Concurso de Gondomar

PJM 2019

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COMPOSITORES


Pedro Amaral estreia Deux Portrairs Imaginaires

Os imensos aplausos levaram Pedro Amaral a subir várias vezes ao palco da mítica Tonhalle, em Zurique, para agradecer ao público helvético. "Deux portrairs imaginaires" para ensemble, em estreia mundial, é uma encomenda da Casa da Música e tem como base duas personagens que partem do universo de Fernando Pessoa. A primeira é Fausto, deixado pelo escritor português na sua obra inacabada “Fausto”, e a segunda é Maria, que representa o amor impossível. A interpretação esteve a cargo do Remix Ensemble que, depois de regressar da Suíça, apresentou a obra na Casa da Música, no Porto.

Virgílio Melo, no Espaço Crítica para a Nova Música, diz que "é uma bela partitura, de grande sedução sonora, em que os retratos de Fausto e de Maria (a Margarida pessoana) alternam antifonicamente, mas sempre com um interesse renovado. A característica talvez mais saliente são os soli, próximos da declamação de um texto, aqui ausente, e envolvidos em mágicas heterofonias. Estas frases possuem, na sua escrita, um detalhe de fraseado que as tornam extremamente vivas. Um comentário intercalado, sob a forma de cadenza para o piano e o lamento final, constituem outros dois pólos antinómicos, assim como dois momentos fortes da partitura". 

 

"É muito importante dar uma explicação ao público"

A maioria das obras de Pedro Amaral estreia no estrangeiro, daí que seja profícua a sua experiência em diferentes tipos de espectadores.. Em França, o público é mais entusiasta e já não tem a  curiosidade pedagógica dos alemães, tal como o italiano que, embora seja mais conservador, revela também grande entusiasmo.  "Os públicos são completamente diferentes. Gosto muito do público alemão, que aprecia muito o lado pedagógico, em que o concerto é falado antes de começar, como em Zurique. Eu aprecio muito esse lado que mostra o público com desejo de compreender a peça, porque a música não é puramente o prazer hedonista, sonoro. Há por trás desse prazer uma cultura, como uma pintura, uma tela. Se não soubermos interpretar o tema de uma tela, não podemos compreender o que o pintor faz", sublinha. "Em pleno séc. XIX, quando se ouvia uma sonata, o público sabia exactamente o que ia acontecer. Essa compreensão do que se está a ouvir é necessária na nossa música. É muito importante dar uma explicação ao público".

E o público português? "Noto que houve uma clara evolução. E é diferente o público do Porto e de Lisboa. A Casa da Música teve um papel pedagógico importante e nós vemos o seu público muito entusiasta e curioso", confessa. Na Gulbenkian, desde o final da direcção de Pereira Leal, que se inclui a música contemporânea nos concertos mais tradicionais: "esse diluir da nossa música no contexto de uma música mais clássica é muito interessante. As primeiras peças que tive na Gulbenkian foram tocadas junto com um concerto de Mendelssohn".

 

"O Remix já tem a sua personalidade"

Para Pedro Amaral, a criação do Remix, há 13 anos, teve um grande impacto na música portuguesa: "foi uma novidade extraordinária, não havia nenhum grupo assim em Portugal". A evolução foi tão rápida que "o Remix conseguiu atingir realmente a qualidade técnica de padrão internacional e mais que isso, já tem a sua personalidade, sendo um dos grande ensembles, de referência e também o mais novo".

O facto de não ter dirigido a estreia de Deux Portrairs Imaginaires não o incomoda minimamente: "gosto muito de dirigir a minha música mas também gosto de a ouvir dirigida por outros. Tenho muito respeito pelo intérprete sério. Se nós condicionarmos demasiado o intérprete, ele não vai ser suficientemente livre para fazer bem a peça". 

No entanto, no caso da ópera, o papel do compositor pode ser até violentado: "conheço vários compositores de ópera que se sentem no limite do suportável com a encenação como, por exemplo, Emanuel Nunes com a versão cénica da sua ópera no São Carlos -  foi para ele uma violência atroz! Um maestro pode fazer um pouco diferente mas não muito, enquanto que uma versão cénica pode ser completamente diferente do que sonhamos".

 

"A escrita é a base fundamental de um compositor"

E foi a sonhar que Pedro Amaral construíu uma carreira sólida a nível internacional. "Acho que tive sorte no caminho que fiz porque tive uma formação muito sólida em Lisboa com o Christopher Bochmann, que foi um grande professor de escrita. Antes dele tinha trabalhado ainda com o Lopes-Graça, fui o seu último aluno e aprendi muito a escrita musical - isso foi fundamental antes de vir para o estrangeiro".

Aconselha, assim, todos os compositores a "apontar, em primeiro lugar, na sua estratégia de aprendizagem a ida para o estrangeiro". Mas antes "têm de encontrar uma boa base de escrita, mesmo que queiram introduzir na música aspectos que não são tradicionais, é fundamental ter a escrita como base".

 

Assistente de Stockhausen

Nascido em Lisboa, em 1972, Pedro Amaral, compositor e maestro, é um dos músicos mais activos europeus da nova geração. Iniciou os seus estudos em composição como aluno privado de Lopes-Graça, a partir de 1986, ao mesmo tempo que prosseguia a sua formação musical geral, no Instituto Gregoriano (1989/91). Ingressa em seguida na Escola Superior de Música de Lisboa (1991/94) onde conclui o curso de composição na classe do professor Christopher Bochmann.

Instala-se depois em Paris, onde estuda com Emmanuel Nunes no Conservatório Superior de Paris (CNSM). Quatro anos mais tarde, graduar-se-ia com o “Primeiro Prémio em Composição” por unanimidade do júri. Estudou ainda direcção de orquestra com Peter Eötvös (Eötvös Institute, 2000) e Emilio Pomarico (Scuola Civica de Milão, 2001).

Paralelamente à sua formação musical prática, Pedro Amaral prosseguiu estudos universitários na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, em Paris, obtendo um Mestrado em musicologia contemporânea, com uma tese sobre "Gruppen" de K. Stockhausen (1998) e, mais tarde, em 2003, um doutoramento com uma tese sobre "Momente" e a problemática da forma na música serial.

À cerca desta sua vasta análise, K. Stockhausen declarou, in Le Monde de la Musique (Setembro 2003): “Trata-se de uma obra excelente com a qual muito aprendi" – o que o levou a convidar Pedro Amaral como seu assistente em diversos projectos.

Pedro Amaral desenvolve actualmente uma actividade permanente no campo da musicologia, escrevendo artigos, dando conferências, participando em colóquios, apresentando workshops e masterclasses. Desde o ano lectivo de 2007/2008, é Professor Auxiliar da Universidade de Évora (Composição, Orquestração e disciplinas afins).

 

http://www.pedro-amaral.eu/

Remix Ensemble estreia em Zurique

Não pode estar sequer em questão a subsistência do Remix

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