PJM 2018

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TUTTI

MAESTROS


Em Entrevista: Luís Carvalho, maestro, compositor e clarinetista

Clarinetista, maestro e compositor, Luís Carvalho tem-se distinguido como um dos mais versáteis músicos portugueses da sua geração. Apresentou-se em recitais e concertos um pouco por toda a Europa, Norte de África, Médio-Oriente e Ásia, muitas vezes estreando as suas próprias obras e de outros compositores contemporâneos portugueses e estrangeiros.

Dirige várias das mais importantes orquestras portuguesas, como a Nacional do Porto, a Sinfónica Portuguesa (Lisboa), a Metropolitana de Lisboa, a Orquestra do Algarve, a Filarmonia das Beiras (Aveiro), a Orquestra de Câmara Portuguesa (Lisboa), a Orquestra Sinfónica da Póvoa de Varzim, a Orquestra Clássica de Espinho,  a Orquestra e Coro da Universidade de Aveiro, a Orquestra Sinfónica da ESART (Castelo Branco), e no estrangeiro aparece em concertos com orquestras várias de Rússia, Itália, Hungria, Espanha e Finlândia.

É fundador e diretor artístico/musical da Camerata Nov'Arte (Porto).

Gravou mais de 20 discos, quer como clarinetista, maestro ou compositor.  É docente da Universidade de Aveiro, tendo concluido uma tese de doutoramento dedicada à «10ª Sinfonia em fá# maior» de Gustav Mahler.

 

 "o maestro não é já o tirano de outrora que rege com mão de ferro! É antes um primus inter pares, o líder de uma jornada musical"

 

Da Capo - Clarinetista, maestro, compositor e professor… qual destas actividades o realiza mais?

Luís Carvalho (LC) - Todas elas! A partir do momento em que esteja a fazer música sinto-me feliz. Seja a tocar, a dirigir, a criar uma obra ou numa aula na universidade, se eu estiver a fazer música sinto-me realizado. Todas estas actividades não são senão patamares desse grande edifício que é a Música.

O que faço mais ultimamente é de facto dirigir e compor, para além das aulas na universidade. Toco clarinete mais pontualmente, em projectos mais específicos. Naturalmente, o dia continua a ter só 24 horas, das quais eu ainda deveria dormir sete ou oito. (risos)

 

DC - Como consegue gerir estas quatro facetas da sua profissão, ainda tendo uma vida familiar também preenchida (é casado com a violetista Susana Cordeiro e tem duas filhas a estudar no Conservatório de Música do Porto)?

LC - Sou muito feliz a nível familiar, e tudo se tem conjugado para que as coisas funcionem bem nessa área. A família é uma parte muito da minha vida, e que me dá equilíbrio emocional, pois profissionalmente, tendo em conta que a área da música em Portugal exige uma luta constante, acontecem por vezes momentos decepcionantes. E é nessas alturas que a família me dá o refúgio emocional necessário para lidar com tais situações.

Porém costumo dizer que apesar de me dedicar a muitas áreas dentro da música, apenas faço uma de cada vez… Se estou a dirigir, não estou a compor ou a tocar clarinete, e vice-versa. Tento, pois, gerir tudo com muita ponderação, e tenho obviamente de fazer opções, como por exemplo reduzir as minhas apresentações públicas com o clarinete, que têm ficado reservadas mais para situações especiais, como sejam alguns projectos no âmbito da minha actividade docente na Universidade de Aveiro, e um ou outro concerto a solo e de música de câmara. Devo porém frisar que ainda me dá muito prazer tocar clarinete, e principalmente no campo da música de câmara espero poder vir a concretizar mais apresentações no futuro, pois sempre foi uma área que me atraiu.

A minha agenda presentemente é de facto mais preenchida pela direcção de orquestra e a composição. Infelizmente a família por vezes também acaba por sair um pouco prejudicada desta intensidade do meu trabalho, mas sempre que possível as minhas duas filhas e esposa vão assistir aos meus concertos, e já se deslocaram a Lisboa, Porto, Aveiro, Tomar, Santa Comba Dão, etc… Acaba por ser também uma forma de familiarizar as nossas filhas com este mundo do espectáculo ao vivo, e para mim dá-me conforto fraternal, pois elas são sem dúvida o meu porto de abrigo.

