PJM 2018

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TALENTI

TALENTI


Sérgio Pires, Clarinete

Filho de emigrantes portugueses, Sérgio Fernandes Pires nasceu em Berna, na Suíça, em 1995. De regresso a Portugal, iniciou os seus estudos musicais de clarinete, aos oito anos, na Escola de Música da Sociedade Filarmónica de Vieira do Minho e, em 2007, ingressou na Academia de Música Valentim Moreira de Sá, Guimarães, na classe do professor Vítor Matos, com quem estudou até 2013.

Participou em vários masterclasses de Clarinete e Música de Câmara e tem colaborado com várias orquestras a nível profissional. Foi premiado em vários concursos, onde se destacam o "Concorso Internazionale Marco Fiorindo"; “Prémio Jovens Músicos" e “Czech ClarinetArt”.  Foi admitido nas orquestras de jovens Gustav Mahler JugendOrchester, European Union Youth Orchestra e Schleswig Holstein Festival Orchestra.

É, desde este ano, músico "Reserva" na Sinfonie Orchester Basel e KammerOrchester Basel, com a qual tocou a solo o Concerto de Carl Nielsen.

Estuda também Clarinete baixo e Clarinete em Mib com Jordi Pons. Atualmente estuda na Hochschule für Musik der Stadt Basel, na classe do Prof. François Benda.

 

 

 

"é esse sempre o foco do meu estudo: procurar transmitir sensações e emoções através de diferentes coloridos, diferentes ambientes..."

 

 

Da Capo (DC) - Por que é que escolheste o clarinete? Sempre foi esse o teu sonho? O que te fez apaixonar por ele?

Sérgio Pires (SP) - Eu, como a grande maioria dos músicos de sopro do nosso país, comecei a minha aprendizagem numa banda filarmónica, em 2003, com oito anos. Na altura, queria tocar trompete, mas devido à falta de clarinetes na banda acabou por ser-me dado um clarinete para as mãos. Eu não conhecia o instrumento, nunca tinha ouvido falar e muito menos sabia como soava. Era para mim uma experiência totalmente nova.

Com o passar dos anos, ao longo da minha aprendizagem, a paixão pelo instrumento veio naturalmente, e o que mais me cativou foi a diversidade de cores e timbres que o clarinete permite reproduzir, e é esse sempre o foco do meu estudo: procurar transmitir sensações e emoções através de diferentes coloridos, diferentes ambientes...

 

 

"em cada decisão que se toma, deixa-se algo para trás, é inevitável"

 

 

DC - Como surgiu a oportunidade de ires estudar para a Academia de Música Valentim Moreira de Sá na classe do Prof. Vítor Matos?

SP - Em Vieira do Minho sempre estive rodeado de pessoas que me incentivavam, que sabiam que eu tinha algum potencial e, como é normal no mundo filarmónico, tenta-se mostrar o "produto da casa", e então foi todo esse processo que me conduziu a Guimarães.

Em 2006, houve um Festival de Bandas Filarmónicas em Amares, no qual me apresentei pela primeira vez como solista, interpretando o Concerto de Krommer. Esse concerto acabaria por ser gravado e mostrado ao meu futuro professor, Vítor Matos. Entretanto, acabámos por nos conhecer e foi aí que surgiu o convite para estudar na Academia de Música Valentim Moreira de Sá, na qual ingressei em 2007 e permaneci até 2013. Foi sem dúvida uma importante etapa na minha vida, no meu desenvolvimento como músico e como pessoa.

 

DC - Com 12 anos já sabias o que querias?

SP - Quando ingressei na Academia, no ensino articulado, continuei a frequentar a Escola em Vieira do Minho e as aulas que dizem respeito ao “articulado” tinha-as em Guimarães. O meu objetivo, com a entrada neste mundo, passava por desenvolver as minhas capacidades, sem nunca ter pensado que algum dia a música viria a ser o meu futuro, também talvez por ser, de facto, demasiado cedo para ter pensado nisso. Não havia pressas, e procurava apenas desfrutar da minha aprendizagem.

