à disposição objetos de todo o tipo. O mais importante é ser fiel à ideia daquela obra particular. Todas as obras são singularidades.

Regressando ao social, digamos, a situação dentro do país tem aquele problema - a não reposição - e, fora do país, há a questão de fundo que, enfim, não está exatamente no mesmo patamar de quando eu terminei a minha tese em 2009. Há pequenos sinais de melhorias em circuitos secundários, o que é positivo, mas há um problema nas grandes salas. Portugal é uma periferia, não está inscrita nas histórias da música canónicas que existem e, infelizmente, isso não se trata de uma invenção da minha parte. Se lermos os 5 volumes da História da Música do Taruskin, encontra-se lá o nome de um português, D. João V e isto é um facto verificável. Também na história do velho Grout, que foi o livro pelo qual estudei, a edição de 1983, o mesmo se verifica: D. João V por ter contratado Scarlatti e apenas por isso é que lá está.

 

 

“[Judas] um drama trágico à maneira da antiga tragédia grega”

 

 

DC - Uma das indicações que temos, é que com o Requiem não lhe permitiram usar solistas…

APV - A encomenda era para Coro e Orquestra. Tal como no Judas. Ao longo de várias épocas muitas obras usaram solistas, mas eu nem sequer encarei essa hipótese devido à experiência anterior com o Judas (secundum Lucam, Johannem, Matthaeum et Marcum). Não é crucial nem indispensável.

No Judas os textos pertencem aos quatro evangelistas e foram selecionados por mim enquanto libreto, constituído a partir de várias passagens dos textos, um drama trágico à maneira da antiga tragédia grega. Nelas, de facto, os seres humanos são colocados em situações das quais os deuses gregos, com todos os defeitos e qualidades dos humanos, são os responsáveis pelos desafios que colocam aos humanos, na ignorância das decisões dos deuses. É nesse sentido que falo de um drama à maneira da tragédia grega, com duas personagens principais, Jesus de Nazaré (só depois de ser crucificado é que passou à identificação como Jesus Cristo) e Judas Iscariotes. Por esta razão poderia ter considerado dois cantores masculinos a fazer estes papéis. Mas a hipótese estava fora do orçamento.

 

DC – Como surgiu a ideia de compor Judas?

APV – Foi uma encomenda do Festival de Música Sacra de Viana do Castelo. Isso implicou, em 2002, que o Coro Gulbenkian, tivesse 30 e tal cantores na estreia em Viana do Castelo; quando foi reposto na FC Gulbenkian, em 2004, o Coro passou para o dobro dos cantores. Deslocar um coro e uma orquestra custa dinheiro. A organização do Festival estipulou um orçamento e chegou ao acordo com a FC Gulbenkian e por isso lá foi um coro mais pequeno. Mas foi inesquecível.

Encontrei uma solução dramática: as falas de Jesus de Nazaré e de Judas Iscariotes são sempre apenas vozes femininas. Essa decisão arbitrária marca as duas personagens devido à minha conceção da voz feminina como signo de fragilidade (a voz feminina é muito particular). Na continuação das falas respetivas deixa de ser necessário. A narração dos próprios evangelistas é feita pelo coro completo. Arranjei uma maneira de isolar aquelas intervenções, falas na 1ª pessoa do singular, com as vozes femininas.

Mas é comum noutros contextos. No Magnificat, existem partes só com as vozes femininas, partes só com vozes masculinas, e outras com o coro todo. Nesta obra não há nenhuma associação desse tipo. Faz parte dos dispositivos disponíveis do compositor.

 

 

“Prefiro quem corre riscos do que quem não corre riscos nenhuns”

 

 

DC - Como é que o professor vive com as limitações a nível de orçamento?

APV - Não é isso que me preocupa porque sendo compositor, sou obrigado a encontrar uma solução. Se fossem óperas, por exemplo, seria impossível. Sendo Coro encontrei outras soluções.