As compensações de todo o esforço são os aplausos do público no fim de cada concerto e os cumprimentos dos músicos. Quando percebo que houve uma conexão entre maestro e os músicos, por exemplo quando dirijo alguma orquestra, é muito reconfortante! É uma recompensa muito grande chegar ao fim de um concerto e sentir que correu bem e, principalmente, que houve partilha de experiências. É preciso desmistificar o papel dos maestros de hoje: o maestro não é já o tirano de outrora que rege com mão de ferro! É antes um primus inter pares, o líder de uma jornada musical, o comandante de um grupo de mulheres e homens onde ele próprio se inclui, e que, juntos, têm por objectivo alcançar um momento de elevação artística, neste caso um concerto.

 

"A prática musical, apesar de todos os contratempos, que os há e muitos, só é concebível com paixão"

 

DC - Faz parte da geração que mudou a música em Portugal? Tem essa consciência?

LC - (risos) Não sei dizer… Todas as gerações mudam, de alguma maneira, a história de um país e de um povo. Todas terão algo a acrescentar. Mas de facto reconheço que a minha geração ajudou a mudar mentalidades, como acabar com o tabu de que a Música não é uma saída profissional “segura”! Por exemplo, nos meus tempos de estudante ainda adolescente havia a ideia de que não tínhamos oboístas nem fagotistas portugueses, e hoje em dia, consequência do trabalho pioneiro de umas quantas pessoas nessas áreas, é vê-los a ganhar prémios e lugares de relevo em orquestras nacionais e internacionais! Dizia-se o mesmo em relação às cordas, e presentemente temos inúmeros instrumentistas portugueses nas nossas principais orquestras, e mesmo a circular pelo estrangeiro.

Creio, pois, que o cliché de que não termos músicos portugueses em quantidade nem qualidade suficiente, esteja (ou deva estar!) definitivamente enterrado.

De mim próprio apenas posso afirmar o que é a maior verdade todos os dias quando me levanto de manhã: coloco paixão em tudo o que faço na Música e essa é a única forma que eu concebo de praticar esta Arte. A prática musical, apesar de todos os contratempos, que os há e muitos, só é concebível com paixão, pois a exigência física e mental que pede constantemente é enorme. Quando dirijo, quando componho, quando toco clarinete, faço-o com paixão. Dou o máximo de mim sempre e em cada momento.

 

"faço parte de uma primeira grande geração que pretendeu estudar música mais seriamente e com o intuito específico de assumir isso como saída profissional"

 

DC – Sente que a sua dedicação à música, a luta constante, permite abrir as portas aos músicos mais jovens?

LC – É sempre mais difícil estar na frente do tornado, estar a combater os ventos contrários de frente, se me permite a alegoria. Quem vem depois pode eventualmente encontrar mais facilidades. Como faço parte de uma primeira geração pós-25 Abril que só viveu em democracia, de uma primeira grande geração que verdadeiramente pretendeu estudar música mais seriamente e com o intuito específico de assumir isso como saída profissional, creio que podemos considerar que é uma geração forte – dum certo ponto de vista lutou contra muitos estigmas! Felizmente muita gente da minha geração aproveitou aquilo que de melhor nos foi oferecido naquela altura, que foi tempo e espaço para podermos estudar e desenvolvermos, estudar bem e com qualidade, e com bons professores. Muitos de nós aproveitaram e estão a mostrar trabalho agora, a tentar abrir portas além de transmitir a experiência adquirida aos mais jovens, ainda que nem sempre seja fácil consciencializar os promotores culturais para a qualidade que por cá (Portugal) já se vê…

Sinceramente questiono-me agora se nós enquanto sociedade pretendemos continuar a dar tais oportunidades aos mais jovens, pois começo a ver nos dias de hoje muitas movimentações políticas no sentido de piorar e dificultar cada vez mais o acesso ao ensino, que terão a médio e longo prazo efeitos muito prejudiciais no desenvolvimentos social e humano, e isso preocupa-me sobremaneira.