Entretanto chegou o momento de escolher um caminho a seguir, e mesmo com 14 anos ainda não estava 100 por cento seguro do que queria - é praticamente impossível, com essa idade, ter maturidade suficiente para fazer uma escolha que, no fundo, afetará toda a tua vida. E claro, em cada decisão que se toma, deixa-se algo para trás, é inevitável.

As aulas passariam a ser todas em Guimarães obrigando-me a ir viver para lá e a sair da casa dos meus pais ainda muito novo. E essa foi, sem dúvida, a maior renúncia que fiz em prol do meu futuro, mas foi também isso que me deu muita força para estudar e dar o meu melhor todos os dias, queria ter a certeza que o que estava a fazer iria dar resultados e nada seria em vão. Devemos sempre tentar olhar para os nossos problemas de uma maneira positiva, e foi isso que tentei fazer.

 

DC - Qual foi o papel dos teus pais neste processo de decisão?

SP - Tive sempre o apoio dos meus pais, que sempre me deram a oportunidade e a liberdade de ser eu escolher o meu futuro e sim, isso facilitou tudo, ajudaram-me sempre da maneira que conseguiram, mesmo não tendo nenhuma ligação com o mundo da música. Claro que há situações que são mais difíceis de explicar a quem está do lado de "fora", mas sempre se ultrapassa isso. A minha irmã estuda Flauta e os meus estudos foram praticamente passados ao lado dela, suportando-nos sempre um ao outro, e isso também facilitou muito, quer em casa quer na escola, nunca me senti com falta de suporte.

Com a minha mudança para Guimarães, tentei fazer com que tudo passasse a ser direcionado para a minha evolução enquanto músico, tive muito mais tempo livre para estudar, estava sempre rodeado de amigos e colegas com a mesma paixão e ambição que a minha, havia trocas de ideias, experiências... E foi isso tudo, sem dúvida, que me impulsionou e deu motivação.

Com o tempo surgiram os resultados como a participação, bem-sucedida, em diversos concursos nacionais e internacionais, ser aceite na "Hochschule für Musik" em Basileia na classe de François Benda, a entrada nas três mais importantes orquestras de jovens (EUYO, GMJO, e SHMFO), convites para tocar com orquestras profissionais, entre outros.

 

 

"[o primeiro concurso] Ensinou-me que ter facilidades, ter "jeito", não era suficiente, mostrando-me desde logo a importância do estudo individual"

 

 

DC - Ainda te lembras do teu primeiro concurso? Como foi a experiência?

SP - O meu primeiro concurso foi em Aveiro, no Conservatório Calouste Gulbenkian, em 2007, onde obti o 3º Lugar. Sendo a minha primeira experiência do género, não sabia bem o que esperar, não conhecia o nível dos concorrentes, não sabia o que era tocar para um júri.

Foi uma experiência boa, sem dúvida, onde conheci bastantes jovens clarinetistas que viria a encontrar nos mais variados concursos que realizei posteriormente. Ensinou-me que ter facilidades, ter "jeito", não era suficiente, mostrando-me desde logo a importância do estudo individual.

 

DC - Qual a importância dos concursos para um jovem músico?

SP - Os concursos são bons para rodar programa, para ter oportunidade de tocar para alguém, mostrar o trabalho que estamos a fazer, conhecer outros músicos, outras interpretações, e mesmo para nos preparar para outros concursos maiores, outras audições, recitais, etc. Não devem ser vistos como uma competição, pois os prémios dependem muito das ideias do júri, das preferências, e não apenas de nós próprios. Por isso mesmo, devemos desfrutar ao máximo a experiência, preparar bem o programa, o resto virá por acréscimo.

 

 

"estamos habituados a estudar concertos completos sem nunca vir a interpretá-los com orquestra, o que acaba por ser um trabalho incompleto e muitas vezes injusto"

 

 

DC - És ainda muito jovem mas há alguma passagem que te tenha marcado mais?

SP - Recentemente tive o prazer de ser dirigido por Christoph Eschenbach, um dos mais famosos pianistas da atualidade, no concerto de celebração do seu 75º aniversário. Um concerto com um programa enorme, com a duração de cinco horas, com obras de L. Beethoven, P. Tschaikovsky, R. Strauss e W. Mozart, com quatro mil pessoas na plateia. O concerto ainda teria a participação de três solistas: Lang-Lang, pianista; Midori Gotõ, violinista e Michaela Kaune, soprano.

