ClandesTrio apresenta o disco ContraFolk

“queremos afirmar-nos convictamente, contrastando com o expectável com uma certa ousadia”

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Sandra Bastos

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Formado em 2022 na Academia Nacional Superior de Orquestra, o ClandesTrio é constituído por Guilherme Duque (clarinete), Leonardo Guedes (violino) e Duarte Bento (piano). Um ano depois, ganhou o Prémio Jovens Músicos em Música da Câmara e a oportunidade de gravar o seu primeiro disco – ContraFolk, em colaboração com a Fundação GDA.

 

 

“ContraFolk representa para nós um ponto de partida, uma apresentação da nossa identidade musical ao mundo”

 

 

Desde que começaram os ensaios, Guilherme, Leonardo e Duarte desenvolveram uma ligação musical muito forte, a par da vontade de explorar um repertório ainda pouco difundido e construir uma identidade própria. Ao vencerem o Prémio Jovens Músicos (PJM) consolidaram o papel do ClandesTrio: “esse reconhecimento também reafirmou a nossa determinação para continuarmos a fazer música juntos, confiando que teríamos muito mais para dar no futuro”.

 

Além da valorização, o PJM abriu mais portas e trouxe “diversas oportunidades profissionais”, entre elas a gravação do primeiro disco - ContraFolk, com o apoio da Fundação GDA. ContraFolk representa para nós um ponto de partida, uma apresentação da nossa identidade musical ao mundo”, explicam.

 

 

uma certa vontade de “fugir à norma”

 

 

Ao longo de todo o processo de criação e concepção do álbum, tiveram de tomar decisões, sobretudo em relação à escolha do repertório: “Em todas estas e outras “camadas” do CD, deixamos explícita a nossa personalidade e cunho pessoal e coletivo, marcado por uma certa vontade de “fugir à norma”. É desse modo que vemos ContraFolk - um projeto em que, de um ponto de vista moderno, influenciado pela nossa visão e identidade artísticas, olhamos para a tradição e legado que nos antecedem e os perpetuamos com a nossa voz”.

 

O título do disco revela a sua tensão central: “O nome ContraFolk junta o termo “Folk", que remete para o folclore e música tradicional, com a palavra “Contra”, que, além de estabelecer uma ligação com a obra Contrasts de B. Bartók, está associada a um duplo sentido”.

 

O resultado é um programa com duplo sentido, com duas premissas que se complementam ao longo da sua escuta: “Por um lado, a atenção do ouvinte é direcionada para manifestações de inspiração folclórica e popular na música. Por outro, pretendemos expressar essas influências de um modo que revele a frescura e espontaneidade de quem tenta absorver e entender o seu legado, mas romper com a tradição e reinventar-se”.

 

 

Obras de Béla Bartók, Aram Khachaturian, Paul Schoenfield e Sara Ross

 

 

O repertório cruza geografias e épocas, desde Béla Bartók e Aram Khachaturian até Paul Schoenfield e Sara Ross. Apesar das diferenças, há um fio condutor evidente: todos dialogam com materiais de raiz popular — sejam danças húngaras, melodias caucasianas, tradições klezmer ou paisagens sonoras mais abstratas.

 

“A escolha de Contrasts de Béla Bartók e do Trio de Aram Khachaturian, deveu-se essencialmente a estes serem pilares incontornáveis do repertório para a nossa formação, e que afirmam com clareza a relevância da música popular na criação de uma linguagem moderna”, afirmam.

 

“A obra de Paul Schoenfield é talvez a mais próxima da nossa identidade artística, e é, por isso, profundamente pessoal para nós. Nela, encontramos a liberdade para nos expressarmos com intensidade e uma certa irreverência. Já Música Possível, de Sara Ross, é o nosso gesto de abertura à criação portuguesa contemporânea”, acrescentam.

