PJM 2018

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A SOLO

SOLISTAS

Autor: Maria Fernandes

09 fev 2018

Última atualização: 20 set 2018


Grande Entrevista Nuno Inácio (Parte I)

Mais do que um flautista reconhecido, Nuno Inácio é um músico completo, incansável na busca do conhecimento, para que possa crescer e “ensinar com honra e virtude”. Acredita que mais do que “debitar sons”, o papel do músico é tocar na alma das pessoas. É também apostar na música portuguesa e elevá-la ao mais alto nível. E acreditar no potencial dos mais jovens… Não são apenas ideias, sonhos, palavras. Nuno Inácio prova-o todos os dias, na Metropolitana, onde é 1º Flauta há 12 anos e professor de Flauta desde 2004; na Escola Superior de Música de Lisboa, onde é professor de Música de Câmara há quase 20 anos; como solista nos concertos para Flauta e Orquestra de Sérgio Azevedo e Alexandre Delgado, no concurso Lopes-Graça, nos inúmeros masterclasses, concertos, recitais e até na vida académica na Universidade Nova de Lisboa. 

 

 

“[A Metropolitana] tem-me feito um músico, um indivíduo, um artista cada vez mais completo”


 

Da Capo (DC) - Como têm sido estes 12 anos como 1º Flauta na Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML)?

Nuno Inácio (NI) - Tem sido uma experiência enriquecedora, no sentido em que ser o 1º flautista de uma orquestra como a Metropolitana, com uma forte atividade concertista na qual tocamos todas as semanas repertório diferente, dá-nos uma bagagem por temporada considerável e isso tem-me feito um músico, um indivíduo, um artista cada vez mais completo.

A OML, desde que lá estou, creio que tem vindo a crescer, a consolidar os seus projetos artísticos, mas também os seus recursos humanos. Também do ponto de vista da direção artística, recente do maestro Pedro Amaral, devo dizer que acho que as coisas têm corrido muitíssimo bem e espero que assim continuem e auguro que sim. As temporadas têm sido pensadas com cabeça, tronco e membros com uma excelente organização, sentido de criatividade e sempre com programas apelativos a pensar num público e no papel que a OML tem na sociedade lisboeta e no país.

 

DC - Quais os projetos que integrou na Metropolitana que o marcaram mais?

NI - Eu tenho tido a sorte de, em todas as temporadas, ter sido convidado para tocar a solo com maestros extremamente interessantes.

Eu posso dizer duas ou três experiências que foram absolutamente marcantes com a OML. Digo-lhe uma enquanto solista, e outras enquanto 1º flautista e ambas relacionadas com um maestro, que me é muito querido, Michael Zilm. Foi quem me dirigiu como solista na Metropolitana quando ainda não era membro oficial da orquestra, uns meses antes de o ser. Toquei …explosante-fixe… de Pierre Boulez sob a sua direção. Foi uma experiência marcante porque foi o primeiro contacto com a orquestra que depois viria a ser a minha orquestra após uma audição. Esse foi sem dúvida um concerto marcante sob a direção de um músico absolutamente extraordinário.

Nesta linha de pensamento, todos os programas que temos feito com o maestro Michael Zilm ao longo do tempo: Mahler, Bach, Schoenberg, enfim…, fizemos tanta coisa que com ele foram sempre programas extremamente marcantes. Mas eu destacaria o ciclo Mahler. As sinfonias de Mahler com o maestro Michael Zilm foram momentos que me ficarão para sempre e que me tornaram sempre um músico mais rico a partir daquela semana de trabalho.

Embora todas as temporadas tenham desafios extramente, por exemplo, na temporada passada, talvez um dos maiores desafios foi eu ter sido convidado para dirigir a minha orquestra e tocar a solo o mesmo concerto. Portanto, solista e diretor. Foi uma coisa nova para mim, um desafio extremamente interessante, muito enriquecedor que também gostaria de destacar e que vai acontecer felizmente esta temporada outra vez. É um gosto imenso e um prazer trabalhar com os meus colegas, com os músicos que eu conheço tão bem e com a orquestra que é a minha orquestra, em que eu sei exatamente como os músicos reagem, como os naipes reagem ao trabalho que o maestro propõe.

 

 

“É um grande orgulho saber que Portugal é uma referência internacional no que diz respeito ao empenho, à qualidade e à seriedade com que se trabalha na música”

 

 

DC - A Metropolitana comemorou em 2017 o seu 25º Aniversário. Que balanço faz e o que mais podemos esperar no futuro desta instituição?

