Beatriz Baião

“aquilo que verdadeiramente fica é a personalidade de cada um e a capacidade de comunicar algo honesto através da música”

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Sandra Bastos

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Da Banda Filarmónica de Mira à Orquestra Filarmónica de Roterdão, Beatriz Baião construiu um percurso marcado pelo trabalho, pela exigência e por uma vontade constante de crescer. Nesta entrevista à Da Capo, revisita os momentos que marcaram o seu percurso, da formação em Paris às experiências nas grandes orquestras europeias, reflete sobre a importância do coletivo, da construção de uma identidade artística e da ligação às suas raízes, sem esconder os desafios que acompanham uma carreira internacional.

 

Apesar do percurso já consolidado, garante que continua a olhar para o futuro com ambição, revelando o desejo de desenvolver novos projetos na música de câmara e a solo, e de concretizar a gravação de um CD.

 

 

“Deram-me a flauta, soprei, saiu som e assim ficou”

 

A flauta entrou na vida de Beatriz Baião por acaso. Quando chegou à Banda Filarmónica de Mira, era o instrumento que estava disponível: “A flauta apareceu de uma forma bastante natural nesse contexto. Deram-me a flauta, soprei, saiu som e assim ficou”.

 

Apesar de ter chegado por acaso, a flauta depressa se tornou indissociável na sua vida e acabaria por definir um percurso de excelência. Desde 2022, ocupa o lugar de Piccolo solo na Orquestra Filarmónica de Roterdão, nos Países Baixos, e tem-se destacado como uma das mais relevantes flautistas portuguesas da sua geração.

 

 

“Em Paris senti um meio mais competitivo e mais individualista, onde cada um segue muito o seu próprio caminho. Isso obriga-nos a crescer rapidamente”

 

Após os estudos em Portugal, onde estudou no Conservatório de Música de Aveiro Calouste Gulbenkian, Beatriz Baião foi admitida no Conservatoire National Supérieur de Musique et de Danse de Paris, nas classes dos professores Sophie Cherrier e Vincent Luccas. “Ir para Paris foi um verdadeiro ponto de viragem no meu percurso, tanto musicalmente como a nível pessoal. Senti que os meus horizontes se abriram completamente porque foi a primeira vez que tive contacto tão próximo com um meio artístico de alto nível e isso mudou profundamente a forma como passei a ver a música e a profissão”, sublinha.

 

A possibilidade de assistir regularmente a concertos de grandes orquestras, recitais de música de câmara, ópera e de conviver com uma oferta cultural praticamente inesgotável tornou-se “uma aprendizagem constante e extremamente inspiradora”.

 

Paris, porém, trouxe também outros desafios: "Vinha de contextos muito marcados pelo espírito de comunidade e pela proximidade entre músicos, enquanto em Paris senti um meio mais competitivo e mais individualista, onde cada um segue muito o seu próprio caminho. Isso obriga-nos a crescer rapidamente, a desenvolver mais autonomia e a adaptar-nos a uma realidade completamente nova."

 

Apesar das exigências e da intensidade da vida na capital francesa, a experiência acabaria por moldar decisivamente a sua identidade artística e pessoal:  "Foi um período muito transformador, que me marcou profundamente e que teve um impacto decisivo no músico e na pessoa que sou hoje."

 

"A técnica dá-nos liberdade, mas a identidade constrói-se naquilo que fazemos com ela”

 

Durante a sua formação, trabalhou com alguns dos mais prestigiados nomes da escola internacional de flauta. Mas, mais do que diferentes técnicas ou estéticas, considera que o mais importante continua a ser sempre a música: “Independentemente de se falar de uma sonoridade mais francesa, mais alemã, mais inglesa, som maior ou som mais pequeno, uma estética mais tradicional ou mais contemporânea, aquilo que verdadeiramente me ficou foi sobretudo como abordar a música: pela procura da beleza, pelos diferentes carácteres, e pela flexibilidade”.

 

Essa aprendizagem permitiu-lhe olhar para a técnica como um meio e não como um fim: “A musicalidade não é apenas algo instintivo ou abstrato; trabalha-se de forma muito concreta. Trabalha-se o estilo, a direção da frase, a forma como a música respira, de onde vem e para onde vai, e sobretudo como transformar essas intenções no instrumento”.

 

Destaca ainda o papel dos professores com quem trabalhou, que procuraram desenvolver a individualidade de cada aluno em vez de impor um modelo único de interpretação:  "A técnica dá-nos liberdade, mas a identidade constrói-se naquilo que fazemos com ela." É essa procura constante de uma voz própria que, acredita, define um músico: "A identidade artística constrói-se precisamente nesse equilíbrio entre absorver referências, aprender com grandes músicos e, ao mesmo tempo, manter espaço para descobrir a nossa própria voz."

