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A SOLO

SOLISTAS

Autor: Maria Fernandes

09 fev 2018

Última atualização: 15 fev 2018


Grande Entrevista - Nuno Inácio (Parte II)

 

“há poucos festivais e concursos dedicados exclusivamente à música de câmara”

 

 

DC - Qual a importância da Música de Câmara para a música erudita? O que podemos fazer para que ela se desenvolva mais em Portugal?

NI - A música de câmara precisa, de facto, de um impulso em Portugal. Eu creio que há poucos festivais e concursos dedicados exclusivamente à música de câmara. Acho que se apostar nestas duas vertentes, com enfoque principal na música de câmara como quarteto de cordas, quintetos de sopro com temáticas concretas e depois festivais que apostem em absoluto na música na câmara e não em apresentações solísticas, isto poderia fomentar maior atividade camerística no nosso país.

Temos tantas salas no nosso país que estão vazias, que não têm concertos. Seria necessário fomentar, logo nos conservatórios, concertos de música de câmara, levar os alunos para as salas de concerto, tocarem para público exterior seria extremamente importante.

Fomentar a música de câmara como um caminho possível para um jovem músico português porque nem todos serão solistas, nem todos irão dar aulas, nem tocar em orquestras. A música de câmara é um caminho valiosíssimo e tenho vários exemplos de jovens músicos que estão a apostar na música de câmara e a pensá-la como futuro. 

 

 

“é importante que bons músicos fiquem e tomem Portugal como a sua casa artística e pedagógica, para que continue a ser um ninho de músicos”

 

 

DC - Hoje já tem muitos alunos seus a fazerem sucesso no estrangeiro. Nunca pensou em determinada altura fazer carreira no estrangeiro? Porquê?

NI - Eu já pensei fazer carreira no estrangeiro. Concorri a várias orquestras no estrangeiro. Fiz audições em Los Angeles, Genève, Londres e tentei por várias vezes concursos de 1ª flauta. Devo confessar que só tentei concursos para 1ª flauta, fui um bocadinho ambicioso. No entanto, é nesse lugar que me sinto realizado.

Não aconteceu, apesar de ter chegado à final em alguns concursos. Nomeadamente, o último concurso que fiz foi na Filarmónica de Berlim, onde foram selecionados 20 flautistas ao nível internacional e eu fui um deles. Estive nessa prova, era o meu sonho conseguir realizar essa prova, estar na audição para 1º flautista da Filarmónica de Berlim. Só lá ir e tocar, ser um dos 20 para mim já foi uma honra. Não escondo que se ganhasse este ou um outro lugar para os quais me propus, que a minha carreira seria totalmente diferente.

Ainda assim devo dizer que sou muito feliz aqui porque nós temos uma missão para cumprir em Portugal e é importante que bons músicos fiquem e tomem Portugal como a sua casa artística e pedagógica, para que continue a ser um ninho de músicos e que, cada vez mais, se adivinha como um centro de qualidade e quantidade.

Aqui também me sinto realizado, além de ser 1º flautista numa orquestra, também toco muitas vezes a solo, faço muitos concertos de música de câmara. A minha atividade concertística é absolutamente permanente na Metropolitana e fora dela. Eu dou muitas masterclasses, tenho uma atividade pedagógica muito intensa e estou em Portugal, que por acaso é o meu país. Faço o que gosto e sinto-me realizado com o que faço e pretendo ficar por aqui. 

 

 

“procuro sempre viver e ter tempo para mim, passear, ler, conviver, adoro a natureza e isso enriquece-me também do ponto de vista artístico”

 

 

DC - Quais as renúncias que teve de fazer para se entregar à música? Teve de abdicar da vida pessoal? E as compensações?

NI - Isto de ser músico implica uma forma de vida e uma forma de estar diferente de uma outra atividade qualquer. Dou-lhe um exemplo: ser-se 1º flautista de uma orquestra implica que todas as semanas uma pessoa se apresente e tenha de estar ao mais alto nível. Não se pode fazer um concerto, ou não se deve fazer um concerto menos bom, ou menos digno.

Uma pessoa pode estar num dia mau, somos humanos, mas a questão da preparação e da exigência está sempre ao alto nível. Isso implica que eu tenha de ceder a nível pessoal, familiar. Ter menos tempo do que gostava porque tenho de me preparar. Não consigo conceber ir para palco com dúvidas. Eu nunca vou para palco com dúvidas. Aliás, até me espanto dizer isto porque de facto a minha forma de estar no trabalho é extremamente séria.

Ainda assim, apesar de toda esta exigência e de querer ter este brio e honra permanente de ir para palco com a máxima qualidade, procuro sempre viver e ter tempo para mim, passear, ler, conviver, adoro a natureza e isso enriquece-me também do ponto de vista artístico. Se eu não tiver isso na minha vida, se eu não tiver esse oxigénio, com certeza o lado performativo não seria tão interessante, tão completo, se eu não tivesse o cuidado de ter este peso da balança bem ativo.

Eu procuro, constantemente, um equilíbrio, que procuro sempre com o máximo de exigência quando subo ao palco ou dou aulas, mas ainda assim ter momentos de descanso, de respirar, ir à montanha e observar os pássaros. E dar atenção aos meus amigos, tenho um cão, o Ravel, e uma gata, a Niki, que são como se fossem os meus filhos. Fazem-me desligar em absoluto do stress, das responsabilidades que me rodeiam. 