 

DC – O que é esse tornado de que fala?

LC – O tornado é isso mesmo – lutar contra as forças negativas que existem em Portugal desde o tempo de Luiz Vaz de Camões – o que ele tão apropriadamente chamou os “velhos do Restelo”.

 

"os maestros portugueses continuam a ser convidados essencialmente para coisas menores, persistindo o chavão que não temos ainda experiência para “vôos mais altos”"

 

DC – E quais são essas forças negativas?

LC – Quando se ouve, ou pelo menos se ouvia dizer há não muito tempo, que não há maestros portugueses, por exemplo, revela um preconceito inaceitável numa sociedade democrática. Hoje a mentalidade tende a mudar, ainda que muito lentamente. Começa efectivamente a aparecer uma geração de maestros que fazem trabalho que é, de alguma maneira, notado, e é recompensador verificar isso. Mas ainda assim persiste uma atitude colectiva global de não reconhecimento do grande valor que nesta área já circula em Portugal. Os maestros portugueses continuam a ser convidados essencialmente para coisas menores, persistindo o chavão que não temos ainda experiência para “vôos mais altos”. Só muito esporadicamente conseguimos ver maestros portugueses a dirigir grandes programas sinfónicos, com grandes solistas internacionais em grandes temporadas portuguesas.

Como é que alguém pode saber se um maestro português é ou não tão bom como outro estrangeiro a dirigir a 1ª de Brahms, a 5ª de Mahler ou a Petrushka de Stravinsky, se ao maestro português nunca é dada a oportunidade de dirigir essas obras? Como é que se pode dizer que aos maestros portugueses falta arcaboiço para dirigir o grande repertório, se nunca nos viram dirigi-lo?

O Gustavo Dudamel, por exemplo, nasceu na Venezuela, um país praticamente sem tradição erudita, e no entanto é um grande intérprete mahleriano! Seria isso possível acontecer em Portugal? E na rara eventualidade de alguns maestros conseguirem fazer o percurso normal de apresentar tais grandes repertórios sinfónicos com orquestras de estatura menor e/ou académica, ganhando experiência e preparando-se para mais tarde poder dirigi-los com orquestras profissionais, quantas vezes os programadores das mais importantes instituições portuguesas vão ver esses concertos para poderem avaliar com conhecimento de causa o valor dos novos maestros? Faltam-nos os “olheiros” do futebol, para captarem talentos!

Pensou-se, por exemplo, que por causa da afamada crise económica poderia haver mais espaço para maestros portugueses, por serem mais baratos. Essa questão até nem me incomodaria assim tanto se pensarmos que um maestro português, só por viver em Portugal, não gasta viagens de avião e pode até porventura nem precisar de ficar alojado num hotel. Estes dois factores já tornariam o maestro português mais barato do que o estrangeiro, sem ter de mexer-se no cachet. Mas não só se mexeu no cachet (e muito!), como não me parece que tenham surgido assim tantas mais oportunidades para maestros portugueses.

E quem fala de maestros, fala de solistas e compositores portugueses. Temos imensos concursos de instrumentistas, descobrem-se enormes talentos, mas aparte os concertos que possam estar incluídos nos prémios, quantas orquestras portuguesas convidam regularmente solistas nacionais para as suas temporadas? E qual a percentagem de música de compositores portugueses, principalmente vivos, das temporadas das orquestras portuguesas?

Ora, precisamente, faz falta alguma coragem para apostar mais no que é nacional, e verdadeiramente não ter medo de o assumir. Como fizeram outros países no passado recente, como os nórdicos, e em especial a Finlândia!

 

DC – O que é de fora é sempre melhor do que é nacional?

LC – Eça de Queirós dizia há mais de um século que a civilização custa-nos caro com os direitos da Alfândega e quando chega a Portugal não nos serve, fica-nos curta nas mangas. Isto é uma metáfora fascinante daquilo que continuam a ser hoje as ideias das elites mandantes em Portugal, e principalmente a sua subserviência ao que vem de fora com a ânsia de parecer cosmopolita. Como é que outrora fomos nós um país que dominou meio mundo?