O imprevisível aconteceu um dia antes do concerto: o pianista Lang-Lang, que iria interpretar o Concerto de Grieg para Piano e Orquestra, estava com uma infeção no ouvido e ficou impedido de viajar de avião devido à pressão. Então a única solução encontrada, num tão curto espaço de tempo, foi Eschenbach tocar o Concerto de Mozart nº 23 que a orquestra tinha tocado duas semanas antes com Christian Zacharias. Foi para mim (e para todos) impressionante, depois de muito tempo sem estudo, e o próprio Eschenbach admitiu, tomou aquela decisão e apresentou o concerto com uma interpretação e perfeição únicas! Foi um momento inesquecível.

 

DC - Recentemente tocaste a solo com a KammerOrchester Basel, o Concerto de Carl Nielsen para Clarinete e Orquestra, qual foi a sensação?

SP - Foi sem dúvida um momento que ficará para sempre na minha memória. Nós, músicos, estamos habituados a estudar concertos completos sem nunca vir a interpretá-los com orquestra, o que acaba por ser um trabalho incompleto e muitas vezes injusto, pois muita gente trabalha para merecer essa oportunidade.

Foi uma experiência que requereu muitas horas de estudo, mas que foi compensada no momento em que pisei o palco. Ver a sala cheia com amigos, colegas, professores, e ter a oportunidade de partilhar as nossas ideias e interpretações através da música é algo que não tem preço.

 

DC: - Também este ano realizaste uma tournée como 1º Clarinete Solo da Sinfonie Orchester Basel viajando por países como China, Coreia do Sul e outros, contudo, para isso, tiveste que abdicar de outras orquestras nas quais também tinhas entrado como a Gustav Mahler JugendOrchester. Que experiência retiras desta tournée?

SP - Foi para mim um começo de ano fantástico quando recebi o convite para tocar na Tournée como 1º Clarinete. Quando vi que as datas coincidiam com a Tour de Primavera da Gustav Mahler JugendOrchester tive de fazer uma escolha, que para mim foi uma escolha "fácil" e rápida. Sabia que seria uma experiência totalmente nova tocar numa orquestra profissional com a qualidade da Orquestra da Sinfónica de Basel e sabia que poderia ser também uma boa oportunidade para mim, para mostrar o meu valor. Sabia também que ainda podia concorrer nos próximos anos para a GMJO, o que facilitou a escolha.

Acabou por ser uma experiência única e muito enriquecedora. Conheci músicos fantásticos e criei laços para o futuro. Acabaram por me chamar para muitos outros projetos (Óperas, Concertos Sinfónicos, Música de Câmara), por isso posso dizer que valeu totalmente a pena e teria feito a mesma escolha neste momento.

 

 

"foi em tournée que aprendi que temos de aproveitar todos os pequenos momentos livres para estudar, para conseguir manter o nível"

 

 

DC - O que gostas mais: tocar a solo, música de câmara ou em orquestra? Porquê?

SP - Tocar em orquestra e em música de câmara é o que acaba por me preencher completamente como músico apesar de, obviamente, gostar imenso de tocar a solo, e nunca descartaria isso da minha vida, penso que é preciso fazer um pouco dos três. Diria que se deve sobretudo ao facto de permitir um envolvimento muito maior na música, à possibilidade de trabalhar ideias, interpretações em conjunto, e não num trabalho tão individual como tocar a Solo. 

Em música de câmara, o repertório que envolve o clarinete é único e muitas vezes de referência como, por exemplo, o Trio para Clarinete, Violoncelo e Piano de J. Brahms e o Quinteto para Quarteto de Cordas e Clarinete, do mesmo compositor.

 

DC - Como organizas a tua vida, os teus tempos livres, a tua preparação técnica, os ensaios, as viagens?

SP - Isso foi algo que aprendi com o tempo e continuo a aprender. Para mim tem sido sempre possível conciliar as aulas com outros projetos que vou tendo durante o ano, e sem dúvida, que isso facilita muito, e é um "peso grande que sai dos ombros".

