Álvaro Nobre Machado

"O contrafagote é um instrumento musical com dignidade artística"

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Sandra Bastos

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  • Método para Contrafagote

Natural de Guimarães, Álvaro Nobre Machado construiu um percurso internacional sólido, tendo colaborado com algumas das mais prestigiadas orquestras europeias. Atualmente, ocupa o lugar de contrafagotista na Noord Nederlands Orkest. Autor de um método dedicado ao contrafagote, revela nesta partilha com a Da Capo uma visão lúcida e generosa sobre a música, o ensino e o papel da cultura na sociedade.

 

 

“O contacto com a cultura, e no meu caso a música, é frequente e de fácil acesso em Guimarães”

 

Ainda estava no infantário, quando Álvaro Machado despertou o seu talento para a música: “O professor de música encorajou os meus pais a inscrever-me numa academia, após notar a minha tremenda afinidade com a música”.

 

Natural de Guimarães, confessa ter sido um privilégio ter crescido naquela cidade: “Sinto-me muito afortunado por isso ter acontecido em Guimarães, onde além de uma ótima escola de música, há também três bandas filarmónicas, uma das quais, a que eu acabei por frequentar. O contacto com a cultura, e no meu caso a música, é frequente e de fácil acesso nessa cidade e isso foi uma grande mais-valia para o meu desenvolvimento”.

 

 

A descoberta do contrafagote

 

A escolha do fagote surgir quase por acaso: “Duma forma muito espontânea, um professor deixou-me experimentar este instrumento peculiar, que tanta curiosidade me suscitava”.

 

Mais tarde, seria também o contrafagote a despertar uma “afinidade imediata”. Destaca “a sensação física, o leque variado de funções que desempenha na orquestra, podendo fazer parte dos contrabaixos, sendo muitas vezes o único sopro a tocar com as cordas, além de ser o baixo das madeiras e ter também muito contacto com os metais, fazendo parte de alguns corais extraordinariamente bonitos”.

 

“A liberdade na escolha das cores, estilo de articulação e fraseado torna a oportunidade de tocar contrafagote em orquestra uma experiência riquíssima”, sublinha.

 

 

"O contrafagote é um instrumento musical com dignidade artística"

 

Quando começou, lembra-se de “haver uma expectativa muito baixa para com o som do contrafagote”. Era frequente ouvir “os elogios que muitos músicos, incluindo professores e maestros, faziam quando se referiam a um bom contrafagotista”, revelando um preconceito que não existia com outros instrumentos, como "músico x faz aquilo soar como um instrumento musical", "é afinado e tudo", "até dá para perceber as notas".

 

Subestimado durante décadas, “o contrafagote, como qualquer instrumento tocado com amor, é um instrumento musical com dignidade artística”.  Felizmente, nos últimos 15 anos, o progresso é claro: “há ótimos professores e muita gente a tocar bem o instrumento”. E até há compositores “a escrever bem para o instrumento e a explorar as suas qualidades e características”.

 

 

“É para o público que tu tocas, não para ti”

 

Depois da formação em Portugal, Álvaro foi estudar para o Conservatório de Amesterdão para se especializar em contrafagote, com Simon van Holen, o seu contrafagotista preferido.

 

Os primeiros tempos foram marcados por “uma mudança drástica no que toca às dedilhações, tanto no contrafagote como no fagote”. Depois, foram meses a trabalhar o controlo do ar, o legato, as cores do som e os ataques.

 

No terceiro ano, o professor chamou-o à atenção pelas escolhas que fazia nas articulações nas dinâmicas demasiado baixas: “Por gostar muito disso, eu abusava nos pianissíssimos e fazia demasiados tipos de articulações que, segundo ele, com a distância duma sala de concertos não podiam resultar...”.

 

Foi neste contexto que surgiram as palavras que mudaram definitivamente a sua forma de tocar e viver a música. O professor disse-lhe: “Não estás em casa, a tocar para ti! Os estudantes que se sentam na última fila duma sala de concertos são muitas vezes as pessoas que mais te querem ouvir, e o que chega lá tem de ser impecável. É para o público que tu tocas, não para ti. Tens de tomar decisões que funcionem na sala para o público, e não optar só pelo que te dá mais prazer.”