 

DC - Em 2012 recebeu o Prémio Universidade de Coimbra, pela sua contribuição para a música contemporânea portuguesa e o Prémio José Afonso pelo disco Solo II. Em que medida estes prémios foram importantes?

APV - O Prémio Universidade de Coimbra foi na 9ª edição. A seguir ao Prémio Pessoa será talvez o prémio mais prestigiado. Apenas mais dois artistas o receberam - os outros premiados foram cientistas, ilustres das ciências humanas, etc. Tive a maior honra em receber esse prémio. Uma das coisas que o reitor da Universidade de Coimbra sublinhou na entrevista em que o anunciou: “ele não é apenas muito bom compositor, não sou eu que o digo, outros o disseram, mas é um homem que além disso pensa a música e pensa a sua condição de compositor”.

Sou obrigado a concordar com esse lado. Já publiquei três livros escrevi bastantes artigos, dei muitas entrevistas, etc. Do ponto de vista simbólico, foi muito importante.

O Prémio José Afonso, tem outro âmbito, foi atribuído a um disco. Encheu-me igualmente de satisfação pela enorme admiração que tenho por José Afonso e pelo seu trajeto de vida, até pelas suas contradições como homem empenhado e, nesse sentido, sujeito a erros, aos erros que todos os que se empenham em determinadas ações políticas de caráter coletivo arriscam. Prefiro quem corre riscos do que quem não corre riscos nenhuns. Portanto, como tenho o José Afonso em grande consideração e admiração, há canções suas que eu conheci com 17, 18 anos e que me ficaram para sempre, foi também uma honra. Foi o penúltimo disco que gravei. Saiu posteriormente um gravado ao vivo em 2009, Improvisações - que passou despercebido - que terá sido o último que gravei a tocar.

 

 

“[a morte] É o nosso destino, quer queiramos quer não, o nosso limite da existência na vida e, por isso é que muitos compositores, mesmo outros não crentes como Ligeti, também escreveram Requiems

 

 

DC - Foi lançado este ano o CD Naxos com as suas obras Judas e Requiem pelo Coro e Orquestra Gulbenkian… chegou a dizer que “Escrever um ‘Requiem’ é, acima de tudo, ‘responder’ à história de numerosas obras do passado”. Este disco é um resumo de tudo o que fez até agora?

APV - Devo dizer que não. O Requiem foi uma proposta minha à Fundação porque há 10 anos que eu não tinha nenhuma encomenda e, face a isso, pareceu-me pertinente escrever a carta com proposta de encomenda para coro e orquestra, na sequência do Judas que tinha sido inesquecível para mim e pelo que ouvi dizer e que me foi dito pessoalmente, para o Coro e Orquestra e em especial, para Fernando Eldoro que dirigiu a estreia e a gravação do CD que foi feita nos concertos de 2004.

Nessa expressão estava a referir-me, especialmente à enorme quantidade de Requiems que existem na história da música ocidental. Risto Nienimen disse-me, na reunião que concretizou o acordo, que considerava importante que os compositores de hoje mostrassem o que têm a dizer sobre temáticas que já serviram para muitos outros nos séculos anteriores. Isto é válido para Requiem, Magnificat mas não para o Judas, que eu saiba é o único que existe (risos). Das outra peças sacras há muitas de facto. Não é um resumo mas é um momento simbólico de cumprimento, de completude de uma vida.

 

DC – Mas o Requiem tem sempre uma inspiração religiosa…

APV - Os textos do Requiem podem-se reduzir a uma frase, de uma ideia central da tradição cristã: “Deus, recebe no teu seio aqueles que vão morrer ou que já morreram”. É uma missa dos mortos. Requiem traduz-se por descanso – “dai-lhes Senhor o eterno descanso”, é uma frase que qualquer pessoa que já foi à missa sabe que é repetida todos os domingos.

Não sendo crente, tive uma educação católica e li a Bíblia seriamente aos 15 anos porque estava em crise de fé. Estas temáticas, na verdade, encerram questões que dizem respeito a toda humanidade e sempre me interessaram desde cedo.

