Bruno Santos

“faço o meu caminho por mim, e não pelas expectativas dos outros”

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Sandra Bastos

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Vencedor do Prémio Jovens Músicos aos 15 anos e com experiências marcantes na European Union Youth Orchestra, Bruno Santos é um dos nomes promissores do Trompete português. Natural do Entroncamento, iniciou o seu percurso na Banda dos Riachos, onde nasceu a paixão pela música, seguindo depois um trajeto exigente que passou pelo Conservatório de Torres Novas, Escola Profissional da Metropolitana, Escola Superior de Música de Lisboa e Leipzig, na Alemanha.

 

Atualmente divide-se entre a atividade de trompetista freelancer e o ensino, defendendo uma visão equilibrada da carreira musical, onde o rigor artístico deve caminhar lado a lado com crescimento pessoal e estabilidade emocional.

 

 

“Foi na banda filarmónica que nasceu a minha paixão pelo trompete e pela música”

 

Bruno Santos cresceu no Entroncamento e iniciou o seu percurso musical na Banda dos Riachos: “Esse início teve uma importância enorme no meu desenvolvimento, pois foi aí que nasceu a minha paixão pelo trompete e pela música”.

 

Foi naquele contexto que construiu a sua base como músico, já que mais do que aprendizagem técnica, outros valores se sobrepuseram: “Foi um período muito marcante, não só pela aprendizagem, mas também pelo ambiente e pelas experiências que me fizeram crescer desde cedo”.

 

 

Um percurso de etapas exigentes e “a crescer muito rapidamente”

 

Depois da banda filarmónica, seguiu-se o Conservatório de Música de Torres Novas, momento em que começou a encarar a música “de forma mais séria e consciente”.

 

A entrada na Escola Profissional da Metropolitana marcou uma viragem profunda - aos 15 anos saiu de casa para viver sozinho em Lisboa, o que o obrigou “a crescer muito rapidamente”. Por outro lado, as vantagens de estudar numa escola onde coexistem uma escola superior e uma orquestra profissional, permitiu-lhe “ter um contacto muito direto com a realidade da profissão em Portugal”.

 

Seguiu-se a Escola Superior de Música de Lisboa, onde consolidou a técnica e desenvolveu “diferentes vertentes, sobretudo no repertório orquestral”. Nessa altura, também teve “mais contacto com audições e com colegas que partilhavam os mesmos objetivos”..

 

 

Leipzig: “a experiência mais exigente, mas também uma das mais transformadoras”

 

Embora não fosse um objetivo traçado desde início, estudar na Alemanha, em Leipzig, surgiu como oportunidade decisiva, com o apoio da Bolsa Gulbenkian. Ao chegar, o impacto foi imediato: “Foi, até hoje, a experiência mais exigente, mas também uma das mais transformadoras”.

 

A nível musical, foi uma experiência “extremamente enriquecedora”, pois colocou-o a par “do nível do trompete a nível internacional” e abriu-lhe “várias portas a nível profissional”. No entanto, “a adaptação ao país não foi fácil” e impediu-o de se integrar fora do contexto musical. “Acabei por viver uma experiência muito intensa: adorei tudo o que envolvia a música, mas tive mais dificuldade com o resto”, confessa.

 

Atualmente, está a viver em Portugal, a trabalhar como professor e a desenvolver vários projetos: “Desde que voltei, já consegui alcançar alguns marcos importantes na minha carreira, e estou motivado para continuar a crescer e a construir o meu caminho”.

 

 

A realidade musical na Alemanha

 

De Leipzig, não esquece “o nível de exigência, que era extremamente elevado em todos os aspetos”. Também ficou impressionado pelo “empenho dos alunos e a forma como todos estavam completamente focados em alcançar o seu objetivo, muitas vezes com um esforço enorme para concretizar um sonho que vinha desde a infância”.

 

Além da qualidade musical da escola, ficou surpreendido com a realidade musical na Alemanha: “a enorme quantidade de orquestras, a frequência com que existem audições e oportunidades, e também o apoio que o país dá à cultura, neste caso aos músicos, tanto a freelancers como a músicos integrados em orquestras”.

 

 

“faço o meu caminho por mim, e não pelas expectativas dos outros”

 

Bruno Santos destacou-se no panorama musical português muito cedo, com apenas 15 anos, quando ganhou o Prémio Jovens Músicos, nível médio, em Trompete, e tocou a solo com a Orquestra Gulbenkian: “Estar à frente da Orquestra Gulbenkian trouxe uma grande sensação de responsabilidade, talvez até maior do que estava preparado para lidar na altura”.

 

As emoções foram contraditórias – se, por um lado, estava feliz pelo “momento especial e marcante”, por outro, sentiu muito a pressão do Prémio: “Não estava de todo habituado a esse nível de reconhecimento, especialmente tão novo, e tive alguma dificuldade em lidar com toda a atenção que veio com isso. Acabei por sentir uma pressão extra, como se tivesse de corresponder constantemente a um certo “rótulo”.”

 

O tempo trouxe-lhe a maturidade necessário para se libertar dessa pressão com uma lição de vida: “Não tenho de provar nada a ninguém. Hoje vejo as coisas de forma mais tranquila — faço o meu caminho por mim, e não pelas expectativas dos outros”.

