PJM 2018

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FESTIVAIS

PRÉMIO JOVENS MÚSICOS

Autor: Maria Fernandes e Sandra Bastos

12 out 2016

Última atualização: 09 nov 2018


Pedro Lima, Vencedor do Prémio de Composição SPA Antena 2

O jovem compositor Pedro Lima Soares, com a obra "|...| e tu, de mim voaste", venceu por unanimidade, a 5ª Edição do Prémio de Composição SPA/ Antena 2. A obra foi tocada no Concerto de Gala do Festival Prémio Jovens Músicos, no dia 25 de setembro, na Fundação Gulbenkian.

Pedro Lima Soares nasceu em Braga em 1994. Aos seis anos, ingressou no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga onde estudou Clarinete, Piano e Percussão, e escreveu as suas primeiras peças como aluno de composição de Paulo Bastos.  Continuou os seus estudo em 2012, na Escola Superior de Música de Lisboa sob orientação de João Madureira e Luís Tinoco. Foi premiado no Concurso Nacional da Banda Sinfónica Portuguesa com a obra "Sopro do Côncavo" (2015) que foi estreada sob a direção do maestro Pedro Neves na Sala Suggia da Casa da Música, no Porto. Nesse mesmo ano a sua obra "Once Again - Eternal Goodbyes" (2015) - encomenda JOP-OCP - para orquestra sinfónica, foi estreada na Berlin Konzerthaus sob a direção do maestro Pedro Carneiro. A mesma obra teve a sua estreia em território nacional no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, no festival do Prémio Jovens Músicos, dirigida pelo maestro José Eduardo Gomes.  Estreou no Theatro Circo de Braga o musical "Theatro - Um Ensaio Geral" (2015-16) resultante de uma co-produção com outros dois jovens compositores bracarenses - Francisco Fontes e José Diogo Martins - com libreto de Júlia Durand. 

 

Da Capo (DC) - É a primeira vez que concorres ao Prémio de Composição SPA/Antena 2? Que motivos te levaram a participar neste Concurso?

Pedro Lima (PL) - Sim, foi a primeira vez. Estive quase para concorrer há dois anos atrás, quando o Horácio venceu o Prémio Jovem Músico do Ano. No entanto, na altura resolvi não o fazer porque sentia que a minha peça não estava capaz de ser equacionada para um dos prémio, fosse ele o primeiro ou o segundo. Foi bom nesse ano não ter concorrido porque o tempo trouxe maturidade que na altura não existia. Por coincidência, não me custou minimamente ficar de fora, visto que ganhou o Daniel Davis que é meu amigo e fiquei muito feliz por ele.

Neste ano, em meados fevereiro, quando foi apresentado o musical “Ensaio Geral”, no Theatro Circo, em Braga, apercebi-me de que não tinha nenhum projeto musical que envolvesse a parte criativa da composição até ao final do ano letivo. Pensei que poderia ser uma boa ideia, um bom projeto para colocar no meu horizonte e para me manter ativo. Isto foi o que realmente me motivou inicialmente, nunca o facto de poder ganhar e de ouvir a minha peça tocada. Aliás, eram coisas nas quais pensava pouco. Nem criei grandes expetativas que depois me pudessem desiludir. Fundamentalmente foi um argumento extra para trabalhar em mais uma peça de orquestra sabendo à partida que poderia contar com o apoio do meu professor, Luís Tinoco, uma pessoa super experiente no género e por fim evoluir neste grande projeto da composição. 

 

DC – Conseguiste conciliar o Mestrado com a escrita desta obra?

PL – Sim, porque o meu Mestrado é em performance, portanto acabo por ter algum tempo disponível para fazer este tipo de projetos e até é útil que os faça porque têm algum peso curricular.  

 

 

 "é muito importante ouvir música e estar em contacto com aquilo que se passa no panorama erudito contemporâneo"

 

 

DC – Como lidas com a ideia de expetativa?