 

 

Mestres, referências e gratidão

 

No seu discurso, a palavra gratidão surge repetidamente. Realça o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, cuja bolsa lhe permitiu realizar o mestrado, e “o acompanhamento incansável do professor e mentor Ricardo Ramos”.

 

Lembra também os professores Simon Van Holen, pela “partilha incessante do seu conhecimento e experiência”; Óscar Ribeiro, Hugo Mendes, Hugues Kesteman, António Saiote e Francisco Melo.

 

 

“é concedido, duma forma não oficial, a membros de orquestras de jovens uma espécie de atestado de competência”

 

Enquanto jovem passou por várias orquestras de jovens europeias, onde, acima de tudo, recorda grandes amizades: “Tenho amigos com quem falo regularmente, um deles, todos os dias, apesar de nunca termos vivido no mesmo país”.

 

Ao nível académico e profissional, reconhece que essas experiências o ajudaram a consolidar a sua confiança e auto-estima: “É uma confirmação de que se está a caminhar na direção certa, também porque é concedido, duma forma não oficial, a membros de orquestras de jovens uma espécie de atestado de competência”. De facto, em alguns países, esse "carimbo" pode “fazer a diferença no momento dos convites para provas ou freelance”.

 

 

Entre a formação e a realidade profissional

 

Porém, o trabalho realizado nas orquestras de jovens não era realista: “Passava-se muito mais tempo a ensaiar os programas, inclusive em naipes, do que alguma orquestra profissional algum dia passaria”.

 

E apesar dessa experiência não refletir a realidade, permitia uma relação inesquecível com as obras: “o nível de detalhe, a profundidade do texto das obras e a partilha humana que se conseguia nesses contextos, marcou-me e qualquer uma dessas obras que volte a tocar ou ouvir, tem um sabor muito especial”.

 

 

“acho importante cada um saber em que tradição ou estilo se vê mais feliz em fazer parte”

 

Desde que concluiu os estudos, trabalhou com orquestras de sete países europeus, entre eles Alemanha, França e Reino Unido. Dessa experiência internacional retira uma ilação clara: “As diferenças são tremendas, começando pela quantidade de ensaios, passando pela estética, não só no fraseado e articulação, mas também no som...”

 

A isso soma-se uma dimensão menos visível, mas igualmente determinante - a forma como se constroem as relações humanas. “Cada orquestra é um grupo diferente, mas notei um grupo de tendências ou tradições de país para país e acho importante cada um saber em que tradição ou estilo se vê mais feliz em fazer parte”.

 

 

Na Noord Nederlands Orkest

 

A entrada de Álvaro Machado na Noord Nederlands Orkest, na Holanda (Países Baixos), representou um momento decisivo no seu percurso. Já conhecia a orquestra de colaborações anteriores, admirava a qualidade da secção de madeiras e sentia afinidade com a cidade. Não esquece o momento em que telefonou aos pais e à irmã a dar a boa notícia: “Foi uma alegria muito grande”.

 

A prova surgiu menos de dois anos após o fim do mestrado e significou, acima de tudo, um alívio. Mas critica os males da sua geração, que tende a colocar uma pressão excessiva no ato de ganhar uma prova de orquestra, “como se isso fosse a consumação canónica” de um músico. “Acho mal. E eu padeci desse mal”, confessa.  

 

 

“há quem goste de fazer crueldades com os novos colegas”

 

Diz que outro problema da sua geração “é o medo do ano à experiência, o primeiro ano de contrato após uma prova, ano que decide se a posição é permanente ou se fica por ali”.  Em princípio, tudo corre bem, exceto “se houver uma clara incompatibilidade artística ou pessoal com o novo músico”.

 

A questão é outra: “O que se vê em muitos casos não é isso, e há quem goste de fazer crueldades com os novos colegas”. Afirma conhecer “vários casos de excelentes músicos, pessoas exemplares, que foram absolutamente boicotados durante esse ano, nas orquestras em que estavam, tendo o desfecho desse ano sido um alívio”. Felizmente, “todos eles conseguiram outros trabalhos pouco depois”. 