NI - O balanço é extremamente positivo como pode imaginar. Evidentemente que a orquestra teve altos e baixos nestes anos. Houve problemas financeiros relevantes, mas ainda assim a orquestra tem sido um desafio permanente a nível artístico e o facto de a orquestra estar acoplado a um projeto educativo e pedagógico é extremamente importante para mim, porque eu não consigo dissociar a minha atividade enquanto 1ª flauta da OML e o trabalho que eu faço com os meus oito alunos.

O futuro creio que possa ser animador, continuando nesta linha de pensamento de crescimento, de consolidação, porque a orquestra tem cada vez melhores músicos, felizmente músicos nacionais, porque temos músicos extraordinários em Portugal. É um grande orgulho saber que cada vez mais Portugal é uma referência internacional no que diz respeito ao empenho, à qualidade e à seriedade com que se trabalha na música.

Sempre que vejo uma notícia de um jovem que ganhou um determinado concurso, ou entrou numa determinada orquestra, tanto em Portugal como no estrangeiro, pois para mim não há fronteiras, fico extremamente orgulhoso.

Eu acho que o futuro para a OML pode passar por aí: ser uma orquestra com maior visibilidade também a nível internacional, que vai agora começar um processo protocolar com a Orquestra da Rádio Televisão Espanhola (RTVE) que é uma coisa nova desta temporada. Eu acho que pode ser um início do destaque da orquestra e acho que é neste caminho que se deve ir continuando e caminhando e crescendo sempre com uma atitude humilde e de querer fomentar qualidade.

 

 

“sinto-me na obrigação de saber sempre mais, crescer para que possa ensinar com honra e virtude”

 

 

DC - Como nasceu a sua paixão pela Flauta?

NI - Naturalmente, sou um músico vindo de uma banda como tantos outros músicos de sopro. Comecei na Banda da Ericeira, tinha oito anos. Foi a minha mãe que me desafiou a conhecer a escola de música. O professor reparou que eu tinha uma aptidão interessante e falou com os meus pais no sentido de me inscreverem num conservatório. Tinha que continuar os meus estudos de uma forma mais séria e mais focada porque a seu entender eu tinha vocação. Os meus pais inscreveram-me no conservatório de Torres Vedras que era o conservatório mais perto da Ericeira. Fui estudar para lá e fiz o meu curso complementar de flauta com o professor Ricardo Meira.

Aos 18 anos ingressei na Escola Superior de Música de Lisboa (ESML), comecei o meu percurso académico. Depois de terminar o meu curso superior, fui estudar com um grande mestre em Inglaterra, Trevon Wye, e logo após terminar esta pós-graduação, fui convidado para lecionar, em 1999, na ESML, música de câmara. Foi um desafio enorme porque eu tinha terminado os meus estudos e embora tivesse terminado com classificações bastante elevadas, fiquei muito surpreso, mas muito feliz e quis corresponder às expetativas, procurando dar o meu melhor e honrar o convite que me foi feito.

A par desta atividade pedagógica, a Orquestra Gulbenkian teve um papel importantíssimo na minha vida e na minha formação. Desde 1997 que era convidado para integrar a orquestra. No fim dos anos 90 havia uma lista muito pequenina de músicos que eram convidados, éramos três ou quatro flautistas que tocávamos na Gulbenkian e a partir de, 1998 ou 1999, comecei a ser convidado para fazer o lugar de 1ª flauta, o que era absolutamente incrível. A Orquestra Gulbenkian foi talvez a instituição de maior foco artístico na minha carreira entre 1997 a 2005.

Eu continuei sempre, até relativamente pouco tempo, a ter aulas com grandes flautistas, como Jaime Martin, William Bennett, Trevor Wye, meu professor que me ouviu várias vezes mesmo após ter terminado a pós-graduação. Foram pessoas que continuaram ajudar-me a crescer. Ainda hoje tenho essa vontade de crescer e se não fosse assim sentir-me-ia muito pobre.

Uma exigência pessoal constante e permanente, tanto que ao ser professor, ao ensinar os meus alunos, sinto-me na obrigação de saber sempre mais, crescer para que possa ensinar com honra e virtude. Esta tem sido a minha atitude ao longo do tempo que depois me levou a alguns contactos e apresentações internacionais, nomeadamente, em convenções internacionais em Inglaterra e Espanha. Foram pequenos corolários de uma forma de estar e de uma enorme paixão pela música e de uma forma de vida que tem a ver com deixar-me invadir em absoluto pela arte que represento, honrando-a. 