 

 

“Os contextos de maior nível distinguem-se quando a exigência técnica deixa de ser o objetivo e passa a ser apenas o ponto de partida para fazer música em conjunto”

 

Para a flautista, a excelência começa precisamente quando a técnica deixa de ser uma preocupação: “Os contextos de maior nível distinguem-se quando a exigência técnica deixa de ser o objetivo e passa a ser apenas o ponto de partida para fazer música em conjunto”. Destaca “a atenção ao detalhe, o enorme investimento na forma como se toca, a qualidade do som, a escuta, a intenção de cada frase e o compromisso absoluto de toda a gente com a música”.

 

É essa preparação comum que cria uma aparente simplicidade em palco: "Quando todos estão tão preparados, tão atentos e tão envolvidos, tocar acaba por parecer fluido, quase sem esforço. É aquela sensação de entrar numa orquestra e sentir que tudo respira junto, que tudo está afinado, equilibrado e no sítio certo."

 

 

Quando “a música ganha uma dimensão diferente”

 

Mas essa naturalidade tem um preço. Exige uma responsabilidade permanente e uma preparação rigorosa, ainda que a pressão, garante, seja sobretudo interior: "Nunca veio de fora, mas sim de mim própria, da vontade de contribuir da melhor forma possível para aquele resultado coletivo."

 

No fundo, acredita que é precisamente essa entrega comum que torna uma grande orquestra verdadeiramente especial: “A sensação de que todos estão totalmente comprometidos com algo maior do que cada individualidade. E quando isso acontece, a música ganha uma dimensão diferente”.

 

 

“uma vontade muito genuína de fazer música”

 

Na Orquestra Filarmónica de Roterdão, ocupa o lugar de piccolo solo, “uma função com bastante responsabilidade, sobretudo porque o piccolo é um instrumento muito exposto dentro da orquestra”.

 

A adaptação é palavra-chave: “Cada maestro, cada programa e cada sala têm exigências diferentes, e isso obriga-nos a estar sempre atentos e disponíveis musicalmente”.

 

Para Beatriz Baião, o mais importante é “o nível de compromisso coletivo que existe. Há uma grande atenção ao detalhe e uma vontade muito genuína de fazer música bem, e isso torna o trabalho muito estimulante”.

 

 

“Trabalhar com bons colegas e sentir um ambiente de confiança dentro da orquestra ajuda bastante”

 

A pressão faz parte da vida de qualquer músico que integra uma orquestra de topo, por isso aprendeu a encará-la como um elemento natural da profissão. "É algo que nunca desaparece completamente", admite, sublinhando que “a experiência vai ajudando a lidar melhor com ela e a perceber como gerir certos momentos”.

 

Para manter o equilíbrio, aposta em pequenas rotinas que lhe dão estabilidade antes de ensaios e concertos: “dormir bem, preparar-me com antecedência, criar alguma estabilidade nas rotinas e usar técnicas de visualização antes de ensaios ou concertos”. “Sinto que, para mim, a preparação dá-me segurança, e a experiência vai-me ajudando na confiança em mim própria. Mas é um processo lento”, acrescenta.

 

Outro fator determinante é o ambiente humano dentro da orquestra: “Trabalhar com bons colegas e sentir um ambiente de confiança dentro da orquestra ajuda bastante, porque mesmo em contextos muito exigentes continua a existir um lado coletivo e de apoio mútuo”. Acredita que “quando isso não acontece, seja tudo muito mais difícil de gerir”.

 

 

“descansar, desligar um pouco e ter tempo para a vida pessoal ajuda bastante a manter um maior equilíbrio”

 

Conciliar a prática individual com os ensaios, os concertos e as viagens exige uma gestão constante do tempo e da energia. Reconhece que há períodos em que “a música ocupa mais espaço no dia a dia”, mas considera que o equilíbrio também se aprende. “Fui percebendo que a qualidade do estudo é muito mais importante do que a quantidade de horas. Hoje tento estudar de forma mais organizada e consciente, adaptando-me também ao ritmo dos ensaios, concertos e viagens”, sublinha.

 

Encontrar esse equilíbrio faz parte do próprio trabalho: "Tento gerir tudo da forma mais natural possível e sem dramatizar demasiado". Assim como o descanso: “Também aprendi que descansar, desligar um pouco e ter tempo para a vida pessoal ajuda bastante a manter um maior equilíbrio, tanto pessoal como musical”.

 

 

“gosto de poder tocar nos diferentes contextos, acho que todos se complementam”

 

A carreira de Beatriz Baião não se restringe à orquestra. Entre o ensino, a música de câmara e os recitais a solo, encontra diferentes formas de viver a música: “gosto dessa variedade e de poder tocar nos diferentes contextos, acho que todos se complementam”.

 

“Na orquestra, trabalha-se muito o coletivo e a capacidade de adaptação. Na música de câmara, talvez o meu contexto preferido de tocar, existe uma comunicação mais direta entre os músicos e uma maior liberdade nas decisões musicais. Tocar a solo traz outro tipo de responsabilidade e preparação, e isso também traz outro tipo de desafios”, afirma.