 

 

“ninguém impõe tanta pressão a alguém como cada um a si mesmo”

 

O seu ano de prova foi duro, mas não era necessária tanta pressão: “A troca frequente entre o contrafagote e o fagote causava-me receio e isso afetava, acima de tudo, a minha confiança, mas a conclusão a que eu cheguei, com o tempo, é que ninguém impõe tanta pressão a alguém como cada um a si mesmo”.

 

Todos os concertos tinham corrido bem, como era suposto, por isso, mais tarde, quando teve a oportunidade de falar abertamente sobre o assunto, concluiu que “esta pressão auto-infligida era mais comum, independentemente do contexto ou do nível do músico”,

 

Hoje, a Noord Nederlands Orkest é também a sua casa, onde se sente “seguro, confortável, confiante e motivado”. “Tenho vários colegas extraordinários e sinto-me muito afortunado por poder tocar com eles”, sublinha.

 

 

Os momentos mágicos na Concertgebouw Orchestra

 

Trabalhar com orquestras de referência internacional, como a Royal Concertgebouw Orchestra, trouxe-lhe o contacto com outra dimensão. Na véspera do primeiro ensaio quase não dormiu pelo entusiasmo: “Nunca me tinha atrevido a sonhar com isso e foi mesmo emocionante”.

 

Quando chegou o momento, tudo fluiu com naturalidade, rodeado por aqueles músicos, que sopravam para o instrumento: “soava bem, afinado e em tempo, sem esforço…”.

 

Ao seu lado, estava um fagotista no ano de prova, que partilhou uma reflexão: “uma das coisas que mais o impressionava nesta orquestra é que, segundo ele, eles percebiam a diferença entre um CD e um concerto... A perfeição quer-se nos CD, os concertos são para momentos mágicos”. Nesse momento, percebeu que a música era o mais importante: “De alguma forma passei a relativizar a pressão que punha em mim mesmo e, daí em diante, mudou drasticamente”.

 

 

O momento do clique

 

Anos depois, regressaria a esse universo de excelência em várias colaborações com a Rotterdam Philharmonic Orchestra, “onde as semanas passam a voar e o nível dos músicos é contagioso”. 

 

Numa dessas semanas, quando tocava um concerto para piano de Beethoven e uma sinfonia de Mahler, sentiu um novo desbloqueio interior: “De alguma forma acho que houve um clique e eu não voltei a ter problemas de confiança com a diferença de instrumentos”.

 

 

“Aprendi que o descanso e o exercício físico são imperativos”

 

Para o fagotista, a procura de equilíbrio entre prática individual, ensaios e vida pessoal é um desafio comum a muitos músicos. “Não sei se o meu equilíbrio é exemplar, nem conheço ninguém que esteja abertamente satisfeito com o seu”, admite.

 

A necessidade de repensar rotinas surgiu de forma concreta, quando, dois anos após a entrada na orquestra, uma lesão lhe causou dores e preocupação. “Aprendi que o descanso e o exercício físico são imperativos. E só assim o corpo tem a capacidade de passar as horas necessárias a suportar o instrumento, a postura e o esforço”, explica.

 

 

Higiene técnica, vida equilibrada

 

No estudo individual, privilegia aquilo a que chama “higiene técnica”: “Tenho de ter em dia, as embocaduras dos dois instrumentos, som, articulação, afinação, fluidez dos dedos, conforto com um âmbito alargado de dinâmicas, flexibilidade nas cores do som, e ataques”. Só depois dessa base consolidada passa ao repertório imediato ou a outros objetivos.

 

Mais recente é a decisão de colocar a vida pessoal no centro dessa equação. A convivência familiar e social, os passatempos e o tempo lúdico são, para si, elementos fundamentais. “Tive a felicidade de notar que se dermos mais tempo e importância à vida pessoal, o tempo que passamos a trabalhar e estudar é mais bem passado e rentabilizado”, reconhece.