 

DC - Como organiza a sua vida, a sua preparação técnica, os ensaios, as aulas?

NI - Eu tenho sempre o meu tempo de estudo. Ao longo da vida vamos aprendendo a estudar melhor durante menos tempo. Aquilo que eu realizo em duas horas numa sessão de estudo, eu quando tinha 17 anos realizava em seis horas. O nível de eficácia é cada vez maior. O nível de foco, inteligência e maturidade é maior, então o estudo é muito mais rentável. Portanto, eu consigo em menos tempo preparar-me melhor. Tenho essa vantagem.

Felizmente, eu só tenho oito alunos de flauta e cinco grupos de música de câmara e não aceito mais por ano porque preciso de tempo para mim. Essa é a minha atividade pedagógica e depois tenho a OML e o tempo para mim. Acho que é uma trilogia que está equilibrada e vão conseguindo ter uma boa gestão da agenda. Sou uma pessoa bem organizada e tudo se consegue. A organização é a base de tudo.

 

 

“Fere-me o coração ver a qualidade que há hoje em dias nos jovens portugueses e depois não têm uma resposta do mercado de trabalho.” 

 

 

DC - Que soluções sugere para os problemas que afetam a música portuguesa? Se acha que há problemas, claro.

NI – Os problemas que afetam a música são uma questão política. Fere-me o coração ver a qualidade que há hoje em dias nos jovens portugueses e depois não têm uma resposta do mercado de trabalho. Isto é duro de se constatar.

Não existe uma política cultural em Portugal suficientemente dinâmica para o tornar num país em que a música erudita possa ser respirável. Nós temos centros de música erudita, a Gulbenkian, a Casa da Música, CCB, Teatro de São Carlos, centros muito fortes e depois existem outros que chamo subcentros, como as Orquestras do Norte, do Centro, das Beiras, do Algarve que vão tendo a sua atividade local importantíssima, só que depois faltam ramificações que fomentem atividade cultural e musical e que levem música a sítios onde as pessoas não estão habituadas a ouvir.

 

 

“o nosso papel vai muito para além de debitar sons, é tocar na alma das pessoas”

 

 

Vou contar uma história muito engraçada. Há uns anos, nos concertos do INATEL toquei uns concertos de flauta e harpa no Douro, numa capela de uma aldeia remota. A harpista era a Stephanie Manzo. Era um ciclo de concertos em sítios onde não costuma haver concertos de música clássica. Foi uma coisa que me entusiasmou muito e eu acedi logo a querer participar neste festival que o INATEL promovia. A capela era muito pequenina e fria, mas estava cheia de público. Tocamos do início ao fim e as pessoas no final estavam emocionadas, não paravam de bater palmas e nós tocamos um extra. Não paravam de bater palmas, tocamos um 2º extra.

Depois ficamos um pouco sem jeito, porque já tínhamos tocados dois extras e não estávamos a perceber o que se estava a passar e há uma pessoa que levanta a mão que coloca uma questão: “Como é ser-se músico? Conte como é a sua vida?” E nós começamos a conversar. Às tantas começou uma conversa tão interessante, que durou pelo menos 30 minutos, de troca de experiências da nossa atividade, das pessoas quererem saber como é, como se estuda, como se chega ali ao palco, como se preparam as coisas. Pessoas que nunca tinham ouvido música e nunca tinham conversado com um músico. Foi dos momentos mais gratificantes da minha vida.

Quando a conversa terminou, não imagina o que aconteceu. Pediram-nos para repetir o recital e nós repetimos o recital. Estou a dizer isto com emoção, porque acho que o nosso papel vai muito para além de debitar sons, é tocar na alma das pessoas. Naquele momento eu constatei que cheguei onde queria. Esse foi o momento mais alto para mim. Não é receber um prémio, não é receber um diploma que me reconhece como isto ou aquilo, foi eu ter tocado no coração daquelas pessoas e que isso lhes ter tornado o dia diferente. Foi mágico.

Faltam mais atividades dessa natureza, de levar música às pessoas. Porque formação já começa a haver, mas é preciso dar emprego a estes jovens. É preciso que eles se realizem em Portugal e que façam disto a sua vida.

 

 

“fazia um projeto igual ao da Metropolitana no Norte do país”

 

 

DC - Como vê a nova geração de músicos Portugueses? Que conselhos lhes pode deixar?

NI - Eu deixo um conselho: se amam o que fazem, se é isto que pensam que vai ser a sua vida e o tomam como tal no dia-a-dia, não deixem de sonhar e de querer ver o seu sonho realizado e não aceitem um não como resposta, vão sempre para além disso.

Eu recebi muitos nãos na vida e falhei muitas provas, mas depois as que ganhei valeram pelas que falharam. Nós caímos muitas vezes ao longo da nossa carreira, mas vale sempre a pena sonhar e querer ir longe porque a felicidade depende disso.

Querer sonhar sempre.

 

DC - Se tivesse a oportunidade de integrar um projeto sem restrições financeiras o que faria/inovaria?

NI - Eu fazia um projeto igual ao da Metropolitana no Norte do país. 

 

http://www.nunoinacioflute.com/

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