Não estou a dizer que Portugal sozinho possa mudar o mundo, mas a Espanha aqui ao lado conseguiu mais do que nós nos mesmos quase 30 anos em que estamos na União Europeia, tendo criado uma enorme rede de orquestras, e uma massa crítica de músicos que circula não só dentro de Espanha como já mesmo no estrangeiro. A Finlândia, que tem metade dos habitantes de Portugal, então é um case-study. Lá as orquestras dão imensas oportunidades aos seus maestros, solistas e compositores para começarem uma carreira, e não só isso como depois ajudam os melhores a lançarem-se em carreiras internacionais! Um maestro, um solista, um compositor hão-de melhorar com a experiência. Ninguém nasce ensinado!

 

"dêem oportunidade aos jovens artistas de aprender e crescer; não desistam deles à primeira dificuldade; apoiem-nos"

 

DC – Já dirigiu quase todas as principais orquestras portuguesas. Sente da parte dos músicos algum preconceito por não ser um maestro estrangeiro?

LC – Em quase todas as orquestras portuguesas que dirigi, senti de início, se não preconceito, pelo menos alguma resistência, que, com o passar do trabalho, felizmente, se foi esbatendo. No final as pessoas acabam por reconhecer quando o trabalho que se faz tem valor, e as relações são boas. Presentemente creio que essa atitude de alguma desacreditação nos maestros portugueses, que não se pode nem deve negar que existiu efectivamente numa certa altura em muitas orquestras portuguesas, tende a desaparecer, e valoriza-se agora mais a qualidade do trabalho independentemente da origem.

Esa-Pekka Salonen, porventura o mais conceituado maestro finlandês da actualidade, afirmou a certa altura numa entrevista, que agradecia aos managers das orquestras finlandesas por não desistirem dele à primeira oportunidade, quando ainda era um jovem maestro em início de carreira. Este reconhecimento de uma atitude e mentalidade que está enraizada no pensamento finlandês revela uma moral importante, e que é: dêem oportunidade aos jovens artistas de aprender e crescer; não desistam deles à primeira dificuldade; apoiem-nos. Mais uma vez, ninguém nasce ensinado…

Em Portugal, por vezes, até parece que acontece o contrário – mesmo que corra bem à primeira oportunidade, muitas vezes ignora-se o sucesso, e nunca chega a existir a segunda oportunidade. Apenas um desabafo…

 

DC – Não há perspectivas para mudar este panorama dos nossos maestros?

LC – Tão cedo não creio, ainda por cima com esta crise, em que há orquestras a definhar.

 

DC – A nova geração que tem feito sucesso no estrangeiro pode trazer uma perspectiva mais optimista?

LC – Eu devolvo a pergunta: eles querem voltar para cá?

 

 "No nosso país não existem verdadeiros alicerces pensados como estrutura nacional. O que existe são fogachos – há pessoas que lutam, que remam contra a maré"

 

DC – Mas pode mudar a imagem que os portugueses têm dos seus próprios músicos?

LC – Eu continuo a dar o exemplo da Finlândia que não precisou de mandar ninguém para fora para se ver ao espelho. A casa constrói-se dos alicerces para cima e não do telhado para baixo. Certamente é muito importante que cada vez mais músicos portugueses estejam a estudar no estrangeiro, e até a ganhar lugares de destaque noutros países. Mas isso deveria ser a consequência de uma política nacional estruturada de desenvolvimento da música portuguesa, e não o contrário, esperar que as conquistas individuais, por muito valorosas que sejam, sirvam de tónico a uma política cultural paupérrima e atrofiada. Não deixa de ser verdade que mesmo essas conquistas individuais devem algo ao sistema educativo português, mas esse é precisamente um dos nossos problemas: um bom sistema de ensino da música, que não tem consequência nas saídas laborais, aparte voltar ao próprio ensino.