 

 

“Ensinar é para mim um dos ofícios mais bonitos e um propósito”

 

A par da sua atividade como intérprete, de igual importância, está o seu trabalho pedagógico: “Ensinar é para mim um dos ofícios mais bonitos e um propósito, e se eu algum dia fosse obrigado a escolher entre só tocar em orquestra ou só ensinar, acho que optaria por só ensinar”.

 

A experiência começou cedo, na escola da sua banda, durante os anos de licenciatura. Seguiram-se masterclasses e vários alunos particulares. Num contexto mais especializado, destaca o semestre em que substituiu o seu professor no Conservatório de Amesterdão, experiência que considera inesquecível. “Aí o trabalho é focado num desenvolvimento especializado para os alunos concretizarem as suas metas artísticas e profissionais”, afirma.

 

O entusiasmo pelo ensino estende-se a todos os perfis: crianças, adolescentes, adultos amadores ou estudantes avançados. “Noto que a música, tal como outras artes performativas, ajuda as pessoas a encontrar uma forma de expressar emoções ou ideias que não sabem, ou querem, por palavras”, destaca.  

 

 

Contra a pedagogia do desencorajamento

 

Por outro lado, confessa-se frustrado pelas “muitas pessoas que adoram música”, mas acham que não têm jeito, “só porque um professor lhes disse isso”.  Ao longo dos anos, ouviu inúmeros relatos de alunos afastados dos instrumentos por experiências negativas: “tinham tido algumas aulas e segundo o professor que lhes calhou, não tinham jeito, ou tinham, mas foram alvos duma pressão despropositada e aquilo causou-lhes uma ansiedade que gerou repulsa”.

 

Considera que “haver tantas pessoas a ter-se afastado da prática dum instrumento musical por terem tido experiências negativas com professores de música é uma falha gravíssima desses professores”.

 

 

“O professor está lá para servir o aluno”

 

Mais rara, mas real, é a hostilização de alunos em exames. Dá como exemplo professores que integram júris de exames de outros instrumentos: “hostilizavam de tal forma os miúdos, com correções, perguntas, comentários, a um ponto que eles saíam dali a não querer pegar no instrumento o resto do ano”.

 

E confirma que também aconteceu consigo: “cheguei a afastar-me do fagote durante vários anos”. Por isso, deseja que “haja cada vez menos professores assim” e quer dizer a todas as pessoas que passaram por experiências semelhantes que “a falha foi do professor e não delas”.

 

Para Álvaro Machado, nos primeiros anos de aprendizagem cabe ao professor estimular “a motivação, a curiosidade e uma sensação de progresso balançada. É importante haver desafios realistas, que os alunos queiram poder tocar coisas que ainda não tocam, que sintam que melhoram dumas aulas para outras, e se sintam desafiados sem sentirem que o que estão a tentar aprender ou melhorar esteja de alguma forma, fora do seu alcance.”. “O professor está lá para servir o aluno, isso tem de ser muito claro”, defende.

 

 

Método para Contrafagote de Álvaro Nobre Machado

 

Num contexto de desvalorização do contrafagote enquanto instrumento, a sua aprendizagem fazia-se muitas vezes de forma autodidata, praticamente sem métodos de estudo ou recursos especializados disponíveis. “O início da aprendizagem do contrafagote é uma experiência, na maioria dos casos, muito autodidacta, cheia de tentativa-erro, lenta, e os recursos escritos para o seu estudo eram escassos”, conta.

 

O tema acabaria por tornar-se o centro da sua tese de mestrado. Em 2017, ao analisar a bibliografia existente e entrevistar cerca de doze contrafagotistas de grandes orquestras europeias e norte-americanas, concluiu que “havia lacunas graves e faltava escrever e publicar informações técnicas muito importantes”.

 

O culminar da sua investigação chegou sob a forma material - Método para Contrafagote, publicado em 2024, pela Low Down Publishing e disponível para compra na Amazon. 

