Intermezzo – Nas Entrelinhas do 13.º Aniversário da Da Capo

Para que serve a Da Capo hoje?

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Sandra Bastos

Faz precisamente hoje, dia 15 de março, que a Da Capo surgiu online, no ano de 2013. A pergunta que lanço neste aniversário é para que serve a Da Capo, se faz sentido a Da Capo continuar e como. As perguntas sucedem-se assim como as respostas. Antes de escolher as respostas de hoje, fui procurar as respostas de há 13 anos, quando eu e o Samuel demos uma entrevista a Filipe Dias, no programa Talentos da Região, na rádio Águia Azul.

 

A Da Capo era aquilo que não existia, que não tinha espaço na Comunicação Social, uma publicação especializada em música erudita. A ideia surgiu em conversas entre os irmãos que ganharam forma no Natal de 2012, e as decisões sucederam-se. As expectativas eram altas, mas com a incerteza de “vamos ver até onde podemos crescer”.

 

As propostas de publicidade e as ideias foram surgindo pelas mãos do Samuel e os artigos pelas minhas palavras. Ele queria ir mais longe e aproveitar a sua localização privilegiada em Zurique para entrevistas grandes intérpretes. Conseguiu fazê-lo com o maestro Nello Santi, a lenda da ópera italiana, como lhe chamava (o vídeo com mais visualizações no nosso canal de YouTube).

 

“Dar a palavra aos músicos” e “o contacto direto e espontâneo” de acordo com os meios técnicos disponíveis eram pilares do nosso trabalho, que fomos construindo palavra a palavra, mensagem a mensagem, contacto após contacto… Queríamos mostrar que os músicos portugueses estavam a conquistar o mundo, algo inédito até então. Nessa fase de revolução internacional do talento português, queríamos celebrar prémios! Todos nós queríamos provar que havia talento português e que era tão bom como os estrangeiros que idolatrávamos.

 

Vieram cinco edições impressas anuais, de 2014 a 2018, o canal de YouTube com vídeos no terreno de festivais e concursos por todo o país. O feedback foi sempre muito positivo e as estatísticas comprovavam o nosso sucesso.

 

Dizíamos que queríamos que a Da Capo fosse conhecida pelo próprio nome e não por estar associada à Sandra ou ao Samuel. Os nossos nomes não importavam, deviam ficar na sombra porque o mais importante era e sempre foi a revista como um todo, como uma equipa.

 

“Procuramos a descentralização”, “estar perto dos jovens e dos artistas” e “a Da Capo é de todo o país”, dizia o Samuel. A sensação de que “isto é possível” e “as pessoas estão connosco” foram o nosso mote para andar, até as pernas se quebrarem.

 

A nossa história como equipa terminou com a partida do Samuel, em 2019. Quando se perde um fundador de um projeto tão especial, este perde parte da sua identidade, perde a sua direção e navega à deriva. Desde aí, o percurso da Da Capo foi muito turbulento, marcado, sobretudo, pelo silêncio. Faz sentido a Da Capo continuar sem o Samuel? E é possível eu continuar sem o Samuel? As respostas eram vagas e o silêncio continuou durante muito tempo, com algumas exceções.

 

Destacam-se as excelentes rubricas de Bruno Borralhinho - Tema & Variações; Gabriel e Ricardo Antão - Antão e quê...?; Adriana Ferreira e Francisca Bastos – Alto e Para o Baile; a  Crítica Musical de Nuno Jacinto e o incrível podcast Falando com Franqueza da Miriam Cardoso, publicado também em livro.

 

Neste longo e duro processo de dúvidas em que a Da Capo navegava sem direção, aprendi que a revista não é um monumento, mas sim um organismo vivo, com vida própria que, perante uma crise, ou desaparece, ou se transforma.

 

Nessa transformação a voz da Da Capo ressurgiu. E quer continuar a dar espaço aos jovens intérpretes que se destacam não só a nível nacional, mas cada vez mais a nível internacional, mas sem medir a sua relevância apenas por prémios até porque hoje, felizmente, é impossível dar conta de tantos prémios que os portugueses ganham e em tantas orquestras que ganham lugares.

 

Quer também destacar os projetos portugueses, sobretudo aqueles que envolvam gravação discográfica, transformação social ou pedagógica e impacto no meio, ou seja, que façam a diferença.

 

Uma revista de música não existe apenas para ser lida: existe para criar comunidade, para dar voz a quem a cria e quem interpreta, para todos. Esse foi sempre o espírito da Da Capo. E é esse o legado do seu fundador que eu quero preservar. 

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