Caleidoscópio Colectivo apresenta “Vórtice (para o fim de um Tempo)"

“a colaboração entre música e luz e a temática do Tempo, nomeadamente do seu fim”

 — 

Sandra Bastos

  • “Vórtice (para o fim de um Tempo)
  • Caleidoscópio Colectivo

E se a música deixasse de ter ritmo? Ou se desaparecesse? E se os músicos se esquecessem de como tocar os seus instrumentos? Vórtice (para o fim de um Tempo) nasce precisamente dessa hipótese do fim de um Tempo e do início de outro. Trata-se de uma criação conjunta de três compositores — Catarina Sá Ribeiro, Daniel Moreira e Miguel Resende Bastos —, quatro intérpretes — a pianista Dalila Teixeira, o clarinetista Eduardo Seabra, a violinista Laura Peres e a violoncelista Teresa Soares — e três técnicos de som — José Afonso Monteiro, Daniel Santos e Ricardo Torres —, que dão forma ao Caleidoscópio Colectivo.

Sugerindo imagens de relógios a derreter, cataclismos radioativos e evocações místicas da força da água e do fogo, como num mundo pós-apocalíptico em suspensão, a música resulta de um processo de criação verdadeiramente colaborativo, ainda pouco comum na música clássica contemporânea.

 

 

“a colaboração entre música e luz e a temática do Tempo, nomeadamente do seu fim”

 

A origem do Caleidoscópio está intimamente ligada ao percurso de Dalila Teixeira, pianista e diretora artística do projeto. O coletivo nasce no âmbito da sua tese de mestrado, dedicada à Sinestesia no Quarteto para o fim do Tempo, de Olivier Messiaen. Dessa investigação resultaram duas premissas que continuam a estruturar o trabalho do grupo: “a colaboração entre música e luz e a temática do Tempo, nomeadamente do seu fim – ainda que com um sentido bastante distinto do Messiaen”.

 

Em conjunto com a violoncelista Teresa Soares e o compositor Daniel Moreira, Dalila construiu o colectivo do de forma gradual, tendo por base os perfis das pessoas, tanto artísticos, como humanos.

 

 

“foi a partir da música que toda a parte cénica nasceu, contando uma narrativa abstrata em torno do Tempo”

 

Esta dimensão relacional revela-se fundamental num projeto cujo próprio nome — Caleidoscópio — sugere multiplicidade, transformação e sobreposição de perspetivas e manifesta-se de forma clara em Vórtice, um disco frequentemente descrito como “cinematográfico”, com edição da Artway.

 

“Parece-me claro que o trabalho colaborativo e multidisciplinar, tanto com o encenador João Delgado Lourenço, como com o desenhador de luz Tiago Silva, contribuíram nesse sentido. Mas foi a partir da música que toda a parte cénica nasceu, contando uma narrativa abstrata em torno do Tempo, que nos parece hoje difícil de dissociar deste disco, desta música”, explica a diretora artística.

 

 

“criatividade, desapego e humildade”

 

Compor “a várias mãos” é, para Dalila, um exercício exigente que implica “criatividade, desapego e humildade”. Num processo verdadeiramente coletivo, o material musical deixa de pertencer a um autor individual para se tornar propriedade do grupo: “A criatividade, inerente ao ato criativo, serve, neste processo em particular, um propósito maior de não ser um ato individual, como é comum que aconteça”.

 As ideias circulam, transformam-se, são apropriadas e devolvidas sob novas formas, num desapego da própria criação, que não é individual, mas do coletivo: “Passa a ser, também, o ato de influenciar e ser influenciada por outros compositores e criadores, no caso, encenadores, desenhadores de luz e de som e também intérpretes”.  Um processo exigente que exigiu dos três compositores “uma grande humildade e capacidade de diálogo”.

 

 

“convém que tudo seja feito com o respeito individual e coletivo uns pelos outros”

 

Esta fluidez envolve um diálogo contínuo, mas também conflitos, negociações e a necessidade de estabelecer limites: “O processo colaborativo, como qualquer coisa que implique relação humana, pode ser e é efetivamente difícil em diversos momentos. Convém que as tarefas sejam bem distribuídas, o que nem sempre é fácil. E convém que tudo seja feito com o respeito individual e coletivo uns pelos outros. Posso dizer que, às vezes também não é muito simples definir os limites desse respeito”.

