João Barradas apresente novo disco - The Space Within

E se Mozart tivesse escrito para acordeão?

 — 

Sandra Bastos

  • João Barradas apresente novo disco - The Space Within
  • João Barradas apresente novo disco - The Space Within
  • João Barradas apresente novo disco - The Space Within
  • João Barradas apresente novo disco - The Space Within
  • João Barradas apresente novo disco - The Space Within

The Space Within é o novo disco de João Barradas, editado pela Artway Next e disponível em CD e nas plataformas digitais desde o final de março. Gravado na Kulturkirche Altona, em Hamburgo, o álbum foi gravado com a Hamburger Symphoniker, dirigida pelo maestro Sylvain Cambreling num programa que aproxima dois universos aparentemente distantes - Wolfgang Amadeus Mozart e Toshio Hosokawa. Entre a transparência clássica e a suspensão tímbrica da música contemporânea, o acordeão surge como ponto de ligação e voz central de um disco pensado ao detalhe, tanto na acústica como na respiração musical.

 

 

The Space Within entre Hosokawa e Mozart

 

O ponto de partida para The Space Within remonta ao primeiro encontro de João Barradas com a Hamburger Symphoniker e o maestro Sylvain Cambreling. A estreia dessa colaboração aconteceu com a interpretação de Voyage IV, de Toshio Hosokawa, uma obra que, até então, não tinha qualquer registo discográfico. Foi precisamente após esse primeiro concerto que começou a surgir a hipótese de gravar a peça e, mais tarde, de construir um álbum em torno desse encontro artístico. “Esse primeiro momento foi o embrião para que se começasse a pensar no “The Space Within”, isto já há uns anos”, explica João Barradas.

 

O título The Space Within nasce do espaço de tensão e aproximação entre dois universos musicais muito distintos: Toshio Hosokawa e Wolfgang Amadeus Mozart, A acústica reverberante da Kulturkirche Altona, em Hamburgo, tornou-se elemento central da interpretação, funcionando quase como uma extensão natural do acordeão, que serve de elo entre duas formas diferentes de pensar a orquestração.

 

 

E se Mozart tivesse escrito para acordeão?

 

A pergunta “e se Mozart tivesse escrito para acordeão?” acabou, aliás, por orientar grande parte da abordagem de Barradas ao disco. Mais do que reinventar Mozart, o objetivo passou por transportar a escrita original do compositor para o acordeão “da forma mais idiomática possível”. O músico sublinha que a transcrição do Concerto para Piano n.º 23 não implicou qualquer alteração estrutural ou conceptual da obra: “não existe um arranjo ou uma utilização esdrúxula do material do compositor”.

 

A escolha do Concerto n.º 23 surgiu de forma natural. considera-o uma das obras maiores da história da música europeia: “O seu segundo andamento é das coisas mais bonitas que conheço e ter a oportunidade de tocá-lo no acordeão era um acontecimento que eu queria que ficasse gravado, pois é das peças que mais gosto de ouvir em casa”.

 

Havia também uma intenção clara de criar contraste entre as duas obras que compõem o disco. Se, em Mozart, o diálogo entre solista e orquestra constrói-se de forma transparente e equilibrada”, em Voyage IV, de Toshio Hosokawa, “a sua orquestração é uma espécie de amplificação do material que acontece em simultâneo no instrumento solista”.

 

 

Hamburgo, a orquestra e o espaço do disco

 

A colaboração entre João Barradas e a Hamburger Symphoniker começou com a participação do músico português no festival de Martha Argerich, em Hamburgo. Depois desse concerto, o acordeonista recebeu o Prémio Sir Jeffrey Tate, atribuído pela orquestra e pelo respetivo júri, distinção que acabaria por abrir caminho à primeira colaboração com a formação alemã. “A partir daí foi um desenrolar de acontecimentos nos últimos anos até se pensar na gravação do disco”, acrescenta.

 

A escolha da Kulturkirche Altona, em Hamburgo, foi decisiva para o resultado final do disco. A reverberação natural da igreja foi pensada como parte integrante da própria interpretação, sobretudo no repertório de Mozart. Sem a possibilidade de recorrer a um pedal de sustain, como no piano, “a acústica natural e reverberante da igreja vem adocicar a articulação do acordeão e obviamente essa mesma acústica reverberante adapta-se na perfeição à estética de Voyage IV.