A questão da morte é uma questão existencial fulcral, e nós sabemos desde Heidegger que o homem é um ser-para-a-morte, no final haverá esse horizonte. E, portanto, todas as religiões do mundo que existem atribuem uma enorme importância à questão da morte. É o nosso destino, quer queiramos quer não, o nosso limite da existência na vida e, por isso é que muitos compositores, mesmo outros não crentes como Ligeti, também escreveram Requiems. O Requiem de Ligeti é pequeno com poucos textos, menos que Stravinsky e muito menos que Mozart. Cada compositor estabeleceu historicamente, a sua própria seleção dos textos.

 

 

“é possível fazer música de outra maneira com outros princípios, com outra atitude face a linguagem musical”

 

 

 DC – Ligeti que é um exemplo para si…

APV - Tenho imensa admiração por Ligeti embora não particularmente por essa peça, que me parece uma peça de transição. Mas está presente noutras anteriores nas quais, por vezes, paira a sua sombra; a nossa própria formação e aprendizagem passa por encontrar pontos de referência, modelos. Julgo que um compositor não se consegue encontrar a si próprio sem passar por um trabalho relativamente profundo sobre um modelo, alguém que nos serve de guia, pelas posições que tomou, pela música que fez ou pela sua inquietude, mesmo que depois sigamos caminhos diferentes.

Por exemplo, com 60 anos, Ligeti, mudou de estilo radicalmente com os Estudos para piano. Fiz o curso com Ligeti na Hungria e pude ouvi-lo lá dizer “eu não poderia continuar a escrever música no meu estilo anterior, achei que já tinha feito o que tinha que fazer naqueles pressupostos e não queria continuar a fazer música exclusivamente baseada num total cromático como material de base de todas as peças”. Posteriormente usou outro tipo de referências, música das Caraíbas, modos simétricos (alguns classificados por Messiaen), escalas octatónicas que Rimsky-Korsakov usava e depois Stravinsky, polirritmias, etc. Ligeti manifestou uma enorme inquietude e capacidade para se pôr em causa numa idade que a maior parte das pessoas já não o faz e, por isso, eu tenho o maior apreço por essa capacidade de cortar consigo próprio.

 

DC – Como é que foi o seu percurso enquanto estudante de composição?

APV - Comecei a estudar em Portugal, como é normal, mas fui para a Holanda por razões particulares. Verificava-se então a hegemonia pós-serial, enfim, Schoenberg, Webern, Pierre Boulez, Stockhausen, transportada para nós via Jorge Peixinho, Álvaro Salazar, Emanuel Nunes onde se prolongou em Portugal quer no ensino, quer junto das instituições culturais.

Eu tinha dúvidas, custava-me a acreditar que não houvesse mais caminhos, que o futuro estivesse determinado para todo o sempre com aqueles princípios. Já em 1979 comprei um disco do minimalista americano Steve Reich e encontrei um choque de diferença: “é possível fazer música de outra maneira com outros princípios, com outra atitude face a linguagem musical”. Fui para a Holanda e não para a França e a Alemanha - os países centrais da outra corrente - justamente para fugir a ela. Sendo a Holanda um país periférico como Portugal, tem muitos compositores, mas poucos circulam; tive muitos colegas cuja música não circula e isto verifica-se, aliás, em todas as periferias da Europa. Se eu lhe perguntar o nome de compositores suecos, gregos, romenos ou espanhóis vivos, provavelmente não me sabe dizer. Veio a crise económica, que tornou clara coisas que já se verificavam anteriormente na cultura nitidamente. De repente, os centros e as periferias tornaram-se também evidentes no campo da economia e da política.