 

O segredo está na amizade e no facto de todos terem “uma certa dose de loucura”.

 

 

O papel dos intérpretes na construção das obras

 

Os intérpretes tiveram também um papel determinante na construção das obras, criando “muitas partes da música, desde sons específicos, a dinâmicas, a fraseados e articulações”. Todos os compositores viram as suas propostas iniciais alteradas: “Alguns alteraram até peças inteiras que eram duas e passaram a ser uma, como é o caso do Aproximadamente 300 000 kms/s (faixa 3), do Miguel que era, no início, duas peças”.

 

“No caso do Granito do Tempo (faixa 11), por exemplo, todas as dinâmicas e acentuações foram definidas em ensaio, o que acabou por influenciar o gesto musical e, até, a ideia de captação. Quanto à peça da Catarina, a Vesta (faixa 10), lembro-me de haver muitas discussões sobre a notação, como se poderia representar a música de forma a passar uma imagem e foi uma das que sofreu mais alterações na partitura final”, acrescenta.

 

 

A gravação, a mistura e a espacialização sonora são tratadas como elementos composicionais

 

Esta lógica colaborativa alarga-se também ao trabalho dos técnicos de som, assumidos como agentes criativos. A gravação, a mistura e a espacialização sonora são tratadas como elementos composicionais, moldando a perceção e a dramaturgia das peças. Como, por exemplo, a espacialização da Eletricidade (faixa 4), em que “o som deambulava entre as colunas por forma a preencher diferentes espaços”.

 

“Houve sempre muitas discussões sobre a esse aspeto em particular, sobre o som concreto das faixas, sobre o tipo de captação, de saturação e de efeitos que se podiam ou deviam usar”, conta. Outro exemplo é a faixa 8, Canção das Águas Internas, que foi gravada nos Aquedutos de Arca d’Água, “a fim de captar uma acústica específica, que se fizesse circundar de água”.

 

 

“uma discrepância grande de volume e densidade sonora entre as faixas com e sem eletróncia”

 

Em Vórtice, o diálogo entre o acústico e o eletrónico é constante, embora desigual: “há determinadas faixas puramente acústicas (Água Perpétua e Lama, por exemplo), há outras que unem os dois (Sopro Suspenso e Eletricidade, por exemplo) e a outras unicamente eletrónica (Vazio e Vórtice)”.

 

Esses contrastes são assumidos como parte da narrativa do disco: “Isto gera dificuldades, desde logo a existência de uma discrepância grande de volume e densidade sonora entre as faixas com e sem eletróncia, mas também influencia as escolhas de captação e de efeitos utilizada”.

 

 

Aprender a errar e a aceitar

 

Do ponto de vista artístico e humano, o projeto foi igualmente um espaço de aprendizagem. Para Dalila, o maior desafio enquanto pianista foi ultrapassar a lógica individual da performance e compreender o todo, de forma a sustentar a narrativa e a atmosfera da obra.

 

Já enquanto diretora artística, o maior desafio é aprender a errar: “aceitar que, às vezes, vamos falhar com alguém e, muitas vezes, com todas as pessoas envolvidas”.

 

“Depois disso, ser capaz de gerir as pessoas, no seu melhor e no seu pior, equilibrando a balança e delegando tarefas – parece fácil, agora que escrevo, mas sei que ainda não cheguei nem perto de concretizar nenhuma dessas tarefas. A parte boa é que continuam a insistir para que continue a tentar”, confessa.

 

 

A missão de Vórtice e do Caleidoscópio Colectivo

 

Num país onde a música clássica contemporânea ainda luta por chegar a públicos mais vastos, o Caleidoscópio Colectivo acredita que projetos como Vórtice podem abrir novas portas, “por aproximar esta linguagem de algumas mais ecléticas, nomeadamente o rock e a música eletrónica”.

 

No mesmo sentido, as entrevistas (como esta) “são úteis para compreender os processos”, porque entender como a música se faz é, muitas vezes, o primeiro passo para querer ouvi-la.

 

O futuro do coletivo passa, assim, pela continuidade. Há vontade de aprofundar o método de trabalho colaborativo e, quem sabe, de o tornar uma referência para outros agrupamentos. “Por agora, continuamos a tentar lidar uns com os outros e construir um mundo próprio”, sublinha.  

 

 

 

 

Artigos sugeridos