Da Capo na ESMAE

Com Luís Carvalho, Abel Pereira, Ana Barros, Marina Pacheco e Samuel Bastos.

Sandra Bastos

Lançamento da primeira edição impressa da Da Capo, Revista Musical Portuguesa, na ESMAE.

Dia 11 de Fevereiro de 2014.

Participação Musical Quarteto Assai.

Com Luís Carvalho, Abel Pereira, Ana Barros, Marina Pacheco e Samuel Bastos. Moderação de Sandra Bastos (Da Capo).

Mais do que o tradicional lançamento de uma edição impressa, a Da Capo, Revista Musical Portuguesa, pretendeu, nos seus lançamentos, abrir um espaço de debate sobre os problemas que afectam os músicos portugueses, as compensações que encontram na profissão, a inspiração que buscam, os desafios que os movem. No fundo, queremos ouvi-los, conhecê-los melhor, tal como como fazemos todos os dias, no nosso trabalho online.

 

Da Capo – Luís Carvalho fez um artigo de opinião bastante pertinente para esta primeira edição impressa que fala de uma questão muito debatida: que futuro para a música profissional em Portugal?

Luís Carvalho – Tem também a ver com a minha actividade enquanto docente universitário, sou professor na Universidade de Aveiro e é uma das dúvidas que assola qualquer professor na área da música neste momento - que futuro, se já estamos com alguns problemas nas gerações que estão agora em início de carreira. O mercado em Portugal é escasso, no sentido de concertos, o ensino está um bocadinho melhor mas também tende a esgotar-se. Este assunto pareceu-me pertinente porque efectivamente o que é mais paradoxal é que o investimento no ensino da música nos últimos 30 anos foi colossal – é como o aumento de impostos mas para o lado bom.

Nasci depois do 25 de Abril, em democracia, e comecei a estudar música nos anos 80. Dessa altura para cá, não imaginam a diferença que é, não só em número de escolas, número de alunos, mas também na qualidade do ensino.Criaram-se as escolas superiores, as academias particulares, depois os cursos profissionais, as universidades… isto tudo começa a ser quase uma pilha que vai criando uma construção que do lado ensino que foi bem conseguida. E a prova disso é, por exemplo, o Abel que é músico convidado de uma das melhores orquestras do mundo [Orquestra Filarmónica da Berlim]. O Samuel está numa das melhores orquestras de ópera do mundo [Orquestra da Ópera de Zurique]. Temos portugueses a ganhar concursos internacionais por todo o mundo.

 

"Em Portugal, estamos a descurar as melhores gerações de sempre de músicos"

Aconteceram coisas boas. A minha crónica debruçou-se sobre isso, investimos tanto no ensino mas esquecemo-nos da segunda parte do jogo, acabamos ao intervalo. Construímos bem a parte do ensino, a rede funciona bastante bem, há excelentes professores e a este nível temos muito a agradecer a professores estrangeiros que vieram para Portugal, na altura em que não tínhamos portugueses em muitas áreas.

Houve um grande investimento no ensino que, bem gerido ou não do ponto de vista financeiro, surtiu efeito. Mas esquecemo-nos da segunda parte do jogo, que foi criar saídas profissionais. Aqui relembro uma frase que o Abel Pereira disse ao Público, em que ele diz “já reparou que a maior parte das vezes que toco é no estrangeiro?”. Acontece isso a imenso portugueses de grande qualidade.

Em Portugal, estamos a descurar as melhores gerações de sempre de músicos. O que é que isto vai ter como consequência? Muitos vão desaparecer para o estrangeiro, outros vão desistir… quando olharem para isto e começarem a criar oportunidades já não vai haver tanta gente para elas. Depois vai ser o ciclo inverso – andamos sempre atrás do prejuízo.

Este parece-me o maior problema de Portugal. No meu artigo, falo de um caso que é exemplar a este nível que é a Finlândia. Era um país desconhecido há 40/50 anos enquanto grande centro de formação de músicos na área erudita, tirando Sibelius, que nem sequer falava finlandês.

 

"Não há efectivamente um pensamento estruturado para a internacionalização da nossa cultura"

Uma das coisas que me faz mossa ao espírito é quando me dizem que Portugal é um país pequeno. A Holanda, a Bélgica ou a Suíça também são menores que Portugal. A Finlândia tem 5 milhões de habitantes! Tem a ver com aquilo que se faz com os seus recursos; eles aproveitam bem os seus recursos! Em Portugal isso não acontece. Esse é o maior dos problemas!