Mas foi em tournée que aprendi que temos de aproveitar todos os pequenos momentos livres para estudar, para conseguir manter o nível. Só assim é possível conciliar o estudo, com as viagens, concertos, e ensaios. De resto, durante o ano, há tempo para tudo, é apenas preciso ter força de vontade.

 

 

"Pela sua entrega à música, pelo prazer genuíno que tem ao tocar, pela sua energia, acaba por passar isso ao público e à orquestra, Maxim Vengerov é uma grande referência para mim"

 

 

DC - Quais as tuas maiores referências?

SP - Recentemente tive o prazer de tocar com Maxim Vengerov, violinista, e curiosamente, depois de já ter tocado com muitos solistas internacionais como Martin Grubinger, Vilde Frang, Vladimir Ashkenazy, Thomas Demenga, entre outros, Vengerov foi dos músicos que mais me chamou à atenção, e penso que também a toda a orquestra. Pela sua entrega à música, pelo prazer genuíno que tem ao tocar, pela sua energia, acaba por passar isso ao público e à orquestra, e sem dúvida que é uma grande referência para mim.

Mais duas personalidades que admiro muito, especialmente por todo o trabalho feito com os jovens, pelo legado deixado, por terem engrandecido a música: Claudio Abbado e Leonard Bernstein. Ambos criaram orquestras de jovens que são hoje das mais importantes no mundo: Abbado criou a Orquestra de Jovens da União Europeia (EUYO) e a Gustav Mahler Jugendorchester (GMJO), ambas na Europa, Bernstein, por sua vez, criou a Schleswig-Holstein Musik Festival Orchester (SHMFO), na Alemanha, Pacific Festival Orchester (PFO), na Ásia, Tanglewood Music Center, (TMC), nos E.U.A..

 

DC: Tens algum compositor ou obra preferida?

SP - A minha obra preferida é, sem dúvida, a Missa de Requiem de W. Mozart. Quanto a compositores, não posso dizer que tenha apenas um compositor favorito… J. Brahms, W. Mozart, J. S. Bach, e L. van Beethoven são para mim os 4 génios da música erudita!

 

 

"Penso que em geral somos [músicos portugueses] vistos como pessoas cheias de energia, com vontade de fazer música, com talento e muito sociáveis"

 

 

DC - Por que é que decidiste estudar no estrangeiro? Quais foram os critérios que pesaram na escolha da Universidade de Basileia?

SP - Decidi ir para Basileia pois tinha conhecido o meu atual professor numa masterclasse. Já conhecia o seu trabalho, o sucesso que os alunos da sua classe tinham, tanto em audições para orquestra como em concursos. Ainda há pouco tive uma conversa com ele, na qual ele me disse que desde que começou a lecionar, 70 dos seus alunos ganharam posições de orquestra, o que faz dele um professor único e que sabe tracejar um caminho, um plano para cada aluno. O que ajudou também nesta escolha foi o facto de ter nascido na Suíça e ter ainda família a residir lá, o que torna o país um pouco mais familiar.

Apenas concorri a duas escolas: Basileia e Braga (Universidade do Minho), sabendo que em qualquer uma delas me identificava com o método de ensino, ideias, forma de pensar de ambos os professores. O problema que se coloca hoje em dia é que com a facilidade que existe em ir estudar para o estrangeiro, há muita gente que o decide fazer apenas para "ficar bem no currículo", muitas vezes sem conhecer muito bem o professor, o seu método de ensino, a escola... E depois, claro, acabam também por perder-se e voltar para o país sem nada na bagagem.

O mais importante, antes de optar por uma escola, é realizar masterclasses, ter aulas com outros professores, falar com colegas, tentar conhecer os alunos das respetivas classes, e só depois sim, decidir.

 

DC - Como é que te receberam? Como é que são visto os músicos portugueses?

SP - Praticamente todas as pessoas que tenho vindo a conhecer, não importa quais são os seus países de origem, conhecem alguém vindo de Portugal, sendo essa pessoa, muitas vezes, também meu conhecido e é sempre bom ouvir as suas experiências partilhadas e todas as coisas boas que têm para dizer sobre nós, portugueses. Penso que em geral somos vistos como pessoas cheias de energia, com vontade de fazer música, com talento e muito sociáveis. Fui sempre recebido da melhor maneira.

