Nuno Jacinto
A igualdade de oportunidades para todos é um valor das sociedades democráticas verdadeiramente justas, que devem buscar - idilicamente – um equilíbrio perfeito entre formação, oportunidade, realização e usufruto. Essa busca não se faz a partir de dentro do sistema vigente, mas através de transgressões externas perpetradas no tempo, de reivindicação de apelo a um reflexo profundo e a mudanças drásticas na organização de uma sociedade. O indivíduo – esse ser abrangente onde todos se encaixam – deve ser medido na sua potencialidade de realização, não no seu porte cultural ou compleição física. Na Arte, isso é por demais evidente, onde a figura feminina sempre foi vista com inferioridade e relegada ao esquecimento, embora o seu talento pudesse ombrear facilmente com os seus pares masculinos. Muito caminhámos deste esse passado, mas o presente não se vê brilhante e esplendoroso em direcção a um equilíbrio de igualdade de oportunidades: são várias, as nuvens escurecidas, húmidas e podres de um passado segregado, ávidas de um neo-conservadorismo pestilento. A Música, mais especificamente na arte da composição, estabeleceu no passado, enormes muros morais para as mulheres, onde a criatividade e qualidade técnica não eram discutidas, pois tal simplesmente eram irrelevantes.
Ora, perante este cenário, o lançamento do disco Prix sans Prix Vol. 1 (Codax Music) protagonizado pela flautista portuguesa Adriana Ferreira e pela pianista catalã Isolda Crespi Rubio, afirma-se assim como algo mais do que um registo de música de câmara. Propõe-se assim como de um registo musical verdadeiramente actual e instigador da curiosidade: por um lado, questiona a desigualdade de género no universo da música erudita ao mesmo tempo que procura resgatar vozes femininas historicamente pouco ouvidas, apesar do seu inegável talento. O título, escolhido de forma deliberadamente irónica, remete para o Prix de Rome, prestigiado concurso francês de arte que, durante séculos, esteve vedado às mulheres. Durante décadas foi sinónimo de conservadorismo e academismo, mas tal se foi metamorfoseando com as novas tendências fulgurantes do século XIX, impulsionando a jovem carreira de compositores hoje imortalizados como Hector Berlioz, Georges Bizet, Jules Massenet ou Claude Debussy. Todavia, este concurso não foi imune a polémicas e escândalos, como foi o “caso Ravel”, que deixo ao melómano curioso, investigar. Apenas em 1903, foi aceite a primeira candidata e só passada uma década, Lili Boulanger conseguiu vencer a mais elevada distinção (“Premier Prix”), tornando-se ma primeira mulher distinguida.
Visto como um marco monumental na luta das mulheres pela igualdade de direitos, o Prix de Rome concedeu visibilidade ao evidente talento de diversas jovens compositoras, mas tal não se repercutiu na entronização destes talentos numa carreira reconhecida como os pares masculinos. À parte de Lili Boulanger, poucas compositoras serão hoje, reconhecidas para além da lista de vencedores deste prémio e fora do seu país. É precisamente nesta invisibilidade que nasce Prix sans Prix (Prémio sem Prémio), um projecto que, ao recuperar e gravar obras de compositoras vencedoras, mas esquecidas, procura devolver-lhes o reconhecimento que lhes foi negado na repercussão do seu talento medalhado.
A autora deste projecto único é Adriana Ferreira, hoje uma das flautistas portuguesas mais prestigiadas e internacionais, com uma carreira consolidada em grandes palcos e orquestras. Formada no Conservatório de Paris, licenciada em musicologia pela Sorbonne e vencedora de concursos como Genebra, Nielsen e Gazzelloni, o seu contributo neste trabalho discográfico é revestido de óbvia expectativa, não só pela pertinência programática, mas ainda mais pela interpretação agora eternamente cristalizada no éter musical. O encontro com a sua pianista de eleição de outros projectos discográficos, Isolda Crespi Rubio, formada no Royal College of Music de Londres, encontramos uma parceria sólida que à partida, nos providenciará profundidade artística, como já testemunhada em outros trabalhos discográficos. Veremos!
O alinhamento do disco “Prix sans Prix Vol. 1” reúne assim, nove peças de compositoras francesas vencedoras do Prix de Rome, exemplos dignos tradição musical francesa verdadeiramente metamorfoseante do século XX, entre elas nomes como Lili Boulanger, Jeanine Rueff, Elsa Barraine, Ginette Keller, Thérèse Brénet, Rolande Falcinelli, Monic Cecconi-Botella, Odette Gartenlaub e Lucie Robert-Diessel. São peças que maioritariamente povoaram os concursos da classe de Flauta do Conservatório de Paris e em alguns casos, falamos de peças de poucos minutos, mas cujo o valor musical e de fruição é elevado.
O disco abre com o Nocturne de Lili Boulanger (Grand Prix 1913), porventura a peça mais conhecida e tocada, que, embora breve é intensamente lírica, é capaz de condensar a frescura harmónica da compositora que tão cedo a morte decidiu levar. Na mesma linha estilística, podemos encaixar Élégie et Ronde de Elsa Barraine (Grand Prix 1928), onde encontramos uma primeira secção límpida, cujo brilho da segunda secção dançante apenas nos deixa a desejar por mais desta suprema beleza. O domínio sonoro de grandes arcos melódicos tanto num registo grave e lento como num agudo difícil, mas cristalino, fazem da Adriana Ferreira uma flautista de enorme talento, cujo virtuosismo parece ser um local fácil de habitar e permanecer.