PL – Expetativas associadas a este tipo de concurso, em que a partir do momento que entrego a partitura na SPA, já nada mais depende de mim, nesse caso em particular não crio muitas. Crio expetativas em relação àquilo que posso fazer e trabalho nesse sentido para que possa criar o máximo de expetativas em relação aos meus projetos.

Contudo, no sentido prático da performance, no qual eu sei que é a Orquestra Gulbenkian que vai tocar a peça, aí posso ter imensas expetativas, visto que é uma super orquestra. Mas não posso ter expetativas em relação ao facto da minha peça vencer e, por consequência ser tocada. O júri era este e resolveu premiar a minha peça, no entanto se fosse outro júri, o prémio poderia ter ido para outra peça, ou então não.

 

DC - Como te preparaste para este desafio? Quais os momentos mais difíceis e emocionantes?

PL – Não foi propriamente uma preparação para fazer esta peça em particular. Julgo que todas as coisas que eu fiz até ao dia em que comecei a escrever a peça foram a minha preparação. Todos os compositores têm as suas rotinas para evoluírem e para se contextualizarem no meio.

Para mim, por exemplo, é muito importante ouvir música e estar em contacto com aquilo que se passa no panorama erudito contemporâneo, acho que foi essa a principal preparação. Conhecer muitas partituras, muita música. Música essa que pode ser inserida naquela que considero a “minha corrente estética” ou então, pode estar completamente fora daquilo que eu me imagino a fazer mas em última análise defendo que posso aprender com qualquer coisa que tenha valor, não ponho preconceitos à partida. Para mim foi fundamentalmente esse processo para além de todas as experiências que me conduziram até aqui.  

 

 

"acredito que o processo composicional seja do mais solitário que há no mundo"

 

 

DC – Falaste que tinhas terminado um musical em fevereiro. Como foi o desligar de uma partitura para começar um novo projeto? Esse salto foi difícil?

PL – Sim, foi complexo. Complexo porque o musical tem um detalhe, que não é detalhe nenhum, é bem mais que isso, foi composto por três pessoas. Eu, o Francisco Fontes e o Zé Diogo compusemos este musical, um processo criativo dividido a três. Fizemos 1h30 de música e estivemos sempre em sintonia em relação àquilo que “o outro” criava.

À parte disso, acredito que o processo composicional seja do mais solitário que há no mundo, e de alguma forma faz sentido que assim o seja. A nível pessoal sinto que tenho de estar isolado de tudo o que se passa para poder estar realmente focado naquilo que não se passa, mas eventualmente terá que se passar - a mítica página em branco.

Nesse sentido, voltando um pouco atrás na história, quando estava a compôr o musical, encontrava-me sempre acompanhado por duas pessoas, que ainda para mais eram, e são, pessoas amigas e muito próximas. Então, aquelas típicas indecisões, aqueles momentos de bloqueio criativo que podem gerar uma enorme angústia, eram partilhados por três. Era consideravelmente mais fácil, dado que era uma mágoa repartida.

Quando volto para a peça de orquestra volto ao plano real dos acontecimentos. Ainda para mais as coisas não começaram a correr bem desde início porque senti um pouco dessa “latência” ao arrancar, provocada pela transição de processos. Foi complicado por não ter com quem a partilhar. Foi uma coisa mesmo minha, de estar sozinho e julgo que de outra forma também não teria conseguido chegar até aqui.

 

 

 "Sinto que esta peça é a representação cabal daquilo que eu sou neste momento. Representa-me muito melhor do que o meu Bilhete de Identidade."

 

 

DC - Podes explicar a tua peça?

PL – Escolhi escrever para o máximo dos membros da Orquestra porque são todos tão bons que era impossível não pô-los a todos a tocar (risos).

Tinha uma ideia muito poética que é ligeiramente difícil de expressar. Fiz um pequeno poema para esta peça, julgo que o comentador da RTP2 o declamou quando o concerto passou na televisão e também esteve escrito nas páginas de promoção do evento. Na realidade, só escrevi esse poema no fim da peça estar pronta mas era exatamente essa onda de despedida e de homenagem que eu queria que ficasse implícita na peça.

