Susana Bray

"Ter talento não é nem nunca será suficiente. O talento só se complementa com dedicação, persistência e trabalho árduo"

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Sandra Bastos

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A carreira de Susana Bray tem-se construído entre países, culturas e projetos de natureza muito diversa. Da participação em orquestras e produções internacionais ao ensino e ao trabalho comunitário, a música tornou-se o eixo de um percurso marcado pela curiosidade, pela capacidade de adaptação e pela procura constante de novos desafios.

 

Atualmente a viver nos Emirados Árabes Unidos, a violinista portuguesa partilha com a Da Capo os desafios da profissão, a importância da educação artística, o diálogo entre culturas e os valores que têm orientado o seu caminho. Uma conversa sobre identidade, perseverança e a convicção de que a música pode ser simultaneamente arte, serviço e transformação.

 

 

A carreira internacional de Susana Bray, que a levou para projetos na Europa, África e Médio Oriente, contribuiu para uma visão da música construída a partir do diálogo entre culturas. “Em cada país onde trabalhei, obtive conhecimento ao interpretar e tentar compreender cada cultura. Com sabedoria, criei um puzzle juntando esses elementos às nossas tradições”, sublinha.

 

O contacto com diferentes culturas reforçou a convicção de que o crescimento artístico depende da abertura ao outro, da humildade para aprender e do respeito pelas diferenças: “só crescemos quando temos abertura para aceitar o próximo, quando somos humildes no querer aprender e respeitamos todas as diferenças que existam”.

 

A experiência internacional permitiu-lhe constatar que a profissão de músico enfrenta desafios semelhantes em qualquer parte do mundo: “precisamos de ser consistentes, disciplinados e estar preparados para qualquer tipo de situação”.

 

 

"Ter talento não é nem nunca será suficiente. O talento só se complementa com dedicação, persistência e trabalho árduo"

 

A versatilidade que caracteriza o percurso de Susana Bray resulta de uma opção consciente por alargar os horizontes da profissão. Orquestras, gravações em estúdio, programas de televisão, cinema, ensino e colaborações com artistas de diferentes universos contribuíram para uma visão mais abrangente da carreira musical: “Não basta sermos os melhores tecnicamente; é preciso ter a noção de criar, por exemplo, um business plan. Aprendi a olhar para a minha profissão não só como intérprete ou executante, mas como Music Business”.

 

Na sua perspetiva, o músico clássico contemporâneo tem de assumir um papel mais ativo na construção da própria carreira, aliando a excelência artística a competências de gestão, comunicação e empreendedorismo: "Ter talento não é nem nunca será suficiente. O talento só se complementa com dedicação, persistência e trabalho árduo".

 

Sem desvalorizar as oportunidades oferecidas pelo mundo digital, defende uma utilização equilibrada das novas ferramentas, colocando a criatividade ao serviço de uma estratégia artística consistente. Para Susana Bray, o relacionamento humano é fundamental: “Respeitar, fazer uma análise de nós próprios, saber quem somos, quais as nossas capacidades e onde queremos ir abre-nos portas que o talento sozinho não abre”.

 

 

“Procuro sempre crescimento e autenticidade em cada colaboração”

 

Ao longo da carreira, trabalhou em contextos muito distintos, colaborando com artistas da música popular, produções internacionais, projetos audiovisuais e eventos ligados a marcas de luxo. “Trabalhar em contextos tão diferentes exige flexibilidade, escuta ativa e capacidade de adaptação, mas também reforça algo essencial: dedicação, persistência e esforço”, sublinha.

 

Cada colaboração representa uma possibilidade de sair da zona de conforto, explorar novas linguagens musicais e descobrir diferentes formas de interpretar e comunicar através da música. “O mais importante para mim é encontrar-me, ser original, coerente e ter uma experiência real. Procuro sempre crescimento e autenticidade em cada colaboração”, confessa.

 

Independentemente da dimensão dos projetos ou da notoriedade dos seus protagonistas, considera que o elemento decisivo está na qualidade das relações humanas e na autenticidade do trabalho desenvolvido em conjunto: "O que realmente marca a diferença não é o glamour, mas a forma como as pessoas trabalham em conjunto, o respeito mútuo e a intenção genuína com que se faz a música”.

 

 

“Por trás de cada concerto existe muito mais esforço do que aquilo que o público vê”

 

Atualmente, Susana Bray vive e trabalha nos Emirados Árabes Unidos, onde “existe uma grande abertura cultural e uma valorização clara da diversidade artística”. Considera que “o público é internacional, curioso e recetivo a diferentes linguagens musicais”, criando condições “tanto para a tradição como para abordagens mais contemporâneas e híbridas”.

