Banda Musical de Oliveira apresenta novo disco

Ecos do Caminho: quando o Caminho de Santiago se transforma numa criação contemporânea

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Sandra Bastos

  • Ecos do Caminho - Banda Musical de Oliveira
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A Banda Musical de Oliveira (BMO), de Barcelos apresentou no passado mês de novembro, um dos projetos mais ambiciosos da sua história: Ecos do Caminho – uma jornada musical pelo Caminho de Santiago. O disco, composto por cinco obras originais encomendadas a compositores nacionais e internacionais de referência, afirma-se como um manifesto artístico que cruza tradição filarmónica, criação contemporânea e identidade territorial.

 

 

Com direção artística do maestro Alfredo Macedo, o projeto nasceu de forma espontânea, a partir de uma conversa informal com um músico da banda, mas rapidamente ganhou dimensão e profundidade. “Abracei o desafio na prontidão porque percebi, naquele instante, que tínhamos a oportunidade de criar algo verdadeiramente disruptivo”, explica o maestro.

 

O principal objetivo artístico era “criar uma gravação inovadora com música totalmente inédita, encomendada especificamente para este propósito”, a par da intenção pedagógica de provocar uma evolução técnica e artística profunda nos músicos.

 

 

Transformar “a espiritualidade da peregrinação numa linguagem sonora contemporânea”

 

Inspirado no Caminho Português de Santiago, Ecos do Caminho propõe transformar “a espiritualidade da peregrinação numa linguagem sonora contemporânea”. Ao longo de 12 meses, o projeto desenvolveu-se em várias fases — visitas dos compositores a locais do Caminho, ensaios com a sua presença na sede da banda e, finalmente, a gravação do disco — num processo que marcou profundamente músicos e criadores.

 

Para Alfredo Macedo, dirigir artisticamente o 'Ecos do Caminho' foi um dos maiores desafios da sua carreira: “Se tivesse de resumir a experiência numa palavra, seria Crescimento. Foi um processo extremamente exigente, porque trabalhámos com repertório totalmente novo, com um grau de dificuldade técnica enorme e, acima de tudo, com estilos e linguagens de escrita muito distintos entre si”.

 

O seu papel foi de 'tradutor': “tive de mergulhar no universo de cada compositor para entender exatamente o que eles pretendiam e, depois, encontrar a forma certa de transmitir essa visão aos músicos para que o resultado final fosse fiel à criação original”.

 

 

Obras de Andrés Álvarez, Anne Victorino d’Almeida, Francisco Ribeiro, Nuno Lobo, Daniel Amaro e Thierry Deleruyelle

 

O disco reúne obras de seis compositores: o galego Andrés Álvarez (Codex Calixtinus), a portuguesa Anne Victorino d’Almeida (O Peregrino), Daniel Amaro (Sonhos do Caminho), Francisco Ribeiro (A Família que Passa), Nuno Lobo (Rasto de Gente que Vai) e o francês Thierry Deleruyelle (Compostela – The Way of St James), que já estava publicada e enquadrava-se perfeitamente neste projeto. Apesar de partilharem o mesmo eixo temático, as obras percorrem universos estéticos muito diversos, desde a evocação do manuscrito medieval até linguagens experimentais com improvisação guiada.

 

Um dos elementos mais singulares do projeto é a integração de instrumentos de barro — como ocarinas, udus e maracas — em duas das obras, numa clara afirmação da identidade local – a olaria: “Foi fascinante ver como fundiram a sonoridade tradicional da banda com a textura ancestral do barro. Não estamos apenas a tocar música; estamos a tocar a nossa própria terra”.

 

 

“Os músicos começaram a descodificar as ideias por trás das notas e a entender o propósito artístico de cada desafio”

 

Para os músicos, todos amadores, o projeto representou um enorme desafio técnico e artístico. Compassos mistos, harmonias contemporâneas complexas e exigências de escuta coletiva rigorosa afastam estas obras do repertório tradicional das bandas filarmónicas.