O caso finlandês que para nos interessa mais, é exemplar, é paradigmático daquilo que eu disse. Eles apostaram muito no ensino durante 20/30/40 anos, e a partir dos anos 80/90 começa a haver uma internacionalização dos seus artistas que é apoiada e financiada pelo próprio Estado.

Não há efectivamente um pensamento estruturado para a internacionalização da nossa cultura. Esse é o maior problema destas gerações que estão neste momento a entrar no mercado de trabalho e das próximas que estão a estudar – é a falta de investimento nas saídas profissionais, ou seja, aquilo que eu considero a segunda parte do jogo. Fizemos bem a primeira parte, mas estamos a perder por 10-0 na segunda parte.

 

"Se toda a gente que está-se a formar em Música voltar ao ensino, estamos a criar um monstro"

Samuel Bastos – Por exemplo, no ano passado a Suíça votou em referendo e ganhou com mais de 70 por cento o SIM à introdução da Música na Constituição. Todas as crianças são obrigadas a aprender Música, gratuitamente, em todas as escolas. Eles referem também todos os cantões que não cumprirem esta lei, são automaticamente penalizados. É um exemplo.

Luís Carvalho – É considerado um direito básico como o direito a ter casa, emprego e a ter saúde e educação. Foi basicamente sobre isso com que debrucei o meu artigo. Tem também a ver com a minha actividade de docente, tive uma série de alunos, uns mais talentosos do que outros, mas em que a saída profissional tende a ser voltar ao ensino. Estamos a criar uma espécie de bola de neve. Se toda a gente que está-se a formar em Música voltar ao ensino, estamos a criar um monstro porque do lado do ensino quanto mais professores houver, vão ter de haver mais alunos e quanta mais gente houver a estudar Música, mais gente vai sonhar em seguir Música. Para muito breve isto tem de ser mudado sob pena de perdermos uma geração inteira.

 

"o investimento no ensino pecou por excesso de zelo"

Abel Pereira – Gostava de comentar uma coisa que o Luís acabou de dizer, com a qual eu concordo perfeitamente. No entanto, acho que o investimento no ensino pecou por excesso de zelo. Podemos ser descuidados com algumas coisas e as asneiras acontecem. Neste caso, pecou por excesso de zelo por uma razão muito simples, falavas que Portugal é um país relativamente pequeno com 10 milhões de habitantes… já repararam quantas escolas superiores de música há em Portugal? Há mais do que em França, na Holanda, em Inglaterra e na Suíça! Como é que um país pequeno como Portugal, que tem duas orquestras sinfónicas, meia dúzia de orquestras regionais e de formação de câmara, mas tem 12 estabelecimentos de ensino superior, onde todos os anos saem centenas de alunos!

 

“o mais grave é não haver oferta de trabalho”

Abel Pereira - A oferta de trabalho é tão escassa que eu acho que houve um descuido muito grande nesse super investimento na educação. Houve um boom desde a altura das escolas profissionais, nos anos 90. De repente começaram a aparecer imensos alunos de Música e eu recordo-me que fui eu que abri o curso superior de Trompa aqui, nesta escola [ESMAE]. O meu primeiro ano foi também o primeiro ano do curso de Trompa, em 1995.

Quase vinte anos mais tarde, nós temos 12 estabelecimentos de ensino superior e aparecem-me alunos a tocar, alguns a tocar muito bem, outros mais ou menos bem e outros a tocar muito mal, infelizmente. Depois não há esse controlo. Há alunos que vêm ter um masterclass, um workshop ou uma aula e não sabemos nada do aluno, pensamos que ele está a tentar concorrer ao ensino superior, e ele diz-nos: “não professor, eu já tenho o mestrado”. Acontecem estas coisas mas, de facto, o mais grave é não haver oferta de trabalho.

 

“há excesso de oferta de ensino superior”

Luís Carvalho – Quando digo grande investimento, não vou discutir do ponto de vista financeiro se foi bem feito ao não. Também estou de acordo que há excesso de oferta de ensino superior. Tenho para mim uma máxima – o ensino superior devia ser gratuito, ponto final parágrafo. Sou contra propinas. É uma posição pessoal, aceito a das outras pessoas. Também aceito que Portugal, qualquer país, tem recursos limitados. O Estado oferece tantos milhares de vagas no ensino público por ano. Vamos aos melhores oferecer as melhores condições para poderem estudar.