O nome “{...} e tu, de mim voaste” é a constatação disso mesmo. São pessoas, são sentimentos, são muitos elementos que voam de nós, por vezes, faz sentido e até desejamos que isso aconteça, mas noutras ocasiões não queremos de todo. A peça surge neste cenário dramático e pessoal de exteriorizar este sentimento de saudade. Esse foi o mote inicial e em parte isso justifica a utilização da orquestra toda porque havia a intenção de que a peça se afundasse, de alguma forma, nessa totalidade dos instrumentos e que houvesse uma espécie de um “drone” que estivesse sempre a flutuar e que nunca mais aterrava. Este foi o primeiro olhar sobre aquilo que estava por vir. O curioso é que depois do processo começar, também eu comecei a afogar-me na peça, ficando preso nos primeiros 5 minutos de música, durante quase 3 meses!

Este processo divide-se, portanto, em duas fases: são estes primeiros 3 meses que correspondem aos primeiros 5 minutos da peça e depois são os últimos 15 dias antes do prazo da entrega, em que surgem os últimos 5 minutos, que são completamente diferentes. Sentimos um contraste relativamente grande, uma música mais viva, muito mais dinâmica na quantidade de recursos melódicos e contra-melódicos que vão surgindo.

No fundo, a peça acabou por voar de mim também, e o mais bonito é que eu não tive grande consciência disso, estava fechado em casa, deixando que as coisas fossem acontecendo dentro de mim, expressando aquilo que eu estava a sentir mas de uma forma muito inconsciente, tipo piloto automático. Tudo acabou por fazer sentido e nem fui eu que criei esse sentido, foi um bocado a coincidência dos acontecimentos. Eu fiz a peça, e a peça também me fez a mim. 

 

DC – Sentes que deste tudo de ti nesta peça?

PL – Sim, sim! Sinto que esta peça é a representação cabal daquilo que eu sou neste momento. Representa-me muito melhor do que o meu Bilhete de Identidade.

 

DC – Podemos dizer que neste momento o teu estilo de composição foi o que nos foi mostrado no Concerto de Gala do Festival Prémio Jovens Músicos?

PL – Sim. Quer dizer, julgo que não se comprime tudo nesta obra. Se eu tivesse que compor para um quarteto de cordas, por exemplo, o público eventualmente reconheceria outro tipo de linguagem e de processos, mas naquele instrumento gigante que é a orquestra, este estilo é aquele que melhor me representa, por agora. 

 

 

"Tudo aquilo que eu desejava era que as pessoas pudessem compreender aquilo que eu queria dizer com a minha música. Quando olhei para a frente e vi o público de pé a bater palmas, aparentemente contente com aquilo que tinha ouvido, senti-me realizado ao quadrado porque é também para isso que eu crio"

 

 

DC - Como foi ouvir a tua obra tocada pela Orquestra Gulbenkian?

PL – Foi artisticamente o momento mais fantástico que já vivi. Eu digo isto sempre no fim dos concertos, quando correm bem (risos). No ano passado, quando estive na Alemanha com a Jovem Orquestra Portuguesa (JOP), também disso isso porque o momento que vivi na Konzerthaus foi absolutamente surreal. São coisas incomparáveis, digamos. Este concerto, pela conjugação de muitas coisas, foi uma semana particularmente complicada, resultou na maior homenagem que eu poderia ter tido em relação ao que fiz. Foi feito de uma forma muito digna. Músicos de patamares muito superiores.

