Manuel Teles e Alexandra Tchernakova apresentam Stepdance

“um movimento contínuo de partilha, sem hierarquias rígidas, onde a música é o verdadeiro centro do diálogo”

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Sandra Bastos

O álbum Stepdance marca a estreia discográfica Manuel Teles (saxofone) e Alexandra Tchernakova (piano) como duo. Desde 2023, têm vindo a construir uma identidade artística própria no cruzamento entre diferentes universos musicais. Nascido em Milão, onde ambos vivem, o projeto reúne obras de Fazıl Say, Mário Laginha, António Victorino D’Almeida, Gavin Bryars e Chick Corea.

 

 

Obras de Fazıl Say, Mário Laginha, António Victorino D’Almeida, Gavin Bryars e Chick Corea

 

 

A colaboração entre Manuel Teles e Alexandra Tchernakova nasceu em Milão, cidade onde ambos vivem, depois de se conhecerem através de amigos em comum. Desde os primeiros encontros, estabeleceram “uma forte afinidade humana e musical” que rapidamente se transformou num projeto artístico consistente.

 

O duo foi consolidando o seu trabalho e desenvolvendo uma visão interpretativa própria sobre o repertório que apresentava em palco. Foi precisamente esse amadurecimento que levou à decisão de gravar um primeiro álbum. O convite do compositor e produtor britânico Gavin Bryars para editar o disco na sua editora, a histórica GB Records, foi o impulso decisivo para avançar com o projeto.

 

Stepdance reúne obras de compositores com quem os músicos mantêm uma relação próxima, refletindo colaborações e afinidades construídas ao longo dos últimos anos: “A escolha do repertório foi, por isso, um processo natural: são estas pessoas e estas trocas criativas que ajudaram a moldar a nossa identidade estética enquanto duo”.

 

Nessas colaborações, destacam-se os compositores Fazıl Say, Mário Laginha, António Victorino D’Almeida e o próprio Gavin Bryars, cujas obras foram trabalhadas em diálogo direto com os intérpretes. A estes junta-se a presença de Chick Corea, cuja música marcou profundamente gerações de músicos e que surge no disco com a peça Florida to Tokyo.

 

 

“acreditamos que o papel do intérprete passa precisamente por ser um ponto de contacto entre diferentes universos estéticos, criando pontes em vez de fronteiras”

 

 

O resultado é um programa que atravessa diferentes geografias e linguagens musicais: “Temos percursos, referências e influências bastante distintas que, ao cruzarem-se, acabam por se equilibrar e enriquecer mutuamente”.

 

Entre música clássica contemporânea, jazz fusion, minimalismo e tradições reinventadas, o disco resiste deliberadamente a classificações rígidas. “Mais do que seguir um estilo específico, interessou-nos a honestidade da música. Num mundo marcado por influências cruzadas, acreditamos que o papel do intérprete passa precisamente por ser um ponto de contacto entre diferentes universos estéticos, criando pontes em vez de fronteiras”, explica Manuel Teles.

 

 

“dar voz a uma bagagem artística diversa”

 

 

Manuel Teles e Alexandra Tchernakova assumem-se como músicos de formação clássica, mas “profundamente atentos a outras linguagens e práticas musicais”, ou seja, como “músicos do hoje”, que exploram as “enormes possibilidades tímbricas e expressivas” dos seus instrumentos.

 

“A música que tocamos resulta de uma procura por algo que nos represente plenamente e que nos permita dar voz a uma bagagem artística diversa. O repertório contemporâneo oferece-nos essa liberdade”, sublinham.

 

 

“uma margem extraordinária para reinventar, questionar e propor novas leituras”

 

 

Essa abordagem é particularmente natural no caso do saxofone, instrumento cuja história está fortemente ligada à música dos séculos XX e XXI: “Ao contrário de instrumentos com um peso histórico muito codificado, o saxofone trabalha maioritariamente com música escrita nas últimas décadas, o que nos dá uma margem extraordinária para reinventar, questionar e propor novas leituras”.

 

Em Stepdance, o saxofone e o piano funcionam como duas vozes em permanente conversa. O saxofone assume frequentemente um papel quase vocal, enquanto o piano responde, comenta e expande o discurso musical e “dessa interação nasce uma conversa viva, simultaneamente íntima e expansiva”.

 

A improvisação surge como uma corrente subterrânea que atravessa o repertório, “nem sempre explícita, mas presente como instinto comum”, trazendo “abertura, risco e liberdade”, sem comprometer a identidade do duo: “O resultado é um programa que resiste a categorizações fáceis e alarga os limites do que habitualmente se escuta nos duos com os mesmos instrumentos”. 