 

 

“um trabalho duma importância e valor inexcedíveis”

 

A sua carreira internacional não o tem impedido de manter uma ligação próxima a Portugal, onde tem regressado regularmente ao longo dos últimos 11 anos, para tocar com a Orquestra Gulbenkian, o Remix Ensemble, a Orquestra XXI e outros projetos. Destaca poder conhecer as pessoas que tanto admira e estima, e assistir ao progresso desses grupos de referência ao longo dos anos, “seja pelo amadurecimento de quem lá está esse tempo, seja com a chegada dos músicos que foram entrando, foi espetacular”. 

 

Realça também, com “orgulho e admiração”, o trabalho de projetos como a Orquestra Geração e a Orquestra Sem Fronteiras, “que fazem um trabalho duma importância e valor inexcedíveis”.

 

 

“A qualidade do ensino é impressionante e prepara os alunos para o ensino superior como quase nenhum país europeu”

 

A nível pedagógico, quanto mais conhece diferentes realidades europeias, mais valoriza a qualidade do ensino musical português: “A qualidade do ensino é impressionante e prepara os alunos para o ensino superior como quase nenhum país europeu. Tanto a nível técnico-instrumental como a nível teórico”.

 

Considera também excelente a qualidade das escolas superiores portuguesas: “é sempre um motivo de orgulho ver músicos sair das nossas escolas superiores para orquestras de jovens, orquestras profissionais e terem ótimos desempenhos em concursos e festivais”.

 

“Acho que há bastante gente a fazer um excelente trabalho tanto ao nível da performance como ao nível do ensino”, acrescenta.

 

 

“Temos demasiada precariedade, seja com músicos, com técnicos, ou com professores”

 

Apesar do reconhecimento da qualidade do ensino em Portugal, o fagotista também aponta lacunas ao nível dos sistemas de funcionamento e da logística, desde a ausência de regulamentos claros — internos e nacionais — até à precariedade que continua a afetar músicos, técnicos e professores.

 

“Temos demasiada precariedade, seja com músicos, com técnicos, ou com professores.  Há poucos recursos, seja por falta de investimento ou má gestão”, afirma.

 

Acredita que estas limitações revelam uma incompreensão mais profunda sobre o valor da cultura e das artes, tanto no plano coletivo como individual: "A prática colectiva de alguma arte performativa, seja no contexto amador ou formativo, integra, une e cria comunidades e laços duma forma natural e gradual. Para o público, visitar uma exposição ou assistir a um espetáculo é uma experiência com inúmeros benefícios e uma nação culta é uma nação mais saudável, mais unida, mais funcional e mais rica."

 

 

“esses países são mais ricos porque têm mais orquestras”

 

No âmbito do desenvolvimento individual, diz serem “irrefutáveis” os benefícios da prática artística para o desenvolvimento cognitivo: “Não é por acaso que tantos vencedores de prémios Nobel em várias áreas tinham tocado um instrumento musical, ou praticado por exemplo ballet, nos seus desenvolvimentos”.

 

Como exemplo, indica o Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga, instituição onde todos os alunos têm aulas de instrumento, formação musical e prática coletiva em paralelo com o currículo geral, independentemente de seguirem ou não uma carreira artística. Considera que “os resultados dos alunos desta escola nos exames nacionais e as suas médias de secundário são absolutamente extraordinários. Claro que os alunos e os professores da parte escolar têm muito mérito, mas a música ajuda e muito”.

 

Numa perspetiva mais ampla, observa que muitos músicos e artistas performativos portugueses encontram-se a trabalhar em países economicamente mais ricos do que Portugal.  “Pode ser fácil para algumas pessoas dizer: esses países têm muito mais orquestras porque são mais ricos. Mas eu garanto que esses países são mais ricos porque têm mais orquestras”, sublinha.

 

 

“Parece mais um esquema de pirâmide que uma melhoria nos critérios dos processos de seleção de um professor”

 

Em relação ao acesso ao ensino artístico, mostra-se surpreendido pela excessiva burocratização: “Vejo músicos absolutamente extraordinários, muito experientes e com o carácter certo (carácter que não se ensina), a não ter autorização para ensinar em determinados contextos, por não terem feito uma tese de doutoramento, ou um mestrado diferente do que fizeram”.