 

 

“não há nenhum século do passado que tenha sido igual ao anterior. Às vezes, basta meio século para que o funcionamento do mundo musical mude”

 

 

DC – Uma crise que também atingiu os EUA…

APV - Como li e estudei muito para fazer a minha tese, li muitos textos de autores como Richard Taruskin, considerado a figura mais eminente da musicologia anglo-americana, mas há muitos outros Suzan McClary, Lawrence Kramer e todos eles falam de um problema que nos EUA deve ser mais evidente do que na Europa, em relação à música clássica no seu todo. Falam de uma crise, das muitas revistas que existiam nos anos 50 e 60 e fecharam; de Orquestras, como a de Filadélfia, considerada como uma das big five nos EUA, que faliu e fechou. Lá, o espaço crítico nos jornais diminui fortemente e tudo o que diz respeito, nos EUA, quer à música contemporânea, que já estava isolada numa certa fase no ghetto universitário, quer à música clássica em geral.

Por isso é que os minimalistas tiveram que inventar locais para poderem trabalhar. Os primeiros locais onde Steve Reich, Philip Glass e Terry Riley fizeram concertos foram os Museus de Arte Moderna ou Galerias. Inventaram os locais fora da vida musical oficial e constituíram grupos que duraram mais de 20 anos, Steve Reich and Musicians, Philip Glass. O mundo encontra respostas para os seus próprios bloqueios.  

 

DC – Talvez devido ao repertório que se fazia nas salas de concerto…

APV - Sem dúvida. Não tinham essa porta aberta. Eu gostava de dizer uma coisa: “não há nenhum século do passado que tenha sido igual ao anterior. Às vezes, basta meio século para que o funcionamento do mundo musical mude”. Estamos numa fase de transição, é uma evidência mas não sabemos o que irá acontecer.

Uma das coisas que a maior parte das pessoas não sabe - estou a falar do público que frequenta as temporadas da FC Gulbenkian e as temporadas das outras instituições e salas de concerto do mundo - é que o nosso modo de vida musical é muito recente do ponto de vista histórico, criou-se em paralelo com a formação do chamado cânone musical.

O cânone musical é aquele conjunto de peças que são repetidas ano após ano tanto nos teatros de ópera como nas salas de concerto. Começou a formar-se em meados do século XIX. Quando eu digo a algumas pessoas que a ideia de futuro ou de história era totalmente estranha a Bach e a todos os compositores do Barroco, as pessoas ficam a olhar para mim e perguntam-me: “você tem a certeza?” E, sou obrigado a recorrer ao exemplo que é mais conhecido porque é simbólico, da Paixão Segundo São Mateus, que foi estreada em 1730 e depois repetida uma década depois com algumas diferenças e não propriamente uma revisão - esse conceito é posterior - sendo a própria noção de autoria e de originalidade completamente estranha aos compositores nessa altura. Só a partir de Beethoven é que começa a mudar o paradigma que, de certo modo, vigora ainda hoje. Regressando ao exemplo, só em 1829, foi novamente executado, pela 3ª vez, por Mendelssohn. 80 anos após a morte de Bach.

Em 1800, será o ano que marca a nova atitude na qual o compositor é visto como artista para o futuro, a história e começa o processo de criação do tal cânone que percorre todo o século XIX e o século XX. Verifica-se, em 1900, o fenómeno relacionado com o aparecimento das várias correntes modernistas, por volta da década de 1910, 1920, e essa música nova vai perdendo terreno em relação à música histórica, ao mesmo tempo que a gravação surge e irá mudar quase tudo, aliás. A regressão dos vivos é a primeira vez que acontece, porque até então toda a música tocada era sempre contemporânea, no tempo do Bach e anterior a Bach só tocavam a música daquele tempo. No séc. XIX, por exemplo, ninguém conhecia Vivaldi e não era tocado, nem ouvido, nem sequer existia já o instrumento cravo, quanto muito circulavam talvez umas partituras junto de uns poucos especialistas e pouco mais. Era sempre a música do seu tempo.

 

 

“neste momento há uma geração de jovens músicos que já querem novamente fazer música de hoje&