 

 

"Não há orquestras suficientes e não podemos formar alunos para serem professores, esse ciclo chega ao fim um dia e é um ciclo que não beneficia nem respeita a música, a arte"

 

 

DC - Quais as maiores diferenças que sentiste em Basileia, sobretudo ao nível do ensino?

SP - Ao nível do ensino não senti uma diferença muito grande, foi algo natural, tanto nas disciplinas teóricas como ao nível do clarinete. Nunca me senti sobrecarregado de disciplinas teóricas a ponto de nem ter tempo para o meu próprio instrumento - sei que isso acontece em algumas iniversidades/escolas superiores em Portugal, o que não me parece correto. Também uma compreensão muito grande por parte da escola em dar oportunidade aos alunos de participar em projetos de orquestra,  masterclasses, sem criar obstáculos devido às faltas, é claro, sem exageros.

Senti, sim, uma grande diferença na mentalidade das pessoas, é um país incrivelmente organizado, em que tudo funciona corretamente. É também um país com muitas regras, que as pessoas respeitam sem questionar. Os concertos estão praticamente sempre cheios, e há muitas pessoas/associações que suportam os estudos de muitos alunos em toda a Suíça, havendo a preocupação de dar todas as condições a quem merece. E penso que falta um pouco isso em Portugal: o suporte e o apoio aos mais jovens, a quem tem talento, apoio para os bons projetos.

O problema muitas vezes é que o pouco dinheiro que é investido na música é posto nas mãos de pessoas, de administrações incapazes de o usar da melhor maneira, investindo-o incorretamente em projetos que não trazem nada de novo, ou então projetos que, depois de um ano, estão acabados, falidos, depois de milhares de euros investidos. Ainda há o fenómeno das universidades. Tomo o exemplo da França que apenas com duas universidades de Música, Paris e Lyon, tem músicos excelentes, tendo uma relação de número de músicos/número de empregos perfeitamente sustentável.

Em Portugal, país sem grande tradição musical comparativamente à Franca, Alemanha, Itália..., quase temos uma universidade/escola superior de música em cada grande cidade tendo, no caso do clarinete, à volta de 30 jovens clarinetistas a terminar o curso, todos os anos. E pergunto-me: e depois? Não há orquestras suficientes e não podemos formar alunos para serem professores, esse ciclo chega ao fim um dia e é um ciclo que não beneficia nem respeita a música, a arte.

Porque não investir o dinheiro que é necessário para contratar um corpo docente completo de uma escola, funcionários, na criação de uma orquestra de câmara? Num projeto com "cabeça, tronco e membros", com margem para crescer ao invés da criação de algo megalómano logo no começo?! Fica a ideia.

 

 

"o nível dos clarinetistas em Portugal tem vindo a crescer muito nos últimos 20 anos, com muitos jovens clarinetistas a trazer cada vez mais prémios e reconhecimento para o país, quer seja através de concursos internacionais ou audições de orquestra"

 

 

DC - O que achas do panorama do Clarinete em Portugal?

SP - Sem dúvida que o nível dos clarinetistas em Portugal tem vindo a crescer muito estes últimos 20 anos, com muitos jovens clarinetistas a trazer cada vez mais prémios e reconhecimento para o país, quer seja através de concursos internacionais ou audições de orquestra. Agora podemos dizer que estamos cada vez mais perto de nível de outros países da Europa, como a Espanha, Itália, França, que têm um nível muitíssimo elevado e competitivo. Penso que isso tudo ajudou também na criação do Concurso Internacional de Clarinetes de Lisboa, o que acho uma iniciativa fantástica, e é preciso continuar a trazer um júri de renome como o que têm trazido.

Também este ano tivemos um português, Horácio Ferreira, na final de um dos maiores e mais importantes concursos para clarinete, Prague Spring Competiton,  para além de todos os portugueses que passaram à primeira ronda por CD, sendo eu um deles, mas infelizmente tinha outro projeto que não podia abdicar.

