Sandra Bastos
O Pantaleón Quintet apresenta Hommage à Piazzolla, um projeto que nasce da admiração profunda pela obra de Astor Piazzolla e do desejo de a revisitar a partir de uma perspetiva madura e contemporânea. Mais do que uma simples homenagem ao mestre, este trabalho apresenta-se como um espaço vivo de transformação do tango, onde a fidelidade ao legado de Piazzolla se equilibra com a afirmação de uma voz própria do grupo.
O Pantaleón Quintet foi fundado em 2021, na sequência de um convite do pianista Filip Štrauch para uma participação no VJ Classic Festival (do qual é diretor artístico), em Copenhaga.
Embora José Valente (acordeão), Filip Štrauch (piano), Adrian Dima (violino), Astor Cortabarria (contrabaixo) e Jacob Artved (guitarra elétrica) já se conhecessem há vários anos e partilhassem a vontade de tocar Piazzolla em conjunto, foi nesse contexto que o projeto se concretizou. O tema do tango atribuído ao festival acabou por ser o impulso decisivo para “dar vida ao quinteto e de mergulhar no universo do grande mestre do nuevo tango, Astor Piazzolla”.
“o nome escolhido deveria manter um vínculo claro com o nome de Piazzolla”
O quinteto afirma-se como um espaço de diálogo entre tradição e criação contemporânea, onde a herança de Piazzolla é revisitada com autenticidade, maturidade artística e uma identidade própria em constante construção.
O próprio nome “Pantaleón” remete diretamente a Piazzolla: “No momento da criação do grupo, emergiu, curiosamente de forma unânime, a certeza de que o nome escolhido deveria manter um vínculo claro com o nome de Piazzolla. Não pretendíamos limitar-nos a uma simples alusão ao tango ou ao nuevo tango, mas sim assumir, de forma clara, o universo artístico do compositor”. Assim, foi no nome completo Astor Pantaleón Piazzolla, que encontraram a resposta que procuravam.
“sentimos que tínhamos finalmente algo a dizer na nossa performance de nuevo tango, ao ponto de justificar a gravação de um disco”
A estreia do Pantaleón Quintet teve lugar precisamente no VJ Classic Festival de 2021, em Copenhaga, com três concertos inteiramente dedicados à obra de Piazzolla. Apesar de reconhecerem que, nessa fase inicial, ainda se encontravam num processo de adaptação estilística, esta experiência revelou-se fundamental para o amadurecimento artístico do grupo. Foi ali que se definiram caminhos, se identificaram desafios e se lançou a semente de um projeto de longo prazo como, por exemplo, a gravação de um CD, que chegaria dois anos depois.
Assim, “Hommage à Piazzolla” seria gravado após o VJ Classic Festival de 2023, quando sentiram que tinham alcançado a maturidade artística necessária: “Mais especificamente, sentimos que tínhamos finalmente algo a dizer na nossa performance de nuevo tango, ao ponto de justificar a gravação de um disco”.
“um espaço onde o tango se transforma constantemente, oscilando entre a paixão intensa e a melancolia íntima”
O título “Hommage à Piazzolla” é também um tributo ao mestre e ao seu legado através de “uma performance que, ainda que respeitosa”, procura afirmar a voz do Pantaleón Quintet no universo do nuevo tango.
O disco propõe uma viagem intensa e contrastante ao mundo de Piazzolla: “um espaço onde o tango se transforma constantemente, oscilando entre a paixão intensa e a melancolia íntima”.
“Esta diversidade revelou-se determinante no processo interpretativo, abrindo espaço à procura de novas sonoridades”
Este trabalho nasce do reconhecimento de que a obra de Astor Piazzolla constitui um verdadeiro ponto de confluência entre múltiplos universos musicais — do tango ao jazz, passando pela música erudita e por outras linguagens.
