Madalena Lopes

“Quero que as pessoas sintam o que estou a tocar, e que se conectem comigo através da música”

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Sandra Bastos

  • Madalena Lopes
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Numa geração de jovens músicos marcada pela excelência, o que distingue o percurso de cada um não é apenas o talento, mas a forma como se constrói uma identidade artística. A terminar os estudos na Reina Sofía, em Madrid, Madalena Lopes reflete sobre as experiências que marcaram o seu caminho e sobre aquilo que verdadeiramente importa no percurso que começa a afirmar. Mais do que uma ambição concreta ou um destino definido, é na partilha da música com o público que encontra o sentido mais profundo de tudo o que faz.

 

Ao contrário da maioria dos seus colegas, Madalena Lopes não cresceu numa família de músicos. No entanto, os seus pais, ambos professores, “sempre acharam que aprender um instrumento era muito importante para o desenvolvimento do raciocínio e da disciplina”, por isso decidiram inscrevê-la numa escola de música.

 

A flauta não foi a sua primeira escolha. Queria violino, mas a mãe “tinha algum receio daquela fase inicial de estudo do violino, que às vezes pode soar um bocadinho… desafiante”. A alternativa era a flauta, primeiro a flauta de bisel, aos cinco anos, na Casa do Povo de Corroios (Seixal) e, finalmente, aos oito anos, a flauta transversal, já no Polo do Seixal do Conservatório de Lisboa, onde começou a estudar com a professora Solange Silva.

 

 

Entre o sonho e a exigência na Escuela Reina Sofía

 

Atualmente estuda na Escuela Superior de Música Reina Sofía, em Madrid, na classe de Jacques Zoon: “Honestamente, mesmo estando já no meu quarto ano em Madrid com o meu professor, às vezes ainda me custa acreditar que estou aqui”.

 

Zoon era já uma referência, um flautista e músico que admirava, não só pela dua identidade artística, mas também pelo trabalho que desenvolvia com os seus alunos. “Impressionou-me desde sempre o nível e a personalidade musical que cada um desenvolvia. Por isso sempre sonhei ser sua aluna”, sublinha.

 

Integrar a sua classe tem sido uma experiência muito marcante: “precisamente por esse nível de exigência, que é extremamente alto, e pela forma como nos desafia constantemente a pensar na música de uma forma mais profunda”.

 

 

“Foi e é intenso, mas também extremamente gratificante”

 

Quanto à Escuela Superior de Música Reina Sofía, Madalena descreve “um ambiente muito exigente”, em todos os aspetos: “fazer um curso aqui não é mesmo nada fácil. Há uma intensidade diária grande, tanto no trabalho individual como nas responsabilidades musicais que temos”.

 

Por outro lado, proporciona oportunidades especiais aos alunos: “Tocamos frequentemente fora da escola e participamos em projetos que dificilmente aconteceriam noutro contexto académico. Um exemplo disso foi termos tocado em novembro no Carnegie Hall com a orquestra da escola — uma experiência absolutamente inesquecível e algo que dificilmente teria acontecido se estivesse a estudar noutro sítio”.

 

A concluir o curso, não tem dúvidas de que os últimos quatro anos compensam “largamente o esforço diário”, tendo em conta o enorme crescimento musical: “Foi e é intenso, mas também extremamente gratificante”.

 

 

“a vida de músico envolve sempre muita incerteza”

 

Ao aproximar-se do fim dos estudos em Madrid, Madalena confessa que gostaria de continuar a sua formação na Alemanha: É um país com uma tradição orquestral muito forte e um meio musical muito ativo, por isso acho que poderia ser um contexto muito interessante para continuar a aprender e também para tentar aproveitar as oportunidades que esse mercado oferece”.

 

Confessa não alimentar ilusões em relação ao futuro: “A verdade é que a vida de músico envolve sempre muita incerteza, porque não sei se vou conseguir um lugar de orquestra, se vou fazer um mestrado, ou dois, ou até seguir algum outro tipo de formação no futuro”.

 

“No fundo, acho que este percurso também é muito isso: ir trabalhando, ir fazendo projetos, e ver onde as oportunidades e os resultados nos levam…só o tempo o dirá”, acrescenta.

 

 

Os professores Jacques Zoon e Solange Silva

 

No seu ainda curto percurso, a jovem flautista destaca o apoio dos professores Jacques Zoon e da sua primeira professora, Solange Silva, que a acompanhou até aos 18 anos, antes de ir para Madrid.

 

“Foi com ela que construí as bases de tudo o que faço hoje. Mais do que aprender flauta, aprendi o que significa realmente trabalhar para atingir objetivos, a importância de uma rotina de estudo consistente, do trabalho diário e da resiliência que precisamos de ter, não só no mundo da música, mas na vida em geral”, afirma.

 

 

“Aprendi imenso e vivi momentos que me tiraram completamente da zona de conforto”

 

Como momentos inesquecíveis aponta a primeira vez que tocou com a Gustav Mahler Jugendorchester: “Foi uma enorme surpresa ter sido aceite numa orquestra com essa importância e nível; até hoje continuo surpreendida. O primeiro projeto que fiz com eles foi um verdadeiro choque de realidade — o nível era simplesmente indescritível”.

 

“Aprendi imenso e vivi momentos que me tiraram completamente da zona de conforto, mas que me fizeram crescer muito, tanto ao nível musical como em termos pessoais”, acrescenta.

 

 

Na Gustav Mahler e na EUYO

 

A par da experiência na Gustav Mahler Jugendorchester, está a integração na European Union Youth Orchestra (Orquestra de Jovens da União Europeia): “Estar num ambiente onde o nível é tão alto e onde existe uma vontade coletiva muito forte de fazer algo realmente especial em cada projeto e em cada tour cria sempre uma energia muito particular”.

