Sandra Bastos
Depois de um percurso internacional sólido, construído entre algumas das mais importantes orquestras europeias, João Martinho apresenta o seu primeiro álbum a solo, AEQUILIBRIUM. Um disco profundamente pessoal, pensado ao longo de quase uma década, onde o trombonista português desenvolve uma ideia que o acompanha há muitos anos: a procura do equilíbrio.
Desde 2017, é trombone solo da Philharmonisches Staatsorchester Hamburg e colabora regularmente com as orquestras filarmónicas de Berlim e Munique. Paralelamente à atividade internacional como intérprete, é professor assistente na Universidade das Artes de Berlim.
“É uma procura que tem tanto de interminável quanto de necessária”
O primeiro esboço de AEQUILIBRIUM surgiu há mais de dez anos, em 2015, quando “era apenas um sonho distante, uma ideia ainda muito embrionária, que foi crescendo e amadurecendo ao longo dos anos”. Em 2022, sentiu que tinha chegado o momento certo para avançar: “As circunstâncias alinharam-se de forma muito natural — as pessoas certas, o tempo certo e a maturidade necessária para dar vida a algo tão pessoal surgiram e eu deixei-me levar.”
O título do álbum nasce precisamente dessa reflexão interior, sobretudo no “sentido emocional”. Uma procura que atravessa todo o disco e reflete uma inquietação facilmente reconhecível por quem ouve: “É uma procura que tem tanto de interminável quanto de necessária e, pessoalmente, é algo fundamental para o meu bem-estar”.
“descobrir diferentes linguagens, sonoridades e emoções”
O programa de AEQUILIBRIUM foi construído de forma muito consciente, refletindo a própria ideia de equilíbrio que atravessa o disco. A escolha do repertório, entre obras originais, transcrições e duas estreias, nasce diretamente do percurso artístico e pessoal de João Martinho.
“Todos os elementos deste projeto — o repertório, os compositores escolhidos e as pessoas que participaram nele — foram pensados de forma muito consciente”, explica. “Queria que não só o álbum, mas todo o processo de preparação, fosse ao encontro desse conceito de equilíbrio.”
Ao mesmo tempo, procurou “oferecer ao ouvinte uma experiência variada, onde fosse possível descobrir diferentes linguagens, sonoridades e emoções ao longo do disco”. E deixa uma sugestão: “A minha proposta é que o álbum seja ouvido do princípio ao fim na ordem escolhida.”
António Pinho Vargas: uma colaboração há muito desejada
Um dos destaques de AEQUILIBRIUM é a nova obra de António Pinho Vargas para trombone e piano, escrita especialmente para este projeto.
Para João Martinho, a colaboração com um dos nomes maiores da música portuguesa contemporânea era um desejo antigo e uma das primeiras decisões tomadas para o álbum: “Sou fã dele como pessoa e como músico há décadas e fiquei muito feliz por ele ter aceitado o convite e por ter tido a oportunidade de trabalharmos juntos”.
Aequilibrium, a obra-surpresa de Carlos Martinho
A outra estreia absoluta do disco tem um significado ainda mais íntimo. Aequilibrium foi composta por Carlos Martinho, irmão de João Martinho, e acabou por se transformar num dos momentos mais pessoais de todo o disco.
“Esta peça foi a maior surpresa de todas”, revela o trombonista. “Surge num momento em que me faltava uma obra para fechar o programa e, embora ninguém soubesse disso, uma noite o meu irmão disse-me que tinha o sonho de escrever uma peça para mim dedicada aos nossos pais”, conta.
A obra transformou-se numa homenagem à família e ao percurso partilhado entre os dois irmãos: “Nasceu esta peça — Aequilibrium que, além de ser musicalmente incrível, veio acrescentar ainda mais significado ao projeto.”
A música de câmara como espaço de liberdade
O álbum conta ainda com a participação do pianista Afonso Rocha e do Essentia Trombone Quartet, duas presenças fundamentais na construção sonora de AEQUILIBRIUM. No caso de Afonso Rocha, a escolha foi tudo menos óbvia: “Eu queria tocar e gravar com alguém que nunca tivesse tido contacto com o repertório trombonistico, precisamente para que pudesse trazer uma certa frescura e irreverência ao programa e assim foi”. O resultado correspondeu totalmente às expectativas. “O Afonso é um pianista incrível e foi ótimo trabalhar com ele.”
Já o Essentia Trombone Quartet surge como uma extensão natural do universo musical e humano do trombonista português. “É um projeto relativamente recente, mas que me dá um prazer enorme integrar. Somos quatro amigos unidos pelo trombone e pela vontade de fazer música ao mais alto nível”, explica.
A música de câmara ocupa, aliás, um lugar cada vez mais importante no seu percurso artístico. Depois de anos dedicados sobretudo à atividade orquestral, encontra nesta dimensão um espaço de maior liberdade musical e expressão individual: “Neste momento, faz-me sair da rotina da orquestra, e é uma vertente onde musicalmente posso ter mais liberdade e onde o trombone tem um papel mais ativo e de maior relevância.”
“É o projeto mais pessoal que alguma vez realizei”
Este trabalho representa sobretudo um ponto de chegada. Um projeto amadurecido lentamente ao longo de vários anos, sem pressões nem objetivos estratégicos de carreira: “É o projeto mais pessoal que alguma vez realizei, com o qual estou contente e não tenho nenhum tipo de expectativas em relação ao que pode sair daqui”.
Assim, sente-o como o culminar de um processo longo, tanto artístico como pessoal: “Não o fiz com nenhuma intenção de lançar a minha carreira ou procurar prestígio, mas sim com uma vontade de partilhar este lado meu, sendo o mais autêntico e fiel a mim mesmo.”