 

 

“um movimento contínuo de partilha, sem hierarquias rígidas, onde a música é o verdadeiro centro do diálogo”

 

 

O título do álbum, Stepdance, funciona como metáfora para todo o projeto. A palavra remete diretamente para a última faixa do disco, correspondente ao terceiro andamento da obra Prelúdio, Nocturno e Stepdance op. 188, de António Victorino D’Almeida, inspirada na figura do bailarino Fred Astaire.

 

A ideia de movimento presente nesta peça serviu-nos como metáfora para todo o projeto. Stepdance representa um “passo de dança” simbólico entre quem escreve, quem interpreta e quem escuta: um movimento contínuo de partilha, sem hierarquias rígidas, onde a música é o verdadeiro centro do diálogo”, explicam.

 

 

“Queremos contribuir para quebrar a distância simbólica entre palco e público e afastar a imagem do músico inacessível”

 

 

Um dos objetivos centrais do álbum é aproximar o público da música contemporânea: “Acreditamos que este repertório tem muito mais pontos de contacto com o quotidiano do que muitas vezes se imagina. Queremos contribuir para quebrar a distância simbólica entre palco e público e afastar a imagem do músico inacessível”.

 

O duo acredita que o disco tem potencial para dialogar com ouvintes provenientes de diferentes universos musicais, sem abdicar da exigência artística: “Não houve qualquer intenção de simplificar ou tornar a música mais “fácil”; ela mantém-se íntegra, mas bebe de múltiplas influências, o que naturalmente alarga o espectro de públicos a que pode chegar”.

 

 

O processo de gravação entre Bayreuth e Gloucestershire

 

 

O processo de gravação do álbum teve lugar em Bayreuth, na Alemanha, cidade emblemática da tradição musical europeia. O duo foi convidado pela histórica marca de pianos Steingraeber, que disponibilizou um instrumento escolhido pela Alexandra especialmente para a gravação.

 

O trabalho técnico esteve a cargo de Louis McGuire, responsável pela captação, pós-produção e masterização do disco, incluindo uma versão em Dolby Atmos destinada a proporcionar uma experiência sonora particularmente imersiva.

 

Antes das sessões de estúdio, os músicos passaram vários dias isolados numa fazenda em Gloucestershire, onde trabalharam intensivamente com Gavin Bryars: “Essa preparação permitiu que o processo de gravação fosse particularmente fluido”.

 

 

“Stepdance não como folclore ou virtuosismo, mas como articulação do tempo através do gesto e do espaço entre os gestos”

 

 

Editado pela GB Records, editora fundada pelo compositor e produtor britânico Gavin Bryars, com distribuição física e digital internacional, Stepdance representa também um passo importante na projeção do duo além-fronteiras: Saber que este trabalho pode ser ouvido em qualquer parte do mundo dá um sentido muito claro ao esforço investido e reforça a dimensão comunicativa da música que fazemos”.

 

Se fosse preciso resumir Stepdance numa imagem, Manuel Teles escolhe a vista aérea de uma praia da Costa Vicentina: “ali perto do Vale dos Homens - zona que faz parte da minha vida, marcada por pegadas que se cruzam, se aproximam e se afastam”.

 

“Não há uma direção única, mas há coerência. Cada marca resulta de uma decisão, de escuta e de risco. Stepdance não como folclore ou virtuosismo, mas como articulação do tempo através do gesto e do espaço entre os gestos. É aí que o nosso discurso se constrói”, acrescenta.

 

 

“Esperamos que cada pessoa construa a sua própria narrativa, sem necessidade de uma sinopse prévia”

 

 

Para quem vai descobrir Stepdance pela primeira vez, os intérpretes sugerem ouvir o álbum como uma verdadeira viagem sonora: “começa com uma melodia de Mário Laginha, passa por momentos de grande lirismo, ritmo e tensão, e termina com um gesto quase eruptivo de António Victorino D’Almeida”.

 

“Esperamos que cada pessoa construa a sua própria narrativa, sem necessidade de uma sinopse prévia. A partir do momento em que é escutada, esta música deixa de nos pertencer e passa a ser de quem a ouve”, acrescentam.

 

 

“Temos muitas ideias e uma forte vontade de aprofundar esta identidade artística”

 

 

Depois deste primeiro álbum, o duo pretende continuar a desenvolver repertório em colaboração com compositores vivos e a explorar novas possibilidades para a formação de saxofone e piano: “Temos muitas ideias e uma forte vontade de aprofundar esta identidade artística”.

 

Para já, o foco está na apresentação do disco. Depois de concertos em Itália e no Reino Unido, “é muito provável que daí surjam novos projetos”, enquanto experimentam novo repertório.

 

 

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