PJM 2018

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FESTIVAIS

PRÉMIO JOVENS MÚSICOS

Autor: Sandra Bastos

24 set 2017

Última atualização: 07 out 2018


André Gaio Pereira, vencedor PJM Violino

Não é a primeira vez que André Gaio Pereira vence no PJM – em 2010 já tinha sido o vencedor em Violino, nível médio. Desta vez, venceu no nível superior. A completar o Mestrado em Performance na Royal Academy of Music, em Londres, na classe do professor Levon Chilingirian, o jovem violinista já se apresentou a solo com a Orquestra Gulbenkian, Orquestra do Algarve e Orquestra Metropolitana de Lisboa.

 

Para a participação deste ano no PJM, André Gaio Pereira escolha a expressão “garra”: “Queria provar a mim próprio que podia trabalhar e sonhar alto. Queria fazer-me acreditar que a minha voz, a música que faço, tem valor e que causa algum impacto em quem ouve, um sentimento partilhado por todos os músicos, creio”.

Espera, assim, que o PJM lhe abra “uma nova esfera de possibilidades artísticas”, já que “ao fim de tantos anos de existência acabou transformando-se num monumento de culto da cena musical portuguesa, um pouco à imagem dos grandes concursos internacionais”.

“Todos os anos, o concurso move os jovens músicos portugueses e promove a sua dedicação e trabalho à exploração da música, resultando em evolução, aprendizagem e vivência de experiências que não aconteceriam de outro modo. Em tom de nota, a inclusão e promoção da música portuguesa no prémio é também uma enriquecedora iniciativa. Por fim, alegra-me olhar para lá do palco e ver caras de todas as idades, vindas não só do mundo da música, mas também de outras áreas de interesse”, explica.

 

“não é de um dia para o outro que os resultados surgem”

A chave da preparação foi “um dia de cada vez”, dada a pressão elevada e os prazos a cumprir: “o mais importante é ter o discernimento e encontrar a paciência que permitam aceitar que não é de um dia para o outro que os resultados surgem – estruturar o estudo é essencial”.

Mas não só de estudo se constrói um vencedor. André defende que também é essencial promover a saúde mental e física: “divertirmo-nos e passarmos tempo a fazer coisas que nos dêem satisfação e rodearmo-nos de pessoas que nos façam sentir bem”.

 

“procurar um momento que não deixe ninguém indiferente”

O mais difícil são os dias que antecedem as provas: “Nesses instantes uma pessoa, se bem preparada, já só sente vontade de tocar, de tornar público o trabalho privado. A ansiedade própria da espera pelo momento da performance e a frustração resultante duma forma de trabalho tão detalhada cujos resultados parecem não ter significância alguma, consomem-me”.

Os momentos mais emocionantes acontecem no palco, depois de “tantas horas investidas”. E é no grande palco da Fundação Calouste Gulbenkian, no próximo dia 5 de outubro, que se irá apresentar como solista no Concerto de Laureados, acompanhado pela Orquestra Gulbenkian: “O que espero é poder colaborar com uma orquestra de músicos muito experientes cheios de vontade de trabalhar e procurar um momento que não deixe ninguém indiferente”.

Ganhar o Prémio Maestro Silva Pereira seria a prova de que a sua interpretação teve algum impacto no público e que lhe serão dadas novas oportunidades para “gerar tal sensação”.

 

“Não há sensação mais reconfortante e poderosa do que a de me sentir em casa”

A ainda jovem carreira de André Gaio Pereira tem tido o apoio incondicional da sua família, que vem sempre em primeiro lugar: “Não há sensação mais reconfortante e poderosa do que a de me sentir em casa, sentir o carinho e apoio paternos em todos os momentos, de sucesso ou má sorte, de esforço e recompensa. Os amigos são também parte essencial do meu bem-estar emocional, sem eles nunca pensaria nem sentiria muitas coisas que partilho quando sou bem-sucedido na minha carreira, estaria privado de muito boas memórias e sensações que fizeram de mim a pessoa que sou hoje e, consequentemente, também o músico”.

Mais importantes do que as conquistas ao longo do seu percurso, são aqueles momentos em que se apercebe “de algo enquanto indivíduo e ser humano, os momentos de epifania...”, que determinam a sua forma de ser e tocar e que, naturalmente, se revelam na sua carreira.

 

“Não há, para mim, experiência mais reconfortante e cheia do que poder tocar com outros músicos num grupo reduzido”

Começou a estudar música por influência dos pais, mas depressa o violino se tornou uma companhia e um meio de expressão: “expressar até o que ainda não conseguia, e por vezes não consigo, por palavras. Quando recordo que o meu primeiro desejo foi tocar tuba não consigo deixar de sorrir… A decisão final tomei-a quando tinha 15 anos – não me arrependi!”

