Concurso de Gondomar

PJM 2019

TUTTI

COMPOSITORES

Autor: Sandra Bastos

30 ago 2017

Última atualização: 23 fev 2019


Gonçalo Gato

Foi selecionado, entre 120 concorrentes, para integrar o LSO Panufnik Composers Scheme da Orquestra Sinfónica de Londres – um sistema de colaboração atribuído a seis compositores escolhidos por concurso. Gonçalo Gato, que terminou recentemente um doutoramento na Guildhall School of Music and Drama, sob orientação de Julian Anderson, espera que esta distinção lhe abra mais portas, sobretudo em Portugal, onde ainda é pouco tocado.

 

“Sinto-me extremamente privilegiado! Julgo que este é um importante passo na minha carreira e quero acreditar que no futuro terei mais oportunidades de trabalhar com músicos tão dotados. Estou extremamente motivado porque cada vez mais sinto que a música orquestral é o meu caminho natural”, afirma.

Espera, agora, que a obra que escreveu - 'Fantasia' — seja bem-recebida pelos músicos da Sinfónica de Londres, e que a música que contém 'funcione' bem: “Se for bem-sucedido, beneficiarei de uma encomenda maior”.

 

Doutoramento em Algoritmo e Decisão em Composição Musical

Sob a orientação de Julian Anderson, terminou recentemente o doutoramento na Guildhall School of Music and Drama, em Londres, sobre a temática Algoritmo e Decisão em Composição Musical. Contou com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia através de uma bolsa de doutoramento. Estou muito grato por ter tido este apoio fundamental.

Explica que “o termo 'algoritmo' é correntemente associado à automatização de processos: a título de exemplo, as operações de soma, subtração, divisão e multiplicação, realizadas pela vulgar máquina de calcular são definidas por algoritmos”. Começou, assim, a usá-los para compor — pequenos programas de computador que automatizam técnicas de composição — e, por isso, foi natural a escolha do tema de investigação.

 

“como a chamada composição assistida por computador envolve muitas tomadas de decisão com imensas implicações estéticas”

Com efeito, pretendeu “mostrar como a chamada composição assistida por computador envolve muitas tomadas de decisão com imensas implicações estéticas: que vantagens tem, que limitações, como se conjugam os algoritmos com os procedimentos manuais, como se integram os produtos dos algoritmos nas partituras, quais as diferenças fundamentais entre automatizar e 'fazer à mão', que processos do pensamento criativo humano são muito difíceis (ou mesmo impossíveis) de automatizar?”.

Concluiu que “o compositor deve estar bem consciente da natureza de ambos os métodos (automático e manual), e não deve nunca abdicar das valências exclusivas do pensamento humano, que são a fonte da inventividade e do julgamento estético. Para além disso, os algoritmos são importantes ferramentas de descoberta, e constituem um importante laboratório onde se podem testar e afinar técnicas de composição”.

 

“perceber a relação entre o som da música e a experiência humana da sua fruição”

Gonçalo inspira-se nas obras dos compositores que admira - Bach, Mozart, Beethoven, Stravinsky, Messiaen e Boulez, e nos mais contemporâneos Murail, Saariaho, Haas, Gérard Pesson e Enno Poppe.

“A minha inspiração mais fundamental prende-se com a tentativa de perceber a relação entre o som da música e a experiência humana da sua fruição. Não basta, portanto, perceber apenas o som e os seus fenómenos acústicos, embora isso seja importante. É importante perceber o som na sua relação com o ouvinte”.

Por fim, inspira-se também na liberdade poética da música: “aquele momento em que o compositor se arrisca a fazer o que ainda não compreende inteiramente, apenas intui”.

 

“a música é uma atividade de liberdade, exercida com responsabilidade”

Confessa que vive mal com “tabus e estéticas inflexíveis ou impositivas”: “Gosto de descobrir coisas novas mas também de ser quem sou. Procuro novo conhecimento musical demonstrável e tenho a preocupação de consolidar técnicas”.

Defende que “a música é uma atividade de liberdade, exercida com responsabilidade”, ou seja, “a expressão do pensamento criativo deve ser livre, mas deve também ser trabalhada, direcionada e contextualizada”.

 

“Foi da experiência de ouvir música que surgiu o impulso de me tornar compositor”

Na base da sua formação estão as técnicas, a disciplina, a análise musical, a honestidade intelectual: “Não sou um autodidata; procurei o conhecimento junto de mestres. Portanto, essa aprendizagem é parte daquilo que sou. Mas é no fazer, e no escolher, que me fui tornando mais eu”.

“Move-me em primeiro lugar a música dos outros. Foi da experiência de ouvir música que surgiu o impulso de me tornar compositor”, sublinha. Nessa transição, a pergunta "o que é a música?" tornou-se fulcral: “Julgo que a música é uma espécie de som que fala, que porventura narra sem palavras a viagem a um mundo imaginado. Mas é também um estímulo importante à nossa natureza humana íntima: porque nos comovemos com certas passagens de certas obras? Os filósofos tentaram dar respostas mas sempre de forma insuficiente. Agora são os neurocientistas a colocar as mesmas questões. Como compositor, não me cabe responder à pergunta, mas sim integrá-la e participar nela: o que é 'esta' música, que escrevo?”