Quando a peça começou, lembro-me de ter ficar completamente arrebatado na cadeira e subitamente apercebi-me de que aquilo de facto estava acontecer, aquilo que eu já vinha a projetar há dois meses, quando soube que tinha vencido, estava acontecer à minha frente e em menos de 10 segundos tudo terminou, subi ao palco e deixei-me apoderar por um blackout que esteve instaurado até ao momento em que liguei a televisão, puxei para trás, ouvi tudo novamente e aí sim, consegui reconhecer ainda mais valor ao que tinha ouvido na noite anterior. Foi muito gratificante, muito bom mesmo.

 

DC – Como foi o momento em que subiste ao palco e te deparaste com o público a bater-te palmas de pé?

PL – Foi o momento pelo qual sempre esperei. Depois de vencida a etapa do concurso, quando me percebi que iria ter esta oportunidade, tudo aquilo que eu desejava era que as pessoas pudessem compreender aquilo que eu queria dizer com a minha música. Quando olhei para a frente e vi o público de pé a bater palmas, aparentemente contente com aquilo que tinha ouvido, senti-me realizado ao quadrado porque é também para isso que eu crio, não é apenas para saciar um vazio que tenho, em última análise eu quero expressar coisas ao mundo e se o mundo me compreender está tudo equilibrado.

 

 

"O prémio em si deu-me um momento de luxo, uma noite que não contava passar com 22 anos. Por isso, eu sei que vou mudar a minha carreira e o prémio foi extremamente importante e gratificante nesse sentido, motivou-me e deu-me luzes de que se calhar o caminho é por aqui."

 

 

DC – Acreditas que a tua obra pode ser reposta?

PL – Acredito. Quer dizer, são coisas que não dependem apenas de mim, mas acredito que tal possa acontecer até porque quando ouvi o concerto, e não querendo contradizer aquilo disse sobre o facto desta obra ser a que melhor me representa no dia de hoje, pensei automaticamente numas correções de orquestração que teria obrigatoriamente que fazer. Tudo isso pode acrescentar mais nível, melhorar a peça no sentido global. Adorava que isso acontecesse.

 

DC - Achas que este prémio vai mudar a tua carreira?

PL – Ah, não sei se vai mudar a minha carreira. Prefiro acreditar que não. Aliás, prefiro acreditar que em nada muda. Julgo que quem tem essa responsabilidade sou eu e quero continuar a acreditar que sou capaz de a mudar e de a levar para outros sítios. O prémio em si deu-me um momento de luxo, uma noite que não contava passar com 22 anos. Por isso, eu sei que vou mudar a minha carreira e o prémio foi extremamente importante e gratificante nesse sentido, motivou-me e deu-me luzes de que se calhar o caminho é por aqui. 

 

 

"O Prémio Jovens Músicos, sendo um concurso na sua essência, acaba por ser bem mais do que isso, acaba por se superiorizar essa palavra, acaba por premiar muita gente e o ambiente é sempre muito benéfico para a aprendizagem global de um músico."

 

 

DC – Acreditas que este prémio te possa abrir portas para futuras encomendas?

PL – Eu gostava muito que isso acontecesse. Pela história que vejo dos meus colegas que venceram não é assim tão fácil, porque o mercado é grande e as opções também são vastas mas depois as oportunidades vão sendo mais reduzidas em função daquilo que são os recursos institucionais do mercado. Mas espero que algumas coisas se tornem mais acessíveis. Julgo que outras vão continuar como estavam. Não tenho mesmo noção do que vai acontecer mas posso responder daqui a cinco meses (risos).

 

DC - O que achas do PJM em geral?

PL – Acho que é um evento absolutamente notável e merece todo o apoio, agora e sempre. Tenho essa opinião com base num argumento em particular: os concursos podem ser perigosos porque podem criar ilusões positivas e negativas nos participantes. Há quem fique fragilizado em função de um resultado menos bom e por outro lado também há quem se distancie da realidade num sentido perigoso em função de um resultado positivo. A questão é que os concursos são momentos, e a verdade que eles nos transmitem é momentânea, deve ser sempre gerido nessa perspectiva, pelo menos para mim.