 

 

EUYO: uma experiência inesquecível

 

A passagem pela European Union Youth Orchestra (EUYO) permanece como uma das memórias mais fortes do seu percurso: “É um tipo de orquestra que só se vive naquele momento específico, enquanto temos aquela idade e estamos naquela fase da vida. Isso torna tudo muito especial e único. Sente-se que todos dão o máximo, porque sabem que é uma oportunidade irrepetível”.

 

Atuou em salas como o Carnegie Hall, em Nova Iorque, a Elbphilharmonie de Hamburgo, a Konzerthaus de Berlim ou o Usher Hall, na Escócia, além de trabalhar com maestros de referência: “Foram experiências que, honestamente, nunca imaginei vir a ter tão cedo”.

 

Entre os ensinamentos que guarda, destaca uma frase do maestro Gianandrea Noseda: “Don’t aim for perfection, because if you do, you will get frustrated all your life. Aim for the understanding of the music.” (“Não procures a perfeição, porque se o fizeres, viverás frustrado toda a vida. Procura compreender a música.”)

 

 

“ter um grande respeito pelos colegas e pelo trabalho que cada um faz diariamente”

 

As competências essenciais para trabalhar neste meio, muitas vezes, “não são ensinadas diretamente ao longo da formação. Não chega tocar muito bem. Para o jovem trompetista, é igualmente fundamental o “ter um grande respeito pelos colegas e pelo trabalho que cada um faz diariamente, muitas vezes longe do que é visível”.  A competição é inerente à profissão, mas não impede, pelo contrário, o desenvolvimento da “empatia e compreensão pelos outros”.

 

Além da rigorosa disciplina de estudo, é preciso “consistência e dedicação a longo prazo”. E ter consciência dos sacrifícios inevitáveis: “Muitas vezes acabamos por abdicar de momentos pessoais, como tempo com a família ou encontros com amigos, e é preciso estar preparado para lidar com esse equilíbrio”.

 

 

“Hoje, encaro a música também como um trabalho”

 

Num meio frequentemente associado à ideia de dedicação total, em que “a música tem de ser vivida exclusivamente como uma paixão constante”, Bruno defende uma perspetiva mais equilibrada. “Quando levava essa ideia ao extremo, acabava por gerar em mim muita ansiedade, sobretudo pela pressão de querer atingir objetivos a todo o custo. Com o tempo, percebi que precisava de encontrar uma abordagem mais equilibrada”, sublinha.

 

“Hoje, encaro a música também como um trabalho — algo que exige prática, consistência e responsabilidade para poder oferecer qualidade a quem me ouve e continuar ativo no meio profissional”, acrescenta.

 

Assume que esta mudança de mentalidade lhe trouxe “mais estabilidade emocional e mais disponibilidade para continuar este caminho de forma sustentável, sem perder o prazer de fazer música”.

 

 

O maior desafio: parar e recomeçar

 

Ao longo do seu percurso, teve vários desafios. O maior aconteceu durante o 12.º ano, quando enfrentou um problema grave no lábio que o obrigou a interromper a prática durante um ano. “Foi um período extremamente difícil, em que cheguei a questionar se tudo o que tinha feito até ali tinha valido a pena, e se ainda seria possível seguir o caminho da música”, confessa.

 

Foi um período difícil a nível psicológico, mas também um momento de superação que hoje considera como “ponto de viragem” no seu percurso.

 

 

“os músicos portugueses têm vindo a afirmar-se de forma consistente e cada vez mais reconhecida”

 

Sobre a presença nacional no estrangeiro, Bruno não tem dúvidas: “Temos músicos portugueses com uma qualidade extraordinária.”

 

Destaca a crescente presença de portugueses em grandes orquestras internacionais e em universidades de prestígio: “Isso demonstra não só o nível artístico que existe em Portugal, mas também a capacidade de competir num contexto altamente exigente”.

 

“Acredito que Portugal é hoje visto no estrangeiro com muito bons olhos, e que os músicos portugueses têm vindo a afirmar-se de forma consistente e cada vez mais reconhecida”, afirma

 

 

“Sejam curiosos e nunca deixem de querer aprender”

 

Aos jovens trompetistas que querem seguir carreira, deixa uma mensagem simples e direta: “Sejam curiosos e nunca deixem de querer aprender.”

 

O caminho é “exigente”, mas também “muito gratificante para quem está disposto a investir verdadeiramente nele”. Esse investimento passa por muito trabalho, “com consistência e dedicação” e pelo desafio: “É importante sair da zona de conforto, mesmo que seja por períodos curtos, porque é muitas vezes aí que acontece o maior crescimento”.

 

Tal como referiu anteriormente, o equilíbrio é essencial: “não esquecer que existe vida para além da música”.

 

 

O futuro: orquestra e ensino

 

Atualmente, Bruno Santos leciona na Academia de Música Sebastião e Melo e desenvolve atividade como trompetista freelancer.

 

Para os próximos anos, deseja integrar uma orquestra num lugar onde também se sinta bem a viver, sem excluir um percurso mais ligado ao ensino: “Sei que é um objetivo exigente e nem sempre fácil de concretizar, mas é um sonho que continua muito presente em mim”.

 

O ensino também tem um lugar especial no seu sonho profissional. “É uma vertente que também valorizo e com a qual me identifico, pelo que vejo essa possibilidade como algo igualmente válido e que não me desagrada”.

 

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