Gabriel e Ricardo Antão apresentam Aos Ombros de Gigantes

“aproximar o público dos processos de criação artística e do que se vai fazendo em Portugal”

 — 

Sandra Bastos

Inspirado numa célebre frase de Isaac Newton — “se vi mais longe foi por estar aos ombros de gigantes” — o projeto Aos Ombros de Gigantes nasce como um gesto de reconhecimento e continuidade pelas mãos dos irmãos Gabriel e Ricardo Antão. Mais do que um simples título, a expressão traduz uma ideia central: a consciência de que qualquer percurso artístico se constrói sobre o trabalho e a dedicação de instituições e comunidades que, ao longo de décadas, tornaram possível o florescimento de gerações de músicos, como as bandas filarmónicas, as academias e os conservatórios. Partindo desse legado, procuram olhar para o futuro, contribuindo para o desenvolvimento do repertório português através da criação de novas obras para trombone e eufónio.

 

 

“Em Portugal, é muito comum quem toca sopros ou percussão ter começado precisamente numa banda filarmónica da terra”

 

 

Para os irmãos Antão (Gabriel e Ricardo), Aos Ombros de Gigantes é um projeto que procura homenagear as instituições que lhes abriram a porta para a música: “No fundo, o título é uma forma de agradecer às bandas filarmónicas, academias e conservatórios que fizeram parte do nosso caminho.”

 

“Em Portugal, é muito comum quem toca sopros ou percussão ter começado precisamente numa banda filarmónica da terra. Durante décadas, foram elas que formaram músicos, criaram público e levaram concertos a sítios onde a oferta cultural é menor”, explicam. Paralelamente, destacam o trabalho dos conservatórios e academias: “é difícil encontrar um músico português que não tenha passado, de alguma forma, por este universo”.

 

 

“Há compositores excelentes em Portugal e poder colaborar na criação de peças pensadas para as nossas características é algo muito motivador”

 

 

Um dos eixos centrais de Aos Ombros de Gigantes é a criação de novo repertório para trombone e eufónio, instrumentos cuja literatura portuguesa permanece ainda relativamente limitada.

 

A aposta na encomenda de novas obras surge, assim, como uma forma de enriquecer o panorama musical nacional e de incentivar o diálogo entre intérpretes e compositores. “Há compositores excelentes em Portugal e poder colaborar na criação de peças pensadas para as nossas características é algo muito motivador. Além disso, ajuda a mexer com o meio musical e a enriquecer a oferta artística no país”, sublinham.

 

 

Obras de Camila Menino, Nelson Jesus, Rui Rodrigues e Vasco Valente

 

 

A escolha dos compositores Camila Menino, Nelson Jesus e Rui Rodrigues reflete essa intenção: “São três compositores com uma voz muito própria, cujo trabalho admiramos bastante. Já têm experiência a escrever para os nossos instrumentos e para Orquestra de Sopros/Banda, e são pessoas com quem nos identificamos humanamente”.

 

O projeto inclui ainda a adaptação de uma obra de Vasco Valente, originalmente apresentada com a Orquestra Filarmonia das Beiras: “É uma obra que estimamos muito, tanto pela qualidade como pela ligação pessoal que criámos com ela.”

 

Embora estes nomes constituam o núcleo atual do projeto, a ambição passa por alargar este círculo no futuro, envolvendo outros compositores e estimulando novas criações.

 

 

“Faz todo o sentido apresentar este repertório onde estão os jovens músicos, mostrando-lhes que existe música portuguesa original escrita para estes instrumentos”

 

 

Outro elemento fundamental do projeto é a existência de versões das obras para solistas e piano. Embora a experiência de tocar com orquestra de sopros seja particularmente rica do ponto de vista tímbrico, nem sempre está ao alcance todos: “Ao existirem versões com piano, torna-se mais fácil para estudantes e profissionais tocarem estas obras em exames, recitais e outros contextos académicos”.

 

Esta ligação ao contexto académico, às instituições de ensino artístico, é um dos pilares do projeto. Gabriel e Ricardo querem aproximar o repertório contemporâneo dos estudantes e das comunidades locais através de recitais, concertos comentados, palestras e mesas-redondas.

 

“Faz todo o sentido apresentar este repertório onde estão os jovens músicos, mostrando-lhes que existe música portuguesa original escrita para estes instrumentos, que ainda não têm uma literatura muito vasta”, destacam.

