“Pequenas Histórias para Grandes Instrumentos” de Paulo Bastos

“O compositor deve apostar todas as cartas quando escreve para os mais pequenos"

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Sandra Bastos

  • Paulo Bastos
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Nove ciclos, nove instrumentos e um conjunto de pequenas peças destinadas aos primeiros anos de aprendizagem musical. Pequenas Histórias para Grandes Instrumentos, de Paulo Bastos, reúne em disco um projeto desenvolvido ao longo de vários anos e pensado para jovens intérpretes de piano, fagote, clarinete, harpa, violino, saxofone, violoncelo, guitarra e flauta.

 

Editado pela Artway Records, o álbum parte de uma preocupação que acompanha o compositor e professor: criar repertório para os mais novos sem simplificar a exigência artística da escrita. As peças propõem também um espaço de imaginação, através de títulos que funcionam como ponto de partida para que cada criança construa as suas próprias histórias.

 

Professor de Composição no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga, Paulo Bastos liga este trabalho a um percurso de mais de duas décadas dedicado também à formação de jovens compositores. À Da Capo, fala sobre a origem de Pequenas Histórias para Grandes Instrumentos, o processo de gravação, a escrita de música para crianças e as mudanças que acompanhou no ensino da Composição em Portugal.

 

 

A gravação de Pequenas Histórias para Grandes Instrumentos é um sonho antigo de Paulo Bastos: “Acalento a vontade de reunir estes nove ciclos para pequenos instrumentistas há muitos anos. Na verdade, pensei em concretizá-lo várias vezes, chegando mesmo a equacionar a realização deste projeto no âmbito de um doutoramento”.

 

O sonho acabou por ganhar forma quando o compositor o partilhou com Vanessa Pires, num momento em que ambos preparavam uma candidatura à DGArtes para a edição de dois discos monográficos.

 

 

Um instrumento, muitas histórias

 

As Pequenas Histórias para Grandes Instrumentos foram pensadas para diferentes instrumentos, cada um assumindo o protagonismo da sua própria coleção: Pequenas Histórias de uma Flauta, Pequenas Histórias de um Violoncelo, Pequenas Histórias de um Piano, e assim sucessivamente. Uma estrutura que Paulo Bastos entende também como “uma espécie de homenagem a cada instrumento”.

 

As “histórias” que lhes dão nome não correspondem, porém, a narrativas previamente definidas. Há um fio condutor na sucessão das peças, sugerido muitas vezes pelos próprios títulos, mas não um enredo que determine aquilo que deve ser imaginado. “Vamos acordar!”, “Estica!”, “Caminhando com certeza” ou “Toc, toc, toc, está aí alguém?” anunciam, pela energia que encerram, momentos de partida; “Vou, mas volto...”, “Vitória, vitória e acabou-se a história!”, “Valsa final” ou “Agora vou embora...” apontam, pelo contrário, para a despedida.

 

A ideia é que, a partir destes títulos, as crianças construam as suas próprias histórias, com a ajuda dos professores, mas com total liberdade criativa.  “Quem poderá passar indiferente perante pequenas músicas com títulos como "Aprendi a assobiar!", "Hoje vou ao restaurante chinês", "O que é a música?", "Estou a andar no carrossel :)", "Hoje está muito trânsito!", "Muito calmo, o vento...", "Olha um pirilampo!", "Estou tonto de tanto andar à roda...", "Um pizzicato!", "Eco, eco, eco, ec, ec, e..." ou "Correr, correr e fazer muitas coisas!", entre muitos outros?”, questiona o compositor.

 

É precisamente esse o propósito: “que cada título funcionasse como um gatilho para a construção de uma história, de uma ideia, de um desenho ou, em suma, de uma pequena narrativa”.

 

 

“momentos de grande intimidade musical e de partilha entre todos os músicos”

 

Os intérpretes foram escolhidos pelos alunos de mestrado da ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo), no âmbito de uma parceria para a gravação do disco. “Não tive qualquer influência nessa decisão e devo dizer que não tive surpresas: o nível destes intérpretes foi, tal como já esperava, altíssimo”, explica.

 

O trabalho com os músicos concentrou-se, sobretudo, no detalhe, com tudo a ser executado com grande cuidado e pormenor: “Ajustaram-se pequenas coisas, tomámos opções interpretativas diferentes e mudámos registos.”