O que acontece é que temos não só uma série de universidades públicas, como temos universidades privadas que surgem como cogumelos. Essas andam em roda livre, sendo que a maior parte delas acaba por, directa ou indirectamente, funcionar com dinheiro do Estado.  O que acaba por ser uma concorrência desleal com as universidades verdadeiramente públicas. Uma universidade pública recebe as propinas definidas por lei, depois o próprio Estado limita a capacidade da universidade de captar investimento privado. Isto é ridículo.

Se o Estado por um lado está a tirar dinheiro às universidades e por outro limita-lhes a capacidade de atrair investimento. É uma concorrência desleal com as universidade privadas, que não só recebem subvenções do Estado, como também estão completamente à vontade para captar investimento privado. Isto é problema do ensino geral e não especificamente da Música.

A Música é um dos cursos mais caros que existem. As aulas de instrumento são aulas individuais, um professor nunca pode ter 500 alunos, ao contrário das disciplinas teóricas doutros cursos.

 

“comecei a dizer aos meus alunos para emigrarem”

Da Capo – Pegando nesse exemplo das saídas profissionais, temos pela primeira vez dois academistas de Trompa na Academia da Orquestra Filarmónica de Berlim: Ricardo Silva e Luís Vieira. A saída passa por este exemplo?

Abel Pereira – Este exemplo é interessante do ponto de vista da qualidade, porque estamos a falar de uma das melhores academias de orquestra que há no mundo, que está aliada a uma das grandes orquestras mundiais. Portanto, dá a oportunidade aos jovens de seguirem um trabalho ao mais alto nível. Isso é fantástico.

O que não é fantástico é o que o Luís estava a dizer, que essas pessoas vão para o estrangeiro porque não têm trabalho em Portugal. É um bocado aquela máxima do nosso Primeiro- Ministro, que pedia às pessoas para emigrar. Eu, de facto, a determinada altura comecei a dizer aos meus alunos para fazerem o mesmo, por uma questão de bom senso. Das duas uma, ou ficam em Portugal e vão dar aulas na academia de Carrazeda de Cima, mas se calhar são talentos que estão a ser desperdiçados. Ou então vão tentar a sua sorte lá fora. Foi isso que eles fizeram, tanto o Ricardo como o Luís. Estão os dois muito bem, a estudar música ao mais alto nível.

 

“Portugal como um Estado de um grande país que se chama Europa”

Abel Pereira - Eu vejo, cada vez mais, Portugal como um Estado de um grande país que se chama Europa. Está em crise, enfim, como esteve os Estados Unidos em 2008, mas acho que Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda, os países periféricos, são os estados pobres da Europa. Temos de ver a movimentação dentro da Europa como se fosse a movimentação nos Estados Unidos. Conhecemos imensos músicos da Califórnia que vão tocar para Nova Iorque vão para Chicago, de Chicago para Los Angeles… Na Europa, vai acabar por acontecer a mesma coisa. Há imensos espanhóis na Alemanha; há imensos franceses em Itália; há polacos, russos, do Leste em Portugal.

Neste momento estamos a ter a mesma necessidade que as pessoas tiveram nos anos 60 e 70, quando começaram a emigrar para França, Luxemburgo e Brasil. O tempo dos imigrantes virem para Portugal já passou, os anos 90 já passaram. Estamos a voltar a ter uma emigração.

Luís Carvalho - É natural em áreas artísticas como a música existir uma certa circulação, não vamos iludir-nos. Alguém que entre na Filarmónica de Berlim, não vai preferir ficar em Portugal.

 

“Fiz provas para dar um incentivo aos alunos que estavam muito desmotivados”

Da Capo – Neste momento o Abel está à experiência na Orquestra Filarmónica de Berlim. É o primeiro músico português a tocar na Filarmónica como profissional. Tens cá emprego, és solista na Orquestra Sinfónica Casa da Música, mas tens agora uma oportunidade única… O que é que este salto pode significar?

Abel Pereira – Não sei o que pode significar para já porque ainda não sei o salto. Ainda estou no ar… Em determinadas alturas da vida fazemos opções, independentemente de termos trabalho ou não, fazemos opções.