Pelos meus 16/17 anos entrei pela primeira vez na Orquestra Portuguesa da Juventude, que era na altura uma iniciativa da SEC (Secretaria de Estado da Cultura), e portanto do próprio Estado. Foi uma experiência incrível que marcou definitivamente a minha decisão pela Música como opção profissional. Entretanto foi extinta. Porquê?

Era uma orquestra que reunia os melhores jovens músicos do país escolhidos em provas públicas, uma espécie de selecção musical nacional. Por que é que acabou? Não faria sentido recuperar esta orquestra? Tanto quanto é do meu conhecimento somos o único país europeu que não tem uma orquestra nestes moldes (orquestra nacional de jovens). Atenção que não falo aqui das inúmeras orquestras de jovens que, felizmente, já existem pelo país fora, e que são bem-vindas e devem manter-se. Falo, sim, de uma verdadeira orquestra nacional, uma cúpula do sistema, a que todos os jovens instrumentistas aspirassem chegar, e que, de um certo ponto de vista, até os preparasse melhor para depois aspirarem chegar às orquestras juvenis internacionais, como a Orquestra de Jovens da União Europeia, a Orquestra de Jovens Gustav Mahler, ou a Orquestra do Mediterrâneo.

Este é um exemplo de que no nosso país não existem verdadeiros alicerces pensados como estrutura nacional. O que existe são fogachos – há pessoas que lutam, que remam contra a maré, que estão na frente do tornado, recuperando a ideia de há pouco… mas os problemas são tantos!

 

"apesar de haver excelente professores cá em Portugal, é sempre uma valorização procurar mais qualquer coisa lá fora"

 

DC – Fez formações no estrangeiro. Nunca pensou ficar por lá?

LC – Hoje pergunto-me por que é que não fiquei. Houve uma altura em que podia ter ficado, mas não fiquei. Por um lado arrependo-me de não ter ficado, mas por outro acho que é muito mais difícil fazer algo pelo nosso país lá fora. Por mais que custe, só quem está cá dentro a lutar pode viver as dificuldades e as vitórias que se conseguem.

 

DC – O que é que aprendeu lá fora que não conseguia aprender cá?

LC – Não sei… Talvez. Foi uma opção, como outra qualquer. Decidi estudar no estrangeiro porque achei que me devia valorizar e procurar diversificar as minhas influências. Aliás, continuo a achar que na maior parte das áreas, apesar de haver excelente professores cá em Portugal, é sempre uma valorização procurar mais qualquer coisa lá fora. E digo isso mesmo aos meus alunos! E aprende-se não só música, como mesmo outras perspectivas da vida. Esse crescimento é muito importante. Viajar é crescer, e no fim ficar ou regressar faz parte do íntimo de cada um e das circunstâncias de cada momento, das curvas da vida.

 

DC – Como começou a dirigir?

LC – Não comecei, como a maioria dos maestros, a dirigir bandas filarmónicas. Dirijo orquestras de sopros com alguma regularidade, é certo, de resto, onde de resto noto a enorme evolução da música me Portugal, principalmente em termos de qualidade. A massa crítica é mais vasta e mais bem formada.

Quando comecei a estudar clarinete, nunca sonhei em ser maestro, não me passava isso pela cabeça. Mas muito cedo, quando comecei a participar nas orquestras de jovens, por volta dos meus 17 anos, sentia o bichinho, a curiosidade. Mas só quando acabei o bacharelato de Clarinete, por volta dos 20 anos, é que comecei a fazer cursos básicos de direcção de orquestra. Depois fui evoluindo para coisas mais complexas, com formações no estrangeiro com grandes maestros. Foi um percurso longo.

 

 "Tal no como na área da direcção, na composição parece que os portugueses nunca são bons o suficiente"

 

DC - Quais os momentos mais marcantes da sua carreira?

LC – Não posso deixar de destacar o momento em que a minha obra para orquestra Nise Lacrimosa foi nomeada para o Prémio SPA. Foi um marco muito importante na minha vida, até porque a Composição é outra área onde é muito difícil obter reconhecimento no nosso país. É preciso batalhar arduamente. Tal no como na área da direcção, parece que os portugueses nunca são bons o suficiente. Na altura quem ganhou o Artur Pizarro, um soberbo pianista português de carreira internacional, mas esse foi sem dúvida um dos momentos mais altos da minha carreira.

