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A SOLO

SOLISTAS

Autor: Sandra Bastos

07 jan 2018

Última atualização: 15 fev 2018


Pedro Emanuel Pereira

Premiado em concursos internacionais, Pedro Emanuel Pereira é uma das jovens promessas do Piano em Portugal. Em 2017, foi o protagonista do Concurso Internacional de Piano de Santa Cecília, no Porto, ao ganhar o 1º Prémio, numa concorrência ao mais alto nível – Pedro era o único português em prova. Com este prémio, vai ter a oportunidade de gravar o seu primeiro disco para a KNS Classical.

 

Após a extinção do Concurso Internacional de Piano Vianna da Motta em Lisboa e do Concurso Internacional Cidade do Porto, o Concurso Internacional Santa Cecília ganhou um lugar de destaque no panorama nacional e internacional. Pedro Emanuel Pereira sabia que “em cada nova edição o nível tornava-se mais exigente e que a concorrência este ano seria bastante forte”. Assim, conseguir o primeiro prémio foi “um momento muito especial” não só para si, mas também para a cultura musical portuguesa.

Com o prémio, ganhou também oportunidades de pisar novos palcos e de gravar um CD para a editora KNS Classical: “Se tudo correr como planeado, o disco será lançado no verão de 2018.”

 

“devemos apresentar-nos em palco com aquilo que fazemos de melhor”

Com apenas 15 anos de idade, venceu a categoria superior até 24 anos, do Concurso Internacional de Piano "Cidade de San Sebastian", em Espanha. A este prémio seguiram-se outros primeiros prémios em Portugal, Espanha e Rússia.

Pedro Emanuel Pereira admite que o objetivo de qualquer músico quando participa num concurso é chegar ao pódio, mas o mais importante é a experiência: “uma das coisas boas que os concursos proporcionam é a possibilidade de pisarmos novos palcos e de nos darmos a conhecer”.

Igualmente importante é a escolha do programa a apresentar: “O repertório que escolhemos reflete quem nós somos, reflete o nosso gosto. Acima de tudo, devemos apresentar-nos em palco com aquilo que fazemos de melhor”.

“Mas devo confessar que eu olho para o fenómeno "concurso" de forma ambígua. Por um lado, é uma rampa de lançamento na carreira dos jovens artistas, mas, por outro lado, nem sempre os resultados refletem o valor real de quem nele participa, quer no sucesso, quer no insucesso”, sublinha.

 

“Lá [em Moscovo] convivi com grandes músicos e pedagogos, usufrui de um ambiente musical ímpar e inesquecível”

Natural de Guimarães, começou a estudar Piano aos cinco anos de idade, prosseguindo estudos na classe do professor Marian Pivka. Em 2008, obtém uma bolsa de estudo por parte da Fundação Calouste Gulbenkian e muda-se para a Rússia, passando a estudar no Conservatório de Moscovo P.I. Tchaikovsky na classe da pianista Vera Gornostaeva.

“Estudar no Conservatório de Moscovo era um sonho que tinha desde criança. O professor com quem estudei em Portugal, Marian Pivka, foi graduado pelo Conservatório Moscovo, e sempre me falou em nomes como Gilels, Richter, Neuhaus, Rostropovich, Oistrach, etc. A partir do momento em que obtive uma bolsa de estudo por parte da Fundação Calouste Gulbenkian, não pensei duas vezes e embarquei nesta aventura”, conta.

Como colegas de classe tinha laureados em grandes competições internacionais, como Vadym Kholodenko (vencedor do Concurso Van Cliburn, nos EUA); Lukas Geniušas (segundo prémio no Concurso Chopin, em Varsóvia, e no Concurso Tchaikovsky de Moscovo) e Andrey Gugnin (vencedor do Concurso Internacional de Sidney, na Austrália).

“Lá convivi com grandes músicos e pedagogos, usufrui de um ambiente musical ímpar e inesquecível. Portanto, não é surpreendente o facto de que em cada concerto da classe da minha professora, a sala estivesse completamente cheia, independentemente de ser no grande auditório, no pequeno auditório ou na sala Rachmaninov”, destaca.

 

“sou feliz porque reconheço que a música permite-me ver o mundo de diferentes perspetivas”

“Considero-me mais músico do que pianista. O piano é um instrumento fascinante, mas insere-se num fenómeno ainda mais fascinante, a própria música”, afirma. Não obstante viver a música de forma “muito apaixonada”, confessa que são necessários alguns sacrifícios: “Com apenas 17 anos fui para Moscovo, e por me encontrar longe de casa, tive de passar alguns natais longe da família. Esta é a realidade de muitos jovens que arriscam estudar longe de casa na busca dos seus sonhos”.

Gostaria de ter mais tempo para ler e estar com as pessoas de quem gosta, porém sente-se feliz com as suas escolhas: “sou feliz porque reconheço que a música permite-me ver o mundo de diferentes perspetivas. Hoje, as pessoas limitam-se a viver uma vida de três acordes num compasso quaternário, mas tal como na música, a vida é muito mais diversa do que isso”.

 

“quando inicio o trabalho, sou extremamente focado naquilo que faço”

Costuma desligar o Wi-Fi e trabalha até ao limite das suas energias, mas não se considera organizado nem metódico: “Normalmente não consigo fazer planos para dois dias, inscrevo-me nos concursos quase no fecho da inscrição, por vezes chego atrasado aos compromissos, mas, em contrapartida, quando inicio o trabalho, sou extremamente focado naquilo que faço”.

