Sandra Bastos
Autora reconhecida de livros infantis, Margarida Fonseca Santos ganhou a admiração dos professores de Educação Musical com os livros/cd Histórias de Cantar e O Segredo da Floresta. Este último mereceu o reconhecimento do Ministério da Educação, que o seleccionou para o Plano Nacional de Leitura 2011/2012 (direccionado para o pré-escolar até ao 2.º ano, como apoio a projectos com música). Também o CataLivros, um site da Casa da Leitura - Fundação Calouste Gulbenkian, reconheceu a qualidade deste projecto, recomendado-o na secção Histórias Verdes.
Sempre em parceria com Francisco Cardoso, responsável pelos arranjos e gravações, Margarida criou, a partir destes dois livros, o projecto Cantastórias, espectáculos com histórias encadeadas, personagens coloridas e músicas para aprender e continuar a cantar por todo o país.
Margarida Fonseca Santos tirou o Curso Superior de Piano no Conservatório Nacional, tendo como objectivo ser professora de Formação Musical no ensino vocacional. Deu aulas em várias escolas, nomeadamente na Escola Superior de Música de Lisboa entre 1990 e 2005. Começou a escrever em 1993 e isso tornou-se uma verdadeira paixão, paixão essa que a levou a mudar de vida. Deixou o ensino da música e, neste momento, dedica-se a tempo inteiro à escrita. Tem vários livros publicados, na sua grande maioria para crianças e jovens, e escreve com regularidade para teatro.
Da Capo (DC) - Como nasceu a sua paixão pela música?
Margarida Fonseca Santos (MFS) - Não sei bem. Os meus pais ouviam muita música – clássica, francesa, fado-canção, de tudo um pouco. Comecei com uma brincadeira de adivinhar os compositores quando se ouvia a Antena 2. Acertava sem saber bem porquê. Para além disso, queria muito ter um piano. O meu pai fez-me um de cartão, com as dimensões certas. Eu aprendi a tocar e a cantar para dentro as músicas que uma amiga minha tocava. Quando recebi o piano verdadeiro, aos 9 anos, toquei – ninguém estava à espera disso! Foi engraçado…
DC - Como foi a sua experiência como professora de Formação Musical, nomeadamente na Escola Superior de Música de Lisboa?
MFS - Eu adorei (adoro, posso dizer assim) dar aulas de Formação Musical. Na ESML gostava sobretudo das aulas de Formação Auditiva, com todos os instrumentos misturados. Depois comecei a ficar muito deformada e a conseguir tocar pouco, fui passando para cadeiras mais teóricas, isso custou-me muito. Mas guardo grandes amigos dos alunos de Formação Musical e Formação Auditiva – era sempre um momento de partilha de emoções e de crescimento, de desafios e de sorrisos.
DC - O que a levou a deixar o ensino da música?
MFS - Por um lado, o estar com as cadeiras teóricas, mas as minhas mãos não aguentavam mesmo um estudo mais consistente. Por outro, e porque tenho uma família muito especial, porque tinha já tanto trabalho na escrita que quase não parava… O meu marido e os meus filhos disseram que estava na hora de parar. Foi a melhor prenda que alguma vez recebi! E o que eles estavam a dizer era que, mesmo com muito menos dinheiro, queriam que eu seguisse o meu sonho.
DC - Como surgiu o seu interesse pela música para crianças?
MFS - Eu comecei a escrever canções para as crianças a quem dava aulas. Eram para um grupo ou um miúdo em particular, carregadinhas de afectos. Depois surgiu a ideia de publicar um livro, proposta da JMP, e eu disse que só faria sentido num disco, para que os professores e educadores o pudessem usar, e assim foi. No lançamento (Histórias de Cantar), muitos dos que assistiram conheciam as canções e não sabiam que eram minhas!
DC - O CantaStórias é uma parceria com Francisco Cardoso. Quer falar-nos deste projecto?