 

Na sua perspetiva, os processos de seleção tornaram-se demasiado quantitativos, centrados em títulos e credenciais, sem avaliar devidamente aspetos essenciais como o carácter, a capacidade pedagógica, a forma de trabalhar com alunos ou a credibilidade artística do candidato. “Não acredito que os alunos ganhem alguma coisa com isto. Parece mais um esquema de pirâmide que uma melhoria nos critérios dos processos de seleção de um professor”, admite.

 

 

“Agarrem aquilo que vos suscita curiosidade e fascínio, e conheçam-se”

 

Quando questionado sobre o conselho que daria a um jovem fagotista português, Álvaro Nobre Machado responde com clareza: “Sigam os vossos sonhos. Agarrem aquilo que vos suscita curiosidade e fascínio, e conheçam-se. Não se comparem com outros, seja nos aspetos técnicos, seja nos objetivos concluídos”.

 

Defende que cada percurso é único e cada intérprete encontrará o seu lugar: “Tracem o vosso próprio caminho e sejam solidários com os vossos colegas, no fim de contas, todos são diferentes e cada um tem o seu lugar, a certa altura toda a gente sabe tocar o instrumento e, em qualquer situação de trabalho, o escolhido é o que melhor encaixa no estilo e gosto das pessoas com quem vai tocar”.

 

 

“Toda a gente tem capacidades de atenção, profundidade de concentração e resistência diferentes”

 

No estudo, recomenda foco e inteligência: “Toda a gente tem capacidades de atenção, profundidade de concentração e resistência diferentes. Tracem objetivos para cada dia e semana de estudo e estudem sempre o que o vosso corpo e cabeça permitirem. Estudem atentos, com critério e foco. Não vale a pena estudar quando não vale a pena”.

 

“E permitam-se um dia livre por semana. Não vão esquecer nem perder nada. E durmam! Nunca abdicar do sono. É durante o sono que processamos o estudo e a recuperação é fulcral. Os exageros que cometerem agora passam fatura mais tarde, e as lesões não são agradáveis”, lembra.

 

 

“de vez em quando, comprar palhetas é uma ajuda enorme”

 

Também refere a relevância das palhetas de qualidade. Embora seja essencial aprender a trabalhá-las, considera contraproducente desperdiçar horas de estudo por falta de material adequado: “É uma pena ainda maior quando não podemos desempenhar no máximo das nossas capacidades por o material não permitir. Se estiverem à rasca, ou quiserem referências, de vez em quando, comprar palhetas é uma ajuda enorme, e eu arrependo-me muito de quase não o ter feito nos meus tempos de estudante”.

 

E para quem quer seguir uma carreira internacional, o conselho é simples e direto: “Aprendam a língua do país imediatamente. É importantíssimo.”

 

 

“Quero ainda fazer mais música de câmara e gostava muito de um dia abrir um restaurante”

 

Numa fase de maturidade artística e pessoal, olha para o futuro com interesses diversos e uma curiosidade intacta. Entre os objetivos mais imediatos, gostaria muito de fazer mais trabalho de cariz social com a música: “felizmente faço algum, mas quero fazer mais, e tenho nesse âmbito alguns projetos em vista”.

 

Outro grande objetivo é “ter uma posição de professor”, a par de “um grande amor” pela Música Barroca: “Comecei há uns meses a aprender fagote barroco e tem sido uma alegria imensa!”

 

A escrita surge também como território natural. Colabora pontualmente com textos para a sua orquestra, entre notas de programa e newsletters, e gostaria de aprofundar esse trabalho. “Adoro escrever e acho que o contexto e a história não só enriquecem muito a experiência auditiva, como causam curiosidade no público para aquela e outras obras”, confessa.

 

Um sonho mais específico envolve, obviamente, o contrafagote: “Se algum dia tiver a chance de tocar contrafagote a solo com uma orquestra acho que vou gostar muito, mas os programadores e diretores artísticos não gostam muito da ideia”.

 

E ainda: “Quero ainda fazer mais música de câmara e gostava muito de um dia abrir um restaurante”.

 

 

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Foto: Gil Fesch

 

 

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