 

 

“queremos afirmar-nos convictamente, contrastando com o expectável com uma certa ousadia”

 

 

No centro do disco está Contrasts de Béla Bartók — uma obra que funciona como verdadeiro manifesto do trio: “Como o seu próprio nome indica, esta peça está cheia de contrastes de ambientes, sonoridades e emoções que evocam uma grande diversidade de imagens e conceitos”.

 

Não só pela sua relevância histórica, mas também porque espelha a própria identidade do ClandesTrio: “À sua imagem, queremos afirmar-nos convictamente, contrastando com o expectável com uma certa ousadia”.

 

 

Os desafios de Schoenfield e Khachaturian

 

 

Essa ideia de contraste prolonga-se no confronto entre obras. Schoenfield desafia os intérpretes a entrar num universo híbrido, podendo ser música clássica contemporânea ou música Klezmer. “Esta obra apresenta desafios interpretativos mais do que meramente técnicos. No entanto, as dificuldades técnicas são inegáveis, seja pela complexidade do texto musical invulgar do violino e do piano, seja pela variedade de efeitos que caracterizam a utilização do clarinete na música Klezmer (não necessariamente especificados pelo compositor)”, sublinham.

 

Por outro lado, a obra de Khachaturian exige uma simplicidade quase ilusória: “não pretende chamar a atenção pelo virtuosismo e complexidade, mas sim pela simplicidade e naturalidade. Os momentos que são de facto virtuosísticos na sua escrita, devem ainda assim soar singelos, como canções populares”.

 

 

Música Possível de Sara Ross

 

 

Música Possível de Sara Ross foi escrita para o trio e estreada na Casa da Música, foi planeada como “indispensável” para este disco, por isso os contactos com a compositora foram fundamentais para apontar um caminho para o Folk, mas sem limitar a sua liberdade criativa.

 

“Felizmente, ela foi bastante recetiva à ideia e criou uma obra que nos agradou em todos os aspetos”, contam. Depois, o trabalho conjunto permitiu ajustar pormenores e, na fase final, a sua presença ajudou o ClandesTrio “a melhorar a interpretação a cada instante”: “Foi um processo muito enriquecedor e, por isso, agradecemos imenso à Sara pela sua disponibilidade e pela sua música”.

 

 

O lançamento de ContraFolk no Artway Showcase

 

 

O lançamento de ContraFolk no Artway Showcase, na ESMAE, teve um significado especial para o ClandesTrio, não só pelo apoio à produção do disco, mas também pelo contexto de acompanhamento e valorização de jovens músicos.

 

O trio destaca o papel da Artway ao longo de todo o processo, sublinhando o impacto deste tipo de iniciativas no panorama musical português: “destacamos, em especial, o apoio prestado durante todo este processo pela Vanessa Pires, a quem temos muito a agradecer”.

 

 

“queremos motivar a expansão do repertório para esta formação, em especial da parte de compositores portugueses”

 

 

O ClandesTrio considera a criação contemporânea portuguesa um eixo central do seu percurso. Conscientes de que a sua formação — violino, clarinete e piano — possui um repertório historicamente mais recente, os músicos assumem como missão contribuir ativamente para a sua expansão, com especial atenção à produção nacional.

 

“O nosso agrupamento de música de câmara é uma formação para a qual a maior parte do repertório é algo “recente” na linha temporal da história da música. Como tal, queremos motivar a expansão do repertório para esta formação, em especial da parte de compositores portugueses”, destacam.

 

Ao longo do seu percurso, têm vindo a integrar obras de outros compositores como Sérgio Azevedo e Luís Tinoco: “No futuro, quer a curto quer a longo prazo, almejamos continuar a estrear mais obras de compositores portugueses e apoiá-los a dar vida à sua visão criativa”

 

 

“damos bastante espaço criativo a cada um, nos ensaios e concertos, para explorar a expressão individual”

 

 

No ClandesTrio, o equilíbrio entre os três instrumentos constrói-se a partir de um processo contínuo de escuta e discussão: “Como a prioridade é sempre vermos cada momento musical sob o olhar artístico e o impacto no ouvinte, identificamos prontamente o carácter que pretendemos expressar e as funções que cada um desempenha para o moldar”. Assim, “o equilíbrio sonoro torna-se mais intuitivo e imediato”.

