Em Orquestra - Duarte Moreira

“A manutenção de um desempenho consistente é, para mim, uma das maiores dificuldades”

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Sandra Bastos

  • Duarte Moreira
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Enquanto Solista A da Orquestra Gulbenkian, Duarte Moreira vive diariamente as exigências inerentes ao trabalho em orquestra. Nesta partilha com a Da Capo, fala-nos do dia-a-dia de um músico, da responsabilidade e da preparação constante. Sublinha ainda a importância do trabalho em equipa e de um bom ambiente entre os músicos como fatores determinantes para o sucesso artístico.

 

 

Do saxofone à experiência reveladora em Berlim

 

A trompa surgir na vida de Duarte Moreira de forma inesperada. Tinha começado a estudar saxofone na Banda Musical de Paços de Ferreira, quando ao concorrer para a ARTAVE percebeu que, na época, não existia aquele instrumento no seu plano de estudos. Assim, foi obrigado a escolher outro instrumento. Perdeu-se um saxofonista, mas ganhou-se um novo trompista!

 

Após concluir o ensino secundário na ARTAVE, prosseguiu a sua formação na ESMAE, no Porto, e mais tarde, “uma nova realidade artística fora de Portugal”, levou-o até Berlim, para estudar com Marie-Luise Neunecker. “Revelou-se uma experiência profundamente enriquecedora, tanto no domínio técnico e musical como pela imersão numa cidade de extraordinária vitalidade cultural”, explica.

 

 

“As rejeições fazem parte do processo e devem ser encaradas como oportunidades de crescimento e de construção do nosso próprio caminho”

 

Ao longo do seu percurso, enfrentou mais momentos de frustração do que de triunfo — uma realidade que encara com naturalidade: “Todos aspiramos a uma execução tecnicamente impecável, mas é importante aceitar a dimensão humana da performance”.

 

Uma frase transmitida pelo seu professor tornou-se um princípio orientador, que hoje procura também passar aos seus alunos - Só falha quem toca: “Esta máxima ajudou-me a encarar o erro de forma mais natural e a valorizar a experiência musical como um todo”.

 

 

“A manutenção de um desempenho consistente é, para mim, uma das maiores dificuldades”

 

O quotidiano de um músico de orquestra é, segundo Duarte, exigente, mas simultaneamente estimulante, já que cada semana traz novos desafios e repertórios: “Sinto-me verdadeiramente afortunado por exercer uma profissão que se renova constantemente, permitindo-me evitar a rotina e a monotonia tão características de muitas outras atividades profissionais”

 

Não obstante a rotina surpreendente, tocar em orquestra exige um elevado sentido de responsabilidade e uma preparação exigente: “É necessário estar permanentemente preparado para enfrentar os desafios técnicos e interpretativos das obras, o que nem sempre é fácil. A manutenção de um desempenho consistente é, para mim, uma das maiores dificuldades”.

 

No trabalho em orquestra, valoriza, acima de tudo, “a existência de um bom ambiente e de um espírito de camaradagem”, que fará a diferença no desempenho coletivo. Defende que “o naipe deve funcionar como uma verdadeira equipa, em que todos se apoiam e contribuem para o resultado artístico comum”.

 

 

“as trompas são a alma da orquestra”

 

Identifica-se com a visão de Schumann, que afirmou que “as trompas são a alma da orquestra”. Além de ser “um instrumento de grande versatilidade e integração, dialogando harmoniosamente com todas as secções da orquestra — cordas, madeiras e metais”, a trompa possui um timbre que lhe permite “transitar entre passagens vigorosas e expressivas e momentos de delicadeza e lirismo”.

 

Entre os compositores que mais entusiasmo lhe despertam, destacam-se Richard Strauss, Gustav Mahler, Anton Bruckner e Johannes Brahms, cujas obras atribuem à trompa um papel de grande destaque. Interpretar peças como Eine Alpensinfonie, Ein Heldenleben, a 4.ª Sinfonia de Bruckner ou as 3.ª e 5.ª Sinfonias de Mahler representou a concretização de sonhos que alimentava desde cedo.

 

 

“alguns alunos não demonstram a curiosidade e a proatividade necessárias para evoluir”

 

A par do seu trabalho como Solista A da Orquestra Gulbenkian, Duarte Moreira é professor na Academia Nacional Superior de Orquestra. Procura transmitir aos seus alunos que “o sucesso, em qualquer área, depende essencialmente do esforço, da perseverança e do foco”.

 

Aconselha-os a “participar em projetos, a integrar orquestras jovens e a frequentar masterclasses”, por serem “experiências indispensáveis para o crescimento artístico”.

 

“Lamento, por vezes, verificar que alguns alunos não demonstram a curiosidade e a proatividade necessárias para evoluir e procurar novas oportunidades”, confessa.

 

 

O nosso país tem um enorme potencial artístico”

 

Por outro lado, as oportunidades em Portugal podiam ser mais e melhores: “O nosso país tem um enorme potencial artístico, e é lamentável que nem sempre existam condições compatíveis com o talento disponível”.

 

Considera-se, assim, um privilegiado por poder fazer da música a sua profissão em Portugal e pensa, inclusive, em gravar um CD.

 

 

“Lutem, sejam resilientes e procurem ativamente as vossas oportunidades”

 

Às novas gerações de músicos deixa uma mensagem de esperança e coragem: “Não desistam perante a primeira dificuldade. Lutem, sejam resilientes e procurem ativamente as vossas oportunidades. Ouçam música de diferentes estilos, toquem para outros músicos — mesmo que não sejam trompistas — e cultivem a paixão pela arte. Só assim será possível alcançar o sonho de trabalhar numa orquestra e viver plenamente da música”.

 

 

 

 

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