Em Braga temos assistido ao convite de grandes clarinetistas para a realização de Masterclasses, como François Benda, Alessandro Carbonare, Matthias Schorn (Solista da Filarmónica de Viena), Harri Mäki (Professor na Academia Sibelius), o que ajuda a uma maior divulgação do que por cá se faz. Ainda em Braga, na Universidade do Minho com o Prof. Vitor Matos, meu antigo professor, assistimos ao florescimento de uma nova escola em Portugal, muito devido à influência que teve durante os seus estudos com Alessandro Carbonare. Uma nova escola, novo método de trabalho, ideias diferentes, outra visão das obras, outra interpretação... O que acaba por dar uma variedade maior de ensino do clarinete em Portugal.

Não podia deixar de mencionar o trabalho feito pelo Prof. António Saiote, o principal criador e impulsionador destas últimas duas gerações de clarinetistas portugueses. Mesmo que por vezes existam divergências em certos aspetos, não nos devemos esquecer do seu trabalho feito.

O que é preciso agora é aproveitar o que foi feito, mas também criar oportunidades de emprego, criar soluções respeitando sempre a arte, a música e a sua tradição, para termos cada vez mais um crescente número de músicos, clarinetistas neste caso.

 

 

"Um problema que muitas vezes afeta os jovens é que pensam que apenas necessitam de conhecimento sobre a música na vida e isso é uma grande mentira, não se forma cidadãos assim"

 

 

DC -  Se tivesses a oportunidade de integrar um projeto, o que farias/inovarias?

SP - Sempre me senti muito solidário com todos os estudantes de música que tentam ir estudar para o estrangeiro e enfrentam sérias dificuldades financeiras, não tendo tantos apoios como, por exemplo, todos nós que estudamos na Suíça, onde facilmente se concorre a bolsas de estudo, que pagam metade ou mesmo na totalidade os nossos estudos. Por isso, caso um dia tivesse essa oportunidade, gostava de ajudar a criar uma bolsa de estudo que seria dada, após concurso, ao maior número possível de candidatos. Infelizmente, ainda não temos muitos apoios para este efeito no nosso país.

 

DC - Projetos futuros? Será que nos podes desvendar alguns?

SP - Terei uma digressão na Suíça, com a Cameratta Zurich e Thomas Demenga (Violoncelista), alguns projetos com a Sinfonie Orchester Basel, entre eles a estreia da Ópera "Tewje" inspirado no estilo Klezmer, uma digressão com a Orquestra Jovem da União Europeia, e muitos projetos ainda por confirmar, que incluem apresentações a Solo com orquestra e recitais. Também a partir de setembro serei oficialmente Artista Selmer, o que é também um grande reconhecimento do meu trabalho.

 

DC - Se não fosses músico o que gostarias de ser? O que significa para ti a música?

SP - Sempre tive o fascínio por economia, pelos mercados, o que os faz movimentar, por esse "mundo" que muitas vezes nos passa completamente ao lado. E, especialmente, nos dias de hoje que o mundo anda num alvoroço desenfreado, penso que todos devíamos ter noções básicas de economia, saber como funciona. Por vezes, critica-se o governo por todo o mal que acontece, muitas vezes nem tendo qualquer intervenção no assunto. O meu pai costuma dizer que o governo tem as costas largas! Não se pode criticar, argumentar, aconselhar, sem ter uma opinião baseada em factos concretos.

Gosto muito de psicologia também e gostaria um dia de aprofundar um pouco mais os meus conhecimentos nessa área. Um problema que muitas vezes afeta os jovens é que pensam que apenas necessitam de conhecimento sobre a música na vida e isso é uma grande mentira, não se forma cidadãos assim.

A arte, a música, já fazem de tal maneira parte de mim, que não me consigo imaginar fora deste mundo, amo o que faço e tive a sorte de, por mero acaso, ter sido integrado numa banda filarmónica e aí ter começado a aventura.  A Música para mim é uma linguagem universal, sem barreiras, capaz de se dizer através dela o que não é possível através das palavras.

 

Sérgio Pires
  • Sérgio Pires
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  • Concerto a solo com a Kammerorchester Basel
  • Concerto com a Orquestra da União Europeia, no Festival BBC Proms
  • Concerto na Coreia do Sul, Tongyeong Festival, com a Orquestra Sinfónica de Basel
  • Sérgio Pires
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  • Concerto a solo com a Kammerorchester Basel
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