Ainda dentro das pequenas pérolas, seguem-se duas peças, cujo o acompanhamento caminhante ao piano provocam-nos diferentes estados de alma: Le Faune de Thérése Brénet (Grand Prix 1965), por exemplo, é uma sentida homenagem a um estilo musical de partida, onde o Fauno é evocado de forma saudosa, ao contrário de Bucolique de Monic Cecconi-Botella (Grand Prix 1966) que se eleva num optimismo sonhador de grande efeito, sem devaneios enegrecidos. Aqui, a experiência de gestão do tempo musical é verdadeiramente fascinante nas mãos de Isolda Crespi, que consegue incutir movimento contínuo nestas duas peças, que facilmente podiam cair num marasmo entediante.
Para finalizar as obras de pequenas dimensões, os três curtos andamentos de Trois récits de Odétte Gartenlaub (Grand Prix 1948) são epígrafes de grande contenção, onde cada mensagem é entregue nota a nota, motivo a motivo num contraponto austero, mas cativador. O diálogo entre os dois instrumentos é fundamental, e a captação e masterização sonora deste disco tem essa tendência: uma igual proporção dinâmica entre a Flauta e o Piano, fornecendo uma justa equiparação nestes três breves andamentos. Porém, esta igualdade dinâmica revela-se pouco pertinente e até prejudicial para o discurso musical em outras faixas do disco.
Já Krischna Gopala de Rolande Falcinelli (Deuxiéme Seconde Prix, 1942) não sofre deste mal, pois é a única obra para flauta solo e é a faixa mais longa do disco. E assim lança-se o fascínio: nesta obra baseada numa deusa indiana, encontramos uma série de variações gradualmente incisivas e virtuosas atingindo o clímax em longas linhas melódicas de grande fulgor. O feitiço foi lançado e o regresso é feito tanto em dinâmica como em registo à nota inicial, num percurso sonoro de assinalável destreza musical, configurando Adriana Ferreira não apenas na mais excelsa flautista portuguesa, mas numa das melhores flautistas do nosso tempo, não haja dúvidas a este respeito. Num tempo onde o endeusamento artístico pauta-se pelo mediatismo, Adriana Ferreira é o exemplo de que apenas o talento aliado à dedicação plena é o único percurso para um músico inteiro: feito de som magistralmente domado, trabalho inesgotável e duradoura magia. Nada mais.
E se essa faixa não fosse suficiente, surge Diptyque de Jeanine Rueff (Premier Seconde Prix, 1948), uma poderosa obra de assombro virtuoso onde a segunda secção, a flauta não é poupada em nenhum momento: mais uma vez Adriana Ferreira salta de arpejo em arpejo, de escala em escala sem nenhum embaraço, numa simplicidade quase infantil, empolgando-nos a cada entrada e a cada respiração. É sem dúvida, uma das faixas mais marcantes deste disco. Em contraste estilístico, temos Chant de Parthénope de Ginette Keller (Deuxiéme Seconde Prix, 1951), cuja narração da personagem Parténope da Ilíada – uma femme fatale mas irremediavelmente solitária – é uma obra de enorme fulgor dramático, cujo canto irresistível é de uma exigência considerável, principalmente nas pulsões rítmicas irregulares e angulares linhas melódicas em contínuo desenho. Munida de toda a sua bagagem técnica e musical, Adriana Ferreira constrói-nos uma viagem memorável, onde cada matiz é desenhado cuidadosamente, sem momentos de exageros dinâmicos (embora muito tentadores) ou desnecessários aceleramentos seccionais para fazer avançar passagens aparentemente estagnadas em águas paradas. O trabalho é minucioso, pois o canto de uma sereia devoradora de homens deve ser lento, penetrante e fatal. Brilhante!
E por fim, a exigência da última obra, a Sonate de Lucie Robert-Diessel, transporta-nos a uma sintética ponte entre tradição e modernidade, onde a sonata em três andamentos é reformulada, mas sem antes desafiar ambos os instrumentos a um plano de igualdade: aqui tanto a flauta como o piano são parceiros dialogantes e cúmplices, principalmente no primeiro e terceiro andamentos. E que diálogos!
Em suma, o trabalho discográfico Prix sans Prix Vol. 1 é um disco de pertinência assinalável: a qualidade intrínseca das obras escolhidas aliada à interpretação ao nível de excelência apenas ao alcance dos verdadeiramente dotados, coloca este projecto e os seus protagonistas, Adriana Ferreira e Isolda Crespi num plano que merecia (e ainda merece!) maior projecção mediática, tanto a nível nacional como internacional. Ao dar voz a compositoras esquecidas, o projecto demonstra-nos mais uma vez que a história da música é mais rica, mais ampla e mais plural do que até agora nos ensinaram. O futuro dependerá da capacidade de continuarmos a escutar estas e outras vozes e de lhes conceder o espaço que sempre mereceram.
O autor não reconhece o Acordo Ortográfico de 1990.