Vera Pereira, Chefe de Naipe da orquestra do Birmingham Royal Ballet

“Liderar uma secção implica mostrar um cuidado contínuo com as diferentes personalidades dentro do naipe”

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Sandra Bastos

  • Vera Pereira_The Finest Light
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Vera Pereira afirma-se como uma das contrabaixistas portuguesas mais relevantes da sua geração, desempenhando atualmente o cargo de chefe de naipe na orquestra do Birmingham Royal Ballet. Nesta entrevista, partilha o caminho que a levou ao contrabaixo, os desafios de liderar um naipe e a forma como o yoga transformou profundamente a sua relação com o instrumento e com a profissão.

 

“O contrabaixo fascinava-me e intrigava-me”

 

 

Desde cedo, a música fez parte do universo de Vera Pereira, sobretudo pela influência do seu pai, que tocava bateria quando era jovem e tinha um sentido rítmico excecional: “Lembro-me de, em criança, o ver constantemente a inventar ritmos e a usar panelas e talheres para fazer música.”

 

Começou a estudar órgão e piano aos seis anos de idade e só mais tarde, aos 12 anos, é que mudou para contrabaixo: “O contrabaixo fascinava-me e intrigava-me. O seu som grave e o tamanho do instrumento despertaram em mim uma enorme curiosidade, e decidi segui-la”.

 

 

Chefe de Naipe na orquestra do Birmingham Royal Ballet

 

 

A mudança para Londres, em 2010, marcou um ponto decisivo no seu percurso. Admitida na Royal Academy of Music com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, Vera Pereira mergulhou num contexto altamente exigente e competitivo.

 

No final do mestrado, em 2012, optou por permanecer na cidade, apesar das dificuldades iniciais. “No início, foi uma decisão difícil. Londres é um sítio extremamente caro e a minha família estava toda em Portugal”, explica. Ainda assim, a sua persistência trouxe resultados- dois anos mais tarde, conquistou o lugar de chefe de naipe na orquestra do Birmingham Royal Ballet, posição que ocupa desde 2014.

 

 

“o mais importante é contribuir para a um ambiente de trabalho positivo, estimulante e humano”

 

 

A experiência como chefe de naipe tem sido central no desenvolvimento da sua identidade profissional. Mais do que uma função de liderança musical, Vera Pereira descreve este papel como um exercício constante de equilíbrio humano. “Liderar uma secção envolve muito mais que tomar decisões musicais. Implica desenvolver e cultivar boas relações com os colegas da orquestra, manter uma comunicação aberta e amigável, e mostrar um cuidado contínuo com as diferentes personalidades dentro do naipe”, sublinha.

 

Para si, o objetivo é claro: “o mais importante é contribuir para a um ambiente de trabalho positivo, estimulante e humano, onde as pessoas gostem de estar e se sintam à vontade para expressar a sua voz musical”.

 

 

“Gostei sempre, e continuarei a gostar, do repertório de ballet”

 

 

O contexto de uma orquestra de ballet acrescenta desafios específicos à prática orquestral. Ao contrário do repertório sinfónico tradicional, o trabalho com dança exige uma flexibilidade constante: “Por vezes, os tempos mudam radicalmente de concerto para concerto, porque os bailarinos são diferentes e têm preferências distintas”.

 

Além disso, limitações logísticas frequentemente obrigam a trabalhar com formações reduzidas em obras que, originalmente, requereriam uma orquestra de maiores dimensões.

 

Ainda assim, Vera Pereira mantém uma ligação profunda com este universo: “Gostei sempre, e continuarei a gostar, do repertório de ballet e de trabalhar numa orquestra desta natureza”.

 

A par da sua posição no Birmingham Royal Ballet, a contrabaixista mantém também uma atividade regular como freelancer, colaborando com outras orquestras e explorando diferentes contextos musicais, tornando a sua vida profissional “mais rica, interessante e diversificada”.

 

 

Do Limite à Transformação

 

 

Paralelamente ao seu percurso artístico, a dimensão física da prática instrumental tornou-se uma preocupação central. Ao longo dos anos, enfrentou diversas lesões e dores associadas às exigências do contrabaixo. “O meu corpo não estava preparado para o número de horas que eu passava com o contrabaixo. A falta de força física, aliada a uma postura pouco favorável, levou-me a um ponto em que a dor era tão intensa e a lesão tão séria que tive de parar de tocar durante alguns meses”, revela.

 

Durante esse período particularmente difícil, tentou vários métodos de recuperação e tratamento, como acupuntura, ginásio e fisioterapia. Mas foi no yoga que encontrou resultados: “A minha resistência e flexibilidade aumentaram, a minha postura melhorou, e no fundo tornei-me fisicamente mais forte”.

 

 

“se nos focarmos mais na prevenção do que apenas no tratamento, teremos melhores condições para crescer como músicos de forma saudável e sustentável”

 

 

Este processo levou-a a aprofundar o estudo do corpo e a formação como professora de yoga, com um foco particular nas necessidades dos músicos. “Acredito que, se nos focarmos mais na prevenção do que apenas no tratamento, teremos melhores condições para crescer como músicos de forma saudável e sustentável”, defende.

 

Hoje, desenvolve um trabalho pedagógico junto de colegas e alunos, promovendo uma abordagem preventiva às lesões: “Se passarmos tantas horas a fechar o corpo sobre o instrumento, então precisamos também de o abrir, alongar e reequilibrar.”

 

“Grande parte do nosso tempo, enquanto instrumentistas, é passado com os ombros projetados para a frente, quase como se estivéssemos a abraçar o nosso instrumento. Também passamos bastante tempo sentados em contexto de orquestra, por vezes com o pescoço ligeiramente torcido ou a com a coluna desalinhada”, aponta. Por isso, o que o corpo precisa é do movimento oposto.

 

 

“concentrar-me na respiração ajuda-me a controlar melhor os nervos antes e durante os concertos”

 

 

Para além dos benefícios físicos, destaca ainda a importância do yoga para a respiração no controlo do stress em contexto de performance, “com objetivos que podem ir desde o acalmar do sistema nervoso até à revitalização do corpo e da mente”.

 

“Pessoalmente, concentrar-me na respiração ajuda-me a controlar melhor os nervos antes e durante os concertos, e sinto que isso me permite também, oxigenar o cérebro de forma mais eficaz. Posso dizer, com toda a confiança, que o yoga salvou a minha carreira!”, confessa.

 

 

“tenho o privilégio de tocar em orquestra e de partilhar momentos musicais tão especiais”

 

 

A sua mensagem para as gerações mais jovens reflete essa consciência integrada da prática musical: “cultivem a vossa paixão com dedicação, consistência, amor e persistência, mas façam-no sempre com respeito pelo vosso corpo e ouvindo aos vossos limites”.

 

Atualmente, Vera Pereira continua a conciliar a atividade orquestral com o aprofundamento do seu trabalho no campo do yoga e do bem-estar físico. Entre ensaios, concertos e ensino, mantém uma relação viva e entusiástica com a música: “Continuo a sentir uma enorme alegria todos os dias que tenho o privilégio de tocar em orquestra e de partilhar momentos musicais tão especiais, que acabam sempre por me deixar com um sorriso no rosto”.

 

Fotos: The Finest Light

 

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