Alto e Para o Baile

O maestro

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Adriana Ferreira e Francisca Bastos

Esta figura tão representativa e importante, o elo de ligação, o gesto que o público grava na memória, o elemento tão unificador. O maestro.

 

Esta figura da direção tão importante, tinha antigamente a função de ensinar os músicos diante de si, já que a sua formação era muito mais completa e abrangente. Hoje em dia, os músicos de orquestra, nomeadamente, têm uma formação longa, passam por uma difícil seleção para entrarem numa formação orquestral e, mesmo aí, têm de superar um período de experiência que varia, na grande maioria dos casos, de seis meses a dois anos. Tudo isto, para conseguir uma cadeira numa orquestra.

 

O maestro, com uma formação igualmente longa e abrangente, não tem “som” logo à sua disposição: durante a sua formação, necessita dos músicos, cantores e instrumentistas, para praticar a arte do seu gesto. Posteriormente, os maestros são convidados a dirigir uma e outra orquestra. A sua qualidade e a sua agência e / ou lista de contactos ditarão se esse maestro continuará a dirigir muitas ou poucas orquestras, de maior ou menor nível e dimensão…

 

Falamos muito, entre músicos, dos maestros ditadores do passado. Rimos de várias gravações antigas de ensaios onde os maestros insultavam os músicos diante de si. No entanto, no presente, com uma formação abrangente, um concurso e um período de experiência superados, o músico de orquestra está sujeito a uma realidade diferente.

 

Tal como noutras áreas, o maestro é recompensado financeiramente com uma lista de zeros à direita que o músico de orquestra não poderá sonhar. Portanto, ainda que a formação do instrumentista seja incrivelmente longa e de grande nível artístico, está sempre sujeito à apreciação do maestro. Em muitos casos, o maestro é um profissional culto, refinado, conhecedor do repertório, dos instrumentos, de grandíssimo nível artístico, inspirador, claro, realmente unificador no melhor e mais proveitoso sentido da palavra. Nessa situação, é uma grande satisfação trabalhar com um maestro assim!

 

Mas, infelizmente, nem sempre assistimos a esta realidade. Muitas vezes, a lista de contactos e a agência pesam bem mais na agenda do maestro do que o seu nível artístico. Mas, ainda assim, é esta figura central que detém (todo) o poder. Além disto, ainda que menos, continuamos a ver figuras ditadoras que semeiam uma espécie de medo à sua volta. Este fenómeno, muito menos difundido, continua a existir.

 

Pessoalmente, poucas vezes trabalhei nestas condições, mas ainda assim pude assistir a situações assim. E, aqui, qual não é o meu espanto perante a atitude das cerca de oitenta ou cem pessoas sentadas em frente desta figura ditadora!… Com a sua formação, tantas provas dadas e cerca de noventa e nove colegas ao seu lado, nas mesmas condições, o que espera o músico de orquestra?! Porque não reage?! Porque é que nessas situações todos os músicos da orquestra não se levantam e vão-se embora?! Porque não dizem que não se pode trabalhar com um ditador?! Porque é que as orquestras não têm coragem de o fazer?!

 

Ocorrem-me nomes de algumas orquestras que imagino tomariam uma posição assim. Mas poucas. Muito poucas, infelizmente. O problema, muito enraizado, é o facto de muitas orquestras serem imensamente divididas, sob o ponto de vista humano, primeiramente, mas sobre tantos outros pontos também. Se ganhassem união, ganhariam força e nenhum maestro poderia tomar uma posição assim. Tal como pequenas sociedades, a sua divisão condena-as a facilmente serem lideradas. Da melhor ou da pior forma, dependendo de quem está à frente.

 

Não entendo ainda porque não é comum (não conheço nenhum exemplo) de orquestras que façam provas para maestro titular. Um anúncio, uma seleção por prova (bastaria uma semana à frente da orquestra), um período de experiência. Com certeza poderíamos assistir a uma realidade bem diferente.

 

Por outro lado, também não deve ser fácil para um maestro estar perante cerca de sessenta a cem músicos, considerados especialistas dos seus instrumentos, dizendo-lhes como devem tocar.

Em Itália, onde eu trabalho, por exemplo, todos os músicos se levantam como sinal de respeito no primeiro dia de ensaios com um novo maestro, o que me leva sempre a pensar numa espécie de retorno à escola.

Várias vezes, os maestros parecem um professor da escola, pois têm de repreender tantos músicos por falarem durante os ensaios, por não tomarem apontamentos, por estarem desatentos pois não largam o telemóvel (que em muitas orquestras é proibido durante todos os ensaios e, mesmo quando esta proibição não está regulamentada, obviamente faz parte das normas de conduta de um bom profissional). Há músicos que utilizam o telemóvel durante os concertos, cúmulo desta falta de atenção, daí muitos conflitos entre maestros e várias orquestras. Pequenos conflitos totalmente desnecessários e que poderiam facilmente ser evitados se todos os músicos de todas as orquestras seguissem certas normas de conduta (embora não pareça, creio que será das maiores utopias, infelizmente).

 

Convido-vos apenas a pensar no assunto. É uma constatação familiar a muitos dos meus pares e, imagino, a muitos dos que leis esta reflexão. Espero que a minha geração e as futuras consigam finalmente melhorar este sistema. Por nós, pelo nosso bem-estar humano e profissional e pela nossa arte, para que sempre brilhe sobre todas as outras coisas envolventes.

 

Um pequeno conselho aos mais jovens: nunca discutam com um maestro. Sairão sempre em desvantagem e, lembrem-se, de uma batuta nunca sairá som…

 

Adriana Ferreira

 

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