Hoje, é na Música de Câmara que se sente mais realizado: “Não há, para mim, experiência mais reconfortante e cheia do que poder tocar com outros músicos num grupo reduzido, idealmente num quarteto de cordas. Ensaiar numa formação assim, ter a oportunidade de discutir ideias e ideais profundamente, experimentar inúmeras formas de tocar uma mesma melodia ou acompanhamento, zangarmo-nos e rabujarmos uns com os outros, sentir a felicidade de um concerto bem-sucedido que só o foi pelo trabalho árduo e conjunto… São momentos de intimidade que dificilmente se atingem de outra forma e é para estes momentos que eu vivo enquanto músico”.

 

“desmistificar o conceito de música “erudita” tornando-a acessível a todos os círculos da sociedade”

Na música em Portugal, diz que falta comunicação: “Música, como pintura ou literatura, é uma forma de expressão, e expressão não é mais que a comunicação de um indivíduo com o meio exterior: todos os seres humanos se sabem expressar de alguma forma. No entanto, como essa forma assume os mais variados feitios, é necessário construir pontes que conectem diferentes culturas, diferentes sistemas de comunicação. Falo em pontes porque, em Portugal, tenho a ideia de existir uma faixa de pensamento que separa os seguidores da música clássica daqueles que pouco se interessam ou ouvem falar dela”. Ou seja, ao que falta é “desmistificar o conceito de música “erudita” tornando-a acessível a todos os círculos da sociedade através de educação interativa e promoção estimulante”.

“Romântico, idealista até, acredito ser possível transmitir qualquer ideia a qualquer pessoa, torná-la compreensível. É incluindo toda a gente que se gera maior interesse e diversidade, e nada me parece ser mais enriquecedor para o mundo das artes que essa visão!”, sublinha.

 

“a procura de identidade, a busca por uma interpretação própria”

Da nova geração de músicos portugueses à qual pertence, destaca “o empenho e dedicação à carreira que escolheram”. No entanto, não há diferenças entre as várias gerações a nível humano, a diferença parece estar nas mudanças externas: “O que muda no mundo muda as pessoas, sim, mas não muda valores, os quais acredito serem básicos e independentes do exterior, como a dedicação e o amor”.

Num mundo profissional “competitivo e vasto”, é possível “atingir os nossos mais íntimos sonhos e objetivos com toda a vontade de os realizar que nos possa caber dentro”. Para isso é preciso trabalhar todos os dias: “encontrarmo-nos com o nosso instrumento, a nossa voz, escutá-la e falar-lhe – os resultados práticos acabam por surgir. Estes dias são o que nos transformam em músicos e não em simples executantes. E isto vejo-o no dia-a-dia nos meus amigos músicos portugueses: a procura de identidade, a busca por uma interpretação própria, a exploração de ferramentas técnicas que permitam elevar a expressão a novas alturas… E que mais se pode desejar?”

 

André Gaio Pereira

André Gaio Pereira é um violinista a residir em Londres. Interessado em diversas áreas da música apresenta-se regularmente como recitalista, em música de câmara e em orquestra.

André iniciou os seus estudos musicais aos 7 anos no Conservatório Metropolitano de Lisboa onde estudou com a professora Inês Saraiva e o professor Aníbal Lima. Após terminar o 8º Grau com a classificação máxima no exame de instrumento ingressou na Royal Academy of Music na classe do professor Remus Azoitei.

É na Academy que se desenvolve e inicia o processo de amadurecimento enquanto músico. Aqui apresentou-se como concertino da Orquestra Sinfónica sob a regência de maestros como Semyon Bychkov, Sir Mark Elder e Edward Gardner. Fundou também o Quarteto Tagus com quem se apresentou no Wigmore Hall e no Cadogan Hall, e também em parceria com o Doric Quartet e membros do Nash Ensemble.

Na vertente solista, André já se tocou a solo com a Orquestra Gulbenkian, a Orquestra do Algarve e a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Em 2017 obteve o 1º lugar no Prémio Jovens Músicos e no ano anterior o 2º prémio no Concurso Vasco Barbosa. Professores com quem teve masterclasses incluem Maxim Vengerov, Zakhar Brohn, Anna Chumachenko e Igor Oistrakh.

Atualmente está a completar o Mestrado em Performance com o professor Levon Chilingirian na Academy. É recipiente de uma bolsa completa da prestigiada ABRSM e ainda generosamente auxiliado pelas instituições Fundação Calouste Gulbenkian, Help Musicians UK e Countess of Munster Musical Trust.

 

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