Sandra Bastos
Gravado em 2015, o terceiro disco de Adriana Ferreira resulta do Prémio Breguet que a flautista ganhou no Concurso Internacional de Genebra, onde obteve o 2º Prémio ex-aequo (o Primeiro Prémio não foi atribuído). Sob a chancela da editora suíça Claves, o CD conta com obras de Nielsen, Vivaldi, Schubert, Fuminori Tanada e André Jolivet e tem a participação da Orquestra de Câmara de Genebra, sob a direcção de Lucas Macías Navarro, bem como do pianista Lorenzo Soulès (1º Prémio do Concurso de Genebra em 2012).
“Foi muito difícil escolher o programa do CD, queria que fosse o mais variado possível. O Concerto de Vivaldi para Flautim é a minha obra preferida. Por outro lado, em 2015 celebrou-se o 150ª aniversário do nascimento de Carl Nielsen, cujo concerto para flauta já toquei várias vezes, mas pela primeira vez precisamente na final do Concurso Nielsen, por isso não quis perder a oportunidade de gravar este concerto. Schubert (Variações de Trockne Blumen de Schubert, para Flauta e Piano) também... No fundo, todas essas peças são as minhas preferidas dentro de cada estilo, ou seja, são também as peças que me representam melhor, com as quais me identifico mais”, explica. Podemos ainda ouvir F para Flauta Solo de Fuminori Tanada e Chant de Linos de André Jolivet.
Os dois mil exemplares já estão a circular e as expectativas são elevadas. Pela sua diversidade de repertório, é um disco raro, difícil e caro de gravar pelas editoras que costumam recusar este tipo de projeto: “a cada dia, a cada peça havia uma disposição diferente, com uma nova distribuição de microfones, a captação do som foi diferente para cada peça, cada obra tinha uma formação diferente”. O resultado final acaba por compensar: “Gosto muito do som, estou muito contente com o CD mas é sempre complicado ouvir-me a mim mesma”.
Infelizmente, “o mercado do disco está decadente”, [omiti texto] mas não obstante, gravar continua a ser fundamental para um músico: “Um CD é como um cartão de visita, não se compra o CD para ouvir a obra mas para ouvir o intérprete”.
“Gosto de gravar mas é das coisas mais difíceis de tudo o que fiz até hoje. Ao vivo é diferente, há sempre coisas que passam mas na gravação a mínima coisa não passa despercebida. É um trabalho muito perfeccionista”, sublinha. O objetivo é conseguir o equilíbrio técnico e musical já que os cortes ao favorecer a técnica podem prejudicar a musicalidade. Por agora, espera que o público goste e que venham mais discos.
Solista da Orquestra Nacional de França desde 2012, Adriana Ferreira começou em fevereiro deste ano uma nova aventura como chefe de naipe (Flauta Solo) na Orquestra Filarmónica de Rotterdam, na Holanda.
“Na orquestra aprende-se muito, o repertório é muito variado, a cada semana muda o programa. Gostava de tocar repertório mais germânico porque em Paris tocamos mais música francesa. Estou muito contente com essa experiência porque realmente eles são muito fortes em música francesa. Espero encontrar em Roterdão repertório mais variado para crescer musicalmente”, afirma.
Quer também continuar a fazer música de câmara, recitais, concertos: “Gosto de ter projetos fora da orquestra e felizmente têm-me aparecido vários. Espero poder continuar neste andamento!”. Confessa que seria mais completa na música se pudesse “fazer um pouco de tudo”.
Para Adriana, o Concurso de Genève será recordado “pelas vivências e pelos prémios”. Porém, valoriza cada vez mais “a música por si só, independentemente de eventos deste género, que pressupõem uma valorização do indivíduo em alta competição. Ora, a música envolve partilha, generosidade, beleza… E, nem sempre são estes os aspectos mais transcendentes num concurso”.
O concurso de Genève é um maiores e prestigiados concursos do Mundo, em 69 edições de diferentes instrumentos muitos são os laureados de renome internacional como Martha Argerich, Arturo Benedetti-Michelangeli, Victoria De Los Angeles, Alan Gilbert, Nelson Goerner, Friedrich Gulda, Heinz Holliger, Nobuko Imai, Quatuor Melos, Emmanuel Pahud, Maurizio Pollini, Georg Solti, José Van Dam, Christian Zacharias, Tabea Zimmermann entre outros.
A jovem flautista, ainda com 25 anos, também é vencedora e premiada noutros concursos de grande prestigio como o Carl Nielsen International Competition (Dinamarca) o Kobe International Competition (Japão) e recentemente o Concorso Flautistico Internazionale "Severino Gazzelloni" (Itália).
Importante foi também o apoio dos pais (presentes na Final) e dos colegas portugueses, estudantes e residentes em Genève: “não conseguirei agradecer-lhes o suficiente por todo o apoio!”
Foi uma competição exigente, tanto física como psicologicamente, tendo em conta que durou quase três semanas. “Trata-se de adquirir uma resistência física, embora nos últimos dias o cansaço seja realmente evidente e difícil de combater. Mentalmente, gerir a atenção/concentração e o stress é algo que se trabalha ao longo da vida de músico e não só durante um concurso. No entanto, nestes momentos, o mais difícil creio eu, é aliar a preparação das várias provas tendo em conta o cansaço e a concentração - esta não é infinita e o cansaço deve ser o mínimo possível, pelo que é necessário estudar profundamente durante períodos de tempo não muito longos”, explica.
“Devo dizer que são situações como esta que fazem valer a pena árduos anos de estudo!...”
A Final com orquestra apesar de ser semelhante a um concurso regular, é bastante diferente: “Além do cansaço, até os ensaios com orquestra são diferentes – a orquestra interioriza três versões diferentes das mesmas obras, tocando-as seguidas no mesmo concerto. Ora, isto requer uma ainda maior precisão, bem como uma adaptação mais rápida tanto da minha parte como da orquestra. Digamos que, para o maestro, a Final constitui uma coleção de post-its que vão sendo colados e descolados das partituras, tendo em conta os apontamentos dos vários finalistas”.
Contudo, independentemente do contexto, o concerto final foi um momento muito especial: “Devo dizer que são situações como esta que fazem valer a pena árduos anos de estudo!...”