 

 

“aproximar o público dos processos de criação artística e do que se vai fazendo em Portugal”

 

 

Esta aproximação tem também uma dimensão simbólica, que é “reconhecer e valorizar o papel destas escolas na construção do panorama cultural português”. Com efeito, pretendem “aproximar o público dos processos de criação artística e do que se vai fazendo em Portugal”, já que “muitas vezes não se tem noção do que está a acontecer culturalmente”.

 

Para isso, incluem também palestras e mesas redondas para chamar a atenção para os desafios enfrentados por muitas destas instituições: “Estas atividades permitem conversar, partilhar experiências e também dar um novo fôlego à vida cultural local, mostrando que estas instituições são muito mais do que “escolas de música”. “

 

 

As lutas das bandas filarmónicas, o subfinanciamento crónico das escolas e a competição com o “imediato”

 

 

São diversas as dificuldades apontadas. Por exemplo, “as bandas filarmónicas lutam para manter e renovar os seus músicos, num contexto em que há cada vez mais ofertas de ocupação para os jovens, e algumas romarias reduziram os apoios”, comprometendo a sua sustentabilidade.

 

No caso das escolas e academias, o problema do “subfinanciamento crónico” continua a ser uma realidade persistente, assim como a “necessidade de atrair novos alunos”. A pandemia da COVID-19 agravou ainda mais estas fragilidades.

 

A isto soma-se um desafio mais amplo: a competição com um universo digital marcado pela gratificação imediata das redes sociais e plataformas online, “enquanto a música exige tempo, paciência e trabalho continuado” – “Isso torna o processo de ensino e aprendizagem mais desafiante”.

 

 

“Acreditamos mesmo que a música erudita é para toda a gente”

 

 

Os concertos comentados assumem, neste contexto, um papel importante tendo em conta que procuram tornar a música erudita mais acessível a públicos diversos: “Acreditamos mesmo que a música erudita é para toda a gente”.

 

“Muitas pessoas não vão a concertos porque acham que “não percebem o suficiente”. Os concertos comentados ajudam a desmontar essa ideia, dando pistas de escuta e contexto para que o público se sinta mais confortável”, explicam.

 

Curiosamente, os comentários mais marcantes que receberam vieram de “pessoas sem formação musical, que ouviram com genuína curiosidade, sem preconceitos”.

 

 

Parceria com a Academia de Artes de Chaves

 

 

Entre as instituições envolvidas, destaca-se a parceria com a Academia de Artes de Chaves, cuja Orquestra de Sopros assume um papel central na preparação e estreia do repertório. “Como escola, tem um trabalho muito consistente, com projetos que marcam a vida cultural da região e formam músicos que seguem carreira”, acrescentam.

 

O facto de este trabalho acontecer fora dos grandes centros urbanos reforça ainda mais o valor da iniciativa: “torna o esforço ainda mais admirável”.

 

 

“uma oportunidade de ouro para levar estas obras a públicos diferentes e conhecer realidades distintas”

 

 

O projeto passará por várias instituições em diferentes regiões de Portugal, permitindo o contacto com públicos e contextos distintos. Para os músicos, “é uma oportunidade de ouro para levar estas obras a públicos diferentes e conhecer realidades distintas. Cada instituição tem a sua energia própria e isso enriquece muito o projeto”.

 

Ao mesmo tempo, esta estratégia contribui para a descentralização cultural, levando concertos e atividades artísticas a locais que frequentemente ficam fora dos circuitos habituais. Porém, defendem que o protagonismo é “das instituições locais, que fazem esse trabalho todos os dias”.

 

A ideia é acrescentar valor, ou seja, “levar um projeto artístico diferente, valorizar compositores portugueses” e “contrariar a tendência de concentração cultural no litoral e nas grandes cidades”.

 

 

“mais encomendas, mais criações e mais curiosidade em relação a estes instrumentos e formações”

 

 

A primeira fase do projeto já está concretizada – “aumentar o repertório disponível e pô-lo a soar em concerto”. Espera, agora, servir de exemplo para que surjam “mais encomendas, mais criações e mais curiosidade em relação a estes instrumentos e formações”.

 

No futuro, gostariam de continuar a apresentar estas obras em Portugal e no estrangeiro, para que “estas obras ganham vida”, sejam” tocadas várias vezes e cheguem “ao público que merecem” e “poder dar continuidade à linha de encomendas e novas criações”.

 

Mais do que um ponto de chegada, Aos Ombros de Gigantes pretende ser um ponto de partida para um movimento contínuo de criação, partilha e valorização da música portuguesa.

 

 

Fotos: Joana Meneses - https://www.instagram.com/joanameneses.photos/

 

Artigos sugeridos