Zeferino Pinto, Severo Martínez e Stefan Schulz
A ligação de João Martinho à música começou como a de tantos músicos de sopro em Portugal: numa banda filarmónica. Foi na Banda Musical de Caldas das Taipas que deu os primeiros passos, inicialmente na trompete, inspirado pelo irmão, antes de descobrir o instrumento que acabaria por definir todo o seu percurso.
Ao longo da formação, destaca a importância de três professores que marcaram diferentes fases da sua vida: Zeferino Pinto, Severo Martínez e Stefan Schulz. “Cada um deles surgiu numa fase diferente da minha vida e teve um papel fundamental, não apenas pelos ensinamentos musicais, mas também pelos valores humanos que me transmitiram”, confessa.
Entre os momentos decisivos do seu percurso, destaca ainda a passagem pela Gustav Mahler Jugendorchester, experiência que considera transformadora: “Foi uma experiência verdadeiramente transformadora pela qualidade artística do projeto e pelas pessoas que nele conheci.”
Uma presença regular nas orquestras filarmónicas de Berlim e Munique
O período de formação na Universidade das Artes de Berlim foi um dos momentos decisivos do seu percurso. Estudar com Stefan Schulz permitiu-lhe ir além da dimensão técnica do instrumento: “A forma de trabalhar é diferente, dá-se muita importância à expressão musical, procurando guiar os alunos à descoberta do seu verdadeiro ‘eu’ musical.”
Ao longo dos últimos anos, tem colaborado regularmente com algumas das mais prestigiadas orquestras europeias, entre elas a Berliner Philharmoniker (Filarmónica de Berlim) e a Münchner Philharmoniker (Filarmónica de Munique). “Tocar com orquestras desse nível é inspirador e tenho a sorte de ser convidado a trabalhar com elas regularmente.”
Entre os momentos mais marcantes, destaca a interpretação da Quinta Sinfonia de Mahler em digressão com a Filarmónica de Munique, sob direção de Daniel Harding, as tournées pela China e Japão e os concertos no Waldbühne, em Berlim, com Kirill Petrenko e Gustavo Dudamel. “Foram experiências que me marcaram muito e que foram muito especiais.”
“Não há um dia em que não pense na sorte que é fazer parte da Philharmonisches Staatsorchester Hamburg”
Desde 2017, João Martinho é trombone solista da Philharmonisches Staatsorchester Hamburg (Orquestra Filarmónica Estatal de Hamburgo), uma experiência que descreve com um profundo sentimento de pertença.
“Não há um dia em que não pense na sorte que é fazer parte da Philharmonisches Staatsorchester Hamburg. Adoro os meus colegas, a cidade, o repertório que tocamos, as condições de trabalho, tudo”, afirma. Hamburgo acabou por se transformar num espaço de equilíbrio pessoal e artístico: “Tenho uma sensação de ‘lar’ aqui, uma harmonia especial e espero ficar aqui muitos anos.”
“Procuro transmitir aos alunos uma forma saudável e consciente de viver a música”
Paralelamente à atividade orquestral, é professor assistente na Universidade das Artes de Berlim, onde estudou: “Dar aulas é algo que me dá um enorme prazer e que levo com um grande sentido de responsabilidade”.
“Procuro transmitir aos alunos não apenas ferramentas técnicas e musicais, mas também uma forma saudável e consciente de viver a música”, explica. A proximidade com os alunos e o respeito pelo percurso individual de cada um são aspetos centrais da sua abordagem pedagógica.
O objetivo passa por ajudar cada músico a encontrar a sua própria identidade artística: “Interessa-me ajudá-los a descobrir a sua própria identidade musical e a desenvolverem confiança naquilo que têm para dizer através do instrumento”.
“É a paixão que nos move, que nos faz sair do país à procura de mais e melhores oportunidades”
Sobre os jovens trombonistas portugueses, evita os discursos mais previsíveis: “Não vou optar pela resposta fácil e cliché de dizer que tem de estudar muito e com disciplina, acho que isso é, nos dias que correm, muito óbvio”.
Considera “a paixão pela música” o elemento diferenciador: “O que é necessário é a paixão pela música tendo o trombone como voz. É a paixão que nos move, que nos faz sair do país à procura de mais e melhores oportunidades; é a paixão que nos faz levantar todos os dias para ir estudar; é a paixão que, nos dias menos bons, nos relembra o porquê de não desistirmos; e é também a paixão que, quando chegamos ao palco, nos faz criar uma ponte com o público permitindo-nos expressar de forma mais autêntica”.
Por isso, deixa um conselho simples, mas essencial: “Cultivarem diariamente essa ligação à música e ao trombone, porque é isso que faz com que todo o percurso valha realmente a pena.”
“O meu maior projeto sempre foi ser melhor a cada dia que passa”
Apesar da dimensão internacional da carreira, fala do futuro com serenidade: “O meu maior projeto sempre foi ser melhor a cada dia que passa, e isso continua a ser aquilo que mais me motiva”. Quando olha para o percurso já construído, prefere fazê-lo com gratidão: “Tudo o que tenho na vida é muito mais do que algum dia sonhei. Posso dizer que estou a viver o sonho. Nem sempre vi as coisas com esta perspectiva, mas é algo que aprendi a fazer com o tempo”.
Nos próximos meses, a agenda divide-se entre concertos, recitais e masterclasses, sobretudo na Alemanha e em Espanha. Em paralelo, prepara os concertos de apresentação de AEQUILIBRIUM, etapa que considera fundamental para a vida do disco.
Continua a fazer projetos em Portugal, sobretudo concertos a solo e masterclasses. Mas é sobretudo na dimensão familiar e afetiva que essa ligação permanece mais forte: “A maior relação que mantenho com Portugal reside na família e amigos que lá tenho.”