Outro momento marcante foi quando ganhei o 1º Prémio do Concurso do Estoril, enquanto clarinetista. Em consequência desse, toquei a solo com várias das principais orquestras portuguesas.

Na área da direcção, talvez quando fui seleccionado por duas vezes consecutivas (2009 e 2012) para participar ao Concurso Internacional de Direcção de Orquestra Jorma Panula, em Vaasa, na Finlândia. Apenas 20 jovens maestros eram escolhidos de entre cerca de 100 candidatos a nível europeu para participar na fase final do concurso, e esse mero facto parece-me (passe a imodéstia) relevante.

De resto também as primeiras vezes que dirigi a Orquestra do Porto e a Orquestra Sinfónica Portuguesa são marcos muito importantes na minha carreira, bem como quando ganhei a Audição para Jovens Maestros organizada pela Orquestra Metropolitana de Lisboa em 2010.

 

DC - E pessoas?

LC – Obviamente que tenho de falar de António Saiote, professor de clarinete que me acompanhou naquela fase fundamental da formação que é quando se começa o ensino superior. É uma pessoa marcante, um músico excepcional que criou uma geração de clarinetistas reconhecida internacionalmente.

A nível da composição tenho de destacar Fernando Lapa, que me deu as bases que me permitiram ir mais longe, além da amabilidade e simpatia constantes na sua abordagem ao ensino.

A nível da direcção tenho de referir o Jorma Panula pela sua maneira despegada com que se relaciona com os formandos: diz duas ou três palavras cirúrgicas em momentos chave, mas de tal forma impregnadas com um mundo de informação, que se tivermos a capacidade de descodificação da sua mensagem tudo o que ele diz é sumo. Panula é marcante a vários níveis, como personalidade e como poço de sabedoria, e ficará com certeza nos anais da história como um dos professores de direcção de orquestra mais conceituados de todos os tempos. Apesar da idade, tem ainda hoje a mesma frescura de espírito de há décadas.

 

"o trabalho do compositor é 5% inspiração, e 95% transpiração"

 

DC – Tem alguma fonte de inspiração para compor?

LC – Para compor não preciso de inspiração, preciso de tempo! Naturalmente há aquele momento em que surge a “ideia”, mas que depois tem de crescer. Por exemplo, a calma dos Açores, de onde a minha mulher é originária, ajuda-me a compor. Tenho escrito muitas obras lá, pois há uma certa placidez que me dá paz de espírito e tempo psicológico, longe da azáfama diária, para me dedicar à criação. Não é que me inspire no sentido romântico do termo, mas sim o relaxamento que me transmite e que me permite trazer ao de cima ideias que já estão lactentes no subconsciente.

A inspiração é, tantas vezes, isso mesmo, o momento em que algo que provavelmente já estava dentro da nossa cabeça, consegue finalmente vir à superfície. Mas, como em todos os outros métiers criativos, o trabalho do compositor é 5% inspiração, e 95% transpiração!

 

DC – Quais as bases do seu trabalho como músico?

LC – Antes de mais, é fazer com paixão a Arte que decidi abraçar. A partir do momento em que decidi ser músico, decidi fazê-lo com todas as células do meu corpo e é mesmo isto que gosto e quero fazer para toda a vida.

Claro que me interesso por outras áreas, como por exemplo pintura, literatura, e até novas tecnologias, mas a partir do momento em que decidi ser músico foi com grande sentido de abnegação, já que momentos difíceis, e até alguns decepcionantes em que quase apetece desistir, também existem. Mas no fim do dia estou feliz, porque faço o que gosto, e isso é o mais importante para mim.

Porém, só paixão não chega, é preciso trabalhar todos os dias. E quando trabalharmos com paixão, por muitas horas que isso nos absorva, acaba por se tornar um prazer. O mais importante é, por isso, a paixão no nosso trabalho.

