Vasco Mendonça apresenta "Third Places"

“interessa-me sobretudo explorar os diferentes focos de interesse, perplexidade ou inquietação que vão surgindo”

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Sandra Bastos

  • Vasco Mendonça
  • Vasco Mendonça 📷 Alípio Padilha

Em Third Places, o seu terceiro álbum, Vasco Mendonça coloca a voz no centro de uma reflexão musical sobre o presente. Editado a 12 de junho, o disco reúne peças estreadas na Casa da Música em 2024, ano em que foi Compositor em Residência da instituição, com gravações realizadas no Porto e em Amesterdão. Conta com a participação do contratenor Iestyn Davies, da mezzo-soprano Barbara Kozelj, da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música e do ensemble Het Muziek, sob a direção dos maestros Brad Lubman e Ernest Martínez Izquierdo.

 

 

“a importância dos ‘terceiros espaços’ da vida comunitária”

 

A ideia do título do álbum - Third Places surgiu quando Vasco Mendonça lia, no Guardian, uma reportagem sobre “a importância dos ‘terceiros espaços’ da vida comunitária, e a forma como estão a ser ameaçados pelo capital privado, com a cumplicidade das autoridades locais e nacionais”.

 

Assim, inspirado no conceito de “terceiro espaço” de Ray Oldenburg, o compositor leva-nos para os lugares onde estas obras ganharam vida, como a Casa da Música, no Porto, e o Muziekgebouw aan ’t IJ, em Amesterdão. “Achei que esta ideia da importância do espaço comunitário - real e simbólico - como elemento estruturante da nossa vida em conjunto tinha uma ligação muito forte com a música incluída no álbum, e com a minha própria visão da sociedade”, explica.

 

 

“interessa-me sobretudo explorar os diferentes focos de interesse, perplexidade ou inquietação que vão surgindo”

 

As obras que integram Third Places refletem os interesses e as inquietações que atravessam a vida de Vasco Mendonça: “No meu trabalho, interessa-me sobretudo explorar os diferentes focos de interesse, perplexidade ou inquietação que vão surgindo, resultado do tempo e espaço concretos em que me movimento, do que vejo e faço – por outras palavras, da minha vida”.  

 

A residência na Casa da Música, em 2024, correspondeu, com efeito, a um período marcado pela “enorme angústia em relação ao radicalismo antidemocrático da política contemporânea”, pela “perplexidade em relação aos Estados Unidos” e pela forma de sublimar esses sentimentos no seu quotidiano. “Creio que esses elementos são perceptíveis na música, e funcionam como ideias transversais ao álbum”, sublinha.

 

 

Da inquietação política à criação musical

 

É nesse contexto que surge American Settings, a primeira obra do disco, numa versão orquestral da peça escrita para os Drumming em 2020 e incluída no álbum anterior, Play Off. Concebida originalmente para quarteto de percussão e voz, a composição já lhe sugeria outras possibilidades: “Durante a composição da versão original, senti que existia uma versão orquestral encarcerada. Tentei libertá-la para este disco”.

 

A obra nasceu do clima político norte-americano após as eleições de 2016 e do encontro com a poesia de Terrance Hayes e Tracy K. Smith. O compositor descreve o resultado como “uma espécie de folclore imaginário da América”, onde coexistem excesso, transcendência, fascínio e medo. A voz assume aqui, como ao longo do disco, uma dimensão simultaneamente íntima, teatral e política, dando expressão a textos que interrogam o presente.

 

O álbum revisita também materiais de Bosch Beach, ópera criada em 2016 por encomenda da fundação holandesa Stichting Bosch 500, no âmbito das celebrações dos 500 anos da morte de Jheronimus Bosch. Com libreto de Dimitri Verhulst, a obra abordava a crise migratória europeia e a indiferença humana. Em Third Places, parte desse material ganha uma nova leitura, centrada no discurso político contemporâneo, nas campanhas eleitorais, no populismo e na comunicação enquanto performance.

 

 

“creio que o otimismo é a forma mais eficaz de resistência”

 

A música como lugar de encontro, diálogo e resistência cultural depende, para o compositor, da abertura de quem a ouve. Sendo uma arte “iminentemente abstrata”, considera que o seu impacto aumenta quando se lhe juntam texto e voz.

 

“Mas esse impacto está sempre dependente do contexto sociopolítico em que as comunidades se encontram: se a prática for o consumo de fragmentos curtos de máximo impacto, a disponibilidade para um discurso menos paroxístico e mais demorado é necessariamente menor”, defende.

 

Ainda assim, insiste na necessidade de persistir: “é importante não desistir - creio que o otimismo é a forma mais eficaz de resistência”.

 

 

“Dizer que a música contemporânea é difícil é um equívoco que não corresponde à realidade”

 

No espaço de experimentação da música contemporânea, quer continuar a desafiar o público e, simultaneamente, criar novas formas de comunicação: “Acho que é possível estabelecer novas formas de comunicação entre as obras o público (que no caso da música contemporânea podem e devem incluir o contacto com os autores, desde que não caiamos na armadilha da autobiografia) que permitam a quem ouve aumentar a disponibilidade para formas diferentes de expressão”.

 

Recusa a ideia de que a música contemporânea seja necessariamente difícil ou distante do público: “A ‘música contemporânea’ não é um bloco uniforme, é um campo rico e variado de diferentes formas de expressão. Dizer que a música contemporânea é difícil é semelhante a dizer que o teatro é difícil: é um equívoco que não corresponde à realidade”.

 

Contrariar essa perceção faz parte da sua responsabilidade: “Como compositor, sinto que tenho o dever de esclarecer esse mal-entendido, sobretudo com o meu trabalho, mas também com as minhas palavras”.

 

 

“apreensão em relação ao evidente desinteresse do poder político e institucional pela criação musical erudita”

 

Sobre a criação musical portuguesa, Vasco Mendonça olha com otimismo para a nova geração, mas com “apreensão em relação ao evidente desinteresse do poder político e institucional pela criação musical erudita”, e “receio em relação aos sinais crescentes de interferência ideológica nas manifestações artísticas”.

 

A um jovem que queira dedicar a vida à composição, aconselharia persistência: “Dir-lhe-ia que, se o talento e a capacidade de trabalho são condições básicas para construir uma carreira, talvez o fator mais subvalorizado seja a capacidade de resistir à frustração e adversidade”.

 

Essa resistência implica também saber esperar: “As boas ideias normalmente encontram uma forma de se manifestarem – mas, na maior parte das vezes, essa forma surge mais tarde do que seria desejável”.

 

 

Próximos projetos

 

A edição de Third Places inclui vinil e formato digital. A versão digital contempla ainda Marathon, peça que explora a relação entre música e corrida de longa distância.

 

O trabalho de criação de Vasco Mendonça prossegue com uma ópera para a Dutch National Opera, que estreia nesta temporada. Em Portugal, está a desenvolver um projeto com João Barradas, Filipe Quaresma e o Beyra Ensemble. O ano termina com uma colaboração com a National Symphony Orchestra dos Estados Unidos.

 

 

https://www.vascomendonca.com/

 

📷 Alípio Padilha

 

 

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