Devo dizer que antes de fazer esta opção de fazer provas em Berlim, tinha estado dois anos com a Filarmónica de Londres. Quando fiz provas para Londres, não fiz com a ideia de ir viver para Londres. Fiz para dar um incentivo aos alunos que estavam muito desmotivados precisamente por não haver trabalho em Portugal. Falei com a classe de Trompa da ESMAE, comentei que ia fazer uma prova para vos tentar “picar” para ver se vocês ganham vontade em fazer coisas.

Mas devo dizer-vos que fiz sem qualquer intenção de ficar. Acabei por ficar, consegui conciliar com a Orquestra do Porto e a ESMAE. Isso foi, de facto, uma grande motivação para os alunos. Fiz mais isso pelos alunos do que propriamente por mim.

 

“Os alunos voltaram a ter vontade de prosseguirem os estudos e de procurarem emprego noutras orquestras”

Desta vez por uma questão de consideração. Fui convidado a fazer provas. Estava a fazer uma digressão com um orquestra russa na Europa, quando recebi um telefonema do Stefan Dohr, que é o principal Trompa de Berlim, a convidar para fazer prova porque iam convidar meia dúzia de pessoas e acharam que me deviam convidar. Por uma questão de consideração e respeito disse que sim. Estava em Atenas, mas fui a Berlim.

Nunca pensei muito nisso. Se ele não me tivesse ligado não teria ido fazer prova. Isto foi ainda mais um incentivo para os alunos. Entretanto, um aluno foi estudar para Karlsruhe, outro para Estrasburgo, outro para Zurique. Os alunos voltaram a ter vontade de prosseguirem os estudos e de procurarem emprego noutras orquestras. Acho que fui o melhor exemplo que eles podiam ter.

Não sei como vai ser, ainda não decidiram nada. Em princípio vão decidir no fim deste ano, mas ainda não é certo. Mas eu estou bem aqui, gosto muito de Portugal, gosto muito do Porto. Se não gostasse não teria voltado, pois estive a estudar em Frankfurt, trabalhei fora, em Barcelona… Na altura podia ter ficado na Ópera de Frankfurt. Gosto muito de estar aqui, sinto-me bem, tenho os meus amigos, a minha família, as pessoas mais próximas… Tenho emprego e uma boa qualidade de vida.

 

“Nós temos que formar públicos”

Samuel Bastos – Lembro-me da vossa geração, que na altura preencheu os lugares disponíveis nas principais orquestras. Hoje é mais difícil, há mais pessoas…

Luís Carvalho – Há uma quantidade de gente jovem nas orquestras portuguesas que, felizmente, vai continuar a tocar por muitos anos. Mas a questão é que neste momento, nós… não digo a loucura do Manuel Maria Carrilho que dizia que nós para estarmos na média europeia tínhamos de ter uma orquestra sinfónica por cada milhão de habitantes. Eu não me importava…

Ana Barros – Especialmente não há um trabalho com os públicos para depois assistirem aos concertos.

Luís Carvalho – Mas aí eu discordo dessa razão que se dá para não se criarem mais orquestras, que nós não temos públicos. Acho exactamente contrário. Nós temos que formar públicos. Na Casa da Música, os primeiros concertos da orquestra não estavam todos “à pinha”, foi-se criando o hábito e agora os concertos estão praticamente cheios. Não se desistiu à primeira vez.

A certa altura na revista o Pedro Carneiro diz que “é horrível se julgado só por um concerto”. Se uma orquestra faz um ou dois concertos e a casa está meia ou menos que meia, se ao segundo concerto acontece a mesma coisa, e se se desiste, significa… é quase como matar a criança à nascença. Não se está a dar espaço para crescer. Tudo tem de ter espaço para crescer. Só investindo em educar o público é que podemos ter público.

O Porto tem uma longa tradição e história de cultura operática. No entanto, ópera no Porto é uma inexistência há quantas décadas? Sabiam que várias óperas famosas de Verdi foram estreadas primeiro no Porto e só depois é que foram no São Carlos?

 

"há falta de investimento na cultura"

Intervenção da assistência – Gostava de felicitar os autores da revista, porque acho pertinente de grande utilidade, porque acho que nível da formação musical e do próprio contexto da música em Portugal, parece-me que é muito bem-vinda. Tenho de vos felicitar por esta iniciativa. Como professora de música agradeço este contributo. É muito importante termos uma revista que nos fale daquilo que nós gostamos muito – a Música.