 

 

“Aquilo que o ensino universitário não compreende é que a carreira de um artista é uma escola, é um ensinamento e uma evolução permanente e constante”

 

 

DC - A formação é a base para um bom músico?

NI - A formação é a base de um músico. Agora há aqui dois tipos de formação: a formação artística que tive em Portugal com a licenciatura e depois estudar com grandes mestres internacionais de forma a evoluir flautística e artisticamente é uma formação diferente.

Hoje em dia para lecionar no Ensino Superior é exigido um tipo de formação do foro mais científico do que artístico. Em conversas privadas com alguns colegas parodiamos esta questão, uma vez que é necessário obter papéis para lecionar aquilo que artisticamente se aprendeu e se conviveu ao longo de uma carreia e de um percurso/escola. Aquilo que o ensino universitário não compreende, a meu ver, é que a carreira de um artista é uma escola, é um ensinamento e uma evolução permanente e constante. Isso advém da vontade do indivíduo de querer crescer e da forma como é exigente para consigo.

Mas ainda assim, eu acho que se caiu numa forma de avaliar a carreira com os diplomas artísticos demasiado depreciativos, de forma a valorizar muito mais os diplomas científicos para que o mestre se possa considerar Professor com P maiúsculo. Eu fiz um mestrado em performance. Foi o primeiro mestrado que surgiu na Universidade NOVA e na ESML, em 2003, porque me senti obrigado a fazer, digo-lhe com toda a honestidade. Se aprendi e cresci com ele? Evidente que sim. Cresci com o mestrado e foi importante a vários níveis, como com os professores que tive, etc. Fez de mim um professor diferente, mas não o suficiente para justificar o novo título, sou franco.

Agora, eu estou a fazer um doutoramento neste momento, também porque me é exigido enquanto Professor do Ensino Superior. Do ponto de vista científico, eu acho importante que um músico seja suficientemente letrado para entender como pode utilizar fontes históricas para servir o propósito da sua interpretação e ter uma interpretação historicamente informada, segundo critérios de avaliação de fontes históricas, etc. Isso eu acho absolutamente fundamental. Para isso, ser necessário ter o diploma de doutoramento, não creio. Mas ainda assim, eu como tantos outros colegas que lecionam no Ensino Superior, que são músicos extraordinários, solistas de orquestras, temos que prestar provas científicas para fazer valer o nosso propósito pedagógico, artístico, no local onde lecionamos. É um reconhecimento diminuto, no sentido em que o ensino universitário olha para os artistas de uma forma diferenciada. Temos de conseguir de uma forma saudável conviver com esta questão e com este desafio e eu vou concluir o meu doutoramento, espero que ainda este ano.

 

 

“a carreira artística não é suficientemente valorizada em termos de experiência e crescimento, no meio académico”

 

 

Repare que se chama um doutoramento em Artes Musicais e tenho que fazer dois recitais que fazem parte das provas de doutoramento. Agora, eu faço recitais todos os meses, eu tenho quatro a seis projetos de música de câmara no âmbito da OML, ou seja, eu estou sempre a fazer doutoramentos. Isto é em jeito de piada esta afirmação, mas o que é facto é que a carreira artística não é suficientemente valorizada em termos de experiência e crescimento, no meio académico.

Inclusivamente falava há pouco com um flautista, Jacques Zoon, que dá aulas na Escola Superior de Genève e ele disse-me: “Sabes Nuno, agora vou ter que fazer um doutoramento para me considerarem Professor.” Ele tem uma carreira absolutamente invejável, desde Chicago, a Lucerne, era o flautista do Claudio Abbado. Em Genève, onde leciona, para honrar a posição de Professor foi-lhe exigido um papel. Pelos vistos, a sua carreira não é suficientemente digna num contexto universitário. Eu não consigo compreender este princípio. 

 

 

“Tem de se fomentar mais a criação artística e a recetividade do ponto de vista dos performers, dos músicos para tocar música portuguesa”

 

 

DC - Tem sido um divulgador da música portuguesa. Pode-nos explicar os seus projetos nesta área?

NI - Eu fui júri do concurso Lopes-Graça, onde foi dedicado um concerto para flauta solo, que toquei em dezembro - a obra vencedora de um compositor italiano e a integral para flauta solo do Lopes-Graça. Isto para lhe dar um exemplo de algo relacionado com a música portuguesa.

