Sandra Bastos
Há músicos que passam uma vida inteira a tentar dominar um instrumento sem nunca aprender verdadeiramente a habitar o próprio corpo. Horas de estudo, repetição mecânica, tensão acumulada nos ombros, na respiração, no maxilar, nas mãos. A obsessão pelo rigor técnico instala-se cedo e, muitas vezes, o corpo transforma-se apenas num meio silencioso para produzir som.
E se o verdadeiro instrumento não fosse o violino, o piano ou a voz, mas o corpo? É precisamente dessa ideia que nasce o projeto “Primeiro o corpo, depois a música”, um retiro e programa de desenvolvimento holístico criado pela violoncelista portuguesa Teresa Valente Pereira e por Susanne Feld, especialista em práticas de consciência corporal e integração somática. Inspirado no trabalho desenvolvido pela plataforma Mindful Music Making e pela violinista Alina Pogostkina, o projecto cruza prática musical, escuta interior, Técnica Alexander e trabalho sobre o sistema nervoso.
“Quando o corpo está bem afinado, o som sai de forma diferente”
A origem do projeto remonta a um retiro realizado perto de Berlim, há cerca de três anos, onde a violoncelista Teresa Valente Pereira conheceu Susanne Feld, guia deste projeto, e contactou com um método de trabalho muito diferente. A experiência acabaria por alterar profundamente a sua relação com a música.
“Pensei que este tipo de abordagem ao trabalho musical não existia na Península Ibérica ou pelo menos que eu tivesse conhecimento e comecei a imaginar a possibilidade de organizar algo parecido por aqui”, explica.
A partir desse percurso nasceu um trabalho que combina consciência corporal, escuta interior, Técnica Alexander, práticas de presença e regulação do sistema nervoso. O objetivo não é apenas melhorar a performance musical, mas permitir que o músico se relacione consigo próprio de forma mais integrada.
“Não há música sem um corpo”, afirma Teresa Valente Pereira. “A condição do corpo e a forma como é capaz de se mover criam o som em conformidade. Quando o corpo está bem afinado, o som sai de forma diferente”, sublinha.
“voltar a conectar e equilibrar o corpo/mente, o nosso primeiro instrumento”
O formato de trabalho escolhido foi o de retiro, ao contrário da habitual masterclass, porque o objetivo é “sair do mundo do exterior para focar a atenção no interior, dirigir o olhar e os pensamentos para o interior, retirar-se para o corpo para poder habitá-lo”. E porque não se trata de aprender ou aperfeiçoar um ofício: “trata-se de práticas para voltar a conectar e equilibrar o corpo/mente, o nosso primeiro instrumento”.
Num quotidiano marcado pelo excesso de estímulos, pela aceleração constante e pela hiperexposição, o retiro procura criar condições para um outro tipo de presença. “Qualquer exercício de conexão connosco primeiro permite-nos viver de uma forma muito diferente, em consciência, em liberdade, em coerência e isso naturalmente reflete-se em como utilizamos o corpo, em como respiramos para tocar ou cantar”, acrescentam.
“A nossa consciência está sempre, de alguma forma, connosco, mas muitas vezes de forma caótica”
Grande parte do trabalho desenvolvido passa pela consciência física enquanto ponto de partida para a criação musical: “A nossa consciência está sempre, de alguma forma, connosco, mas muitas vezes de forma caótica, noutro lugar, fora do nosso corpo. Muitas pessoas não habitam realmente os seus corpos no momento presente.”
“A prática consiste em chamar a consciência de volta para aqui, onde o corpo existe, agora”, acrescenta. Como um treino de atenção e escuta interior: voltar repetidamente ao corpo, à respiração, ao contacto dos pés com o chão, permitindo que o sistema nervoso aprenda gradualmente a permanecer no presente durante mais tempo.
“Conseguir focar a atenção primeiro no corpo é conseguir tocar melhor”
O que acontece quando um músico desloca a atenção do som para o corpo? Para Teresa Valente Pereira, a resposta está na sua própria experiência: “Conseguir focar a atenção primeiro no corpo é conseguir tocar melhor, sentir-se mais livre, mais concentrado e mais seguro”.
No mesmo sentido, também se poupa tempo e resolve problemas técnico-musicais “com maior rapidez”, “muitas vezes sem recorrer diretamente ao instrumento ou à repetição exaustiva de movimentos viciados ou sem sentido”.
Defende que essa consciência corporal deveria estar na base de qualquer aprendizagem musical, algo que, paradoxalmente, raramente é ensinado: “A consciência de que o corpo é realmente o nosso primeiro instrumento não é ensinada na escola, quando esta deveria ser a base de qualquer aprendizagem instrumental”.
“Nós somos corpo, o que engloba também a mente, o coração, a alma, embora estes conceitos sejam de sobremaneira abstratos e subjetivos e por isso muito mais difíceis de trabalhar”, afirma.
Quando essa escuta interior se desenvolve, muda também a forma como o músico escuta o próprio som. O trabalho deixa de ser apenas técnico para se tornar uma procura de articulação entre concentração, presença, emoção e fluidez: “É como estar na corda bamba, como um funambulista, sem nunca cair”.
