Catarina Molder sobre o Operafest

"É preciso uma gestão muito estratégica dos meios, imaginação, conhecer muito bem o meio, negociar continuamente e ter sonhos do tamanho do mundo"

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Entrevista pela musicóloga Filipa Cruz

  • Catarina Molder
  • Operafest

OPERAFEST Lisboa & Oeiras 2026 

Um festival à conquista de novos paradigmas!

 

Entrevista pela musicóloga Filipa Cruz à diretora geral e artística do festival Catarina Molder

                                                                       

O TEMA

 

Na sua 7ª edição, o Operafest escolheu o "Enigma" como centro gravitacional da sua programação. Como é que chegou a este tema e de que formas ele percorre as óperas que estarão em palco, entre Oeiras e Lisboa?  A ideia partiu dos enigmas que  a princesa Turandot submete aos seus pretendentes, como factor de sobrevivência. Numa escala mais lata, também nós, humanidade e ser humano, vivemos e sobrevivemos graças à resolução de enigmas de toda a ordem, que nos acompanham toda a vida. Nascemos sem livros de instruções. Seja no trabalho, na saúde, no amor, estamos sempre em busca de respostas. Toda a programação está de certa forma ligada à ideia de um caminho para o desconhecido.

 

 

GRANDES CLÁSSICOS

 

O Operafest 2026  traz a Portugal a Turandot de Giacomo Puccini numa produção do Hessisches Staatstheater de Wiesbaden, estreada em 2024, com encenação de Daniela Kerck. A encenadora já trabalhou com a Ópera do Castelo e com o Operafest, nas estreias nacionais de Vanessa de Samuel Barber e de Julie de Philippe Boesmans. O que distingue esta produção de 2024 que será transportada para os Claustros do Convento da Cartuxa, em Caxias? Fiquei maravilhada com a contenção, com uma nova força dos personagens fora dos estereótipos a que estamos habituados e também com a beleza desta produção encenada pela cenógrafa e encenadora alemã Daniela Kerck, de quem muito admiro o trabalho, e que regressa ao Operafest depois de duas grandes encenações. O final inesperado da  versão inacabada de Puccini, ali despido, trágico, com intérpretes vibrantes, foi avassalador, ficámos em estado de êxtase na sala... Este ano o facto de ser o centenário da obra, torna a ocasião ainda mais especial.

 

 

ENTRE O INTERNACIONAL E O NACIONAL

 

A Turandot conta com a soprano russa Olesya Golavneva, reconhecida neste papel, e o tenor mexicano Rodrigo Garull. Já As Bodas de Fígaro de W.A. Mozart apostam num elenco inteiramente nacional. Quão importante é esta aposta nos cantores e artistas portugueses? De que forma é que o Festival gere este balanço entre o plano internacional e o nacional? É para nós prioritário e algo que nos enche de orgulho apostarmos e darmos palco e crescimento aos nossos artistas, desde cantores, maestros, compositores até criativos. O Operafest tem-se afirmado como o maior palco de talento emergente operático nacional. Mas claro que é fundamental poder trazer a Portugal intérpretes com grande talento e reconhecimento no plano internacional. Dinâmica é uma palavra fundamental para o mundo da ópera e da diversidade de repertório, intérpretes e públicos.

 

O grande desafio é conseguir isto com um orçamento e recursos limitados num mercado global que implica capacidade de investimento que não temos para a ópera em Portugal, é preciso uma gestão muito estratégica dos meios, imaginação, conhecer muito bem o meio, negociar continuamente e ter sonhos do tamanho do mundo...

 

 

A CRIAÇÃO CONTEMPORÂNEA

 

Um dos pilares fundamentais do Operafest parece ser a aposta na apresentação de novas produções. Este ano, o programa conta com duas óperas em estreia absoluta: Vida Secreta de Coisa e Último Andamento, ambas sobre libretos de Miguel Castro Caldas. O que nos pode dizer sobre estas obras e sobre os seus libretos? Estas óperas estreiam-se na 5ª edição do concurso de ópera contemporânea Maratona Ópera XXI. Os compositores seleccionados em Novembro de 2024, tiveram bolsas de composição e trabalharam em dois libretos originais encomendados para o efeito ao dramaturgo Miguel Castro Caldas que tem uma escrita sintética, com um humor desarmante, mas que se debruça sobre as grandes questões humanas. Falam-nos das complicadas emoções humanas versus máquina, da inteligência humana versus artificial, da desumanização das cidades, evocando até obras do passado, como é o caso do Último Andamento, que evoca a Sinfonia do Adeus de Haydn em que os músicos abandonam o palco em sinal de greve por condições precárias de trabalho.

