Sandra Bastos
André Machado tem vindo a afirmar-se como um dos jovens oboístas portugueses em destaque a nível internacional. Atualmente Oboé Solo na Orquestra Filarmónica de Dortmund, construiu o seu caminho entre Portugal, Londres e Alemanha, num trajeto marcado pela adaptação, pela disciplina e por uma curiosidade que assume como princípio fundamental.
Do violino ao oboé: uma escolha natural
André Machado começou por tocar violino na Academia de Música de Santa Cecília. Mais tarde, seria o seu primo a desafiá-lo a integrar a Banda dos Bombeiros Voluntários de Loures, onde começou a aprender oboé, enquanto continuava os estudos de violino. “Apesar de sermos ambos filhos únicos, somos quase irmãos no sentido em que crescemos juntos com, praticamente, os mesmos interesses e de repente, por motivos diferentes, estamos os dois a aprender música, quando mais ninguém nas nossas famílias tocava algum instrumento”, conta.
André era o único oboísta da Banda, uma pressão que o influenciou até hoje na questão da confiança: “Como muitas das peças que estavam a tocar na Banda tinham solos de oboé, tive de me preparar muito rapidamente para os vários desafios do repertório de bandas filarmónicas e a habituar-me a tocar bastante exposto neste contexto musical”.
Já no ensino secundário, após um ano em Ciências e a estudar dois instrumentos, decidiu mudar para Música e fez o ensino integrado na Escola de Música do Conservatório Nacional. Foi aqui que o oboé se tornou a sua primeira opção: “era o instrumento com o qual eu me divertia mais a tocar e o qual estudava com mais agrado”.
“um dos piores fatores para qualquer artista é deixar de ser curioso e não aceitar desafios”
A entrada no Royal College of Music, em Londres, representou um momento decisivo. Mais do que um avanço académico, foi uma transformação pessoal: “Queria evitar ser cliché com a minha resposta, mas a verdade é que mudou tudo. De um momento para o outro tive de ser completamente independente e responsável em muitos aspetos da vida”.
Confessa que foi “o passo mais importante na altura certa”. Teria sido “mais fácil” desistir de Londres “pelos vários medos e incertezas que surgem como consequência de ter a oportunidade de estudar no estrangeiro”. Porém, como afirma, “um dos piores fatores para qualquer artista é deixar de ser curioso e não aceitar desafios”.
Um novo capítulo em Estugarda, com Schmitt
Após quatro anos de licenciatura no Royal College of Music, conheceu o professor Christian Schmitt, em Estugarda, e decidiu que queria estudar com ele. “Foi uma mudança de país e de culturas bastante interessante, e ainda hoje há vários aspectos que sinto falta em Londres e outros que prefiro na Alemanha”, sublinha.
Em Londres, tinha um número fixo de aulas por ano, que nem chegava a uma aula por semana, enquanto, na Alemanha, “desde que o professor tivesse tempo e que estivesse em Estugarda”, podia “ter aulas várias vezes por semana, principalmente se tivesse uma audição importante ou um concurso em breve”.
Com um ensino mais regular e com mais audições a acontecer, aprendeu repertório para as provas de orquestra e para os concursos. “Isto fez com que tivesse de estar regularmente preparado para duas maneiras distintas de fazer música, e para que tivesse um leque grande de repertório nos meus dedos”, acrescenta.
O impacto da experiência orquestral
O contacto com contextos profissionais revelou-se determinante. A sua primeira experiência profissional, com a English National Opera, ainda como academista, foi particularmente marcante: “Aí apercebi-me dos verdadeiros contrastes de dinâmicas que temos de ser capazes de tocar e da paleta de cores que diferentes obras e compositores pedem”.
Nessa temporada, enquanto academista, foi chamado para tocar diretamente na estreia de uma ópera que não estava a ensaiar - Between Worlds da compositora Tansy Davies. “Foi o meu primeiro “gig” profissional. Foi um momento muito marcante e ainda hoje estou bastante grato pela confiança que depositaram em mim, um academista na altura, para estrear uma nova composição, sem ensaios, sem conhecer a obra”, destaca.
O sucesso desta experiência deu-lhe confiança para, mais tarde, já na Alemanha, aproveitar as várias oportunidades de substituição que surgiram devido a imprevistos e doenças de colegas. “Sinto-me bastante bem preparado para o fazer, provavelmente como consequência dessa primeira experiência e do ensino orquestral que tive em Londres”, explica.
Reconhecimento no Royal College of Music, num dia muito especial
Também em Londes ganhou o Concerto Competition do Royal College of Music, um concurso interno onde todos os instrumentos e cantores competem pela oportunidade de ser solista num futuro programa com uma orquestras do College.
“Foi uma grande honra ser um dos vencedores e o meu concerto foi agendado para 25 de Novembro de 2015, quando eu já estava a estudar em Estugarda”, lembra. Adorou a experiência, sobretudo por tocar novamente com amigos e colegas, mas o dia foi ainda mais especial, pois era o seu aniversário e os seus pais vieram vê-lo a Londres para assistir ao seu último concerto com o Royal College of Music.
“num trial não estamos só a ser julgados pelas nossas qualidades enquanto músico”
A participação na academia da London Symphony Orchestra e no programa da English National Opera trouxe aprendizagens distintas, mas complementares. No caso da London Symphony Orchestra, tratou-se de um programa intensivo de uma semana, centrado em masterclasses, música de câmara e preparação de excertos orquestrais, culminando num concerto público.