Tem também a consciência de que é responsável pelas suas escolhas: “Sei que em muitos momentos errei, mas também sei que em outros tantos momentos acertei. Por exemplo, perante o insucesso numa competição, coloco sempre inúmeras questões. Em que é que falhei na minha performance? Terei errado na escolha do repertório? Seria este o concurso certo para mim? O que devo fazer para que da próxima vez seja bem-sucedido? Questionando-nos perante o insucesso, somos conduzidos na direção do sucesso, sendo desta forma que eu me pauto em cada momento da minha vida, quer profissional, quer pessoal”.

 

Do Conservatório de Moscovo à Casa da Música

No caminho do sucesso, destaca a primeira vez em que subiu ao palco do grande auditório do Conservatório de Moscovo para interpretar o concerto nº4 de Beethoven, com a Orquestra Filarmónica de Moscovo. “Esse concerto esteve inserido na comemoração do 85º aniversário da minha professora Vera Gornostaeva, o que tornou esse momento muito especial”, explica.

Realça também a primeira vez que pisou o palco da Sala Suggia, na Casa da Música do Porto, no concerto de abertura do Ciclo de Piano de 2017, nove anos depois de ter aberto o mesmo Ciclo, mas na Sala 2: “foi especial pelo facto de já não tocar a solo em Portugal há imenso tempo, sentindo-me tremendamente feliz por poder partilhar a música com aqueles que me são próximos e que sempre me foram acompanhando”.

 

“Lisboa recebe quase tudo, Porto um pouco, e para o "resto" sobram algumas migalhas que servem para matar alguma fome de cultura”

Considera que em Portugal, muita coisa mudou nas últimas décadas: “existem inúmeros conservatórios e academias espalhados pelo país, facilitando o acesso ao ensino da música às crianças e aos jovens. Temos igualmente um número muito significativo de escolas superiores de música. Outro fenómeno interessante é a criação de novas orquestras ao longo do país. Isso faz com que a música chegue a mais pessoas, e dá igualmente novas oportunidades de trabalho a jovens músicos”.

No entanto, ainda vivemos num país excessivamente centralizado: “Se queremos ouvir uma ópera temos de ir a Lisboa ao S. Carlos, se queremos ouvir o Evgeny Kissin temos de ir a Lisboa à Fundação Calouste Gulbenkian”.

Também a nível de orçamento, “a desigualdade é igualmente gritante”: “Lisboa recebe quase tudo, Porto um pouco, e para o "resto" sobram algumas migalhas que servem para matar alguma fome de cultura. Ainda hoje não consigo perceber como é que Guimarães, cidade que foi Capital Europeia da Cultura, foi deixada completamente ao abandono por parte dos sucessivos governos. Uma cidade que respira cultura merecia certamente outro tratamento por parte de quem nos governa”. 

 

“sem mestria, conhecimento e experiência de palco, será muito difícil formarmos futuros artistas”

Tem o sonho de um dia regressar a Portugal e partilhar com os mais novos o conhecimento que foi adquirindo, mas não para breve, já que não tem mestrado nem doutoramento em ensino.

“Este é um fenómeno que praticamente só se verifica em Portugal. O mestrado em ensino está essencialmente focado em cadeiras de pedagogia, não estimulando o desenvolvimento artístico do aluno. A pedagogia é determinante para quem quer lecionar, sem dúvida, mas sem mestria, conhecimento e experiência de palco, será muito difícil formarmos futuros artistas”, revela.

 

“todos nós [jovens pianistas] temos algo em comum, que é o facto de em determinado momento das nossas vidas termos optado por seguir os estudos no estrangeiro”

Se em Portugal faltam formadores experientes em performance, não faltam certamente jovens talentosos: “é curioso verificar que nas grandes orquestras espalhadas pelo mundo existem sempre alguns instrumentistas de sopro portugueses. Nomes como Adriana Ferreira, Sérgio Pires, Carlos Ferreira, Samuel Bastos, entre muitos outros, já são nomes firmados no panorama internacional”.

“O nível das cordas tem subido consideravelmente nos últimos anos, e o facto de muitos músicos optarem por seguir os estudos no estrangeiro, fez com que a qualidade das nossas orquestras aumentasse, bem como a qualidade do ensino dos instrumentos deste naipe”, afirma.

Quanto ao piano, existem igualmente jovens artistas com muito talento: “Rafael Kyrychenko, Raul da Costa, Vasco Dantas, Pedro Gomes, João Xavier, entre outros, são alguns nomes que posso destacar. Todos estes pianistas têm a sua individualidade, a sua maneira de se relacionarem com o instrumento, com a música, e com esta profissão. Mas todos nós temos algo em comum, que é o facto de em determinado momento das nossas vidas termos optado por seguir os estudos no estrangeiro. O Rafael inicialmente foi para Bruxelas, o Raul para Hannover, o Vasco e o Pedro para Londres, eu e o João optamos por Moscovo”.

 

“seria um enorme passo em frente se em Portugal se criasse um canal televisivo só dedicado à cultura”

“Há tantos projetos pessoais e coletivos que gostaria de iniciar, e outros tantos nos quais gostaria de poder participar”, confessa. Por exemplo, acha que “seria um enorme passo em frente se em Portugal se criasse um canal televisivo só dedicado à cultura. Um canal de promoção da literatura, da música, da filosofia, da história, do teatro, da pintura…”

Acredita que 2018 será um ano bom: “Em Portugal terei um concerto a solo em Lisboa e um concerto com a Orquestra Casa da Música, na Sala Suggia. Terei também o lançamento do meu primeiro CD para a KNS Classical, entre outros projetos”.

 

http://pedroemanuelpereira.com/

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