Estava a ouvir o professor Luís, da Universidade de Aveiro, quando diz que por um lado os anos 80 foram marcados por uma grande evolução, houve um forte crescimento em termos da educação artística, esse crescimento acentuado vem agora sofrer um retrocesso imenso em todo o contexto que estamos a viver ultimamente.

Quando falamos em criar público, parece-me uma questão extremamente pertinente, isso tem sido uma luta que tenho travado ao longo do tempo. É preciso consciencializar as pessoas, particularmente os nossos políticos para a educação musical dos nossos jovens e das nossas crianças, que devem começar a aprender música desde a mais tenra idade. 

Ao longo do tempo, nós temos verificado que há países no mundo que têm uma preocupação crescente em educar pessoas, como o caso da Finlândia, fazer um país culto musicalmente… Em Portugal sofremos desse mal, preocupam-se muito pouco, os campos de futebol estão cheios, mas as salas de concerto não.

Nós temos que educar público, temos de pôr as pessoas a perceber o que é música, a perceber os horizontes que ela tem, em vários contextos.  É preciso educar as pessoas. O contexto político em que vivemos, a minha preocupação é essa, por tudo e por nada se fala da crise, ela exista mas à custa dessa história da crise, há falta de investimento na cultura. Às vezes, na crise vale tudo.

Estávamos a avançar na educação artística mas estamos novamente a retroceder. Falta vontade política e falta também a sensibilidade artística das pessoas.

 

"foi preciso chegar a um momento de crise para se chamarem os cantores portugueses"

Ana Barros – Se nós queremos formar públicos, temos de começar por fazer uma reforma a nível educacional de base, porque o problema também é esse. Estávamos a falar do ensino superior mas estamo-nos a esquecer o ensino básico, que é muito fraco. Não conseguimos formar públicos se não tivermos um bom ensino a nível da base.

Em relação à ópera, aqui no Porto, se fizermos as contas já não há ópera há 50 anos.

Luís Carvalho – Haver há, a Orquestra do Norte costuma fazer, pelo menos uma vez por ano.

Ana Barros – Sim, a Orquestra do Norte tem feito produções. A Orquestra Nacional do Porto antes de ser sinfónica também participava com o Círculo Portuense de Ópera, no Coliseu. Mas aqui no Porto não há mercado de trabalho.

Marina Pacheco – Em Lisboa também não está melhor. A minha choca-me particularmente ser preciso chegar a um momento de crise para se chamarem os cantores portugueses.

 

"temos de procurar trabalho em vários países"

Ana Barros – Nós também temos tido essa experiência ultimamente de procurar fora e se calhar, se não houvesse esta crise também não o teríamos feito porque tínhamos achados que estávamos bem. Temos ido para fora e temos conseguido trabalhar. Nós, músicos, temos de procurar trabalho em vários países.

Da Capo – A solução passa também por outro tipo de projectos, de sonoridades, como acontece com o teu projecto sobre a Severa, fado erudito?

Ana Barros – Eu gosto de fazer projectos diferentes e acho que é importante utilizar as nossas raízes, música tradicional, o fado… mas eu peguei no fado por uma questão de gosto. Mesmo que não tivesse público, mesmo que ninguém comprasse o público, eu ia fazê-lo na mesma porque é uma coisa que gosto de fazer.

 

"sempre foi nosso objectivo formar públicos, arriscar, fazer mais pela música portuguesa"

Da Capo – No caso da Marina Pacheco, o CD ao ser convertido em espectáculo veio no sentido da formação de público.

Marina Pacheco – A propósito do meu disco, a pianista Olga Amaro também está cá, nós trabalhamos juntas há dois anos e pouco, e desde sempre foi nosso objectivo formar públicos, arriscar, fazer mais pela música portuguesa. Somos artistas portugueses por isso é uma das nossas funções.

O meu último trabalho discográfico, em conjunto com a pianista Olga Amaro, chama-se Canções de Lemúria é um trabalho que não se cinge a um simples disco, saltou para o palco. O espectáculo tem o nome do disco. Fizemos questão de convidar quatro compositores portugueses a escrever para nós; juntamos o trabalho do actor e encenador Pedro Lamares, para chamar mais público de diferentes áreas e abranger o mais possível o público, pessoas que se calhar não viriam a um espectáculo nosso. Convidamos também uma artista plástica para trabalhar connosco. Misturamos, assim, diferentes áreas e foi o nosso contributo para a música portuguesa.