Uma fusão estética que encontra um paralelismo no Pantaleón Quintet, cuja formação reúne percursos artísticos distintos. Filip Štrauch e Adrian Dima, por exemplo, conciliam a formação clássica com uma profunda ligação à música tradicional romani, enquanto Jacob Artved representa a linguagem do jazz no seio do grupo. “Esta diversidade revelou-se determinante no processo interpretativo, abrindo espaço à procura de novas sonoridades e estabelecendo um diálogo natural com o espírito exploratório que caracterizou a obra de Piazzolla”, destacam.
“uma interpretação que não se limita apenas à homenagem, mas também a revelar uma voz própria”
A aproximação ao universo do nuevo tango exigiu, no entanto, um período de amadurecimento coletivo: “Foi unânime querermos conceder o tempo que fosse necessário a essa adaptação, conscientes de que estávamos a lidar com um compositor extremamente interpretado e gravado, cuja obra já se encontra explorada nos mais altos patamares de excelência”.
Evitar uma abordagem redundante tornou-se, assim, um dos principais desafios do projeto: “Hoje, ao olharmos retrospetivamente para este processo, sentimos que a espera compensou. Por outras palavras, sentimos que esse período nos permitiu alcançar uma interpretação que não se limita apenas à homenagem, mas também a revelar uma voz própria”.
As potencialidades tímbricas do acordeão
Um dos aspetos distintivos da formação reside na utilização do acordeão de concerto, em substituição do tradicional bandoneón. Embora consciente das limitações inevitáveis na reprodução do “sotaque” único do bandoneón, o grupo explora as potencialidades tímbricas do acordeão, “do seu maior volume sonoro e também da sua variedade de registos em ambos os teclados, o que lhe confere uma grande diversidade de cores tímbricas”.
“O acordeão acaba, portanto, por afirmar um pouco a sua própria identidade musical no contexto do nuevo tango, enriquecendo o contraste tímbrico em relação à sonoridade do quinteto original, que inclui o bandoneón”, explicam.
“Tencionamos aprofundar o nosso conhecimento deste estilo, explorando a linguagem musical de outros compositores”
O Pantaleón Quintet entende o nuevo tango como um território em permanente transformação. Por isso, encara este primeiro álbum não como um ponto de chegada, mas como o início de novas etapas: “Inicialmente, e curiosamente, pensámos que iria representar o fecho de um ciclo, mas acabou por assinalar o início não de uma, mas antes de duas novas etapas”.
Com efeito, a primeira etapa será a continuação do trabalho em torno do repertório de Astor Piazzolla, mas complementado com obras de outros mestres do nuevo tango, igualmente concebidas para quinteto. “Tencionamos, desta forma, aprofundar o nosso conhecimento deste estilo, explorando a linguagem musical de outros compositores que também integram este universo artístico”, sublinham.
Colaboração com compositores contemporâneos
A segunda etapa irá envolver a colaboração com compositores contemporâneos, que criarão obras originais para esta formação: “Desejamos, assim, estabelecer um diálogo entre a essência do nuevo tango na época do mestre argentino e a música moderna da atualidade”.
Paralelamente, encontra-se em desenvolvimento um novo projeto que inclui repertório para quinteto e voz, uma vertente menos divulgada, mas central na produção de Piazzolla, que irão incluir no próximo álbum.
Próximos concertos em Portugal, Dinamarca, Roménia e Eslováquia
Com concertos previstos para Portugal, Dinamarca, Roménia e Eslováquia, e com novos projetos discográficos em preparação, o Pantaleón Quintet afirma-se como um ensemble comprometido com a preservação, renovação e projeção contemporânea do legado de Astor Piazzolla. “Com esta premissa em mente, faremos com que o próximo ano traga inúmeras oportunidades para partilharmos com o público a riqueza e a energia da música de Astor Piazzolla”, afirmam.
A sua missão é clara: honrar a visão arrojada do mestre argentino, mantendo vivo o espírito do nuevo tango, enquanto constroem, passo a passo, uma assinatura artística própria e reconhecível: “Trata-se, sem dúvida, de um trabalho interminável gratificante. Estes dualismos traduzem-se num dos maiores prazeres, e também responsabilidades, do universo da música clássica”.