MFS - O CantaStórias já vai no segundo espectáculo. O Francisco Cardoso, que admiro profundamente, foi um dos amigos que ganhei na ESML, quase como um filho mais velho. Quando surgiu a ideia do primeiro disco, foi com ele que contei para a direcção musical e orquestração, foi ele que fez as gravações. Passados anos, recebo um convite da Genius y Meios para fazer um espectáculo com esse disco. Ficámos os dois felicíssimos, claro, e começou assim esta aventura. E já saiu o segundo disco, também com espectáculo (O Segredo da Floresta). Também é de salientar que o grupo de músicos que põe este espectáculo em cena é admirável: Carlos Garcia, Paulo Carvalho, Filipe Valentim, Carmina Repas e Sofia Froes.
DC - Para quando o próximo livro-CD?
MFS - Estamos a pensar num novo espectáculo, talvez se consiga fazer o disco ao mesmo tempo, vamos sonhar que sim.
DC - Na sua opinião, que pontos devem reger o ensino da música para crianças?
MFS - Como qualquer linguagem, é preciso começar por ouvir e “falar”. Não se devia perder tempo com pautas e teoria durante muito tempo – o que faz falta é cantar e tocar, muito, criar canções, músicas. Se o trabalho for bem feito, quando mais tarde surge a leitura e por fim a escrita, tudo é óbvio. Tantas vezes se faz o contrário… é pena.
DC - Em que medida as AEC podem estimular o desenvolvimento musical das crianças? Que trabalho se pode fazer ainda mais nessa área?
MFS - Não posso falar do que não conheço a fundo, mas como ando por escolas todas as semanas ao longo do ano, posso dizer-lhe que me faz pena que se ponham pautas para tocar flauta, que se contem tempos para acertar o ritmo, que se cante sem ouvir o piano ou o CD, tudo isso. As AEC seriam/são o sítio ideal para tocar e cantar muito, viver a música, afinar de forma afectiva (como dizia Willems), criar uma ligação emocional à música. É essa que interessa, não a teoria!
DC - No seu contacto permanente com escolas de todo o país quais as principais diferenças que nota nas crianças, no desenvolvimento, curiosidade, criatividade… Nota também diferenças entre as várias gerações de alunos?
MFS - O que me tem angustiado muito nos últimos anos é que há cada vez menos tempo para brincar, correr, arriscar, ficar enlameado, suado, com um sorriso de quem viveu. É por isso que às vezes penso que, se as AEC forem aulas em vez de momentos de crescimento humano, criativo, emocional, podemos pagar uma factura muito cara no futuro. Vejo miúdos exaustos que passam o dia inteiro em salas. Isso preocupa-me mesmo muito.
DC - Mesmo desligada do ensino da música, continua a acompanhar as mudanças no ensino vocacional da música? Se sim, estamos a mudar em que direcção, quais as perspectivas que se desenham para o futuro?
MFS - Bom, o que acompanho é pelos amigos, colegas, marido. O caminho parece ser o certo, com o ensino articulado e integrado. Mas continuo a achar que se faz pouco do que é crucial: improvisar, tocar de ouvido, memorizar, tocar em público muitas vezes, saber valorizar o que correu bem, em vez de pensar só na nota esborrachada. E fico feliz de ver que há cada vez mais intersecções entre a música e as outras artes, pois penso que é fundamental.
DC - A sua carreira de escritora a tempo inteiro deixa-lhe algum espaço para se dedicar à música de alguma forma?
MFS - Sim, claro… Eu e o Francisco Cardoso continuamos sempre a fazer workshops de uma semana intensiva com jovens, onde eles constroem o texto do teatro, as letras das canções, todos os temas musicais, os cenários e figurinos, para depois se apresentarem no último dia tocando, representando e cantando aquilo que construíram. Os miúdos acham, no primeiro dia, que somos loucos, mas depois do espectáculo são pessoas diferentes… E continuo a escrever canções para as minhas peças de teatro, claro. Faço com a música as coisas que me dão mais prazer.
DC - Que conselhos pode deixar aos jovens professores de música?
MFS - Não se esqueçam que a música é, primeiro que tudo, uma linguagem. Respeitem a ordem de aprendizagem de qualquer língua: ouvir, imitar, falar, inventar, ler e escrever. Se não o fizeram, estão a deixar lacunas que dificilmente se preenchem. Não se esqueçam de pôr os vossos alunos a improvisar e a tocar de ouvido – há melhor escola que esta? E não é só nos primeiros anos, é sempre, e nas aulas de Formação Musical e de instrumento, de coro. E privilegiem o afecto, as emoções na música, na arte.