Crítica Musical

Beethoven: Cello Sonatas & Variations

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Nuno Jacinto

  • Beethoven: Cello Sonatas & Variations

A indústria discográfica dentro da dita música erudita – pérfida etiqueta, prefiro música do legado europeu ocidental - já viveu tempos áureos de produção e captação de público melómano que desde a sua génese, dedicou-se a gravar durante largas décadas, a inspiração localizada no tempo de diferentes intérpretes, personalidades que na visão das editoras, seriam o zenith do melhor que se fazia no seu tempo. Desta forma, promoviam estes intérpretes de enorme qualidade na sua chancela ao mesmo tempo que criavam um catálogo de invejável preciosidade para aos mais ávidos coleccionadores de registos físicos. Nos últimos tempos, este modus vivendi da indústria mudou consideravelmente, não só pelas plataformas digitais que não proporcionam fidelidade (apenas frequência), mas também pela dispersão da atenção em factores bastantes afastados da qualidade inerente à interpretação musical. Todavia, a captação sonora por todas estas razões teve um enorme embalo evolutivo, preocupando-se em captar ao mais ínfimo pormenor, a visão do intérprete com especial apreço pelo repertório canónico austro-germânico, embora com honrosas excepções ao repertório francês.


No registo discográfico do cânone, Beethoven é sem dúvida, o campeão de vendas – tanto no campo discográfico como na venda de concertos – e é a escolha predilecta dos intérpretes sob contrato com editoras discográficas, dos mais variados instrumentos e formações camerísticas. Tal não se deve apenas à genialidade do mestre de Bona mas também à presença inegável do seu repertório em qualquer formação musical de um aspirante a música, seja ele amador ou profissional. Beethoven é, tão somente, a linha transversal que sustenta todo este nosso legado da música europeia, a figura de proa de qualquer carreira minimamente ambiciosa. É de tal forma omnipresente, que não tê-lo seria um acto de tal rebeldia que a ninguém no meio musical o perdoaria – à excepção de artistas que pelo seu instrumento, Beethoven não se encaixaria historicamente ou naturalmente. E mesmo assim... No outro lado da moeda, tocar Beethoven implica arcar com a gravitas imensa da sua importância histórica e ao mesmo tempo sofrer os inevitáveis julgamentos de comparação de interpretações: efectuar uma gravação de obras de Beethoven é saber que, à priori, esta será comparada sem dó nem piedade a outras milhentas gravações, desde as mais célebres às mais obscuras. Isto é por si, um enorme obstáculo mental.

 

Neste enquadramento, só se pode de algum modo parabentear a audácia do lançamento no mercado do disco “Beethoven – Cello Sonatas & Variations” (Artway Records), com o violoncelista Filipe Quaresma e o pianista António Rosado. Neste trabalho discográfico estão reunidas as últimas duas sonatas para Violoncelo e Piano (op. 102) e as Sete Variações sobre “Bei Männern, Welche Liebe Fühlen” WoO 46 (Pelos homens que conhecem o Amor).


E é com esta última obra que começamos a nossa viagem neste disco repleto de agradáveis confirmações: as Sete Variações aqui apresentadas são um digno exemplar desta estrutura que Beethoven era magistral e sobejamente conhecido no seu tempo – o mestre de Bona era reconhecido pelas suas capacidades extraordinárias de improvisação e variação temática, apenas rivalizadas pelo seu irrascível temperamento. O tema original é de Mozart e da sua ópera Flauta Mágica”, num belo dueto ente Pamina e Papageno de elevação do amor matrimonial. Esta personificação dupla transparece-se logo no primeiro andamento (Tema), com a melodia principal repartida por Beethoven entre os dois instrumentos. Filipe Quaresma e António Rosado dão-nos a agradável sensação de cumplicidade plena e conforto nesta posição de igualdade não muito comum encontrarmos nesta formação camerística. As variações curtas que seguem só aprofundam esta sensação, transformando-a num verdadeiro usufruto da riqueza musical que o jovem Beethoven nos legou: destaque-se os andamentos mais lentos como as variações n.º 4 e 6. No primeiro exemplo logo de início, a execução tocante e magistral da melodia por António Rosado e a resposta rouca e quente de Quaresma nos graves do seu instrumento; no segundo exemplo a inebriante vocalização do violoncelo, numa escolha calibrada e pensada da velocidade de vibrato e da qualidade tímbrica da corda aguda. Mais pormenores de nota artística encontramos na variação n.º 2 com a fulgorosa entrada de António Rosado, com uma destreza límpida e rigorosa do estilo clássico beethoveniano, lembrando-nos que apesar deste pianista português ter um percurso principalmente marcado pela execução de repertório romântico e até moderno, o Beethoven inicial está perfeitamente calibrado nas suas mãos. Por fim, a última variação (n.º 7) é a epítome da qualidade destes dois executantes, que primam pela conjugação perfeita entre os papéis de protagonista e de acompanhador, revezando-se de modo contínuo e gradualmente excitante até os acordes finais.


