Sandra Bastos
OBOE + é o primeiro disco a solo de Tiago Coimbra e é inteiramente dedicado à música contemporânea para oboé. O álbum reúne obras de nove compositores portugueses — António Chagas Rosa, Carlos Caires, Cândido Lima, João Moreira, Fábio Chicotio, Sérgio Azevedo, Tiago Jesus, Mariana Vieira e Luís Carvalho.
A ideia do disco começou a ganhar forma em 2022, quando o oboísta regressou a Portugal e iniciou um ciclo de encomendas de novas obras para oboé. As peças foram sendo estreadas em vários festivais e rapidamente o número de criações ultrapassou a dezena. Perante esse conjunto de obras — algumas para oboé solo e outras envolvendo eletrónica — tornou-se claro que seria importante registá-las em disco, tanto para valorizar o trabalho de colaboração com os compositores como para garantir a sua divulgação.
“procurei trabalhar para que se escreva mais para o oboé”
Tiago Coimbra tinha a sensação de que “existia uma certa distância entre o ‘compositor’ e o ‘oboísta’, no panorama musical português” e confessa que havia poucas obras escritas para Oboé, quando comparado com outros instrumentos de sopro-madeira, como o clarinete ou a flauta. “Tal como o título do disco sugere, procurei trabalhar para que se escreva mais para o oboé, em quantidade, mas sobretudo em qualidade”, destaca.
Para alcançar esse objetivo, apresentou oficinas artísticas dirigidas aos compositores envolvidos, “expondo não só as possibilidades técnico-expressivas do instrumento e as suas técnicas estendidas, mas principalmente contextualizando-as nas principais obras do repertório da segunda metade do século XX e do século XXI”.
“cada compositor soube expressar as suas ideias musicais, compreendendo e respeitando a linguagem idiomática do instrumento”
O diálogo artístico estabelecido com os compositores foi particularmente relevante, já que para muitos deles se tratou da primeira experiência a escrever uma obra solística para oboé. Residências artísticas e um acompanhamento próximo durante o processo de criação permitiram desenvolver partituras desafiantes, em que o instrumento é explorado de forma expressiva e inovadora.
“Ao interpretar cada uma destas novas obras, sinto que são ‘oboísticas’, no sentido em cada compositor soube expressar as suas ideias musicais, compreendendo e respeitando a linguagem idiomática do instrumento, potencializando assim as suas possibilidades técnico-expressivas”, sublinha.
Diversidade estética das obras
Uma das características marcantes do disco é a diversidade estética das obras. Três das peças recorrem à eletrónica, estabelecendo diferentes formas de interação com o oboé. Em One from All-in-one, de Carlos Caires, e em Autogravura, de Mariana Vieira, “existe uma faixa musical que acompanha toda a obra, e o oboísta recebe indicações metronómicas no seu ouvido, de modo a garantir que o que toca está em perfeita sincronia com a eletrónica”.
Já em Knurren, de João Moreira, o processo é distinto: “o som do instrumento é captado ao vivo, e é processado em tempo real por filtros de distorção sonora previamente preparados, e é essa sonoridade, emitida pelas colunas, que se funde com a do próprio oboé”. Assim, cada performance pode variar ligeiramente, tornando cada execução única.
Nas restantes obras, a exploração sonora é “extremamente rica e variada”, uma vez que “fundem a sonoridade mais habitual do oboé com algumas das técnicas expandidas, ambas envolvidas numa só linguagem musical”.
“criam-se estéticas e universos sonoros únicos, em obras que exploram magistralmente o oboé, com um elevado grau de dificuldade de execução”
Entre as descobertas técnicas do projeto, o intérprete destaca uma passagem na obra Ôboâ, contos de infância, de Cândido Lima, na qual experimenta uma técnica não documentada nos principais métodos do oboé até à data: “Baseia-se na alteração da colocação da palheta no oboé, o que me permite criar uma nova gama de multifónicos. No entanto, não tenho a certeza de se terei sido eu o único a pensar e criar esta técnica”.
Mais do que apresentar inovações isoladas, o disco evidencia sobretudo uma ampliação das possibilidades expressivas do oboé: “umas em clara continuidade com o seu passado, um instrumento lírico e melódico, ao qual se juntam todas as possibilidades dos efeitos das técnicas expandidas; e outras, em que o compositor aborda o instrumento com uma visão oposta. Em ambos os casos, criam-se estéticas e universos sonoros únicos, em obras que exploram magistralmente o oboé, com um elevado grau de dificuldade de execução”,
“Tenho especial interesse no desenvolvimento de obras para oboé e eletrónica”
Para Tiago Coimbra, um dos principais objetivos do disco é “contribuir para que algumas destas obras possam entrar no repertório central do instrumento”. A gravação pretende servir de estímulo tanto para intérpretes — profissionais e estudantes — como para compositores que ainda não exploraram o instrumento como solista.
“Sinto que estão agora lançadas as sementes, e aguardo com espectativa os projetos que daqui poderão surgir”, conta. O lançamento de OBOE + não representa, assim, um ponto final. Em 2026, estão previstos concertos de apresentação do álbum, nos quais serão também estreadas novas peças compostas durante o processo de criação do projeto: “Tenho especial interesse no desenvolvimento de obras para oboé e eletrónica, que cria uma perspetiva nova sobre o nosso universo sonoro”.
“a vida é demasiado curta para consumirmos má música”
A propósito do impacto que espera que o disco tenha junto das novas gerações, Coimbra deixa também uma mensagem dirigida aos jovens oboístas e compositores: “gostava de os convidar a estarem aptos para cultivarem uma mentalidade recetiva para toda a arte, e a serem capazes de dar espaço e tempo para compreenderem aquilo que, por vezes, e apenas por ser diferente, não tem uma compreensão tão imediata e óbvia”.
Defende que “a música não deve ser dividida em géneros, estilos, se é instrumental ou vocal, nem muito menos devemos criar subcategorias consoante a época em que foi escrita. Apenas temos boa música e má música. Simples. E a vida é demasiado curta para consumirmos má música”.