 

"no mundo da música erudita podemos entrar por outros caminhos"

Da Capo – Ana, o teu projecto também envolveu encomendas a artistas portugueses?

Ana Barros – Sim, mas tem características diferentes, pegamos em fados tradicionais, temos o tema da Severa, que é a primeira fadista conhecida da história do Fado, a ideia foi fazer uma ponte entre a própria vida da Severa e a história do fado porque estão interligados. O convite foi feito a três compositores para fazerem arranjos, de alguma forma tirar um bocadinho o cunho tradicional nos fados e dar-lhes um cunho mais erudito, se é que podemos eruditizar o fado.

Pegar também no piano, que nos salões era um instrumento que tocava muito o fado, que acabou por se distanciar por causa da guitarra portuguesa. Foi também a pensar em espectáculo, também trabalhamos com um encenador - Pedro Ribeiro, que faz parte da nova geração de encenadores e que está a fazer uma carreira muito interessante no Convent Garden em Londres. Identifico-me bastante com o trabalho que ele costuma fazer, daí o convite.

É um espectáculo no qual acabamos por misturar conceitos diferentes, com compositores diferentes que vão trabalhar melodias tradicionais, acabamos por ter coisas muito diferentes umas das outras.

Da Capo - Os compositores são completamente diferentes…

Ana Barros – O Carlos Azevedo embora tenha formação clássica, está mais voltado para o jazz.  O Sérgio Azevedo não. Depois tivemos uma descoberta fantástica, falo pela minha ignorância, não conhecia o Carlos Marecos, que é um compositor de excepção. Tudo aquilo que ele faz tem qualquer coisa de especial.

O Bruno Belthoise é o meu parceiro neste trabalho, a ideia surgiu dos dois. O Bruno é francês, portanto fado era-lhe distante, embora ele gostasse de ouvir. Eu ainda vou percebendo alguma coisa pois a minha mãe cantou fado durante muitos anos.

Tentamos, assim, fazer a ponte entre os dois mundos. Acho que os três compositores captaram muito bem a nossa ideia, queríamos modernizar o fado, que está diferente e está na moda. A nossa ideia foi mostrar que no mundo da música erudita se calhar podemos ter um bocadinho de fado, entrar por outros caminhos e fazermos aquilo de que gostamos.

Quando se pega num projecto tão difícil, sem apoios, e queremos gravar temos de andar a correr e a bater a todas as portas para pedir patrocínios. Tivemos a sorte de ser um projecto que chamou a atenção e assim conseguimos o apoio do Museu do Fado, da Antena 2… temos vários teatros a agendarem o nosso concerto e editoras interessadas o nosso trabalho, temos a Artway a trabalhar connosco… Mas é, de facto, muito difícil, independentemente de qual seja o tema ou o contexto, mas estamos a fazer o que gostamos e vamos continuar.

Da Capo – Marina, confirmas: é muito difícil?

Marina Pacheco – Sim, é difícil. Também acho que a crise é usada como desculpa, mas essa palavra não entra no meu vocabulário! Prova disso é o trabalho que tenho vindo a fazer, porque não baixo os braços. Às vezes um “não” faz parte e até faz bem para perceber até onde sou capaz de ir, aonde é que quero ir e se é isto que quero para mim. O “não” faz parte do processo. Estou cá para os receber, pois a seguir vêm muitos “sim”.

 

"Adácio Pestana era um grande senhor"

Da Capo – Outro destaque desta edição impressa é o Concerto para Trompa de Luís Tinoco que o Abel estreou nos Estados Unidos. A próxima estreia é no Brasil?

Abel Pereira - Sim, em princípio será em Curitiba, se bem que a crise também chegou lá, porque recebi um email esta semana a dizer que afinal não se sabe ainda se o concerto se vai realizar. Estreei esse Concerto em Memphis, no ano passado, no Congresso Mundial de Trompas. É um Concerto encomendado ao Luís Tinoco, que foi a minha segunda encomenda. Curiosamente, a minha primeira encomenda foi aqui ao Luís Carvalho, em 1997, uma obra para trompa solo que tive de fazer no meu exame de bacharelato.