 

Por sua vez, o ensino está a ocupar o lugar cada vez mais relevante: "Obriga-nos a desacelerar, a observar mais e a perceber que aquilo que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. Ao mesmo tempo, ensinar faz-me também questionar e organizar melhor o meu próprio pensamento."

 

 

“Em Portugal existe um conforto e uma proximidade emocional que nunca encontrarei noutro lugar”

 

A viver no estrangeiro há vários anos, a jovem flautista nunca perdeu a ligação ao seu país: “Portugal continua a ser a minha casa e a parte mais importante da minha identidade. Voltar para tocar cá tem sempre um significado especial, não só pelo lado musical, mas também porque me permite estar próxima da família, dos amigos e dos lugares onde cresci. Existe um conforto e uma proximidade emocional que nunca encontrarei noutro lugar”.

 

Assim, manter essa ligação tem “um valor muito natural e muito importante”. Confessa também que sente “uma grande gratidão” por tudo aquilo que recebeu em Portugal, desde o início nas bandas filarmónicas até à sua formação antes de emigrar.

 

 

“Mais do que um espaço de aprendizagem musical, a banda foi uma verdadeira escola de vida”

 

Foi na Banda Filarmónica de Mira que Beatriz Baião deu os primeiros passos na música, por isso destaca o impacto que esta formação teve no seu percurso, tanto a nível musical como humano. “Mais do que um espaço de aprendizagem musical, a banda foi uma verdadeira escola de vida”, sublinha.

 

Foi nesse contexto que aprendeu “a conviver com pessoas de diferentes idades, experiências e realidades, sempre com respeito mútuo e espírito de entre-ajuda”. Uma experiência que lhe transmitiu valores como "a responsabilidade, o compromisso, a disciplina e o respeito pelo coletivo".

 

É também essa dimensão humana que mais valoriza: “Percebemos rapidamente que a nossa presença importa, que cada elemento tem o seu papel e que uma banda só funciona verdadeiramente quando todos caminham no mesmo sentido”. Ao longo do seu percurso, encontrou nas bandas filarmónicas "ambientes extremamente acolhedores, onde a música aproxima as pessoas sem olhar a origens, contextos ou diferenças".

 

Defende que as bandas filarmónicas desempenham um papel que ultrapassa largamente o ensino da música: “Existe um forte sentido de comunidade e pertença que marca profundamente quem por lá passa. Mesmo para quem não segue uma carreira profissional na música, a passagem por uma banda filarmónica deixa ferramentas e valores que acompanham a pessoa para toda a vida. No meu caso, foi precisamente aí que nasceu grande parte daquilo que sou hoje, enquanto músico e enquanto pessoa”.

 

 

“aquilo que verdadeiramente fica é a personalidade de cada um e a capacidade de comunicar algo honesto através da música”

 

Quando questionada sobre os conselhos que daria aos jovens flautistas que ambicionam uma carreira internacional, a flautista começa por sublinhar que o caminho exige muito mais do que domínio técnico. "É preciso persistência. É um percurso muito bonito, mas também exigente, e por isso o trabalho mental acaba por ser quase tão importante como o trabalho técnico. Aprende-se rapidamente que nem tudo depende apenas de tocar bem”, explica.

 

A experiência levou-a também a alterar a forma como encara o estudo: “Nem sempre estudar mais horas significa estudar melhor. Com o tempo, é fundamental aprendermos a conhecer-nos: perceber os nossos ritmos, os nossos limites e aquilo que realmente funciona connosco”.

 

Acredita que cada músico deve construir a sua própria identidade artística: “É natural admirarmos grandes referências e querermos aprender com elas, mas no fim aquilo que verdadeiramente fica é a personalidade de cada um e a capacidade de comunicar algo honesto através da música”.

 

Reconhece que, quando era mais nova, vivia uma relação de “obsessão total” com o instrumento. e admite que continua sem uma resposta definitiva sobre esse período: “Não sei até que ponto esses anos de dedicação quase absoluta foram essenciais para criar bases sólidas, ou se teria sido melhor aprender mais cedo a estudar de forma mais equilibrada e eficiente”.

 

Por fim, deixa uma recomendação que ultrapassa o universo musical. "Não viver apenas dentro da música. Sempre que possível, viajar, conhecer cidades, conhecer pessoas, visitar museus, ouvir concertos, ouvir muita música, ler, observar o mundo. Tudo isso alimenta a nossa sensibilidade e acaba inevitavelmente por entrar na forma como tocamos”.

 

 

"Sinto que cada experiência acrescenta sempre alguma coisa”

 

Embora plenamente realizada no mundo orquestral, Beatriz Baião está aberta a outros desafios: “É importante para mim continuar a ter projetos paralelos, tanto na música de câmara como a solo, porque são contextos que me dão outro tipo de liberdade artística”.

 

Entre os objetivos para os próximos anos está a gravação de um CD, um projeto que gostaria de concretizar, a par da colaboração com diferentes orquestras e músicos: "Sinto que cada experiência acrescenta sempre alguma coisa”.

 

 

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