O Prémio Jovens Músicos, sendo um concurso na sua essência, acaba por ser bem mais do que isso, acaba por se superiorizar essa palavra, acaba por premiar muita gente e o ambiente é sempre muito benéfico para a aprendizagem global de um músico. Quer seja pela partilha que existe entre os músicos mais velhos e experientes com estes novos que começam a surgir, quer pelas oportunidades que o Prémio em si proporciona.

Outros exemplos como, o facto destes jovens poderem tocar com a Orquestra Gulbenkian, o facto de ser estreada uma peça de um jovem compositor português, o facto de haver grande foco nos compositores portugueses como vimos neste ano com o Sérgio Azevedo, Mário Laginha ou a Ângela da Ponte. Parece-me que a música portuguesa precisa disso e este prémio acaba por compensar uma falta de nutrição da arte musical que vai sendo instaurada no país há algum, bastante, tempo. É um evento memorável para quem nele participa, mas também me parece vital para a música em Portugal merecendo por isso todo o apoio.

Se existissem mais “prémio jovens músicos” só teríamos a ganhar com isso.

 

 

João Lima, o irmão que o adormecia a tocar piano: "foi e continua a ser uma referência vital no espectro da música e em muitos outros"

 

 

DC - Na tua ainda curta carreira, quais os momentos e as pessoas que foram mais determinantes?

PL – Provavelmente vou ser injusto porque me vou esquecer de algumas mas numa cronologia muito resumida tenho obrigatoriamente de começar por referir a minha família que musicalmente tem o seu foco no meu irmão, João Lima, que é pianista. Quando eu nasci, ele já tinha 15 anos e as histórias que me contam é que ele me adormecia a tocar piano. Digamos que foi e continua a ser uma referência vital no espectro da música e em muitos outros. Toda a minha restante família é importante, assim como todos os amigos dos meus pais que sempre foram muito preponderantes neste contacto constante com a arte, eles tinham sempre uma guitarra e imensas canções que me foram marcando no tempo... No outro dia, o meu pai dizia a alguém com quem nos cruzamos na rua que este investimento que fizeram em mim e no meu irmão, é também para cumprir aquele caminho que ele e a minha mãe teriam tido gosto em fazer.

Depois, tenho de referir o Paulo Bastos, meu professor no Conservatório de Braga durante cinco anos. Foi a pessoa que me transmitiu tudo o que foi preciso para que a composição se assumisse, pouco a pouco, como protagonista na minha vida, devo-lhe imenso.

Quando cheguei a Lisboa tive a oportunidade de contactar com muitas pessoas e vou ter de esquecer algumas senão vamos sair daqui amanhã (risos). João Madureira o meu primeiro professor em Lisboa, Luís Tinoco que me acompanha já há três anos e que é uma referência enorme a nível musical. Pedro Carneiro e a JOP que tocaram uma peça minha em Berlim, o Pedro Neves pela fantástica experiência com a Banda Sinfónica do Porto. António Pinho-Vargas, Carlos Caires, André Ruiz e muitos outros que me marcaram de forma muito especial.

 

DC – Quando decidiste que querias ser compositor?

PL – Eu nunca tomei essa decisão, foi uma coisa muito natural. Quando decidi que iria seguir música no ensino secundário foi tudo super confuso. Estava com dois papéis na mão, um para seguir artes noutra escola e outro para seguir música, para começar o rumo da composição. Na verdade, foi uma coisa muito mal decidida, acabando por ficar na composição. Hoje sinto que que foi uma construção gradual que ainda vai no princípio. Não me vejo noutra tarefa distante da “criativa”.

 

 

"Vou continuar neste percurso, descobrir mais coisas e o projeto que está mais iminente é uma ópera que vou compor em conjunto com o Fábio Cachão, que ganhou o prémio Antena 2/SPA o ano passado".

 

 

DC - Quais os próximos passos, projectos?