“Foi uma grande oportunidade para conhecer vários músicos de uma das minhas orquestras favoritas e receber diretamente vários conselhos sobre tocar em orquestra”, afirma. Entre as aprendizagens, André Machado destaca a importância da dimensão humana na avaliação de um trial: “Aprendi que num trial não estamos só a ser julgados pelas nossas qualidades enquanto músico. A orquestra é um ecossistema composto por várias personalidades, e mesmo que um músico seja o melhor no seu instrumento, se não encaixar socialmente com os restantes colegas, este pode ser um motivo para não passar o trial”.
Por outro lado, é também nesse período de experiência, que o próprio músico deve refletir se é aquela orquestra que quer para a sua vida profissional, se é o ambiente que desejam para a sua carreira: “Não é exclusivamente um momento onde a orquestra nos avalia a nós, é também o inverso”.
O encontro com a ópera
Já o programa da English National Opera aproximou-se mais de uma academia orquestral tradicional, em que contactou, pela primeira vez, com o repertório operático, como Die Meistersinger von Nürnberg, de Wagner, e Pique Dame, de Tchaikovsky.
Neste contexto, vivenciou o dia-a-dia de um músico de orquestra e como se deve “preparar para repertório de maior duração como uma ópera”.
Na Orquestra Filarmónica de Dortmund
Atualmente, André Machado ocupa o lugar de Oboé Solo na Orquestra Filarmónica de Dortmund, uma posição de grande responsabilidade: “Ser primeiro oboé numa orquestra pode ser intimidante no início, porque é um lugar muito exposto nos sopros, mas felizmente fui muito bem recebido.”
Confessa estar muito feliz, sobretudo pelo ambiente simpático que encontrou em Dortmund: “É um grupo de músicos fantástico e os colegas são bastante acolhedores com as novas pessoas que se juntam à orquestra”.
A Orquestra de Dortmund partilha os seus concertos entre a casa de ópera e a Konzerthaus Dortmund — uma das salas mais prestigiadas da Alemanha: “É um privilégio tocar na Konzerthaus regularmente, é das melhores salas de concertos na Alemanha, onde vêm tocar várias das orquestras mais conhecidas a nível mundial”.
“A melhor forma de lidar com a pressão é preparação”
Num contexto exigente como a Orquestra Filarmónica de Dortmund, em que toca óperas e repertório sinfónico, defende que o mais importante é a preparação. “A melhor forma de lidar com a pressão é preparação. Gosto de me preparar com meses de antecedência. Quanto mais preparado estiver e melhor conhecer as obras, menos pressão vou sentir nos ensaios e concertos”, sublinha.
Além do estudo antecipado, a preparação inclui a audição intensiva de repertório: “Frequentemente tenho em loop, quase como música de fundo, as óperas que vamos começar a tocar dentro de meses”.
Por fim, a memorização: “Como temos muito repertório a ser tocado ao mesmo tempo, às vezes com durações superiores a três horas, a memória é um fator muito importante para mim - é uma das minhas estratégias para interiorizar as obras”.
“Muitas vezes, e apesar de parecer pecado, é melhor não estudar de todo durante um dia”
Entre prática individual, ensaios e vida pessoal, rejeita a ideia de uma rotina rígida: “com os nossos horários e imprevistos que surgem, a rotina tem tendência a ser bastante flexível”. Ou seja, “o mais importante é criar bons hábitos e organizar bem o tempo que se tem disponível”.
E saber parar: “Também é fundamental ouvir o nosso corpo e mente e apercebermo-nos quando o cansaço é demasiado para os resultados do nosso esforço serem positivos”.
O segredo é “gerir as prioridades e ter bons hábitos”, mesmo que não agradem à nossa consciência: “Muitas vezes, e apesar de parecer pecado, é melhor não estudar de todo durante um dia”.
“Os músicos que mais admiro são os que têm sempre vontade de aprender mais”
Desde que terminou o mestrado em Estugarda, desenvolveu uma atividade regular como freelancer na Alemanha, colaborando com diversas orquestras. Dessas experiências, a maior lição que aprendeu foi “nunca deixar de ser curioso”: “Os músicos que mais admiro são os que têm sempre vontade de aprender mais”.
“Mesmo que uma peça não seja do nosso gosto pessoal, quando temos curiosidade de a tentar perceber, e não apenas tocar as notas, vamos desfrutar muito mais da experiência”, explica.
É precisamente essa abertura que impede a estagnação e mantém a música viva ao longo do tempo: “Se não nos mantivermos curiosos creio que é difícil tocar uma carreira inteira, sem que esta se transforme num trabalho de escritório”.
“fazer música em conjunto é um exercício de compromissos”
Apesar da animação da vida de freelancer e de contratos temporários, a instabilidade acaba por ser desgastante: “O meu objetivo atual é conseguir um lugar fixo numa orquestra onde me sinta realizado com a qualidade musical e social”.
Lembra que “fazer música em conjunto é um exercício de compromissos”, quer sejam em música de câmara ou numa orquestra, a palavra-chave é adaptação: “não vamos estar constantemente de acordo com a interpretação de uma obra, mas temos de aceitar que nem sempre as nossas ideias são as que mais se vão adaptar àquele momento”.
Para o futuro, tem várias portas abertas: “espero que uma dessas seja o próximo passo na minha carreira”.
Foto: Daniel Wetzel, Mannheimer Philharmoniker