 

“No início, existia alguma estranheza e até algum distanciamento em relação a certas sonoridades mais complexas. No entanto, o processo foi transformador”, conta o maestro. Com o trabalho nos ensaios e, posteriormente, com a presença dos próprios compositores, a perceção mudou radicalmente: “Os músicos começaram a descodificar as ideias por trás das notas e a entender o propósito artístico de cada desafio. Foi fascinante ver o progresso: muitas das obras de que inicialmente gostavam menos acabaram por se tornar as favoritas. Esse 'clique' aconteceu quando perceberam que não estavam apenas a tocar música difícil, mas sim a dar voz a algo profundo e inovador.”

 

 

“ao fazermos juntos o percurso até à chegada a Santiago, eles puderam transpor o cansaço e a emoção da jornada para a música”

 

Assim, o momento determinante deste processo foi a presença dos compositores na sede da Banda Musical de Oliveira. Ter os autores das obras diretamente em contacto com os intérpretes permitiu uma leitura das partituras impossível de alcançar apenas através do estudo individual.

 

A ligação foi ainda mais profunda para os compositores Daniel Amaro e Anne Victorino d’Almeida, que percorreram trechos do Caminho em Barcelos “para que a sua escrita (em obras como 'Sonhos do Caminho' e 'Peregrino') tivesse uma verdade sensorial”. Mas, de acordo com Alfredo, o ponto fulcral foi a vivência dos músicos: “ao fazermos juntos o percurso final de 20 km até à chegada a Santiago, eles puderam transpor o cansaço e a emoção da jornada para a música. Isso permitiu-lhes interpretar os 'clímax' das obras com uma intenção de que só quem viveu a experiência consegue transmitir”.

 

 

“Quando o músico percebe o propósito, a exigência torna-se superação”

 

A gravação do disco foi vivida com intensidade emocional. Para Alfredo Macedo, que assina aqui a sua primeira gravação como maestro da BMO, o momento final foi particularmente avassalador: Quando terminámos o último take e ouvi as palmas e o entusiasmo genuíno dos músicos, senti um arrepio profundo e confesso que me vieram as lágrimas aos olhos”.

 

O segredo de todo o processo foi a dimensão humana, em que liderou o grupo como uma família: “embora o trabalho fosse inicialmente 'massacrante', o resultado seria um marco na nossa evolução técnica. Primeiro conquistei-os pela visão do projeto e só depois apliquei o rigor musical. Quando o músico percebe o propósito, a exigência torna-se superação”.

 

 

“que este disco seja, para cada ouvinte, a sua própria peregrinação interior”

 

Quanto à receção do disco, o desejo do maestro é que o público sinta a mesma verdade e entrega que marcaram todo o processo de criação e interpretação: “que este disco seja uma viagem sensorial, que transporte quem o ouve para o espírito do Caminho de Santiago, despertando a vontade de o percorrer, de cruzar olhares com os peregrinos, de ouvir as suas histórias e de sentir aquela mística tão própria da jornada”.

 

Mais do que um objeto sonoro, o disco propõe-se como um espaço de escuta profunda, onde “cada nota escrita reflete uma vivência, uma memória ou uma prece”. “No fundo, espero que este disco seja, para cada ouvinte, a sua própria peregrinação interior”, sublinha.

 

 

um projeto conceptual coerente, que desafia preconceitos sobre o papel das bandas filarmónicas no panorama musical contemporâneo

 

A caminho dos 244 anos de história, a Banda Musical de Oliveira (fundada em 1782) vê neste projeto uma afirmação da sua identidade e da sua capacidade de renovação. O presidente da BMO, José Macedo, destaca Ecos do Caminho como uma expressão da dedicação, união e amor pela música que caracteriza a instituição. Já Fábio Loureiro, coordenador de produção, sublinha o carácter simbólico do projeto, “situado entre a tradição e a criação”, como prova de um espírito jovem e disruptivo.

 

Mais do que um simples registo discográfico, Ecos do Caminho apresenta-se como um projeto conceptual coerente, que desafia preconceitos sobre o papel das bandas filarmónicas no panorama musical contemporâneo. “Queremos mostrar que uma banda pode ser um veículo de arte atual, exigente e relevante”, afirma Alfredo Macedo.

 

 

Fotos: Ana Maria Dias

https://www.facebook.com/bandamusicaloliveira

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