Depois também uma grande avidez de conhecimento – procurar, investigar, não ficar à espera que as coisas que nos caiam no colo. E esse é mesmo o principal conselho que se pode dar às gerações mais jovens: cultivem-se!

 

"acho que se alguém for muito bom numa determinada área, mesmo que as perspectivas de emprego não sejam muito famosas, deve seguir o curso de que verdadeiramente gosta"

 

DC – Como é ser professor numa altura tão problemática para o ensino?

LC – Ensinar continua a ser um acto de grande entrega da maioria significativa dos professores, apesar de sucessivas tentativas de diabolizar os docentes. O que se começa a tornar insuportável é a quantidade de carga administrativa que cada vez mais nos é imputada como parte integrante do nosso trabalho. Depois os cortes na Educação, por muito que se queira dourar a pílula, não me parece sinceramente que tenham tido como resultado uma mais eficaz gestão da área. Apenas se poupou dinheiro, mas foi devido a gravíssimos custos sociais. Muitos alunos começam a desistir das universidades, e em vários casos é por falta de dinheiro.

De resto, na Música em específico, é mais ou menos óbvio que a saída profissional principal é o ensino, embora me pareça que até essa se vá esgotar a médio-curto prazo. Vou alertando os alunos de que é preciso lutar muito, e conseguir a melhor formação possível, e a verdade é que os alunos actuais estão muito mais despertos para a importância de se aplicarem nos cursos, pois o seu futuro depende disso. Falo-lhes também da possibilidade de tentarem ir para o estrangeiro, experimentarem o programa ERASMUS. Alguns têm ido para fora, outros estão a pensar ir também… Começa a ser uma opção para muitos, não só estudar mas mesmo para trabalhar.

Apesar de poder ser um pouco polémico o que vou dizer de seguida, acho que se alguém for muito bom numa determinada área, mesmo que as perspectivas de emprego não sejam muito famosas, deve seguir o curso de que verdadeiramente gosta. Qual é o interesse de, por exemplo, alguém tocar muito bem clarinete mas que não vai para um curso de Música porque pode não haver saídas profissionais? Será preferível ir para outro curso para o qual não tem tanto jeito ou até jeito nenhum, e futuramente ser um frustrado? Não vai realizar essa outra actividade com paixão, e provavelmente vai-se fazer sofrer até quem está à sua volta. Acho que, sem perder o sentido da realidade, deve procurar-se uma actividade profissional que nos preencha também mentalmente.

 

DC – Como é ser compositor em Portugal?

LC – Não posso senão dizer que é muito difícil. Paradoxalmente temos mais compositores a escrever presentemente, do provavelmente em qualquer outro momento da história musical portuguesa. Uma das causas é certamente a preponderância que os cursos superiores de composição foram ganhando nas últimas décadas, mas também porque a liberdade estética e de pensamento, como valor absoluto, abriu portas a uma pluralidade de correntes, que só valorizaram a criação musical portuguesa.

 

DC – É impossível em Portugal viver-se da composição?

LC – Em Portugal é impossível viver de qualquer actividade musical que não seja dar aulas. Ou, muito mais esporadicamente, tocar numa das poucas orquestras que dão contratos de trabalho. Não é de todo possível ter uma actividade verdadeiramente independente.

 

"Temos, neste momento, as melhores gerações de músicos portugueses de sempre. Mas nós não as aproveitamos"

 

DC – Em suma, o que acha do panorama actual da música portuguesa?

LC – Temos, neste momento, as melhores gerações de músicos portugueses de sempre a coabitar em Portugal. Sempre houve bons músicos em Portugal, mas houve um enorme crescimento na quantidade de excelente após o 25 de Abril, consequência da massificação do ensino.

Temos qualidade para ombrear com qualquer músico estrangeiro. Temos as melhores gerações de sempre a trabalhar no presente. Investiu-se bastante e bem no ensino da música. Mas ficou esquecida a segunda parte do investimento que é criar condições profissionais para as pessoas desenvolverem as suas competências.