Este tipo de atividades relacionadas com a criação em Portugal é extramente importante e este concurso é uma referência. Tem de se fomentar mais a criação artística e a recetividade do ponto de vista dos performers, dos músicos para tocar música portuguesa.

Ainda em 2017, estreei uma obra do Sérgio Azevedo, que foi muito bem-recebida. Um concerto absolutamente brilhante que está a par de qualquer concerto para flauta e orquestra escritos. Posso dizer que depois de ter tocado este concerto, recebi variadíssimos contactos internacionais, de colegas flautistas, diretores de orquestra, que ficaram espantados com a qualidade do concerto e que querem fazê-lo por esse mundo fora, querem conhecer a partitura. Isto é extremamente gratificante e é por este caminho tem que se ir. Valorizar o que é nosso, fazê-lo bem e, hoje em dia, com as redes sociais e a propagação da informação, é possível dar a conhecer além-fronteiras o trabalho que se faz aqui e acho que deve continuar dessa forma.

Também toquei a solo com a Orquestra Gulbenkian o concerto de Alexandre Delgado que é outro exemplo de concerto para flauta e orquestra absolutamente incrível, ao nível de grandes mestres da flauta. E é preciso que se dê a conhecer. Eu espero que depois de tocar, pegar na gravação e mostrar a vários colegas meus internacionais, que esse concerto comece a ser tocado fora de Portugal.

É muito importante que isto comece a ser uma bola de neve e que comece a criar um ciclo de reconhecimento artístico e criativo relativamente aquilo que se faz em Portugal. Eu serei dos primeiros a contribuir para que Portugal seja notado no que se refere à criação e à performance porque o que fazemos aqui é muito bom e faz-se muito bem. 

 

 

“Comunicar música é difícil, significa predispormo-nos a uma forma de estar do outro indivíduo. Receber informação, reagir, agir.”

 

 

DC - Tem também uma longa carreira como professor. Que valores/ensinamentos procura transmitir aos seus alunos? O que mais o realiza nesta área?

NI - Os alunos chegam a mim, mais ou menos, com 18 anos e naqueles anos da licenciatura trata-se de um momento em que os convido a evoluir o máximo possível, a dar tudo de si como eu darei o máximo de mim para contribuir para o seu absoluto crescimento. Absoluto crescimento humano, artístico e flautístico. Esse é o desafio. O desafio de humildade e de querer vencer e ser músico com o máximo de dignidade possível. Pode querer ser solista, músico de orquestra ou professor, mas tem que ter o máximo de dignidade.

O meu objetivo é que os meus alunos entrem nas maiores escolas europeias e, felizmente, ano após ano tenho tido vários alunos a entrarem, por vezes, em 1º lugar, nas maiores escolas do mundo. Dois exemplos: o meu ex-aluno, Francisco Barbosa, entrou na Juilliard School, só não ficou lá a estudar por questões logísticas, como bolsas, etc. Acabou por vir estudar para a Reina Sofía, com Jacques Zoon. Mas quando ele me noticiou o prémio, além de ter sido absolutamente meritório, invadiu-me um sentimento de orgulho e de satisfação em absoluto.

Uma aluna minha, Alexandra Gouveia, que esteve a estudar dois anos comigo, perguntou-me: “Professor, eu ainda não concluí a licenciatura consigo, mas gostaria de concorrer para a Escola de Basel.” Esta escola é uma grande referência europeia e o professor de flauta, Felix Renggli, é fantástico. E disse-lhe: “se é isso que queres, vamos preparar a tua prova.” Perguntei-lhe se sabia quantas vagas tinha o professor, porque isso é importante saber. Ela diz-me que ele só tem uma vaga. Eu sei que para esta escola, como para tantas outras deste calibre, são dezenas a concorrer, mas foi ela que entrou. Eu fiquei felicíssimo. São apenas dois exemplos de alunos que entram em escolas mundiais e conseguem aquilo que pretendem.

O trabalho pedagógico na ESML é diferente porque é música de câmara. Música de câmara para mim é a essência de se ser músico. É a comunicação em pleno. É um desafio permanente muito interessante. Comunicar música é difícil, significa predispormo-nos a uma forma de estar do outro indivíduo. Receber informação, reagir, agir. É um projeto e uma forma de estar diferente, mas que me dá igual entusiasmo. Sinto-me muito feliz por dar música de câmara. 

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