 

Para Paulo Bastos, foram “momentos de grande intimidade musical e de partilha entre todos os músicos”, envolvendo igualmente toda a equipa (gravação, produção, fotografia e vídeo) que contribuiu direta ou indiretamente no produto final.

 

 

“todas as músicas devem ter um rebuçado”

 

Escrever para crianças traz outros desafios para o compositor: “Temos de nos colocar num estado que não é o nosso habitual, ou seja, compor como um adulto que faz de conta que é uma criança”.

 

No entanto, sem “abdicar um milímetro que seja do rigor artístico e estético, uma vez que as crianças não carregam preconceitos; elas precisam de ser constantemente surpreendidas. Ou, como dizia o guitarrista e professor de guitarra, José Pina, todas as músicas devem ter um rebuçado”.

 

É também este o seu princípio sobre a música destinada aos primeiros anos de aprendizagem: “Acredito que a música infantojuvenil não deve ser "apenas" pedagógica; exige uma atitude de superação estética e técnica contínua, nem que seja para escrever poucas notas”. Assim, defende que escrever para os mais novos exige o mesmo compromisso artístico: “O compositor deve apostar todas as cartas quando escreve para os mais pequenos. Não está, nem deve estar, a fazer música de adultos adaptada a crianças.”

 

 

26 anos a formar compositores

 

Esta preocupação com a forma como se ensina, se aprende e se cria música faz parte do seu dia-a-dia como professor de Composição no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga.

 

Quando Paulo Bastos frequentou o ensino superior, no início da década de 1990, os candidatos ao curso de Composição estavam, na sua opinião, “pouco preparados”. Tinham frequentado a disciplina de Análise e Técnicas de Composição (ATC) dos conservatórios, mas “traziam um rol de conhecimentos avulsos sobre contraponto académico, harmonia funcional e pouco mais”.

 

A pensar numa melhor formação dos alunos de Composição, foi criado, em Portugal no ano 2000, o primeiro Curso de Composição ao nível secundário, precisamente no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga. “Realçaria que isto aconteceu 12 anos antes de o curso de Composição do secundário ser apresentado em lei para o resto do país. Importa não esquecer que apenas em 2012 surgem o Decreto-Lei n.º 139/2012 de 5 de julho e a Portaria n.º 243-B/2012 de 13 de agosto que vêm definir, pelo menos no papel, o "novo" Curso de Composição”, sublinha.

 

Além de ter sido a realização de um sonho, foi “a concretização da aspiração de mudar a realidade do ensino da composição”. E os factos provam essa transformação ao longo de 26 anos, como é o exemplo da compositora Ana Seara: “Hoje uma das mais conceituadas compositoras portuguesas, foi minha aluna! É impossível descrever o tamanho orgulho que sinto e, a cereja em cima do bolo, é hoje uma grande amiga.”

 

 

“Lá vai o tempo em que estudar música representava exclusivamente a estudar um instrumento”

 

Mais de duas décadas depois, considera que a mudança no ensino da Composição em Portugal “está à vista de todos”. Há mais jovens compositores portugueses, muitos a estudar em universidades nacionais e estrangeiras, e a Composição tornou-se “uma opção real de futuro” para quem frequenta o ensino especializado da música: “Lá vai o tempo em que estudar música representava exclusivamente a estudar um instrumento; agora é possível traçar um caminho na composição a partir do 10.º ano do ensino secundário”.

 

Por exemplo, só no ano letivo de 2025-2026, o Curso de Composição do Conservatório de Braga contou com 22 alunos. Com tantos jovens a compor, a criação contemporânea ganhou naturalmente uma maior presença na vida da escola. Paulo Bastos acredita que existe hoje uma maior abertura nesse sentido, pelo menos em Braga, embora reconheça não conhecer com o mesmo detalhe a realidade de outras escolas.

 

 

“Sempre a compor sem pressões e ao sabor do que o vento me for trazendo”

 

Além do seu trabalho como professor, encontra-se, atualmente, a preparar um segundo disco com a Artway, com lançamento previsto ainda para este ano (2026), enquanto escreve um quinteto de metais, um dueto de guitarras e trabalha noutros projetos.

 

Em relação ao futuro, prefere não fazer grandes planos: “vamos vendo e vamos andando...”.  Como professor, quer continuar a preparar novos compositores. Como criador, vai continuar o caminho que tem seguido: “fora do mainstream composicional português, dos circuitos das instituições culturais e afins. Sempre a compor sem pressões e ao sabor do que o vento me for trazendo”.

 

 

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