Visitar as Sonatas para Violoncelo e Piano op.102 são sempre um acto de fidúcia: obras inaugurais da última fase criativa do mestre de Bona, que embora não fosse a mais prolífica de um criador já consagrado, é sim um patamar inegável de profundidade estilística e refinamento onde o compositor nos lega as chaves da música para o futuro: a quebra das estruturas formais clássicas em favor da profundidade de um contraponto propulsor e de uma nova sintaxe musical que servirá de admiração e inspiração para os compositores conseguintes.


A Sonata n.º 4 (op.102 n.º1) é por si, um exemplo singular de mestria de Beethoven da exploração das fronteiras da sonata (é afinal, segundo o autor, uma “sonata livre”!), exploração essa plenamente consciencializada por Filipe Quaresma & António Rosado nesta gravação: o curto primeiro andamento é executado por uma solenidade tocante, como é claro na primeira intervenção do violoncelo, sem vibrato e de um só movimento. Todo o andamento levita-nos em humildade de toque, em sensibilidade etérea no arco e nas teclas. O lento terceiro andamento, cuja a conexão temática com o primeiro andamento é umbilical, Filipe Quaresma e António Rosado transportam-nos desta vez a uma catedral cintilante de luzes vitrais, onde cada diálogo canónico entre os dois instrumentos invocam um saudosismo de algo perdido em memórias irrecuperáveis. A beleza de execução destes andamentos são razões mais que suficientes para ouvir este trabalho discográfico. O quarto andamento, com as suas agitações contrapontísticas, ainda recorre ao sentimento de saudade e de arcaísmo, pois Beethoven propositadamente coloca o violoncelo na lembrança do seu antigo papel de baixo contínuo, ao colocar num inesperado volta-face, o instrumento a executar simples quintas graves em bordão, momento delicioso que Filipe Quaresma não desilude: os seus dotes ao instrumento e conhecimento abrangente da música antiga, focaliza-nos nesta sensação de arcaísmo mas sem exageros, comprovativo da qualidade superlativa e singularidade interpretativa deste disco na execução das obras cimeiras de Beethoven para o violoncelo.


A Sonata n.º 5 (op.102 n.º 2) é por sua vez, uma pérola seminal da fase derradeira de Beethoven, pois apresenta nesta sonata dois andamentos raros e preciosos, gemas de inalcançável refinamento discursivo, o auge de uma mente plenamente submergida nos filamentos mais recônditos e profundos da arte musical. O primeiro exemplo é o andamento mais longo, um inaudito segundo andamento lento, em estilo de variação, onde o violoncelo lidera um ambiente grave e pesaroso. A execução aqui é magistral, principalmente da parte de António Rosado: embora na penumbra, o pianista inaugura a cada frase um novo esplendor dramático, que se adensa com a destreza melódica da mão direita, com agilidade e a força comedida de cada toque, de cada movimento. A secção intermédia em estilo de coral onde o violoncelo pauta-se por pequenas interjeições gesturais no final de cada frase do piano é um momento onde António Rosado, hélas, confirma-se num dos mais fascinantes pianistas concertistas portugueses a se destacarem em igual patamar na música de câmara. Ah, o diabólico terceiro andamento é o nosso segundo exemplo de um andamento tão visionário como incompreendido no seu tempo (que o diga Schiller, amigo de Beethoven) e que resplandece sob matizes velozes e virtuosas: uma fuga plena e rápida, repartida por entre os instrumentos e que apesar de curta, domina todo o nosso espírito pela sua energia contagiante, apenas quebrada por um breve momento de fôlego! Porém, a gravação deste disco é uma surpreendente revelação: numa execução conscientemente contida e controlada – quase ao metrónomo! – Filipe Quaresma conduz-nos numa espiral continuada e gradualmente intensa de execução desta, onde António Rosado só vem ampliar esta sensação de aperto, de exclamação, de grito de libertação que acontece - por fim! - no final do andamento. Empolgante!

 

Muitas mais palavras poder-se-iam a acrescentar a este trabalho discográfico, mas a indiscutível qualidade artística de Filipe Quaresma & António Rosado aqui patente, como a cumplicidade camerística e refinamento pormenorizados de ambos nos momentos-chaves deste repertório do mestre de Bona, só podiam resultar numa fácil recomendação a qualquer melómano ou interessado na música europeia ocidental que é nosso legado. Em acréscimo e não de somenos importância, o simples atrevimento de colocar na eternidade, um registo fonográfico com obras já tão interpretadas, analisadas e aprofundadas, só confirma que o meio musical português é capaz de produzir grandes e intrépidas figuras, apesar da costumeira indiferença das entidades estatais. Como respondia Beethoven perante a incompreensão do seu amigo Schiller à fuga do último andamento da Sonata n.º 5... “isso virá”!

 

 

O autor não reconhece o Acordo Ortográfico de 1990.

 

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