Surgiu a oportunidade de fazer esta encomenda porque eu recebi o convite para participar como solista no congresso e perguntaram-me o que eu queria tocar. Pensei em muita coisa, mas lembrei-me: por que é que não faço uma encomenda? Então falei com a direcção do congresso, se eles estariam na disposição de fazer uma encomenda a um compositor português e resolvi juntar três elementos: o intérprete português; o compositor português; e o homenageado Adácio Pestana, um grande senhor e excelente trompista que, infelizmente, já faleceu.

Nunca tive oportunidade de o ouvir, a não ser em gravações, mas toda a gente que o ouviu fala muito bem do trabalho dele, inclusivamente maestros de renome internacional convidaram-nos para fazer concertos fora de Portugal, isto nos anos 60, uma época completamente da que vivemos agora.

Privei com ele uma vez, quando ganhei o Prémio Jovens Músicos, ele foi ver o meu concerto e no fim estivemos ambos a conversar. Nos 5 minutos que falei com ele achei-o muito simpático, elegante, culto, bem-disposto… Lembrei-me de falar isto ao Luís Tinoco, que achou a ideia muito boa.

Estreei o concerto no ano passado, tenho pena de ainda não ter estreado cá…

Da Capo – Nem está prevista a estreia para breve?

Abel Pereira – A Artway está a trabalhar nesse sentido até porque o projecto é exclusivo da Artway. Estou à espera de o estrear cá…

Recebi, então, o convite para fazer o Concerto no Brasil mas, curiosamente, uma semana depois  convidaram-me para fazer um concerto em Brasília. Agora o concerto de Brasília está agendado, confirmado, enquanto que o outro está em risco por problemas de orçamento. 

 

"No estrangeiro adoram a música portuguesa"

Da Capo – O Luís tem uma experiência interessante sobre o Brasil…

Luís Carvalho – Levamos a Camerata Nov’Arte, que é um grupo que criei em  2011, uma espécie de ensemble, de formação variável, estivemos no Estado de Espírito Santo, norte do Rio de Janeiro. Fizemos lá uma digressão, vários concertos, incluindo concertos pedagógicos. Foi muito interessante.

Na capital do Estado – Vitória, tocamos no teatro principal – Carlos Gomes, que é um réplica do Teatro São Carlos, mas mais pequeno, para cerca de 500 pessoas. Fizemos lá um concerto à noite, tradicional, com bilheteira… Mas à tarde fizemos um concerto pedagógico, onde estiveram imensas crianças. Quando entramos no palco levamos um susto: a plateia estava repleta de miúdos. No fim, abrimos espaço para perguntas… Estivemos uma hora e meia a responder a perguntas e depois ainda estivemos imenso tempo a tirar fotografias com eles. Para eles, aquilo era quase místico, de outro mundo, com músicos europeus.

O Brasil está a crescer economicamente mas é muito mais atrasado que Portugal a nível social, excepto São Paulo e Rio de Janeiro, que são duas espécies de cidades europeias plantadas no Brasil, todo o resto, social, sociologicamente, é muito mais atrasado do que Portugal.

Aquilo era um ciclo de concertos internacionais, no qual participam orquestras de vários países. Foi a primeira vez que foi uma orquestra portuguesa. Todas as outras orquestras tinham um intérprete, que também andava connosco. Mas nós não precisávamos, já que falávamos português. Para eles era exótico ouvirem-nos a falar, era um português estranho…

Ana Barros – Quando estive na Califórnia e quando fui à Irlanda e Inglaterra, só fiz música portuguesa e toda a gente acha engraçado porque acha a música portuguesa exótica. Faz um sucesso enorme no estrangeiro, mesmo as obras que achamos mais difíceis de ouvir, para eles é exótico. No estrangeiro adoram a música portuguesa.

 

"A nossa música contemporânea é mais vanguardista"

Da Capo – O Quarteto Contratempus, também aqui presente com o Crispim Luz e a Teresa Nunes, esteve também no ano passado no Brasil. É verdade que os estrangeiros acham a música portuguesa exótica, como está a dizer a Ana Barros?

Teresa Nunes – Além dos brasileiros não perceberem muito bem o português de Portugal… nós também apresentamos música portuguesa. Fizemos encomendas a compositores portugueses: Sérgio Azevedo e Daniel Moreira. Tocámos também uma obra do professor Fernando Lapa, que tinha partes faladas e cantadas. A plateia estava muita atenta, mesmo os mais pequeninos, a tentar entender o português de Portugal.

A nossa música contemporânea é mais vanguardista do que a música contemporânea brasileira porque mesmos o professores de composição da Universidade do Rio de Janeiro, disseram-nos que gostaram imenso dos efeitos dos nossos compositores.