“Existem maneiras de exercer a disciplina pouco saudáveis gravadas no sistema nervoso”
A maioria dos participantes vem precisamente do universo da música clássica, onde a disciplina, a exigência e a repetição intensiva fazem parte da formação desde idades muito precoces. “Por norma, os músicos ditos clássicos estão muito dispostos a abrir novos caminhos e costumam experienciar grandes aberturas precisamente porque percorreram uma senda muito estressante”, destaca Susanne.
O desafio surge menos da resistência ao processo do que das marcas acumuladas ao longo dos anos: “Existem maneiras de exercer a disciplina pouco saudáveis gravadas no sistema nervoso, no corpo e na mente há muito tempo”. O trabalho desenvolvido no retiro procura precisamente interromper esses automatismos e permitir que o músico descubra novas formas de praticar e tocar mais alinhadas com ele própro: “É algo incrivelmente belo de presenciar e também de perceber no som…”.
“Não sou bom o suficiente”: os bloqueios invisíveis da prática musical
Os bloqueios que surgem com maior frequência estão muitas vezes ligados a mecanismos de tensão física e emocional profundamente enraizados. Teresa e Susanne descrevem músicos habituados a viver em permanente estado de exigência, “com um corpo e um sistema nervoso programados para reagir rapidamente e ultrapassar constantemente os próprios limites”. Essas dinâmicas acabam por deixar marcas físicas, mas também mentais.
Entre as crenças mais recorrentes aparecem sentimentos de insuficiência, comparação constante e pressão interiorizada: “Há pensamentos muito presentes como ‘não sou bom o suficiente’, ‘os outros são melhores’ ou ‘eu tenho de praticar mais’”, a dúvida pessoal, o medo e o pânico de palco”.
“fazer música está ligado a feridas e cicatrizes — tanto antigas como novas, e à ideia de não ser suficientemente bom”
Embora o projeto não se apresente como terapia, existe inevitavelmente uma dimensão terapêutica neste trabalho: “Trabalhamos com o ser humano de forma integral. Quanto mais integradas estiverem todas as suas partes, mais plena a pessoa se sente, também na sua faceta como músico”.
Assim, têm testemunhado casos de cura profunda através deste método. Tendo em conta que “fazer música está ligado a feridas e cicatrizes — tanto antigas como novas, e à ideia de não ser suficientemente bom”, é natural que “abordar estas questões de forma holística tenha, inevitavelmente, um efeito terapêutico”.
É também aqui que entram práticas como a Técnica Alexander ou a Terapia Gestalt, não como elementos exteriores à música, mas como formas de remover aquilo que bloqueia o seu fluxo natural. “Ambos os métodos trabalham o ‘sair do caminho’ de tudo alquilo que não deja o fluxo real da música. Ambos os métodos trazem consciência e equilíbrio ao momento anterior em que a música acontece”, explicam.
“um detonante importante de uma forma de viver”
Mas como se mede o impacto de uma experiência destas? Para Teresa Valente Pereira e Susanne Feld, qualquer transformação deste género permanece inevitavelmente ligada à experiência individual de quem a vive: “A transformação só pode medi-la aquele que a vive, tendo em conta a sua subjetividade e as suas circunstâncias”.
Ainda assim, acreditam que muitos dos efeitos do trabalho poderiam ser observáveis até num plano mais concreto, por exemplo, ao nível do stress, da respiração ou da relação do corpo com a tensão. Mas o impacto mais profundo parece acontecer noutra escala, mais íntima e menos quantificável.
No caso de Teresa Valente Pereira, a experiência do retiro acabou por tornar-se um ponto de viragem pessoal e artístico: “O impacto foi grande e duradouro, digamos que foi um detonante importante de uma forma de viver e habitar-me”.
“Gosto de pensar que a minha vivência de um retiro para músicos causou uma espécie de mini “efeito borboleta”, que oxalá continue a expandir-se…”, sublinha.
“Queremos estar à altura dos melhores, estamos constantemente a ser bombardeados com vídeos de alguém que toca ou canta melhor”
O crescimento deste tipo de abordagens reflete também uma transformação mais ampla no próprio meio musical: “Felizmente fala-se e escreve-se cada vez mais acerca da importância de escutar e sentir o corpo, embora na realidade sejam ensinamentos que as antigas civilizações ensinavam e praticavam”.
Consideram que a pressão sobre os músicos se tornou particularmente intensa, não apenas pela competição inerente à profissão, mas pela dimensão global que a Internet e as redes sociais trouxeram. “Queremos estar à altura dos melhores, estamos constantemente a ser bombardeados com vídeos de alguém que toca ou canta melhor, mais jovem e mais reconhecido”, afirmam.
Nesse contexto, o verdadeiro desafio talvez já não seja apenas tocar melhor, mas conseguir permanecer inteiro dentro da própria prática artística: “Para cada um de nós, desde o seu espaço, desde a relação consigo mesmo e o seu corpo, em equilíbrio, poder oferecer o melhor de si, através do seu instrumento, através da música.”
Um retiro para voltar ao essencial
Apesar de ainda não existirem datas oficialmente anunciadas para os próximos retiros, Teresa Valente Pereira e Susanne Feld admitem que o interesse demonstrado nos últimos meses tornou evidente a necessidade de continuar este trabalho, incluindo futuras edições em Portugal.
O projeto dirige-se a músicos de diferentes percursos e géneros musicais e não exige experiência prévia em práticas semelhantes: “Para participar, basta ter vontade de explorar a relação corpo/mente/instrumento e de conectar consigo mesmo e com outros músicos”.