 

Da vontade de aprender e evoluir até à carreira internacional

Das obras que escreveu, destaca a peça 'A Walk in the Countryside' (2016) para flauta solo, encomenda do Ensemble Recherche: “Todo o processo de colaboração com o flautista Martin Fahlenbock foi excecional e fiquei muito satisfeito com o resultado, algo que é raro”.

As peças 'Vectorial-modular' (2011, para orquestra) e 'Derivação' (2008, para piano) ganharam ambas o primeiro prémio no Concurso Internacional de Composição da Póvoa de Varzim: “foram importantes porque me fizeram colocar a hipótese de que a minha música pudesse ter valor. Até lá tudo era uma vontade de aprender e evoluir”.

Também a peça 'Vacuum Instability' (2013) foi importante pois foi estreada por músicos da Orquestra Sinfónica da BBC, nos estúdios Maida Vale da BBC: “Nesse momento senti que uma carreira internacional não estava assim tão distante. Marcou-me também muito a composição da peça orquestral final do doutoramento, 'Agnostos' (2015). É um culminar de uma busca e sinto que tem um grande equilíbrio entre especulação e controlo. Procuro ainda um contexto para a estrear”.

 

“Será que alguém poderá continuar a compor ad aeternum se não tiver algum reconhecimento, alguma solicitação?”

Os prémios foram impulsos importantes: “Há uma altura em que já estudámos composição, fizemos peças, mas questionamo-nos sobre o valor do que fazemos. Ter o reconhecimento de um júri pode ser uma boa forma de ganhar alguma confiança. Acredito na persistência, mas tudo tem limites. Será que alguém poderá continuar a compor ad aeternum se não tiver algum reconhecimento, alguma solicitação?”

Os prémios mudaram sobretudo a sua relação com a produção: “Devo dizer que não tive muitas encomendas na sequência dos prémios que ganhei, algo que ainda hoje considero estranho. Se celebramos de algum modo a arte de alguém, premiando-a, então essa celebração deve ter alguma continuidade”.

 

Pouco tocado em Portugal

Apesar do sucesso internacional, as obras de Gonçalo Gato são pouco tocadas em Portugal. Estreou A Vida é Nossa (2013) para orquestra de sopros, na Casa da Música e, mais recentemente, a peça Comendador u m'eu quitei (2015), encomenda do Ensemble MPMP, foi estreada no grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian.

Acredita que “a relativa raridade” das performances em Portugal deve-se ao facto de ter estado fora durante quatro anos e, por isso, menos envolvido na atividade musical nacional.

 

“Guardo a minha formação em Química (ramo de Biotecnologia) como quem guarda um tesouro”

Curiosamente, Gonçalo Gato é também licenciado em Química: “Sempre gostei também muito de ciência, da procura da verdade das coisas e de como funciona o mundo, nomeadamente a vida enquanto fenómeno da matéria. Guardo a minha formação em Química (ramo de Biotecnologia) como quem guarda um tesouro. Aprendi muito, nomeadamente a saber pensar e pesquisar disciplinadamente e com seriedade”.

Estava já a fazer o estágio quando pensou que a música seria o seu caminho, sobretudo após as aulas com Eurico Carrapatoso: “É um mestre cujos ensinamentos guardo com muita estima, assim como as memórias das muitas aulas prazerosas e estimulantes. Julgo que só faltei a uma aula em três anos!”.

 

Carrapatoso, Tinoco, Carlos Caires, Roberto Pérez, Bochmann e Julian Anderson

Também outros mestres marcaram a formação de Gonçalo: “Sem desprimor para os vários excelentes professores que tive na ESML, de seguida, tenho que referir o professor Carlos Caires, pois ensinou-me a dar os primeiros passos na composição assistida por computador (CAC) assim como expandir os conhecimentos de programação em Max/MSP. O Luís Tinoco foi também um mestre importante, com quem estudei no último ano da licenciatura. Nessa altura já tinha alguma desenvoltura e o Tinoco ajudou-me a apurar a minha estética e a limar arestas”.

“Lembro-me muito do Roberto Pérez, com quem estudei orquestração. Ele conhecia a orquestra e os instrumentos como ninguém e as imagens que usava ficaram firmes na minha memória. Estudar com o professor Bochmann foi também bastante marcante devido ao seu enorme conhecimento e experiência. É uma figura de referência e um grande exemplo. Por último, devo mencionar a enorme importância de ter estudado com o meu orientador de doutoramento: o Julian Anderson. Um grande compositor, um grande pensador e analista da música contemporânea e um grande mestre, sempre desafiante, exigente mas também generoso”, destaca.