 

"O Brasil pode ser um mercado a explorar"

Luís Carvalho – O Brasil pode, sem dúvida, ser um mercado a explorar. Não é tão fácil entrar no Brasil como as pessoas pensam. Toda a gente pensa que agora o Brasil vai ser um espectáculo. Eles sofrem do mesmo estigma do que nós, portugueses – têm todos os defeitos dos portugueses. A única coisa que têm de bom é o samba e o calor. Porque eles têm uma certa resistência a receber projectos que não sejam de topo. Estão dispostos a pagar muito para receber, por exemplo, a Renée Fleming, mas se for uma coisa que não tem o nome da Renée Fleming, já não querem.

Isto do Mundial é um exemplo de que eles estão a cometer os mesmos erros que nós cometemos no Euro 2004. São mesmo portugueses, apenas um pouco mais adocicados. Notei isso não a tocar mas no processo administrativo para chegar lá, que não é tão fluído como  as pessoas julgam, é mais complexo. Têm este tendência de quererem ser cosmopolitas, aceitam o que é muito famoso, mas o que não é tão famoso e que até tem a mesma qualidade ou até mais em alguns casos, é mais difícil.

Abel Pereira – Tenho uma ideia um pouco diferente. Acho que isso acontece em São Paulo. No Rio de Janeiro a realidade é diferente, é praia, samba e caipirinha, ou seja, não há uma vida cultural muito activa. Mas principalmente em São e Brasília, parece-me que é um meio mais snob, mas o Brasil é muito mais do que isso. Gosto muito do Brasil, fui sempre muito bem acolhido lá, precisamente por isso: eles recebem-nos quase como extraterrestres, o facto de falarmos português mas sermos europeus, para eles é uma grande mais-valia. Acho que o carinho que eles têm pelos portugueses, apesar de terem anedotas sobre os portugueses, como nós temos sobre os alentejanos, porque acham que somos um povo um bocadinho mais lento. Nós temos o fado, mais triste e melancólico. Eles têm o samba. Se a coisa não corre bem, vamos sambar. O ambiente,  a temperatura, a simpatia por vezes exacerbada, dá-nos boa disposição para fazermos as coisas.

Luís Carvalho – Mas notei na mentalidade deles que cosmopolita não é ir a Lisboa mas ir a Paris. O sonho de todo o brasileiro é ir a Paris. A viagem de sonho de todos os brasileiros é ir a Paris.

 

"a melhor inspiração do artista é o público"

Intervenção da assistência – Não percebo nada de música, eu e os colegas que vieram comigo somos, assim, um público a ser formado. Gostava de dar os parabéns porque este projecto põe as pessoas em comunicação. Por outro lado, é um projecto de grande coragem. A crise é uma coisa mais existencial, antes do económico, e a prova disso é que se mete em todas as conversas. A perspectiva de quem não percebe nada de música e está aqui nesta conversa é a de que a música é um mundo muito especial. Já se falou de todas as partes do mundo com uma familiaridade incrível. É muito interessante ouvir a vossa conversa deste lado.

Gostava de desejar que os músicos aqui presentes nos inspirassem porque é disso que estamos a precisar neste momento - muita inspiração.

Abel Pereira – Isso que acabou de dizer, que o público precisa de ser inspirado, mas sabe que a melhor inspiração do artista é o público. Há pouco falávamos do Brasil, curiosamente, o Teatro Guarany, para 1200 pessoas, durante 10 dias de festival teve concertos todas as noites, sempre cheio. Estamos a falar de uma cidade que se chama Pelotas, muito perto do Uruguai, a 80 km, é uma cidade com 700 ou 800 mil pessoas, mais ou menos como o Porto, mas sem a importância que o Porto tem para Portugal, estamos a falar de uma cidadezinha no Brasil, onde as pessoas têm uma qualidade de vida razoável, não têm cultura, muito menos cultura musical, mas todas as noites o teatro estava cheio.

Nós que estamos na Europa, é curioso tentar perceber como é que uma coisa destas acontece, porque aquelas pessoas não têm qualquer tipo de formação, se lhe falarem em música a única coisa que conhecem é o funk brasileiro e o samba, o chorinho. De repente, têm música de concerto (é assim que chamam à música erudita). É impressionante como isto acontece e por que razão acontece.

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