PL – A partir de agora, vou descansar uma semana (risos). Vou continuar neste percurso, descobrir mais coisas e o projeto que está mais iminente é uma ópera que vou começar a escrever em outubro. Uma ópera que vou compor em conjunto com o Fábio Cachão, que ganhou o prémio Antena 2/SPA o ano passado, e vamos trabalhar com o liberto da Júlia Durand.

Fora isso vou continuar com as outras coisas que são essenciais para mim como produzir música fora do plano clássico, ouvir coisas novas, ler, ver concertos e viver tudo com intenção. Para mim isso é o mais importante na formação de um compositor, e de um artista. 

 

DC – Já tem local para apresentação da ópera?

PL – Ainda é uma incógnita que eu espero que fique resolvida no prazo de um mês. Nós temos interesse em que seja apresentada nos principais locais da cidade de Lisboa, mas ainda é muito vago. No entretanto, vamos trabalhar, arranjar os recursos para que seja tocada, provavelmente vamos contar com o apoio da Escola Superior de Música de Lisboa (ESML) onde ambos estudamos. Vamos dar o máximo para que tudo corra bem.

 

DC – E o mestrado como fica?

PL – O mestrado termina este ano, em performance. É neste sentido da ópera que eu vou conduzir os meus relatórios e os meus projetos porque o ano letivo passado comecei com o musical que foi estreado em Braga, depois escrevi um artigo científico, que ainda não sei se vai ser publicado, sobre a ópera de câmara Paint Me do Professor Luís Tinoco. Agora, foi o prémio de composição e sigo novamente para a ópera. Portanto, há uma série de acontecimentos, mais ou mesmo premeditados, que me conduzem neste mundo da ópera e na interdependência criativa que há dentro desse processo. 

 

 

"É perfeitamente possível assumir uma carreira em território nacional, mas contactar com outros mundos também é importante, e é isso que projecto para mim. Digamos que é um assunto muito pessoal."

 

 

DC - Onde e de que forma gostarias de fazer música, ou seja, qual o objetivo mais alto que gostaria de atingir?

PL – O mais alto possível. Se eu pudesse viver de rendimentos criativos isso seria incrível porque eu acho que é aí que funciono da melhor forma.

Assumindo que é um conjugar de acontecimentos muito complicados, via muito feliz se pudesse trabalhar com orquestras, se pudesse ter obras apresentadas, se pudesse dar aulas, partilhar conhecimento e aprender com novas gerações. Isso seria fantástico para o meu futuro.

Volto a repetir que tudo aquilo que se passa fora do panorama erudito é essencial. Trabalhar, pegar em diferentes mundos da música também é muito importante e não consigo negar porque há anos que é assim para mim. Vejo isto também no meu futuro e espero que esteja lá. Sem fechar portas a nada. Tudo faz parte de uma coisa bem maior que se chama música.

 

DC - Já pensaste ir para o estrangeiro? Achas fundamental para um jovem músico estudar no estrangeiro para que possa fazer música ao mais alto nível?

PL – Sim, sim, já pensei muito nisso e acho que é uma etapa que, mais cedo ou mais tarde, acabará por se realizar, uma vez que, é algo que necessito para cumprir aquilo que quero. É importante contactar com outros sítios, provavelmente, mais evoluídos no panorama cultural e na relação social que existe por parte das pessoas para com a música.

Agora não me parece, de acordo com as minhas percepções, que isso seja um fator determinante na carreira de um músico português e exemplo disso é o concerto que vi na sexta-feira. Os quatro jovens músicos que tocaram nesse concerto, espero não estar engando, conseguiram o prémio sem terem estudado lá fora. Aliás, o Agostinho vai agora para Amesterdão, o Marco também está a começar em Zurique mas a verdade é que eles conseguiram o prémio sem terem saído assim como a Lia e a Mafalda, e foram capazes de fazer o concerto que todos vimos. É perfeitamente possível assumir uma carreira em território nacional, mas contactar com outros mundos também é importante, e é isso que projecto para mim. Digamos que é um assunto muito pessoal.