 

Parte da plataforma Laboratório Ópera XXI para a profissionalização do sector nas suas múltiplas facetas, aqui direccionadas para cantores. Entre 6 e 8 de Outubro será a vez de aprofundar a construção do libreto para compositores e libretistas. Em todo o meu trabalho e visão, é prioritário, enriquecedor e estimulante querer chegar sempre a públicos variados e fazer descobrir a aprofundar a ópera de múltiplas maneiras.

 

Em abril, a Ópera do Castelo lançou o Portal da Ópera Portuguesa, que nasce da vontade de conhecer e partilhar informação sobre os compositores portugueses que, desde o século XVIII, se aventuraram no género operático. Como é que este projeto se articula com a missão do Operafest? São dois lados da mesma moeda? Sim, fazer descobrir, aprofundar, devolver memória e acesso à ópera portuguesa e a toda a ópera em geral é a nossa missão.

 

 

PÚBLICOS

 

Ao longo dos anos, o público do Operafest tem vindo a crescer e o Festival tem sabido captar a atenção das gerações mais jovens. Que lições retira das edições anteriores sobre o tipo de programação e outras estratégias que conseguem abrir o mundo da ópera a novos públicos? Quando se cria uma programação estimulante e variada, o público vem ter connosco. Temos feito um esforço genuíno para chegar aos mais jovens e tal passa não só por CRUZAMENTOS ARTÍSTICOS.

 

Este ano, o ciclo Ópera Satélite inclui a performance Anátema, que junta voz e movimento em torno de Camilo Castelo Branco, no Teatro Romano e ainda Engima, Nevoeiro e Névoa de Gustavo Sumpta. O que é que a ópera pode aprender neste estreitamento de relações com outras artes performativas? A ópera é a arte performativa total, pode englobar todas as  outras e pode ser trabalhada noutros formatos, como é o caso da performance, mais curta de duração e livre na apropriação e exploração da matéria operática. O ciclo ópera satélite supõe explorações gravitacionais em torno da ópera, outros artistas são desafiados a trazerem novos olhares, a tirarem a ópera da sua zona de conforto.

 

O ciclo Cine-Ópera continua a crescer. A programação deste ano inclui a Turandot de Zeffirelli com Plácido Domingo, o filme Aria, que junta contributos de dez realizadores, E la nave va de Fellini e o conhecido Amadeus de Miloš Forman. O que nos pode dizer sobre estas escolhas, tão variadas, e sobre a colaboração com a Cinemateca Portuguesa?  São escolhas que celebram a ópera e o cinema, evocando a excentricidade e loucura da ópera e dos seus intérpretes revisitados por grandes realizadores. O filme Aria, talvez o menos conhecido, é um delírio operático que convida impreterivelmente a descobrir…

 

 

COMPONENTE PEDAGÓGICA

 

Para além de toda a programação artística, o Operafest inclui também uma componente pedagógica, com masterclasses de canto, workshops de construção cénica e conferências. De onde vem esta vontade de aliar a programação à formação de artistas e de públicos? Estas masterclasses fazem ma programação que dialoga com eles, mas também por uma política de descontos. Embora se fale muito de inclusão no plano internacional, na realidade uma extensa maioria dos grandes teatros mundiais não é de todo inclusiva. Os preços desde a pandemia duplicaram e não existem praticamente  descontos para jovens, com preços inaceitáveis para teatros com fortes subvenções estatais. Estas questões não podem ser tabu...

 

Para quem nunca teve oportunidade ou interesse em assistir a uma ópera ao vivo, que espetáculo desta edição recomendarias como ponto de partida? Turandot é um autêntico filme de aventuras com uma banda sonora genial, mas toda a nossa programação pode ser um ponto de partida para se iniciar à ópera, procuro que assim seja. Existem múltiplas possibilidades de iniciação ao encontro de afinidade diversas.

 

 

FUTURO

 

O Operafest tem desenvolvido parcerias com diferentes espaços, alguns mais convencionais e outros nem tanto, e, em 2024, expandiu-se para o concelho de Oeiras. Quais são as suas ambições para as próximas edições? O que é que ainda está por realizar? Mais co-produções nacionais e internacionais, mais criações e conquistar novos palcos e recintos de apresentação, levando a ópera por novas paragens!

 

 

https://www.operafestlisboa.com/pt/

 

 

 

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