 

Estar num grupo que procura fazer música ao mais alto nível “acaba por ser extremamente inspirador”. Porém, é também nestas experiências que se percebe como é a vida de um músico profissional, na prática. “de uma forma bastante crua e direta”. “Estamos a tocar quase todos os dias, muitas vezes em salas incríveis e com maestros inimagináveis, mas ao mesmo tempo estamos constantemente a viajar, às vezes de país para país no próprio dia, com poucas horas de sono e um cansaço acumulado enorme”, explica.

 

A diferença acontece no palco, quando a energia se transforma: “apesar de todo o desconforto de uma tour tão intensa como nestas orquestras, sentimos que estamos a fazer parte de algo muito especial e isso compensa tudo. São experiências muito intensas, mas também as mais especiais e ricas que já vivi”.

 

 

“a música de câmara é uma forma muito mais íntima e próxima de fazer música”

 

Apesar da sua forte ligação à orquestra, a música de câmara ocupa um lugar central no seu percurso: “sinto que a música de câmara tem algo de particularmente especial, porque é uma forma muito mais íntima e próxima de fazer música”.

 

Não importa o tipo de formação, o que interessa é o “espaço que existe para a troca e para a discussão de ideias”. Madalena destaca o carácter colaborativo e a proximidade entre músicos como elementos fundamentais: “Acaba por ser um trabalho muito colaborativo, em que todos têm voz e em que a música se constrói realmente em conjunto”.

 

Também refere a respiração coletiva que se cria num grupo de câmara em palco: “como se estivéssemos todos a pensar e a sentir a música ao mesmo tempo. De facto, há uma comunicação muito direta entre os músicos, mas também com o público”.

 

 

Introdução e Variações sobre Trockne Blumen de Franz Schubert

 

Entre as obras que marcaram o seu percurso, elege as Introdução e Variações sobre Trockne Blumen de Franz Schubert — uma peça central do repertório da flauta. “Tocar esta obra foi quase uma revelação, pois fez-me descobrir muitas coisas, tanto a nível técnico como musical”, conta.

 

“É uma peça extremamente importante no repertório da flauta e muito completa em todos os aspetos, uma vez que exige muito controlo técnico, mas ao mesmo tempo uma grande maturidade musical. É também uma daquelas obras que, sempre que a tocamos, descobrimos ideias, possibilidades de interpretação e detalhes novos”, revela.

 

 

“Não tenham medo de sonhar alto e de serem ambiciosos com os vossos objetivos”

 

Aos ainda mais jovens flautistas, aconselha a estudar e a dedicarem-se àquilo que os apaixona: “Não tenham medo de sonhar alto e de serem ambiciosos com os vossos objetivos, porque muitas vezes não conseguimos prever até onde é que isso nos pode levar. Sejam resilientes e consistentes no vosso estudo, e desafiem-se constantemente a melhorar”.

 

Mas esse compromisso com os sonhos não exclui o equilíbrio. Pelo contrário, é fundamental desligar: “É muito importante dedicarem tempo a outras paixões e interesses, porque isso também enriquece a forma como fazem música”.

 

E talvez seja nesse equilíbrio que se constrói não só um músico mais completo, mas também mais consciente: “Uma cabeça descansada e equilibrada faz de vocês não só melhores músicos, mas também pessoas mais completas”.

 

 

O equilíbrio entre caminhos possíveis

 

Equilíbrio é, assim, a palavra-chave de Madalena Lopes, sobretudo quando falamos do futuro, em que não vislumbra uma escolha única ou linear, mas um território de equilíbrio, onde possa fazer um pouco de tudo.

 

A orquestra tem-se afirmado como um espaço de realização particularmente intenso: “Há qualquer coisa na energia coletiva de uma orquestra e na dimensão do repertório que realmente me fascina”.

 

A música de câmara, por sua vez, é quase uma necessidade: “sei que vai estar sempre presente no meu percurso, e que me interessa manter de forma constante ao longo da minha carreira”.

 

Quanto a uma carreira a solo, é algo que suscita mais dúvidas do que certezas: “Já tive algumas experiências a tocar a solo e são momentos muito especiais que guardo com muito carinho no meu percurso, mas construir uma carreira solística é por si só um grande desafio”.

 

Embora reconheça o valor e a intensidade dessas experiências, encara esse percurso com alguma reserva: “não sei necessariamente se será o caminho que mais me preenche, sobretudo quando comparo com aquilo que sinto a tocar em orquestra”.

 

Se pudesse desenhar o futuro, seria, portanto, nesse ponto de convergência: entre a orquestra, a música de câmara e projetos a solo, sempre que fizerem sentido.

 

 

“Quero que as pessoas sintam o que estou a tocar, e que se conectem comigo através da música

 

Mais do que um objetivo concreto ou um lugar a alcançar, o horizonte que define é outro: “transmitir algo através da minha música”. “O meu sonho será sempre conseguir partilhar a minha música ao máximo, seja num dia bom, seja num dia mais difícil”, sublinha.

 

É nessa vontade de comunicação, nessa tentativa de criar uma ligação real com o público que encontra a sua motivação: “Quero que as pessoas sintam o que estou a tocar, e que se conectem comigo através da música. No fundo, o meu sonho é criar essa ligação entre quem toca e quem ouve, isso é, para mim, a essência de tudo o que fazemos enquanto músicos”.

 

 

 
 
Fotos: @pablo_rodrigo_studio

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