 

tenho a vontade de dizer que o panorama da música erudita em Portugal é razoavelmente bom. Acredito que isso possa ser uma parte da verdade. Agora, outra parte da verdade é que existe uma subnutrição cultural, não só a nível institucional mas também social na relação que as pessoas têm para com a música.

 
 
 
"Tenho a vontade de dizer que o panorama da música erudita em Portugal é razoavelmente bom. Acredito que isso possa ser uma parte da verdade. Agora, outra parte da verdade é que existe uma subnutrição cultural, não só a nível institucional mas também social na relação que as pessoas têm para com a música."
 

 

 

DC - O que achas do panorama da música erudita em Portugal?

PL – Eu vou ser sincero, na minha curta história, tenho a vontade de dizer que o panorama da música erudita em Portugal é razoavelmente bom. Acredito que isso possa ser uma parte da verdade. Agora, outra parte da verdade é que existe uma subnutrição cultural, não só a nível institucional mas também social na relação que as pessoas têm para com a música.

A música erudita vive de alguma forma muito presa ao passado e muito enraizada naquilo que aconteceu há mais de duzentos anos atrás. Nós agora temos argumentos para construir uma nova história e que esta seja edificada naquilo que somos nós, naquilo que são os homens de agora e que pensam agora, que não são os mesmos de há 200 anos atrás. Apesar de lhes reconhecer valor por tudo aquilo que fizeram, há argumentos para ser contada uma nova história.

Não se deve viver num extremo em que apenas se tocam obras contemporâneas, nem no outro onde só se toca música dos século XVIII e XIX. É preciso encontrar um equilíbrio entre estes ideias, e fundamentalmente, dar voz aos artistas de hoje. Os outros já morreram e já tiveram o respetivo protagonismo na sua época porque quando eram vivos só se tocavam as obras do tempo deles. É preciso um pouco dessa mentalidade. Temos recursos humanos para ombrear com instituições de renome a nível mundial, as gerações mais recentes são exemplo disso.

 

 

"Esta geração tem a capacidade de se abrir e se desdobrar em muitas funções. O mundo ensina-nos isso e estamos a crescer no meio de muitos acontecimentos marcantes que nos tornam tão voláteis."

 

 

DC - Como vês a nova geração de músicos portugueses, à qual também pertences?

PL – Vejo de uma forma especial porque esta geração de músicos tem muitas pessoas próximas de mim. Mais do que isso, sinto que o mundo caminha para a mudança e acho que a realidade de hoje é muito peculiar naquilo que é o acesso à informação, naquilo que é o mundo em geral e na globalização de muitas outras coisas. Esta nova geração de músicos acaba por representar perfeitamente isso.

Nós somos músicos com a capacidade para ouvir muitas coisas diferentes, para fazer mais do que uma tarefa e não ficar apenas comprimidos naquilo que será um “género erudito”. Esta geração tem a capacidade de se abrir e se desdobrar em muitas funções. O mundo ensina-nos isso e estamos a crescer no meio de muitos acontecimentos marcantes que nos tornam tão voláteis.

É de uma forma genuína, motivada e sem medo de fazer nada que eu vejo esta nova geração. Só espero que isso não se anule porque às vezes o tempo esconde estas virtudes que temos aos 20 anos. Acredito também que estes músicos vêm dar continuidade ao trabalho que tem sido feito e vêm para implementar alguma mudança no paradigma social e musical do “músico clássico”.

A minha playlist vai do Fauré ao Kendrick Lamar, dos Radiohead ao Julian Anderson, do Ligeti aos Gentle Giant, entre muitos outros. Julgo que é no meio de tudo isso que eu me revejo e acredito que a geração que vem agora não consegue fugir a esta diversidade porque nós estamos a crescer neste meio, neste momento. É importante considerar tudo, e depois fazer a análise daquilo que nos é útil, aquilo que é uma boa influência para crescermos a níveis intelectuais e humanos.

 

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