 

 

A cumplicidade musical com Sylvain Cambreling

 

Sylvain Cambreling, um dos maestros mais experientes da Europa, com um percurso ligado à música contemporânea e à ópera., foi determinante neste projeto. “Este programa assenta-lhe que nem uma luva, primeiro pois são inúmeras as vezes que já interpretou este mesmo concerto de Mozart com os melhores solistas da história e, em segundo lugar, porque é um dos grandes músicos da música Toshio Hosokawa”, sublinha.

 

Os dois mantêm uma longa relação de amizade e colaboração artística, sendo Cambreling responsável pela estreia de algumas das obras mais importantes de Toshio Hosokawa. Para João Barradas, poder trabalhar com um maestro que conhece profundamente tanto Hosokawa como Mozart representou “um privilégio absoluto”: “Não poderia ter tido melhor ajuda e colaboração. Estou muito agradecido!”.

 

Destaca ainda a facilidade de comunicação entre solista, maestro e orquestra ao longo de todo o processo. “Acho que isso é bastante notório no álbum que gravámos e até mesmo nos vídeos que acompanham a gravação integral”, afirma. Os registos em vídeo do projeto encontram-se disponíveis gratuitamente no YouTube.

 

 

“A orquestra e o solista são uma figura una”

 

Na música de Toshio Hosokawa, aquilo que mais o fascina é a qualidade da orquestração e a forma profundamente orgânica como o compositor escreve para acordeão. Em Voyage IV, a orquestra não surge como simples acompanhamento: “A qualidade do material presente no instrumento solista e que se traduz numa orquestração que é praticamente um amplificador daquilo que o instrumentista interpreta é-me muito querido”.

 

Reconhece nessa abordagem uma ideia que lhe é particularmente próxima e que já tinha explorado em Unfolding, disco dedicado à música de Luís Tinoco, gravado com a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música e a maestrina Joana Carneiro: “A orquestra e o solista são uma figura una”.

 

 

“dois pontos bastante distintos que se tocam num espaço idêntico”

 

Apesar do título sugerir abertura ou descoberta, João Barradas vê este disco sobretudo como um ponto de chegada, “porque qualquer projeto orquestral, principalmente com gravação discográfica integrada, demora imensos anos até ver a luz do dia”.  Lembra “os inúmeros concertos. ensaios e conversações” até chegar ao produto final. “The Space Within encerra uma mão cheia de encontros felizes entre todas as pessoas presentes neste discos”, destaca.

 

Se tivesse de resumir o álbum numa única imagem, escolheria a ideia de “dois pontos bastante distintos que se tocam num espaço idêntico”. Neste caso, Mozart e Hosokawa coexistem aqui “na mesma acústica reverberante”, numa gravação feita com a maior atenção ao detalhe.

 

 

“um disco de música clássica, sem qualquer tipo de cedências”

 

Conhecido por manter uma carreira dividida entre a música clássica, o jazz e a improvisação, o acordeonista não hesita em definir The Space Within como “um disco de música clássica, sem qualquer tipo de cedências”, sem qualquer tipo de improvisação”.

 

Considera que continua a fazer sentido falar em fronteiras entre géneros e assume que ser um privilegiado por poder fazer duas músicas distintas em paralelo: “Um trajeto na música clássica e outro no jazz”.

 

 

The Space Within fecha um ciclo artístico

 

Sente também que The Space Within fecha um ciclo artístico. O disco reúne vários anos de trabalho em torno da música de W. A. Mozart e Toshio Hosokawa, ao lado de uma orquestra e de um maestro com quem criou uma relação particularmente próxima.

 

Ainda assim, o trabalho em torno desta estética está longe de terminar. Entre os próximos projetos encontra-se a preparação e gravação de uma peça de grande duração de Sylvain Cambreling para acordeão solo, um trabalho que continua a desenvolver diariamente.

 

 

Novo disco com a Orquestra Metropolitana de Lisboa

 

Depois deste álbum, segue-se uma nova gravação, um projeto desenvolvido ao longo dos últimos dois anos. O disco será inteiramente dedicado a transcrições para acordeão de obras originalmente escritas para piano e contará com a participação de alguns dos mais destacados solistas portugueses.

 

A gravação deverá ficar concluída em junho, com o registo do Concerto n.º 3 em ré menor, de Sergei Rachmaninoff, ao lado da Orquestra Metropolitana de Lisboa e do maestro Pedro Neves.

 

Nos concertos ao vivo, o próximo compromisso leva-o até Bruxelas para um recital no Bozar, onde se apresentará ao lado da violoncelista francesa Adèle Viret.

 

 

 

Artigos sugeridos