 

Ao mesmo tempo, a experiência nos Emirados reforçou algumas das convicções que têm acompanhado o seu percurso: “Nada acontece sem trabalho, consistência e disciplina. Por trás de cada concerto existe muito mais esforço do que aquilo que o público vê”.

 

 

“A música não é apenas uma arte para ser apresentada: ela serve, inspira e transforma”

 

A dimensão social da música tem ocupado também um lugar central no seu percurso. A experiência como membro fundador da Orquestra Nacional de Cabo Verde e a participação em diversos projetos de impacto comunitário reforçaram a convicção de que a música continua a ser um poderoso instrumento de transformação social.

 

Assim, a música cria espaços de encontro, diálogo e esperança, capazes de aproximar pessoas de diferentes culturas, origens e realidades. "Estamos inteiramente ligados a ela porque vivemos de emoções — ela toca diretamente o que sentimos, mesmo quando as palavras não chegam”, afirma.

 

Foi precisamente essa capacidade de unir comunidades através da expressão artística que encontrou em Cabo Verde e noutras iniciativas em que participou. Para a violinista, a música ultrapassa largamente a dimensão performativa: "A música não é apenas uma arte para ser apresentada: ela serve, inspira e transforma."

 

 

“a música ajuda cada pessoa a descobrir e expressar a sua própria voz, a construir carácter, responsabilidade e consciência emocional”

 

Igualmente importante, tem sido a sua atividade pedagógica, que encara como uma extensão natural da sua relação com a música: “Mais do que a técnica, considero que a música ajuda-nos a crescer — não só uma criança, mas também a transformar um adulto em algo que desconhecíamos em nós”. Acredita que “as crianças podem crescer com bases mais sólidas para saber lidar com frustrações, críticas, rejeições, elogios e para encontrar as soluções que tanto buscamos na vida”.

 

Enquanto professora, procura compreender a realidade individual de cada aluno, recusando modelos uniformes de aprendizagem. O foco está na descoberta do potencial próprio de cada pessoa, tendo em conta que “a música ajuda cada pessoa a descobrir e expressar a sua própria voz, a construir carácter, responsabilidade e consciência emocional”.

 

“O meu objetivo não é formar cópias de mim ou de qualquer modelo ideal, mas sim acompanhar cada um no seu caminho, respeitando a sua individualidade e ajudando-o a tornar-se a melhor versão de si próprio através da música”, acrescenta.

 

 

“Em cada povo ou em cada país há tradições e culturas que fazem parte da nossa história”

 

Depois de anos de trabalho em diferentes países e contextos culturais, Susana Bray vê a identidade portuguesa não como uma fronteira, mas como um ponto de partida para o diálogo. “Em cada povo ou em cada país há tradições e culturas que fazem parte da nossa história. Uns com uma sensibilidade diferente, outras culturas com menos profundidade emocional, mas, no final, sabendo entender e ouvir, podemos colaborar, mostrar, criar curiosidade para que conheçam as nossas tradições portuguesas, a nossa cultura, como eu também sinto vontade de aprender e conhecer as deles”, sublinha.

 

A violinista defende que o verdadeiro intercâmbio cultural só é possível quando existe respeito mútuo pelas diferentes tradições. E só assim a música “se torna mais rica e universal”.

 

 

“aprender com os erros e transformá-los em soluções”

 

Ao olhar para o caminho que percorreu, Susana Bray reconhece a importância que a aprendizagem teve na definição da sua identidade artística e profissional. Admite que um contacto mais precoce com determinadas ferramentas e formas de pensar a música lhe teria permitido compreender mais cedo o seu potencial e as múltiplas possibilidades de desenvolvimento que a carreira poderia oferecer.

 

Hoje divide a sua atividade entre a interpretação, a pedagogia e o empreendedorismo. A par do seu trabalho como violinista e professora, desenvolve projetos próprios através da sua empresa, onde cria métodos de ensino, publica conteúdos em formato digital e explora novas vertentes criativas, incluindo a composição.

 

“Acredito que ter princípios e valores torna as nossas vidas mais fáceis: aprender com os erros e transformá-los em soluções, humildade, respeito, responsabilidade, persistência, acreditar em mim, consistência e dedicação. Coloco-os em prática todos os dias e eles dão sentido não só à música, mas à vida em geral”, afirma.

 

 

https://www.instagram.com/susanabrayofficial/

 

 

 

 

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