 

“absolutamente essencial um grande domínio da notação e estar ao corrente das melhores práticas”

Não considera fundamental para um jovem compositor estudar no estrangeiro, embora possa ser muito importante: “É bom ver como funciona a música noutros contextos, nomeadamente se forem mais sofisticados/desenvolvidos que o nosso. Perspetivamos tudo muito melhor, tornamo-nos mais ambiciosos, mas também acumulamos conhecimento, know-how”.

Aponta, como exemplo, o nível de exigência de notação que é muito elevado quando se trata de escrever para orquestras e ensembles de renome mundial: “Isso deve-se à necessidade de utilizar o tempo da forma mais eficaz possível, evitando toda a possibilidade de equívoco, o que consome tempo de ensaio. Para um compositor que se mova num grande centro musical mundial torna-se absolutamente essencial um grande domínio da notação e estar ao corrente das melhores práticas”.

 

“Partilhar o momento de fazer música é algo que aprecio”

Sonha em poder desenvolver projetos um pouco por todo o mundo: “O objetivo mais alto seria poder beneficiar com alguma regularidade de encomendas feitas pelas grandes orquestras mundiais: Sinfónica de Londres, Concertgebouw, Filarmónica de Berlim, Paris, Nova Iorque, Chicago. Mas quero, sem dúvida, poder escrever para as excelentes orquestras, agrupamentos e músicos que temos em Portugal. Valorizo bastante os excelentes músicos portugueses”.

Paralelamente, gostava de ter um pequeno grupo de músicos com quem tocar e improvisar: “Partilhar o momento de fazer música é algo que aprecio. Gosto também muito de jazz e tocar guitarra tem sido uma constante no meu dia-a-dia. É importante manter uma relação com o instrumento pois muitas vezes a composição é algo quase incorpóreo”.

Para já, está a desenvolver projetos com o Sond'Ar-te Electric Ensemble e com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, ambas encomendas. Está também a escrever para o Duo XL de Sérgio Carolino.

 

“a composição portuguesa está bem e recomenda-se”

Confirma que Portugal tem produzido bons compositores: “Lembro-me que muitos dos meus colegas internacionais sabiam nomes de compositores portugueses vivos. Por isso, a composição portuguesa está bem e recomenda-se”.

O que falta é “ativar a nova geração de compositores, assim como tantos outros novos artistas”. É também “muito importante haver mais intercâmbio”, com escolas de verão ou residências artísticas mistas em Portugal, em que os compositores nacionais possam trocar ideias com os seus pares de outras nacionalidades.

 

“é legítimo que um compositor que se dedica, se aperfeiçoa e tem uma proposta estética interessante, espere ser dignamente remunerado”

Em termos de trabalho, faltam outras coisas: “é legítimo que um compositor que se dedica, se aperfeiçoa e tem uma proposta estética interessante, espere poder participar na vida cultural, e espere ser dignamente remunerado”.

Soma-se o facto de as orquestras profissionais fazerem “um número muito limitado de encomendas”. Assim, não é fácil fazer carreira na composição em Portugal: “Todos teríamos a ganhar se celebrássemos mais os nossos compositores e os desafiássemos mais para contextos novos de criação. Julgo que nesse âmbito o papel dos programadores é absolutamente fundamental”.

 

“Gostava que o Remix tocasse mais vezes em Lisboa”

Em Lisboa, diz faltar um ensemble dedicado à música contemporânea que seja apoiado de forma institucional e tenha uma programação robusta: “Julgo que é uma lacuna grave. É um pouco como não haver um museu de arte contemporânea”.

“Felizmente existe o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa e o Sond'Ar-te, ambos com um trabalho muito meritório (ambos sem residência institucional e com agenda pouco regular), mas cujas condições de existência não são comparáveis às do Remix Ensemble da Casa da Música, por exemplo. Gostava que o Remix tocasse mais vezes em Lisboa”, sublinha.

 

“É talvez uma geração com potencial demais para a capacidade atual do meio musical”

Na nova geração de compositores portugueses vê “diversidade de expressões, desde os meios às estéticas”. Afirma que “alguns compositores são também intérpretes e/ou compositores noutras áreas que não a música erudita: jazz e fado, por exemplo”.

Porém, revela que “esta nova geração vive com algumas frustrações que fazem com que abandone o país”: “É talvez uma geração com potencial demais para a capacidade atual do meio musical, o que me entristece. Está nas mãos de todos nós contribuir para que não seja assim”.

“Enquanto sociedade vivemos talvez demasiadamente centrados nas notícias sobre a economia e finanças, e nos comentários dos painéis de especialistas. Mas existe um mundo lá fora, de encontro e reflexão, mas também de celebração daquilo que significa estar vivo: esse é o mundo das artes”, acrescenta.

 

http://www.goncalogato.com/

http://cesem.fcsh.unl.pt/pessoa/goncalo-gato/

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