É claro que o Estado não tem de ser o pai de nós todos e criar orquestras em todas as esquinas. Mas temos um deficit crónico de orquestras per capita em relação ao resto da Europa. E para piorar a situação, muitas das poucas orquestras em actividade absorvem pouquíssimo músicos, maestros e compositores portugueses.

O investimento público em cultura é ridículo em Portugal, menos de 0,5% do Orçamento de Estado… É ridículo, principalmente quando já está demonstrado que a nível europeu as áreas culturais contribuem o PIB global da UE mais do que a indústria automóvel.

Não há verdadeira política cultural em Portugal. É inadmissível passar-se a ideia de que podemos fazer melhor ou sequer bem com menos recursos, na verdade com quase nada. Sem orçamento, sem dinheiro, é preciso admiti-lo, não há Cultura, como não há Saúde ou Educação. O que fica de um povo é a sua cultura. A cultura é o que nos individualiza e nos torna diferentes dos demais povos. É o que faz a nossa História.

Em Portugal vivemos numa ilusão perniciosa de grandiosidade que até nos pode destruir, em que só importam os Cristianos Ronaldos, e principalmente se estiverem lá fora. O segundo melhor já não nos importa; é o primeiro dos últimos; não merece atenção. Esquecemo-nos que com isso podemos estar a menorizar e acabar por perder o campeão de amanhã! Ninguém ganha sempre.

Tenho pena que na Música se estejam a desperdiçar estas gerações cheias de valor… Fizemos um trabalho tão importante no ensino da música… Quando vamos lá fora somos valorizados, as pessoas reconhecem o nosso trabalho. Mas nós não aproveitamos o que temos de melhor cá! Por exemplo, somos um destino turístico de excelência, mas no Verão é quando há menos oferta cultura, é quando as orquestras estão praticamente paradas.

 

"Produzi uma partitura da 10ª Sinfonia que Mahler deixou inacabada, para um ensemble de 21 músicos"

 

DC – Concluiu recentemente o seu doutoramento sobre Mahler. Pode-nos revelar um pouco deste trabalho?

LC – Entreguei a tese no início de Agosto, e agora aguardo a marcação da prova pública de defesa. Produzi uma partitura da 10ª Sinfonia que Mahler deixou inacabada, para um ensemble de 21 músicos. É uma bordagem completamente diferente das realizadas até hoje, com uma perspectiva pós-moderna, e que vai para além do que é mundo sonoro normal de Mahler, ao introduzir instrumentos mais estranhos como o saxofone, o acordeão ou várias percussões mais modernas. É como se víssemos Mahler fotografado num tablet! (risos)

Houve toda uma parte criativa de orquestração da obra realizada por mim, com esta formação instrumental específica em mente, bem como houve necessidade de realizar alguma composição pastiche para completar secções que Mahler deixou incompletas.

Esta minha versão foi estreada pela Camerata Nov’Arte, sob minha própria direção, no passado dia 10 de Junho, no Festival de Música de Paços de Brandão.

Estou ainda em negociações para tentar apresentar a obra mais vezes, quer em Portugal quer no estrangeiro, mas é um projecto grande, que exige uma logística complexa, por isso não tem sido fácil. Vejamos o que o futuro reserva, até eventualmente a possibilidade de gravar-se em CD.

 

DC – Projectos para breve?

LC – Já em Setembro tenho uma série de concertos em vários pontos do país (Resende, Santa Comba Dão, Aveiro, Lisboa), sendo de destacar a estreia da Camerata Nov’Arte em Lisboa, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, inserida na programação do Festival Jovens Músicos do RDP Antena-2.

A Camerata Nov’Arte é um projecto que me diz muito emocionalmente, pois fui eu que criei o grupo em 2011, e sou seu director artístico e musical. É sempre difícil conseguir financiamentos para projectos independentes como este em Portugal, mas nós vamos continuar a lutar.

Mais para a frente, e agora que estou praticamente livre do doutoramento, tenho também uma série de obras encomendadas em lista de espera que terei de escrever. Assim tenha tempo e disponibilidade mental!

 

http://www.luiscarvalho.com

 Foto: ©Susana Neves
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