 

No mesmo sentido, focam-se “na visão geral do andamento” e tentam “dar-lhe corpo no seu todo”. A partir desta base, a liberdade criativa tem espaço para comandar: “damos bastante espaço criativo a cada um, nos ensaios e concertos, para explorar a expressão individual, e é na reação às sugestões musicais do momento que temos a chave de ouro do nosso processo de trabalho”.

 

 

O privilégio da Música da Câmara “pela liberdade que cada músico e o coletivo possuem para a experimentação, comunicação e exploração técnica e musical”

 

 

A própria música de câmara é um espaço privilegiado para a criação contemporânea, “pela liberdade que cada músico e o coletivo possuem para a experimentação, comunicação e exploração técnica e musical”. Com efeito, defendem que é neste contexto que os compositores encontram “uma riqueza tímbrica impossível de atingir apenas com um instrumento”. 

 

Ao mesmo tempo, esta formação permite aos compositores encontrar um equilíbrio entre a riqueza tímbrica de um conjunto instrumental e a viabilidade prática da sua execução: “acreditamos que é na música de câmara que os compositores podem encontrar um equilíbrio ideal entre o desejo de compor para um agrupamento de instrumentos e exequibilidade logística de performance”.  Se, por um lado, escrever para vários instrumentos amplia as possibilidades sonoras, por outro, formações maiores, como a orquestra, implicam desafios logísticos mais complexos. “No âmbito da música de câmara, acreditamos que se encontra um meio-termo que oferece uma solução interessante para estas duas questões”, acrescentam.

 

 

“quando temos a oportunidade de trabalhar juntos de novo, notamos que voltamos mais ricos, trazendo uma maturidade musical diferente”

 

 

A experiência internacional tem tido um impacto claro no trabalho do ClandesTrio, ainda que traga alguns desafios. A distância entre os três músicos torna mais difícil a regularidade dos ensaios: “quando temos a oportunidade de trabalhar juntos de novo, notamos que voltamos mais ricos, trazendo uma maturidade musical diferente, novas ideias e ainda mais ambição de nos superarmos e elevarmos a nossa qualidade artística”.

 

E é precisamente este contacto com diferentes contextos que lhes traz uma maior consciência do lugar que ocupam enquanto músicos, mas com uma maior motivação: “De todos contextos académicos e culturais que nos têm influenciado, retemos na identidade do grupo a vontade de fazer música com dedicação, intensidade e acima de tudo, coragem para assumirmos a nossa posição e personalidade - a vontade de deixar uma marca”.

 

 

“Acreditamos que a nossa geração e as seguintes têm a missão de fazer crescer a proeminência da música de câmara no panorama musical português”

 

 

Olhando para o futuro, o ClandesTrio pretende alargar a agenda de concertos, tanto em Portugal como no estrangeiro, “com maior regularidade e continuidade”. Ao mesmo tempo, assume como prioridade a exploração do repertório para esta formação, com particular enfoque na estreia de novas obras de compositores portugueses.  

 

Quanto ao papel da sua geração, o trio acredita que há ainda um caminho importante a fazer: “Acreditamos que a nossa geração e as seguintes têm a missão de fazer crescer a proeminência da música de câmara no panorama musical português”.

 

Se, nas últimas décadas, o desenvolvimento do ensino artístico e das orquestras foi fundamental, hoje o desafio passa por reforçar a presença da música de câmara: “há ainda muito trabalho a ser desenvolvido na atividade camerística, tanto na sua difusão como na sua presença na programação cultural”.

 

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